quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Provérbios do mundo (14)

Duas coisas indicam fraqueza:
calar-se quando é preciso falar
e falar quando é preciso calar-se

Provérbio persa

quarta-feira, 23 de Abril de 2014

Aventura na biblioteca




No Verão passado, em viagem pelo Norte, fui surpreendido por  uma velha  cabine telefónica  plantada junto ao rio Cávado.  Mais me surpreendeu,  ainda,  que aquela  cabine pintada de branco  estivesse a escassos metros  de uma daquelas modernaças, sem portas, avessas à privacidade das conversas.
Por momentos, pensei que a Junta de Freguesia de Barcelinhos tivesse inaugurado um espaço museológico  naquele parque à beira rio, com vista para a ponte romana e o castelo medieval. Movido pela curiosidade do turista aproximei-me. Lá dentro não havia um telefone! Só livros, revistas e jornais. Um quiosque de venda de publicações?-pensei
Percebendo a minha curiosidade, uma jovem que  estava a ler sentada num banco do jardim  dirigiu-se-me e apresentou-se.  Funcionária da biblioteca da junta, ali estava para atender os pedidos de quem queira ler algum dos livros ali expostos, ou outros  que façam parte do catálogo da biblioteca local.
 A cabine telefónica- explicou-me- tem uma dupla função: convidar os passantes à leitura e promover a biblioteca da junta, funcionando como uma montra “front desk” .
 A ideia, interessante, espicaçou-me a curiosidade jornalística. Fiquei a saber que a iniciativa de criar  este espaço  foi do presidente da junta, mas materializada com o apoio da Fundação PT que  recuperou uma velha cabine telefónica lisboeta e a transportou para Barcelinhos. Parte dos livros foi adquirida com apoio da Fundação Gulbenkian, mas também  os cidadãos locais e passantes oferecem livros, enriquecendo assim o catálogo da biblioteca local. 
Entre os passantes que recorrem aos serviços desta mini biblioteca, destacam-se os caminheiros que rumam a Santiago de Compostela. 
Portanto, caro leitor, já sabe. Se um dia destes estiver a passear por Barcelinhos e lhe apetecer  ficar uns momentos a desfrutar da paisagem, na companhia de um livro, ou ler as notícias do dia, dirija-se à cabine telefónica.  Se lá dentro não estiver ninguém, não desista.  Toque à campainha e, momentos depois, uma funcionária virá ao seu encontro. Já agora, leve  um livro consigo e ofereça-o à junta. Utentes e prestador do serviço agradecem.


terça-feira, 22 de Abril de 2014

A menina das soquetes

Há dias encontrei-te de novo na Versailles. Como habitualmente, trazias a tua namorada que fica a ver-te comer enquanto tu tomas o pequeno almoço tardio. 
Ao contrário do que é habitual, foste tu a chegar primeiro. Poderias ter escolhido um lugar ao balcão, longe de mim, mas preferiste ficar mesmo a meu lado, oferecendo-me as costas e deixando a tua namorada de frente para mim. Provocação? Talvez…
Aceitei o repto. Enquanto comia a torrada, lentamente, comecei a fazer olhinhos à tua  namorada que ora me fixava, ora desviava o olhar, comprometida.  A determinada altura ela deve ter pensado “basta” e cochichou-te qualquer coisa ao ouvido.
Voltaste-te num repente e vi, por baixo do teu costumeiro tailleur preto, os teus seios moverem-se ao ritmo da tua respiração alterada. Estavas pronta para o ataque mas… hélas... não é possível! Deverei acreditar que não me tinhas mesmo visto? Que  nunca me viste, ou reconheceste, nos dias anteriores quando tomávamos café ao mesmo balcão, por vezes quase lado a lado, como hoje?
Ou encenaste uma bela cena quando me fizeste uma enorme festa e me pregaste dois beijinhos, ou então estás pior do que eu pensava. Ou será que a paixão  te cegou e só tens olhos para ela? 
Refeita a surpresa (?) apresentaste-me a tua amiga. Num tom de voz que te é tão peculiar e sempre soa a reprimenda, advertiste-me:
- Tu nunca vais deixar de fazer olhinhos às mulheres, pois não? Olha que já tens idade para ter juízo e deixares de fazer essas cenas.  Acaso não saibas, a B. é minha  namorada…
Ia ensaiar um ar surpreendido, mas tu atalhaste logo, à tua maneira.
 Não te faças de parvo. Estás farto de saber  que eu deixei o Zé e as razões porque o fiz. Tenho quase a certeza que sabes desde aquela cena em Goa, mas  devo admitir que  sempre foste muito discreto. 
Nunca mais estive com o Zé- respondi de forma evasiva
Coitado… ele nunca encaixou que eu lhe tivesse posto os palitos com uma mulher.  
Eu também pensei que aquilo em Goa tivesse sido apenas uma aventura ocasional. Logo com uma aluna tua?  Só podia ser um bocado de álcool a mais, a droga boa - como em parte nenhuma… Foi o que pensei. E como deixei de te ver, também não liguei mais ao assunto.
 Menti.
Tu fingiste ter acreditado.
Os minutos de conversa que se seguiram foram trocas mútuas de meias verdades, entre duas pessoas que não se viam  falavam há quase duas décadas e esperavam não voltar a encontrar-se tão cedo. Ambos o sabíamos, mas nenhum de nós abandonava o jogo, para não dar parte de fraco.
Olhei para o relógio, afivelei aquele ar mesclado de surpresa ( com as horas) e lamento ( por ter de partir) e desculpei-me com um compromisso para que já estava atrasado.
É uma jovem ainda, mas creio que vai ser escritora de sucesso. Fixa este nome ( pronunciei-o num sussurro junto ao teu ouvido). Repetiste-o também num sussurro.
Vou fixar, podes crer!
Mas não digas nada a ninguém, por favor!
Já sabes que a minha boca é um túmulo
Ok. Adeus. A gente vê-se. Venho cá muitas vezes
Também eu. Quase todos os dias.
Saí reprimindo um sorriso de gozo. Acreditaste em mim e no nome da escritora  inventada no momento, com o único intuito de me ver livre de ti. Estávamos pagos. Tu andaste a fingir durante semanas que não me vias. Ou não me reconhecias.  Empate. Pelo menos até que a tua língua de trapos comece a pronunciar o nome repetidamente em “off”e  acabes por descobrir que a mulher de que te falei não existe. Mas tu não darás nunca parte de fraca. Insistirás junto do teu círculo de amigos/conhecidos que é um segredo muito bem guardado e foi um teu amigo de infância- "ghost writer" responsável por alguns  sucessos editoriais em Portugal-  quem te falou dela.

