segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Entradas e saídas

Foi desta forma que decidi dar este ano as boas vindas aos que regressaram agora de férias e desejar, àqueles que ainda vão partir, umas férias excelentes.

Está nos livros (10)




" O meu marido trata-me bem  e gosto da minha filha"- dizia ela. "Pode dizer-se que sou feliz"
" Nesse caso, por que carga de água é que ela anda a dormir comigo?" Era essa a pergunta que ele fazia muitas vezes a si próprio. Por mais que pensasse no assunto, não chegava a qualquer conclusão.De resto, nem sequer era capaz de perceber o que queria ela dizer quando dizia que não tinha problemas de espécie alguma. 
Por mais de uma vez, chegou a pensar em ter uma conversa com ela sobre o assunto, mas não sabia bem como abordar a questão. "Visto que és assim tão feliz com ele, porque é que vais para a cama comigo?" Obviamente  que não era pergunta que se fizesse. O mais certo era ela desatar num pranto.
( Haruki Murakami in "A Rapariga que inventou um sonho")

sábado, 30 de Agosto de 2014

Porque hoje é sábado

Os Velhos

Em suma: somos os velhos,
cheios de cuspo e conselhos,
velhos que ninguém atura
a não ser a literatura.

E outros velhos. (Os novos
afirmam-se por maus modos
com os velhos). Senectude
é tempo não é virtude...

Decorativos? Talvez...
mas por dentro “era uma vez...”

*

Velhas atrozes, saídas
de tugúrios impossíveis,
disparam, raivoso, o dente
contra tudo e toda a gente.

Velhinhas de gargantilha
visitam o neto, a filha,
e levam bombons de creme
ou palitos “de la reine”.

A ler p’lo sistema Braille
ó meus senhores escutai!
um velho tira dos dedos
profecias e enredos.

Outros mijam, fazem esgares,
têm poses e vagares
bem merecidos. Nos jardins,
descansam, depois, os rins.

Aqueles outros (os coitados!)
imaginam-se poupados
pelo tempo, e às escondidas
partem p’ra novas sortidas...

Muito digno, o reformado
perora, e é respeitado
na leitaria: “A mulher
é em casa que se quer!”

Velhotes com mais olhinhos
que tu, fazem recadinhos,
pedem tabaco ao primeiro
e mostram pouco dinheiro...

E os que juntam capicuas
e fotos de mulheres nuas?
E os tontinhos, os gaiteiros,
que usam cravo e põem cheiros?

(Velhos a arrastar a asa
pago bem e vou a casa)

E a velha que se desleixa
e morre sem uma queixa?
E os que armam aos pardais
nessas hortas e quintais?

(Quem acerta co’os botões
deste velho? Venha a cidade
ajudá-lo a abotoar
que não faz nada de mais!)

Velhos, ó meus queridos
velhos,
saltem-me para os joelhos:
vamos brincar?

Alexandre O'Neil


sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

Agarrem-me senão...


 Hoje tive um mau começo de dia.  No metro para o Oriente, onde  fui apanhar o comboio para o Porto, ouvi uma conversa entre dois jovens engravatinhos e formatados na  escola da pulhice  humana, que me deixou à beira de um ataque de nervos.
Dizia um:
-  Isto de as férias serem um direito é uma estupidez!
Respondia o outro:
- Estupidez não digo, mas lá que um mês de férias é um exagero, não há dúvida. Como ninguém aguenta estar  um mês sem ter nada para fazer, as pessoas tiram férias às pinguinhas... estão em férias todo o ano!
Volta o primeiro:
- As férias são um vício criado pela  sociedade de consumo...
- E fomentada pelo capitalismo urbano, que depois alastrou às classes médias- ajunta o outro
Estava já a ferver e com vontade de os mandar para a PQP, mas ainda tive de ouvir esta pérola:
- Se este governo os tivesse no sítio já tinha reduzido as férias a um máximo de 10 dias úteis. Chega muito bem. O resto é alimentar vícios.
- Não podem! A União Europeia não deixa...
Chegámos ao Oriente. Levantámo-nos os três para sair. Eu fui para o comboio. Os engravatadinhos devem ter mergulhado nos seus gabinetes sem luz natural, onde continuarão a desconhecer o significado da vida.

