sexta-feira, 24 de abril de 2015

Memórias de Goa


Há dias, a propósito deste post sobre praias de Goa, prometi contar uma história acontecida na bela praia de Colva, no início da década de 90.

Não era a primeira vez que ia a Goa, mas foi a primeira vez que lá fui com um grupo de jovens portugueses. Na circunstância, um grupo de finalistas do curso de Direito da Universidade de Macau. Alugámos alguns carros e partimos à descoberta da ilha. Era Abril e estava um calor tórrido. Os que iam comigo propuseram uma paragem em Colva para beber qualquer coisa. Ficámos algum tempo à conversa, a praia estava deserta e a água convidava a um banho. Tinha comido uma bela carilada de caranguejo e não arrisquei.

Fiquei na esplanada com um dos alunos, mas as duas raparigas que iam connosco decidiram mesmo experimentar a água. Ficámos os dois à conversa. Passados uns minutos, olhei para a praia e vi uma multidão de homens formando um círculo. Imaginei de imediato a cena mas ainda não tinha tido tempo de comentar, quando vejo as duas a sair da praia em grande correria. Traziam as toalhas enroladas no corpo e quando chegaram ao pé de nós, ofegantes, nem as deixei falar. Apenas disse:
Quem vos mandou estenderem-se na areia em biquini?

Claro que uma cena destas hoje em dia será improvável de ocorrer mas, naquela época, em que o turismo europeu ainda não descobrira as belezas de Goa, duas mulheres jovens ( e não por acaso belíssimas) estendidas no areal de Colva em biquini, não era um espectáculo comum para os indianos de Goa.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Tásse memo aver, num tásse?

- Deixei-te uma mensagem no telemóvel e não respondeste
- Não ouço mensagens...
- Também te enviei um SMS
- Não leio SMS...
- Então para que é que tens telemóvel?
- Eh pá! Não vês que me faz imensa falta?

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Está nos livros



Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes. É o que faz a miopia.
( Mário Henriqie Leiria in Contos do Gin Tónico)

terça-feira, 21 de abril de 2015

Pontos de vista

-Estou um bocado confuso com os resultados da Cimeira das Américas
- Em minha opinião foi um sucesso
- Então porquê?
- Pelo que li nos jornais de hoje.
- Tem piada... eu fiquei com a ideia de que foi um fracasso!
- Então porquê?
- Pelo que li nos jornais de hoje.

Se eu pudesse... dava-te o mundo inteiro!

Eu também o disse ao ouvido de algumas miúdas. E quem nunca ouviu ou disse isso ao ouvido de alguém que atire a primeira pedra.
Richard Anthony foi mais um dos que nos deixou neste Abril invulgarmente mortífero.
Ficam as memórias de danças acaloradas. Ao som desta canção, mas também de "Donne moi machance", "Aranjuez mon amour" ou "J'entends siffler le train".
E nos dias de aniversário nunca faltava o " C'est ma fête".
Obrigado, Richard Anthony por me teres ajudado a ser feliz. Apesar de seres um bocado "pimba"...

domingo, 19 de abril de 2015

Livro da Semana


Já aqui escrevi sobre  "Submissão", o livro de Michel Houellebecq lançado em França no dia do ataque ao Charlie Hebdo.
Lançado em Portugal no final de Março, aproveitei a última segunda feira da Bertrand para o comprar. E já o li. Nem sequer foi para a fila de espera...
Devo dizer que não me desiludiu. Bem pelo contrário. 
Em  Janeiro, tinha lido que se tratava de um romance visionário. Só parcialmente acompanho essa interpretação. A especulação resume-se à eleição de um presidente muçulmano em França, no ano 2022.
Tudo o resto é um retrato fiel da sociedade actual. O  triunfo do  individualismo e do niilismo já invocado nos livros de Gilles Lipovetsky; a descaracterização das relações sociais, dominadas pela era do ecrã; o desenraizamento dos jovens; a busca de sucesso imediato construído em reality shows; o desinteresse total pela reflexão, pela discussão de ideias e ideais; a ausência, nas sociedades ocidentais, dos valores  com que  se constrói a civitas e em torno dos quais se cimentam as culturas e as religiões; o triunfo do efémero. 
Houellebecq disserta sobre tudo isto neste romance, mas resiste à tentação de enveredar por juízos valorativos, ou impor ao leitor conclusões definitivas. Pelo contrário, convida o leitor a reflectir sobre elas e a interrogar-se se o modelo das sociedades ocidentais, dominado pela febre consumista que nos está a conduzir ao tédio,ao conformismo e ao desinteresse,  não será o responsável pela atracção que o Islão exerce sobre os jovens.
Já tinha lido que Hoellebecq era islamofóbico e procurava neste romance fazer passar essa mensagem. Nada de mais errado! 
 Submissão é um romance que não se limita a contar uma história. Obriga-nos a reflectir, interrogar e acordar. Por tudo isso  li com prazer redobrado esta prosa de excelência.