O restaurante, habitualmente cheio, hoje estava quase vazio. Havia rostos amarrados. Os proprietários queixavam-se da crise, mas sublinhavam que hoje tinha batido mais forte e muita gente perdera o apetite. Um grunho declarava guerra aos magrebinos. Também perdi o apetite.
crónicas on the rocks
Entre a realidade e a fantasia as crónicas são a terceira via para as palavras
Segunda-feira, 20 de Maio de 2013
Domingo, 19 de Maio de 2013
Paixões de fim de semana
Quando estou a sair do avião, alguém à minha frente pergunta
ao comissário de bordo se sabe o resultado do Porto- Benfica.
“ Antes de aterrarmos estava 1-1...”
Olho para o relógio. Pelas minhas contas ainda falta cerca
de meia hora para o jogo terminar.
Começo a percorrer o longo caminho até à saída. Não tenho
bagagem de porão, por isso 15 minutos depois estou postado na fila dos
táxis. De quando em vez, a porta de um
táxi abre-se e deixa escapar por breves segundos sons do relato. A fila
move-se a bom ritmo e quando chega a minha vez reparo que o táxi que me há - de
conduzir ao Lumiar exibe um galhardete
do SL Benfica pendurado no espelho
retrovisor.
Acomodo-me, espero que o taxista arranque e pergunto o
resultado, fingindo indiferença. Estamos empatados mas já podíamos estar a
ganhar por três ou quatro . Os gajos têm uma vaca do caraças!
O táxi arranca e ouço o locutor anunciar:
- Pedro Proença dá mais quatro minutos de tempo extra. É o
tempo que falta para o Benfica carimbar o título de campeão.
- E na quarta-feira vamos à Holanda dar cabo dos ingleses.
Este ano não nos escapa nada. O Pinto da Costa agora bem pode oferecer fruta,
que os árbitros já…
Gooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooollooooooooooooooooooooooooo!
Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolloooooooooooooooooooooooo!
grita repetidas vezes o locutor, interrompendo o discurso de glória. O taxista olha-me pelo
retrovisor. Nem eu nem ele percebemos quem marcou, porque não estávamos a
prestar atenção ao relato. Parece-me
ouvir o nome de Kelvin mas, como não tenho a certeza, calo-me. Segundos depois (
que me pareceram uma eternidade) oiço finalmente o locutor:
-A dois minutos do fim do tempo de compensação o Porto marca
e é o delírio aqui no Dragão.
-Cabrões! Têm uma vaca do c#§%!- vocifera o taxista,
acompanhando o desespero com uma terceira tão puxada ,que faz o motor relinchar de dor. A gente já sabe como é… não foi por acaso que
nomearam o Pedro Proença! Está farto de roubar o Benfica, este cabrão. Já nos
roubou um pénalte e assinalou um fora de jogo
que não era.
A segunda circular parece-me não ter fim. O jogo também não.
-Mas não faz mal… porque se o Pinto da Costa num comprar os
gajos do Paços, o Porto não ganha lá! Nunca ninguém ganhou…
O Benfica ganhou lá- digo timidamente
Pois, mas este ano o Benfica ganha em toda a parte! Vai ver
na quarta –feira. Vamos dar dois ou três ao Chelci. E no domingo vamos
comemorar o campeonato e na outra semana podemos jogar com a equipa B e ganhamos a Taça
ao Guimarães. Ninguém para o Benfica. O senhor é do Sporting?
Contorno a pergunta com uma mentira.
Não ligo muito ao
futebol, mas nasci no Porto, ao pé do estádio das Antas.
Ah, já estou a ver, é deles. Faz muito bem em não ligar ao
futebol, aquilo lá em cima é uma podridão, são todos uns corruptos. E não é só
o Pinto da Costa! Ele é o maior, mas o Valentim Loureiro, o do Braga e o do Guimarães, aquilo
é só corruptos. Aqui não. A gente ganha tudo limpinho, limpinho!
Chegamos a casa. Pago , entro em casa e ligo logo o
televisor. Faço zapping por todos os canais, mas não há imagens. Constato que
todos os comentadores estão de acordo. Não houve casos e a arbitragem foi
impecável.
Finalmente as imagens. Limpinho, limpinho! Sorte em marcar
aos 92 minutos? Sem dúvida, mas a sorte faz parte do jogo e não há campeão que
não seja bafejado por ela.
Desfaço a mala, pego nas chaves do carro e meto-me a caminho
do Rochedo. Paro no Jackpot, no Estoril, para petiscar qualquer coisa. O
nervoso miudinho abriu-me o apetite. Dois portistas de cachecol celebram numa
mesa ao meu lado em convívio saudável com um grupo de benfiquistas. Ainda dou
dois dedos de conversa. Constato que a opinião é unânime. Jogo limpo, sem
casos, mas o campeão está longe de estar decidido. Desejo boa sorte aos benfiquistas
para o jogo de Amsterdam e sigo para o Rochedo.