Bem, mas a verdade é  que há qualquer coisa que me diz que não devo andar de metro por estes dias...

quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

Pelo afinar da viola se conhece o tocador


Quando entro num transporte público, fujo de alguém que esteja a comer. Não é por nada… mas não gosto de correr riscos.
Na terça -feira, porém, aconteceu aquilo que receava há muito. A carruagem do metropolitano onde  vinha confortavelmente sentado, encheu nas estações seguintes. Numa das paragens, entrou uma jovem, na casa dos vinte e muitos, vistosa e generosamente despida. A blusa  decotada subida na cintura e as calças descidas, mostravam  deliberadamente a lingerie rendada que lhe acariciava os glúteos. 
Na mão trazia um  copo de café fumegante.  Ficou de pé junto a mim. Tirou da carteira o iphone , que segurou com a outra mão.  Comecei a temer o pior.  Receios que aumentaram, quando percebi que a jovem ia completamente absorvida na sua tarefa de teclar, que acompanhava com goles de café absorvidos através de uma palhinha.  
Aquela postura fez-me recuperar a confiança. A miúda tinha experiência  na matéria e dali não vinha qualquer perigo.  Tranquilizado, mergulhei novamente na leitura. Ao chegar ao Saldanha, o  metro não travou com a suavidade habitual. Não foi uma travagem brusca, mas o suficiente para que a miúda se desequilibrasse e  quase caísse no meu colo. Daí não viria grande mal ao mundo… o problema é que  ela conseguiu manter-se em pé, mas o mesmo não aconteceu com o café que se esparramou em cima das minhas calças e da camisa. 
Explodi! Ia ter uma reunião dali a uma hora, não tinha tempo de voltar a casa para me mudar. Vi a atrapalhação dela. As lágrimas  vieram-lhe aos olhos e deve ter feito um enorme esforço para as conter no dique das glândulas lacrimais. Pediu-me mil vezes desculpa, mas  isso de nada me servia. Chamei-lhe inconsciente, por colocar em risco a tranquilidade dos passageiros, com aquele equilíbrio instável.
- Para se andar de transportes públicos também é preciso um bocadinho de civismo e consciência,sabe?
Não respondeu.
Saiu comigo no Saldanha. Pediu-me que esperasse um segundo. Fez uma chamada. Enquanto falava, olhava para mim e dizia qualquer coisa que eu não consegui perceber. Quando desligou, perguntou-me se podia esperar 10 minutos, para ela me resolver o assunto. Perguntei-lhe em tom meio irado, meio jocoso:
Não me diga que me vai lavar e secar a roupa em 10 minutos!
Não. Só lhe peço que tenha calma. Vem aí uma pessoa que lhe vai resolver o problema.  Vamos esperar aqui ao pé das bilheteiras.
- Trabalha longe daqui?- perguntou-me.
- Não!  É só subir as escadas e atravessar a rua. Mas neste estado… 
- Ah! Óptimo!
Passaram pouco mais de 10 minutos. Um homem mais ou menos da minha idade aproximou-se em passo de corrida. 
O motorista vai levá-lo a casa, espera que mude de roupa e depois trá-lo de volta. Entregue-lhe também a roupa que eu encarrego-me de lha mandar entregar onde quiser. No seu escritório, ou em casa. Desculpe, mas é o máximo que posso fazer.
Agradeci a boleia. Despedimo-nos sem acrimónia e dei-lhe o endereço do meu escritório, embora  já tivesse decidido que eu próprio mandaria lavar a roupa. Sentia-me recompensado com a boleia.
A viagem até minha casa decorreu em silêncio. Aproveitei para telefonar, avisando que iria chegar ligeiramente atrasado à reunião.
No regresso, o motorista perguntou-me:
- O senhor conhece a menina há muito tempo?
- Há meia hora- respondi. 
Contei-lhe o que se tinha passado.
“ Coitadinha da menina. Anda muito destrambelhada. O namorado morreu num acidente de automóvel há um mês. Iam casar em Outubro. O senhor doutor era uma joia de pessoa e a menina nem se fala. Conheço-a desde pequenina. Eu era motorista do pai, o senhor doutor F…., não sei se conhecia …faleceu ano passado. 
Não, não conhecia...
Foi a menina que me levou para a empresa, mas quase nunca usa o carro. Gosta de andar nos transportes públicos (risos) Até  me admirei quando ela me chamou com muita urgência!  
Cheguei à reunião ainda a tempo. À hora do almoço, contei o episódio a dois colegas. Já me consegui rir da situação.
Hoje, ao fim da tarde, vieram entregar-me uma encomenda. Um envelope. Abri. 
Ex.mo senhor:
“ Peço mil desculpas pelo incómodo que lhe causei. Se algum dia quiser passar um fim de semana num dos hotéis da cadeia (…)  não hesite em contactar-me. Terei o maior prazer  em conseguir uma tarifa especial. Nunca mais volto a tomar café nos transportes públicos.
Linda menina!

quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Lamechices? Talvez...