Cá fora o ar estava quente, mas o  céu toldara-se, escondendo o sol que  iluminara as primeiras horas da manhã. Estuguei o passo. Quando entrei no meu gabinete, fiz rewind. Vi-te  menina de 15, 16, 17  anos, longa cabeleira loira e soquetes, única no grupo a participar com os rapazes nas corridas de carros de sabão e outras brincadeiras onde menina não entrava. Tu eras a excepção. Não só pela coragem que revelavas. Era também uma forma de compensarmos  a tua disponibilidade para nos apagar os ardores juvenis. Enquanto todas as outras se diziam meninas de um homem só, sonhavam com o casamento de véu, grinalda e flor de laranjeira, um marido para toda a vida, resistiam semanas a um beijo e meses a uma mão atrevidota subindo-lhe pelas pernas, tu eras mais aberta. Não só permitias rapidamente generosos momentos de àvontade, como gostavas de ser tocada pelos rapazes que te procuravam, com quem simpatizavas.  Na aldeia onde passávamos alguns dias de férias eras conhecida por menina das soquetes, por seres a única que ainda as usavas naquela idade. Entre os rapazes, por menina das baldas. Mas só aqueles que nunca te tocaram com um dedo e sempre rejeitaste usavam a expressão, como forma de se vangloriarem de feitos nunca conseguidos. Os que sentiram bem de perto o cheiro dos teus cabelos loiros, tocaram os teus mamilos enrijecidos, sentiram o calor dos teus beijos e entrelaçaram a sua língua na tua, em viagem exploratória do amor, nunca ousaram pronunciar tal frase.
Quase meio século depois, tu és uma pessoa de sucesso. Nenhum dos que naquele tempo encontraram no calor do teu corpo forma de aliviar as pulsões juvenis, atingiu qualquer notoriedade. Tudo gente mediana. Talvez a sede de sucesso e a necessidade de protagonismo, tenha sido apenas mais uma forma de te vingares de nós…


segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Está nos livros (2)

" É um romance autobiográfico sobre uma jovem revolucionária, ingénua mas bem intencionada, que se apaixona loucamente por um jovem estudante de Genética( depois de acabar com um estudante de História fisicamente atraente mas tacanho!). Para sua grande surpresa e repugnância, descobre que o novo namorado anda a enganá-la com um homem. Denuncia-o imediatamente à polícia como homossexual e simpatizante comunista. O rapaz é preso, pendurado pelos pés numa velha refinaria de açúcar em Santos e assassinado"

Richard Zimmler in  " Confundir a cidade com o mar" pg 154

Coisas que me irritam

Pessoas a falarem ao telemóvel em altos berros. Seja na rua, nos transportes ou nos restaurantes, são gente indesejável, cujo comportamento me irrita. 

sábado, 19 de Abril de 2014

Páscoa Feliz

Na impossibilidade de fazer a habitual visita pascal pelos vossos blogs, deixo-vos aqui os votos de
PASCOA FELIZ

