sábado, 19 de Abril de 2014

Páscoa Feliz

Na impossibilidade de fazer a habitual visita pascal pelos vossos blogs, deixo-vos aqui os votos de
PASCOA FELIZ

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Os Memoráveis



No último mês li quatro livros sobre o 25 de Abril e espero ler mais um até  domingo de Páscoa. A profusão de títulos sobre a data aconselha uma certa selectividade nas escolhas, mas não sei se terei conseguido fazer as melhores.
O livro de que hoje vos falo enquadra-se dentro dos critérios que à partida determinei. Gosto da autora ( Lídia Jorge) e a abordagem pareceu-me, desde logo, bastante original.
Em 2003, poucos meses antes do 30º aniversário do 25 de Abril, um ex-embaixador americano em Lisboa convence uma jornalista  portuguesa, a viver em Washington, a passar uns tempos em Portugal, para fazer um documentário sobre a Revolução dos Cravos.
A princípio renitente,  a jovem jornalista ( Ana Machado) acaba por se deixar convencer, depois de ter lido uma série de cartas do espólio do embaixador, que este colocou à sua disposição.
Ana desembarca em Lisboa com uma conversa que tivera com o embaixador, antes da partida, a bailar-lhe na cabeça:

“Pode crer, miss Machado, que nunca encontrei ao longo do meu percurso um povo tão sensato como aquele a que pertence. Um povo pobre, sem álgebra, sem letras, cinquenta anos de ditadura sobre as costas, o pé amarrado à terra, e de repente acontece um golpe de Estado, todos vêm para a rua gritar, cada um com sua alucinação, seu projeto e seu interesse, uns ameaçando os outros, corpo a corpo, cara a cara, muitos têm armas na mão, e ao fim ao cabo insultam-se, batem-se, prendem-se, e não se matam. Eu vi, eu assisti. É esta realidade que é preciso contar antes que seja tarde”.

Quando chega a casa do pai, jornalista  reconhecido entre os seus pares, pela perspicácia  e capacidade para antever o futuro da Revolução dos Cravos, com décadas de antecedência, descobre uma fotografia que vai servir de mote para a sua reportagem. Tirada num restaurante muito badalado em Lisboa durante o Estado Novo e pós Abril  frequentado por grandes figuras da Revolução, nela figuram as pessoas que considera poderem prestar os depoimentos mais importantes sobre o 25 de Abril e os meses que se lhe seguiram.
Tião Dolores, um fotógrafo que deambulou  várias horas entre as chaimites, sem conseguir tirar uma única foto, mas acabou por tirar algumas das fotografias mais emblemáticas  lendárias que percorreram mundo.  O oficial de Bronze, Charlie 8, El Campeador - figuras que facilmente ligamos  a militares de Abril-  Nunes, o proprietário e chef do restaurante, mas também os pais de Ana, António Machado e Rosie- uma belga que veio a Portugal ver a Revolução e tão empolgada  ficou  que se deixou por cá ficar. Até que o frémito  revolucionário foi esmaecendo e outros empolgamentos a levaram de regresso “à Europa”.
Este pormenor das relações familiares  entre os Machados é importante para se perceber a razão de Ana, apesar de ter em casa um manancial de  informação “viva” que lhe permitiria reconstruir a História e fazer o guião para o seu documentário, opta por pedir a colaboração de dois colegas de curso, sem uma única vez ter pedido a opinião do pai- de quem aliás, esconde o trabalho que anda a fazer.
O trio parte então ao encontro das personagens da foto e, em cada conversa com os entrevistados, vai descobrindo pedaços de uma revolução, esqueletos de protagonistas, memórias “Do dia mais feliz das vidas dos personagens”.
Vagueando por um labirinto de emoções, entre a verdade e o mito, a realidade e a ficção, os três jovens –  ainda por  nascer no 25 de Abril de 74-  vão  “interpretar” a História , à medida que  fixam em imagens os testemunhos dos que viveram e protagonizaram aquele dia, que hoje mais lhes parecem “exilados da democracia”. Há momentos em que se surpreendem porque muito do que leram, ouviram falar, ou lhes foi ensinado na escola, não cola com alguns depoimentos. E põe-se a dúvida… afinal o que resta da História de Abril e dos seus protagonistas será realidade, mito, ficção, ou reconstituição da verdade?
 Será um  pouco de tudo isso, mas  a dúvida que se coloca é:como preservar o que resta da “VERDADE” de Abril e dos tempos que se lhe seguiram, sem abalar alguns mitos criados em volta de alguns dos protagonistas de Abril?
O romance de Lídia Jorge é, em termos literários, irrepreensível. Em termos de narrativa  é absorvente, obriga o leitor  a reflexões constantes das quais a principal me parece ser esta: há muitas interpretações sobre o 25 de Abril, mas muito do que se passou naquele dia e nos meses seguintes não se conhece. Ou, pior ainda, foi deliberadamente adulterado.
No fundo, todos nos comportamos um pouco como Ana Machado. Poderia, através da experiência vivida e dos relatos escritos pelo pai, prenunciando o futuro dos heróis de Abril, ter escrito um guião sem mácula. Ao optar por escrever ela o seu próprio guião, terá contribuído para fixar a História real, ou para a adulterar?  Creio ter encontrado a resposta nas páginas finais do livro- quando o leitor fica a conhecer o guião final do documentário- mas deixo essa tarefa aos leitores. 
Esta é a minha sugestão de leitura para esta Páscoa. 


quarta-feira, 16 de Abril de 2014

O prometido é devido..

... por isso, aqui estou a tentar explicar o que é a tal folha de parra de que falava  no post de ontem. Se tivesse encontrado uma foto, era mais fácil, mas para a próxima faço uma "Selfie"...
Folha de parra é, essencialmente, um doce de chocolate com a forma que se vê na foto. Duas folhas de chocolate crocante, em forma de parra, recheadas com mousse de chocolate!
Quando era miúdo, comia uma e ficava a chorar por mais. Agora como metade e a outra metade partilho com quem estiver comigo, ou levo para casa para comer no dia seguinte. Resta dizer que é uma especialidade da confeitaria Ateneia, no Porto. Há uns meses apareceu uma imitação no Lima 5 ( também no Porto) mas não chega aos calcanhares da original.
Mistério esclarecido, amanhã haverá sugestão de leituras para a Páscoa.

terça-feira, 15 de Abril de 2014

Chá das cinco

Ritz Hotel (Londres) à hora do chá
Aguarela  John V.Healey


No sábado fui lanchar a uma conhecida pastelaria  do Porto. Estava a saborear uma folha de parra ( quem não souber o que é faça o favor de dizer que eu explico mais tarde...) quando entra um cliente apressado
Estou com pressa. Traga-me  um muskoglossavitzakafkaski com cogumelos, por favor.
Pergunta a empregada:
Um muskoglossavitzakafkaski com quê?

sábado, 12 de Abril de 2014

Porque hoje é sabado (2)

Como desenhar uma casa                              


Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

manuel antónio pina