Apesar de viver num bairro onde o comércio é escasso e pouco variado, sempre procurei cultivar o comércio de proximidade. Não só pela relação que gosto de estabelecer com os comerciantes de bairro, mas também pela comodidade que isso permite. Ainda hoje recordo os tempos em que vivia em S. João do Estoril e de ao sábado de manhã pegar no telefone (ainda não havia telemóveis, nem Internet), ligar para o talho, a venda da fruta, a mercearia e, passado algum tempo, ter tudo em casa sem ralações.
Quando regressei a Portugal fui viver para um bairro de Lisboa onde estas mordomias ainda eram possíveis mas, com o decorrer do tempo, os estabelecimentos foram mudando de mãos e os novos proprietários  pouco receptivos a este tipo de “galanteios”. Noutros casos, a mercearia foi substituída por mini mercados, absorvendo a pequena retrosaria, a papelaria e até a loja de venda de jornais.
Gostava do atendimento personalizado do meu bairro onde o sr. Casimiro, cada dia mais solícito, se "enganava" por vezes no peso, mas me recompensava com a afabilidade de um sorriso por trás do qual entrevia a marotice dos 10 gramas de papel adicionados ao peso dos morangos que, pressuroso, me mandava levar a casa.
Gostava do olhar dengoso da Anabela, impingindo-me sempre qualquer coisa de que eu não estava a precisar.
Lembro-me das vezes que a Cristina me levava o pão, encomendado em sábados de manhã chuvosos, acompanhados de “uns biscoitinhos caseiros que são uma delícia” ou “estes croissants acabaram de sair do forno, se não os quiser comer agora enquanto lê o jornal, come-os à tarde com um chazinho, nem precisa aquecer…”
Sim, tenho saudades de me deliciar com estas práticas promocionais evidenciando conhecimento apurado das técnicas de marketing das grandes superfícies. Ali não havia descontos, as promoções eram materializadas em datas festivas com a oferta de caixas de bolachas, bombons, ou garrafas de whisky que me acalentavam o espírito, porque eram oferta de uma pessoa e não de um folheto promocional.
Lamechices? Talvez....
Adenda: Obrigado a todas/os as leitoras/es que me deram uma ajuda no post de ontem. Ao que apurei, com a vossa ajuda e mais algumas pesquisas, parece que o ritual do galo negro é mesmo específico de S. Bartolomeu do Mar ( obrigado, Afrodite). Já a prática dos mergulhos ( que eu próprio fui obrigado a vivenciar) parece que tem âmbito geográfico mais alargado e permanece como prática corrente em várias regiões do país

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Mergulhado num diálogo zen que terminou com uma dúvida!


Depois dos mergulhos as crianças ficam assim

No sábado, seguindo o ritual de todos os dias, a minha mãe perguntou-me:
- Quantos são hoje?
- 24 de Agosto, mãe.
- Tomaste banho?
- Claro que tomei! Porque perguntas? Cheiro mal?
Riu-se. Depois continuou
- A água estava fria?
- Como sempre no Verão, a princípio estava quente, mas no final estava fria. Não dispenso uns segundos de água fria no final do banho, quando estamos no Verão.
- Tomaste banho aqui em Cascais?
- Não, mãe, tomei em Lisboa!
- Em Lisboa? Onde é que tomas banho em Lisboa?
- Em casa, na banheira, mãe... onde havia de ser! 
Voltou a rir-se
- Não era desses banhos que estava a falar. Era do banho de mar!
-  É muito raro tomar banho de mar nestas águas frias, mãe. Em miúdo ainda lá ia, mas agora...
- Então não tomaste banho hoje...
- Não! Porque é que havia de tomar?
- Não disseste que hoje é dia de S. Bartolomeu?
- Não sei, mãe. Sei que é 24 de Agosto...
O semblante dela fechou-se num misto de tristeza e reprovação. 
-Já esqueceste o que te ensinei?
- O quê mãe?
- No dia de S. Bartolomeu deve-se tomar  banho de mar.
- Porquê, mãe?
(Pausa
- Não sei, já me esqueci!

Dez minutos depois voltou a perguntar-me que dia era. O diálogo podia ter-se repetido, mas optei por mentir-lhe. Disse que tinha tomado banho e queixei-me que a água estava gelada. 
- Mas faz-te bem, meu filho. Daqui a uns anos  vais agradecer à tua mãe ter insistido para que tomasses banho neste dia.
Chegou a minha vez de fazer uma pausa. O meu rosto deve ter-se fechado, mas disso não me apercebi.
No domingo fui procurar informações sobre o dia de S. Bartolomeu e fiquei a saber o seguinte:
No dia 24 de Agosto, dia de S. Bartolomeu,  é tradição que todas as crianças sejam obrigadas a dar um número ímpar de mergulhos no mar, para afastar males como a gaguez, a epilepsia e o próprio medo. 
Lembro-me de ter sido sujeito a essas sevícias em miúdo, nas águas geladas de Miramar.  Mas a tradição tem uma segunda parte a que não me lembro de alguma vez ter sido submetido. Depois dos mergulhos, as crianças têm que dar três voltas à igreja, segurando um galo preto.
Pelo que percebi, esta segunda parte só se aplica na povoação de S. Bartolomeu do Mar ( perto de Esposende) mas agradecia aos leitores que pudessem confirmar ou desmentir a  minha suspeita.