Antes de ler as últimas páginas de “Debaixo de Algum Céu”- o livro de Nuno Carmaneiro vencedor do Prémio
Leya – penso com os meus botões:
- Daqui a uma semana ou eu ou o taxista, um de nós vai estar com uma cachola de todo o tamanho. Espero que seja ele....
Olho para o horizonte. Cai uma neblina sobre o Guincho, adensando as minhas dúvidas. Mau presságio? Daqui a umas horas terei a resposta.
Publicada por
Carlos Barbosa de Oliveira
à(s)
15:00
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Domingo à tarde
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Sexta-feira, 17 de Maio de 2013
RM-19: Nós por cá todos bem!
A manifestação organizada pela União Nacional no Terreiro do Paço ( Abril de 1940) para celebrar os 52 anos de Salazar, é elucidativa de que por cá tudo estava bem. A Legião Portuguesa era da mesma opinião, por isso faz uma outra manifestação, em Julho, para celebrar a invasão da URSS pela Alemanha. Para a encenação ficar completa e o Estado Novo sair reforçado, faltava que o coreógrafo António Ferro terminasse o seu trabalho: a Exposição do Mundo Português. Inaugurada com pompa e circunstância em 23 de Junho de 1940, a mostra era o retrato do misticismo com que o Estado Novo procurava reconstruir a nossa história. Prova disso, é que não existia qualquer referência ao período entre 1820 e 1926. Como se esse século liberal pura e simplesmente tivesse sido varrido da História, Ferro e Salazar depositaram-no no caixote do lixo da memória. Os portugueses, porém, estavam orgulhosos e acorreram em massa a Belém para assistir “in loco” a esta encenação "para exportação" do Estado Novo. Felizmente para Salazar, o analfabetismo dos portugueses aumentava e as vozes que se levantaram foram rapidamente silenciadas. A Bem da Nação!
Dois anos mais tarde ( 1942) enquanto Hitler e os seus acólitos se entretinham a lançar fogo de artifício sobre Inglaterra, testando as capacidades do V2, o conflito pegava fogo aos Estados Unidos, e em Portugal se começava a assistir a alguma agitação social devido à escassez de produtos essenciaias, Salazar assina com Franco o Pacto Ibérico. António Lopes Ribeiro assinala o momento com a estreia de O Pátio das Cantigas . O cinema português inicia nesse ano, aliás, um período de oiro. Pese embora muitos desses filmes ainda hoje nos fazerem salivar de saudade dos grandes humoristas como António Silva, Vasco Santana ou Ribeirinho, a verdade é que outros houve que mais não foram do que propaganda ao regime. Ferro foi acérrimo opositor da “comédia portuguesa” -chegou a chamar-lhe cancro nacional- e entusiasmado defensor dos filmes históricos que fizessem ecoar bem alto os nobres princípios do salazarismo. Não se deveria ter maçado tanto a zurzir na comédia porque, apesar de ser uma crítica de costumes, ela enaltecia a máxima Deus Pátria e Família, sustentáculo da ditadura.
Apesar daquele ar austero, a comédia também seria do agrado de Salazar, caso contrário, talvez não tivesse extinto o Serviço Nacional de Propaganda, para o substituir pelo SNI ( Serviço Nacional de Informação) . As funções eram idênticas, mas o nome tinha muito mais piada, porque falar em informação num Estado Novo que utilizava despudoradamente a Censura, só podia dar vontade de rir. Maior gargalhada estava porém reservada para 1945. Terminada a guerra, assinada a carta de fundação da ONU, Salazar anuncia ao país e ao mundo, com grande espavento, que realizará eleições “ tão livres como as da livre Inglaterra”. Esqueceu-se, porém, de dizer que a sua promessa só seria concretizada ( e contra a sua vontade expressa) 30 anos depois, em 25 de Abril de 1975.
Todos sabemos que os portugueses não primam pela pontualidade, mas 30 anos (e ainda por cima só porque uma cadeira resolveu acelerar o processo) convenhamos que é atraso demasiado. Com esta falta de pontualidade no cumprimento de promessas- que haverá de fazer escola na classe política portuguesa, até aos dias de hoje- , como é que não haveríamos de estar tão atrasados em relação à Europa?
Quinta-feira, 16 de Maio de 2013
Era uma vez no All... garve!
Pergunta o miúde à mãe:
- Ó mãe, o qué um insete ?
- Ê cá nã sê, preguntá mana ...!
- Ó mana, o qué um insete ?
- Pôs nã sê... preguntó pai ...!
-Ó pai, o qué um insete ?
-Ó mê ganda burre... um insete sã ... Oite !!!..
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Da Mente Curta
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RM (18). Do microscópio à libertação de Paris, com muitas "fitas" pelo meio
A invenção do microscópio ( 1940) com capacidade de ampliação de 500 000 vezes, poderia ter ajudado Hitler a ver que a guerra era uma loucura e um erro monstruoso que estava a cometer, mas apenas serviu para reforçar a perseguição aos judeus e ampliar o número de vítimas nos tenebrosos campos de concentração.
