segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Derniers baisers

Todos os anos é a mesma coisa. Quando acabam as férias e o Outono se substitui ao Verão, lembro-me desta canção. Ainda há 48 horas tomava banho no Mediterrâneo com um esplendoroso dia de sol. Chego a Lisboa e é o que se vê... 

sábado, 20 de Setembro de 2014

Porque hoje é sábado

Quase...


Um pouco mais de sol — eu era brasa.
Um pouco mais de azul — eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d’espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — ó dor! — quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim — quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
— Ai a dor de ser-quase, dor sem fim… —
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

(…)

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Mário de Sá Carneiro

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

O que é ser tripeiro, afinal?




Que vos posso dizer eu dos tripeiros que vocês ainda não saibam? Que, segundo a lenda, os habitantes do Porto passaram a ser assim designados, em virtude do apoio prestado à armada que partiu para a conquista de Ceuta, em 1415, oferecendo aos expedicionários toda a carne disponível, ficando apenas com as tripas para se alimentarem? Mas isso já todos vocês sabem…
 Poderia enaltecer os tripeiros pela sua hospitalidade, pela sua abnegação, pela sua sinceridade e autenticidade, pelo amor desmesurado à cidade que os torna, por vezes, excessivamente bairristas? Mas isso também não é novidade…
Poderia dizer-vos que ser tripeiro é ter o privilégio de passear junto ao Douro, da Ribeira até à Foz, namorar com uma garina na Rua dos Abraços, tropeçar em bueiros entupidos, fechar as malas com aloquetes, tomar cimbalinos e pingos, comer francesinhas ou orelhas, celebrar a noite de S.João lançando balões e saltando a fogueira, ou encher a Avenida dos Aliados para celebrar mais uma vitória do Dragão.
Ou, talvez ainda, que ser tripeiro é ver os putos empolgados em corridas de sameiras, é cerrar fileiras para defender os emblemas da cidade que alguns políticos pretendem destruir ou vender aos interesses dos privados, é o regatear cantado nas manhãs do mercado do Bolhão. Poderia acrescentar que ser tripeiro é chamar paneleiro a um maricas, ou filho da puta a um amigo que nos trai. É ir a um baile para estar no roço com a namorada, passear por uma “ilha” onde as mães gritam para os filhos: "Anda cá meu filho da puta, quem te deu ordem p'ra comeres esse mulete?" ou os admoestam dizendo "vai fazer piruetas nos cornos do teu pai!"
Mas quem sou eu para vos falar dos tripeiros? Já não vivo no Porto há mais de 40 anos pelo que, ao tentar descrevê-los, corro o risco de estar a traçar um perfil desajustado da realidade actual.Na tentativa de ser mais preciso, pedi ao Beto, um amigo dos tempos da escola primária, que se encontrasse comigo num café da Areosa. Não lhe disse qual era o assunto. Disse apenas que tinha urgência em falar com ele.
Já não via o Beto há uns 10 anos e, enquanto esperava, fiz rewind...




Concluída a instrução primária, o Beto abandonou a escola. Tinha então 14 anos e de imediato se iniciou no ofício de trolha. Foi sol de pouca dura. Dois anos mais tarde tornava-se aprendiz de picheleiro, actividade em que desde logo se mostrou hábil, alcançando enorme popularidade na Areosa, onde nascera. Donas de casa a braços com canos entupidos, lavatórios a transbordar ou sanitas renitentes em cumprir a sua função, recorriam aos bons ofícios do Beto que aliava a sua competência profissional a uma enorme simpatia. Mas Beto não era apenas popular entre as donas de casa. Beata sempre apagada nos lábios carnudos, jeans coçados, t –shirt de cor indefinida , onde despontava um Bob Marley desbotado, passeava , gingão, pela rua entoando os últimos sucessos de Rui Veloso e despertando a cobiça das garinas. 
Quando se aproximava da porta do café que diariamente frequentava ao fim do dia, abrandava a marcha, afagava as repas, puxava o blusão comprado em Vandoma a uns ciganos, endireitava as costas e entrava com ar triunfal. Lançava um olhar rápido pelas mesas a avaliar o gado, para marcar a presa e dirigia-se ao balcão. De costas e olhando fixamente a presa, pedia invariavelmente em voz alta: 
“Inácio! Um lanche e um fino.”
Foi neste momento que o Beto entrou. Mantém o andar gingão e o ritual de afagar as repas e endireitar as costas antes de entrar, mas a beata apagada já não baila nos seus lábios. Quando me viu abriu os braços que só se fecharam na troca de um longo abraço.
Da última vez que nos encontrámos, prometeste que quando fosses a Lisboa me ligavas, lembras-te?
"Eu num bou a Lisboa, pá… Tenho medo c'aquilo seja cuntagioso, carago! Se calhar nem debia estar aqui cuntigo, pá. Tás há tantos anos, lá ( na verdade ele diz naquela merda) que já te debe ter pegado a maleita, pá".
Mas nem vais ver os jogos do Dragão a Lisboa,Beto?
"Debes de estar maluco, pá! Bejo pela Sport TV,aqui no café, porque é menos uma hipótese que têm de me cuntaminar, carago! Aquelas multidões num são recomendábeis, pá! Lagartos e águias? Porra, toda a gente sabe que têm peçonha, nem era preciso a gripe dos porcos para os cuntaminar!".
Rimos a bom rir até o Beto me tocar no braço e, aproximando os lábios do meu ouvido, perguntar :
"Já biste aquela garina que tá atrás de ti?
Qual? A da mini-saia?
Exacto. Pena ter um foguete, carago, mas tem umas boas trancas, lá isso tem.
Não ganhas juízo Beto? Como é que a Nanda te atura?
Julgas que estamos em Lisboa, pá? Aqui ainda são os machos quem manda, num birámos copinhos de leite… Olha lá, afinal qu’é que me queres?
Estou a escrever uma coisa e queria saber a tua opinião sobre os tripeiros.
Tripeiros é como bocês nos chamam lá em baixo num é?Tá bem, antes tripeiros qu’ alfacinhas qu’é nome de mouro maricão. Tripas é qu'é comida de gente, alface é p'ós grilos!
Lá estás tu a desancar nos lisboetas, Beto. Isso não é complexo?
Cumplexo de quê? De bos ber todos os dias feitos baratas tontas, cada bez mais parecidos co’as gajas e a querer casar gajos cum gajos? Fosga-se!
Pronto, tá bem, Beto,não batas mais no ceguinho e diz-me lá o que pensas dos tripeiros…
Os tripeiros? Somos os máiores , caral…! Isso toda a gente sabe…
Pois é, o Beto está cheio de razão. Os tripeiros são mesmo os “máiores”, excepto quando emigram para Lisboa e perdem as suas características peculiares. Mas quis que fosse ele a dizer-vos isso, porque a minha opinião pode ser suspeita.