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Os Memoráveis



No último mês li quatro livros sobre o 25 de Abril e espero ler mais um até  domingo de Páscoa. A profusão de títulos sobre a data aconselha uma certa selectividade nas escolhas, mas não sei se terei conseguido fazer as melhores.
O livro de que hoje vos falo enquadra-se dentro dos critérios que à partida determinei. Gosto da autora ( Lídia Jorge) e a abordagem pareceu-me, desde logo, bastante original.
Em 2003, poucos meses antes do 30º aniversário do 25 de Abril, um ex-embaixador americano em Lisboa convence uma jornalista  portuguesa, a viver em Washington, a passar uns tempos em Portugal, para fazer um documentário sobre a Revolução dos Cravos.
A princípio renitente,  a jovem jornalista ( Ana Machado) acaba por se deixar convencer, depois de ter lido uma série de cartas do espólio do embaixador, que este colocou à sua disposição.
Ana desembarca em Lisboa com uma conversa que tivera com o embaixador, antes da partida, a bailar-lhe na cabeça:

“Pode crer, miss Machado, que nunca encontrei ao longo do meu percurso um povo tão sensato como aquele a que pertence. Um povo pobre, sem álgebra, sem letras, cinquenta anos de ditadura sobre as costas, o pé amarrado à terra, e de repente acontece um golpe de Estado, todos vêm para a rua gritar, cada um com sua alucinação, seu projeto e seu interesse, uns ameaçando os outros, corpo a corpo, cara a cara, muitos têm armas na mão, e ao fim ao cabo insultam-se, batem-se, prendem-se, e não se matam. Eu vi, eu assisti. É esta realidade que é preciso contar antes que seja tarde”.

Quando chega a casa do pai, jornalista  reconhecido entre os seus pares, pela perspicácia  e capacidade para antever o futuro da Revolução dos Cravos, com décadas de antecedência, descobre uma fotografia que vai servir de mote para a sua reportagem. Tirada num restaurante muito badalado em Lisboa durante o Estado Novo e pós Abril  frequentado por grandes figuras da Revolução, nela figuram as pessoas que considera poderem prestar os depoimentos mais importantes sobre o 25 de Abril e os meses que se lhe seguiram.
Tião Dolores, um fotógrafo que deambulou  várias horas entre as chaimites, sem conseguir tirar uma única foto, mas acabou por tirar algumas das fotografias mais emblemáticas  lendárias que percorreram mundo.  O oficial de Bronze, Charlie 8, El Campeador - figuras que facilmente ligamos  a militares de Abril-  Nunes, o proprietário e chef do restaurante, mas também os pais de Ana, António Machado e Rosie- uma belga que veio a Portugal ver a Revolução e tão empolgada  ficou  que se deixou por cá ficar. Até que o frémito  revolucionário foi esmaecendo e outros empolgamentos a levaram de regresso “à Europa”.
Este pormenor das relações familiares  entre os Machados é importante para se perceber a razão de Ana, apesar de ter em casa um manancial de  informação “viva” que lhe permitiria reconstruir a História e fazer o guião para o seu documentário, opta por pedir a colaboração de dois colegas de curso, sem uma única vez ter pedido a opinião do pai- de quem aliás, esconde o trabalho que anda a fazer.
O trio parte então ao encontro das personagens da foto e, em cada conversa com os entrevistados, vai descobrindo pedaços de uma revolução, esqueletos de protagonistas, memórias “Do dia mais feliz das vidas dos personagens”.
Vagueando por um labirinto de emoções, entre a verdade e o mito, a realidade e a ficção, os três jovens –  ainda por  nascer no 25 de Abril de 74-  vão  “interpretar” a História , à medida que  fixam em imagens os testemunhos dos que viveram e protagonizaram aquele dia, que hoje mais lhes parecem “exilados da democracia”. Há momentos em que se surpreendem porque muito do que leram, ouviram falar, ou lhes foi ensinado na escola, não cola com alguns depoimentos. E põe-se a dúvida… afinal o que resta da História de Abril e dos seus protagonistas será realidade, mito, ficção, ou reconstituição da verdade?
 Será um  pouco de tudo isso, mas  a dúvida que se coloca é:como preservar o que resta da “VERDADE” de Abril e dos tempos que se lhe seguiram, sem abalar alguns mitos criados em volta de alguns dos protagonistas de Abril?
O romance de Lídia Jorge é, em termos literários, irrepreensível. Em termos de narrativa  é absorvente, obriga o leitor  a reflexões constantes das quais a principal me parece ser esta: há muitas interpretações sobre o 25 de Abril, mas muito do que se passou naquele dia e nos meses seguintes não se conhece. Ou, pior ainda, foi deliberadamente adulterado.
No fundo, todos nos comportamos um pouco como Ana Machado. Poderia, através da experiência vivida e dos relatos escritos pelo pai, prenunciando o futuro dos heróis de Abril, ter escrito um guião sem mácula. Ao optar por escrever ela o seu próprio guião, terá contribuído para fixar a História real, ou para a adulterar?  Creio ter encontrado a resposta nas páginas finais do livro- quando o leitor fica a conhecer o guião final do documentário- mas deixo essa tarefa aos leitores. 
Esta é a minha sugestão de leitura para esta Páscoa.