A corrida à bomba atómica intensifica-se e em 1942 é construído o primeiro reactor atómico.
Na vida doméstica, aparece o rolo para pintura (1940), o pulverizador aerossol (1941) e o atendedor de chamadas (1943), enquanto o terylene se torna na fibra da moda. O primeiro anúncio publicitário feito em televisão surge em 1941. Anuciante: o relógio Bulova. Em 1942 é apresentado o primeiro computador electrónico e no ano seguinte, na Holanda, o rim artificial.
Os primeiros discos de alta fidelidade são lançados em Inglaterra (1944), permitindo aos melómanos uma audição mais pura dos artistas da década (Glenn MIller e Frank Sinatra são os nomes mais sonantes, vindos do outro lado do Atlântico, mas o jazz com nomes como Count Basie, Benny Goodman ou Duke Ellington, irá impôr-se ao gosto europeu, mais para o final da década).
Em 1940, Charles Chaplin ironizava com a figura de Hitler no filme O Grande Ditador e John Ford recorre um livro de John Steinbeck ( As Vinhas da Ira) para expôr, através do cinema , as misérias da guerra. Mas é mais tarde que o cinema apresenta dois êxitos retumbantes que marcam este período, mas só mais tarde viriam a tornar-se quase lendários: Citizen Kane (1941) e Casablanca (1942).
Enquanto em Itália Mussolini proíbe a exibição de Obsessão de Visconti, Saint Exupéry viaja para o espaço com “O Principezinho” e nos Estados Unidos estreia-se Por quem os Sinos Dobram, baseado no romance homónimo de Hemingway.
Em Setembro de 1944, já depois do desembarque das tropas aliadas na Normandia, e do atentado falhado contra Hitler , Frank Capra gritava dos EUA para a Europa: Este Mundo é um Manicómio, mas o Führer não o ouvia. Há quem afirme o contrário e defenda que terá sido esse grito que o terá levado a suicidar-se no seu bunker, em Abril do ano seguinte, mas é mais credível que tenha decidido fazê-lo depois de ver a primeira parte da trilogia de Eisenstein Ivan o Terrível apresentada em Moscovo em Janeiro. Ou terá sido assaltado por um rebate de consciência, ao ler o Diário de Anne Frank, descoberta pela Gestapo em Amsterdam?
O que se sabe é que a Europa inteira respirou de alívio quando Paris foi libertada da ocupação alemã. Já imaginaram o que seria Paris sem a língua francesa a passear-se pelas ruas? E que seria da Europa, se as montras parisienses tivessem passado a exibir a austeridade da moda alemã, em vez da ousadia sensual dos costureiros franceses? Como seriam hoje Montmartre, ou Saint Germain Desprès? Uns miseráveis redlight districts ao estilo de Frankfurt ou Hamburgo, certamente. Sem centelha de emoção e criatividade, despida de latinidade, sem Follies Bergère e Moulin Rouge ( quem se ia interessar por um cabaret chamado Das Röt Mühle?) Paris seria certamente uma seca!
Quarta-feira, 15 de Maio de 2013
O namorado perfeito?
Há quem diga que, apesar das suas óbvias limitações, este é o namorado perfeito. Sigam o link e formulem a vossa opinião!
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Dos imprevistos
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RM 17- John Wayne, o novo herói do western
Em Setembro de 1939, Japão e Rússia põem fim à guerrra da manchúria, mas Estaline faz avançar o Exército Vermelho para a Polónia Oriental.
Invadida por Hitler e Estaline, a Polónia é repartida entre os dois estados. Começava a perceber-se o que valem e para que servem os acordos e Tratados assinados entre políticos.
Já que estamos a falar de Pactos, vale a pena lembrar que foi neste ano que Salazar e Franco asinaram o famigerado Pacto Ibérico. Salazar manifesta neutralidade portuguesa durante a II Guerra Mundial e, para comemorar, organiza o primeiro congresso da Mocidade Portuguesa. A neutralidade também é isto…
As grandes obras do Estado Novo ficam marcadas, este ano, com a conclusão da remodelação da Avenida Almirante Reis em Lisboa
Enquanto os americanos se deliciam com o início das transmissões televisivas, Einstein propõe a Roosevelt o fabrico de uma bomba atómica, para que os EEUU entrem na festança bélica bem apetrechados.
No western nasce um novo herói. Chama-se John Wayne e faz a sua estreia no filme Ringo
Berlim assiste à ante- estreia de Fahrenheit 141, com a destruição de 5000 obras de autores considerados degenerados. Para compensar, Estaline confisca várias obras de arte na Polónia e leva-as para casa.
Um alemão ( Rudolf Harbig) estabelece novo recorde mundial dos 800 m em atletimo, com a marca de 1m46,6 s e o de 400m em 46 segundos. Setenta anos depois, estas marcas deixam-nos com um sorriso nos lábios. O mundo caminha vertiginosamente para a loucura. Em muito menos tempo, são destruídos milhões de hectares de floresta, e solo arável é substituído por terreno edificado.
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