Adenda: escrevi este texto para as Crónicas de Graça, uma rubrica que, durante cerca de um ano mantive às sextas feiras com a minha amiga Paty, no Crónicas do Rochedo e no Ares da Minha Graça.
Lembrei-me de a recuperar, a propósito do post que amanhã publico no CR, na rubrica "Bibó Porto"

quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Um erro nunca vem só...

Escolher a Alemanha como destino de férias, pode não ser uma boa ideia. Muito pior, porém, é levar na bagagem " A Sétima Porta" de Richard Zimmler. 
O livro é excelente, mas quando o viajante está em Berlim nas portas de Bradenburgo, tem mais tendência a recear o futuro, do que a lamentar o passado.

Ilusões de óptica (7)


segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Saiba se é um sexalescente


"Se estivermos atentos, podemos notar que está surgindo uma nova faixa social, a das pessoas que estão em torno dos sessenta/setenta anos de idade, os sexalescentes é a geração que rejeita a palavra "sexagenário", porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer.
Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica, parecida com a que em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.
Este novo grupo humano, que hoje ronda os sessenta/setenta, teve uma vida razoavelmente satisfatória.
São homens e mulheres independentes, que trabalham há muitos anos e que conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram, durante décadas, ao conceito de trabalho. Que procuraram e encontraram há muito a atividade de que mais gostavam e que com ela ganharam a vida.Talvez seja por isso que se sentem realizados... Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram gozam plenamente cada dia sem medo do ócio ou solidão. Desfrutam a situação, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabe bem olhar para o mar sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro da janela de um 5.º andar....
Neste universo de pessoas saudáveis, curiosas e ativas, a mulher tem um papel destacado. Traz décadas de experiência de fazer a sua vontade, quando as suas mães só podiam obedecer, e de ocupar lugares na sociedade que as suas mães nem tinham sonhado ocupar.
Esta mulher sexalescente sobreviveu à bebedeira de poder que lhe deu o feminismo dos anos 60. Naqueles momentos da sua juventude em que eram tantas as mudanças, parou e refletiu sobre o que na realidade queria.
Algumas optaram por viver sozinhas, outras fizeram carreiras que sempre tinham sido exclusivamente para homens, outras escolheram ter filhos, outras não, foram jornalistas, atletas, juízas, médicas, diplomatas... 
Mas cada uma fez o que quis. Reconheçamos que não foi fácil e, no entanto, continuam a fazê-lo todos os dias.
Algumas coisas podem dar-se por adquiridas.
Por exemplo, não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos "sessenta/setenta", homens e mulheres, lida com o computador como se o tivesse feito toda a vida. Escrevem aos filhos que estão longe e até se esquecem do velho telefone para contatar os amigos - mandam e-mails com as suas notícias, ideias e vivências.
De uma maneira geral estão satisfeitos com o seu estado civil e quando não estão, não se conformam e procuram mudá-lo. Raramente se desfazem em prantos sentimentais. Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos.Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflete, toma nota, e parte para outra...
... Os homens não invejam a aparência das jovens estrelas do desporto, ou dos que ostentam um fato Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de uma modelo. Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência.
Hoje, as pessoas na década dos sessenta/setenta, como tem sido seu costume ao longo da sua vida, estão estreando uma idade que não tem nome. Antes seriam velhos e agora já não o são. Hoje estão de boa saúde, física e mental, recordam a juventude mas sem nostalgias parvas, porque a juventude ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas.
Celebram o sol em cada manhã e sorriem para si próprios...Talvez por alguma secreta razão que só sabem e saberão os que chegam aos 60/70 no século XXI!"
Artigo de Mirian Goldenberg

sábado, 13 de Setembro de 2014

Porque hoje é sábado



Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando a janela abre.

Alberto Caeiro