quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Lonely nights



Na véspera de fazer 40 anos, soube que a fábrica onde trabalhava desde os 20 ia fechar. Antes de regressar a casa deambulou pelas ruas, pensando no que seria o seu futuro. Com aquela idade, sabia que a possibilidade de encontrar um novo emprego seria nula. Tinha apenas o 9º ano, a única coisa que sabia fazer era a tarefa rotineira da lida com a máquina que lhe caíra em sorte e a quem até arranjara um nome: Leopoldina.
Sabia que o marido lhe preparara uma festa surpresa e, por isso, não lhe disse nada sobre o que a atormentava. No dia de aniversário fingiu-se surpreendida e feliz. Esperou pelo fim de semana para dar a notícia. Ele tentou animá-la. Haviam de se arranjar com o salário dele.
Na segunda-feira, quando saiu da  empresa,  foi à agência de viagens. Apesar de saber que todo o dinheiro lhes faria falta, decidiu compensá-la da amargura  do desemprego, com a viagem a Paris com que ela sempre sonhara.
Quando chegou a casa, anunciou-lhe que partiriam no sábado seguinte. Ela respondeu com um sorriso triste e enlaçou-o num longo abraço.
Passaram  cinco dias felizes em Paris. Dois dias depois de regressarem ela queixou-se de uma dor na barriga. Nos dias seguintes a dor persistiu. Foram ao médico. Muitas análises  e exames  radiológicos depois, o veredicto: tumor no pâncreas. Seis meses de vida.
O funeral foi na primeira terça-feira de Outubro .
Ele está agora  sentado, sozinho, na mesa do restaurante onde jantavam todos os sábados. Pede o Balchão de camarão do costume e meia garrafa de vinho. Faz um brinde no ar. Com o café, pede um whiskey. Tira da carteira uma fotografia, onde os dois posam com a Torre Eiffel por fundo. Olha-a durante uns momentos. Beija-a e pousa-a sobre a mesa. Quando termina o whiskey pede a conta. Paga, volta a meter a fotografia na carteira e sai em passo lento, como se carregasse o mundo às costas. Os empregados despedem-se com um “até sábado, senhor engenheiro”.
Ele responde algo imperceptível e desaparece na calçada da rua quase deserta.
Coitado, está só à espera da morte, para ir ter com ela”- diz-me o empregado.
Peço um café e um Bushmills e deixo-me transportar até Península Valdez. Da próxima vez, trago a tua fotografia.

Adenda: Alguns leitores já terão lido esta história, que publiquei no CR em Março de 2012. Hoje, durante o lançamento do livro do Henrique Antunes Ferreira, algo que não vem ao caso me fez lembrar dela e decidi partilhá-la com quem ainda não a tenha lido. É que eu também sou um velho incorrigível, que gosta de histórias de amor. Mesmo quando são trágicas.

terça-feira, 25 de Novembro de 2014

Está nos livros (especial)


(1845-1900)

O homem que tem medo de pecar por causa do fogo do inferno tem medo não de pecar, mas de queimar-se. 
( Eça de Queirós em Os Maias)   

Eça nasceu a 25 de Novembro de 1845, mas o legado que nos deixou continua tão presente nas nossas vidas, que parece ainda estar entre nós.

segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Vítima de doença prolongada...

Sempre tive especial apreço pela imprensa regional. Em dois períodos da minha vida, a minha actividade profissional obrigou-me ( com grande prazer, diga-se) a percorrer o país de lés a lés e a viver em vários distritos.  Lia por isso com especial atenção a imprensa regional, que me ajudava a perceber melhor os terrenos que pisava. Foi um hábito que me ficou e ainda hoje, a viver entre Lisboa e o Porto, procuro manter-me a par das notícias de âmbito regional. Deveria, aliás, ser obrigatório a quem dirige o país, a partir dos gabinetes ministeriais, uma leitura da imprensa regional, para melhor perceber os problemas que afectam as várias regiões. 
Na imprensa regional colhi muitas histórias interessantes que, se tiver engenho e saúde, talvez um dia  verta para o papel. Como esta que passo a contar.
Até há bem pouco tempo, havia bastante pudor em escrever " Fulano de tal morreu de cancro". Recorria-se ao eufemismo " Vítima de doença prolongada, faleceu..." e toda a gente ficava a saber que a pessoa tinha morrido de cancro.
Obviamente, a imprensa regional seguia o mesmo receituário. 
Estava eu um dia numa simpática vila transmontana. Era inverno, nevava abundantemente e enquanto hesitava entre arrostar com a intempérie para ir comer a um restaurante afamado pela sua boa gastronomia, ou ficar no hotel e contentar-me com a sua insípida cozinha, peguei no jornal da terra.  Em grande destaque, uma notícia sobre a morte de uma pessoa considerada  um benemérito da terra. Estava doente há bastante tempo,mas a sua morte ocorreu inesperadamente durante um fim de semana, depois de uns dias em que revelara algumas melhoras. 
O jornalista, talvez por desconhecer as causas da morte, recorreu ao jargão habitua e escreveu:
"Faleceu este fim de semana, vítima de doença prolongada ( mas não foi cancro) ...." ( sublinhado meu) a D. Fulana de Tal...
A gargalhada foi inevitável, deixando certamente consternado o recepcionista, que se terá interrogado sobre as razões que me levaram a soltar uma gargalhada enquanto lia o jornal, num dia tão triste para a terra...


sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

Aux boulevards de Paris




Não vou dizer que conheço Paris como a palma das minhas mãos, mas conheço suficientemente bem, para não precisar de andar de mapa na mão.
Apesar de não ser amor antigo, há mais de 40 anos que Paris entrou na minha vida. Quando vivia em Londres, ia frequentemente passar lá fins de semana, para prolongar memórias de Verão na companhia de amizades construídas nas areias então límpidas de Benidorm.
Na altura, Paris era sinónimo de diversão, mas também de liberdade. Só nos anos 90  percebi que me tinha apaixonado por Paris. Foi a partir dessa década que, à custa de muito a palmilhar, lhe descobri os encantos escondidos  e dispensei mapas para a percorrer de lés a lés.  De Montmartre ao Quartier Latin, de Saint Denis a Saint Germain,  Paris é hoje para mim um livro aberto sem grandes segredos para descobrir.
Nesta última visita passaram-se alguns episódios que me permitiram perceber melhor a crise que  avassala França. Não só o número de mendigos aumentou, como a abordagem a turistas com truques de apanha papalvos se multiplicam. E há cenas que não estava habituado a presenciar.
Foi o que aconteceu, por exemplo, quando uma manhã seguia pela Sebastopol em direcção à Praça de Vendôme. Um grupo de jovens africanos seguia à minha frente. Transbordantes de alegria,  libertavam a sua energia em passos de dança que encurtavam a caminhada.
A determinada altura pararam em frente a um supermercado.  Na rua alinhavam-se palettes de iogurtes e pacotes de leite. Os jovens pegaram em algumas caixas. De imediato abriram algumas embalagens, que começaram a beber.  Prosseguindo o seu caminho, iam repartindo  a carga com os mendigos, que de imediato sorviam iogurtes e leite.
Não resisti a pedir-lhes uma explicação para o seu gesto. Disseram-me que desde há uns tempos se tornou habitual alguns supermercados deixarem nas ruas os produtos perecíveis, quando atingem o último dia do prazo de validade. Quem passar, é só servir-se.
E depois, redistribuir, como eles estavam a fazer- pensei.


quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

Adeus, menina Júlia!




Durante mais de 10 anos era conhecida como a menina  Júlia da Tesouraria.  Desde o primeiro dia desassossegou o sexo masculino. Não era muito bonita, mas  tinha um corpo  “ a pedir mão de mexer” e a sua simpatia e olhar cativante  punham a cabeça dos colegas a andar à roda.
Muitos a tentaram conquistar. Nos primeiros tempos, todos os dias  recebia convites de  colegas para jantar. Aceitou alguns mas, logo à partida, anunciava ao convidante  que o seu coração tinha dono. Estava em Angola, mas um dia voltaria para casar com ela. 
Alguns anos depois voltou. Júlia convidou para o casamento vários colegas do serviço. Festa animada. Lua de mel na Madeira. Quando regressou quis continuar a ser a menina  Júlia da Tesouraria. Que não havia razão para a tratarem por senhora, só porque tinha casado. Continuava a ser a mesma pessoa, apenas tinha mudado o estado civil. 
Com o tempo, dois filhos depois, a menina Júlia passou  mesmo a  D. Júlia.  
Quando fez 40 anos anunciou que ia “tirar” um curso.  Inscreveu-se num daqueles cursos que não dão habilitações profissionais  específicas para nada, a não ser para ingressar na carreira técnica superior da função pública.  Ao fim de  quase 10 anos ( oito, para ser mais exacto) concluiu finalmente o curso. 
A directora chamou-a. Deu-lhe os parabéns e disse que no mês seguinte abriria um concurso para a promover a técnica superior.
O processo foi rápido. Júlia tomou posse  cerca de dois ou três meses depois. No dia seguinte, alguns colegas foram ao novo gabinete dela  para lhe oferecerem um presente e desejar felicidades na nova etapa da sua vida profissional.  Antes de entrarem, repararam numa placa na porta onde se lia:
“ Drª Júlia Piropo 
Técnica superior”.

Aviso: Só o nome é falso. O resto é tudo rigorosamente verdade

terça-feira, 18 de Novembro de 2014

Quando o telefone toca

Domingo almoço num restaurante perto do Guincho. Apesar de ser já tarde, não consigo arranjar mesa afastada de um grupo de 15 a 20 pessoas que confraternizam.
Enquanto aguardo que me tragam a sobremesa, entra um empregado com um bolo. Um telemóvel  toca. Começam a ouvir-se os parabéns. Uma senhora aparentando ir a caminho dos 50 faz um gesto a pedir silêncio. Atende o telemóvel. As pessoas calam-se. As velas continuam a arder e a senhora a falar ao telemóvel. 
Alguém decide apagar as velas. Passam mais alguns minutos. Finalmente a senhora desliga.
"Desculpem lá, mas era o Ricardo, não podia deixar de atender. Vamos começar tudo outra vez?"
Acendem-se novamente as velas. A senhora levanta-se. Ajeita o vestido. Debruça-se sobre o bolo.Apaga as velas. Algumas pessoas batem palmas. Voltam a cantar-se os parabéns ( agora com menos entusiasmo) . Um homem  não participa. Levanta-se e sai para fumar um cigarro.
A senhora começa a cortar o bolo e a distribuí-lo pelos parceiros de mesa.