quinta-feira, 29 de março de 2012

A Terra das Mil Lendas


Do sul da Província de Buenos Aires até Ushuaia, estendendo-se da costa atlântica até à costa chilena do Pacífico, fica a Patagónia, terra por vezes inóspita, mas de extraordinária beleza, que tem deixado rendidos aos seus encantos cientistas, escritores, poetas e aventureiros.
Conhecida por  “Terra das Mil Lendas”, esta extensa região  que Domingos Cavallo, ministro das finanças de Menem, ponderou oferecer aos Estados Unidos para saldar a astronómica dívida da Argentina, faz jus ao epíteto.
A primeira lenda de que parece haver memória, está relacionada com o seu próprio nome.
Conta- se que  lhe terá sido atribuído em 1520 por  Fernão de Magalhães. Alguns historiadores, apoiados mais na lenda, do que em factos, defendem que quando o  navegador português  chegou à Baía de San Julian, terá ficado tão surpreendido com o tamanho superlativo dos pés dos índios Tehuelche, que resolveu apelidar a região de Patagónia. Quer Darwin, quer Bruce Chatwin, dão outras explicações para a origem do nome Patagónia, mas é uma constante encontrar versões diferentes sobre todas as histórias que ocorrem naquela extensa região. Veja-se, por exemplo, o número de versões- por vezes antagónicas- sobre a vida de Butch Cassidy e Sundance Kid. É inquestionável que lá viveram, mas essa é a única certeza sobre este duo de salteadores amantes de música erudita, que depois de um período sabático na região patagónica de Cholita terão assaltado um banco para custear uma viagem que lhes permitisse assistir ao festival de música de Beyruth. Sobre o local onde o assalto foi cometido, o seu propósito e as circunstâncias que o rodearam, é que as versões variam. Algumas pessoas que com  eles conviveram fizeram relatos sobre a sua vida, mas a partir de determinada altura percebeu-se que as histórias que eles contavam nem sempre eram coincidentes, variando de acordo com a época e os interlocutores que os escutavam.
Apreciador de paraísos distantes, cedendo com facilidade  aos prazeres de uma vida nómada  que me arranque do turbilhão da urbe, “perdi-me” durante vários meses a explorar a Patagónia e foi com dificuldade que resisti ao apelo de por ali ficar “perdido para sempre”.
Ao longo do vale do rio Chubut, por entre “estâncias”  com nomes optimistas (La Esperanza),  evocando efemérides (Primeiro de Janeiro), pagando tributo aos aborígenes (Pali Aike) ou simplesmente lembrando uma mulher (La Julia), fui ouvinte atento de relatos encantadores sobre heróis e heroínas que habitaram aquela extensa região. Paulatinamente fui –me deixando contagiar por aquele cenário de lendas e um dia percebi a razão deste desencontro de  narrativas que fazem parte da magia enigmática da Patagónia.

Estava na Patagónia apenas há duas semanas. Caminhando pelas cercanias de Epuyen, apreciava a magia  dos lagos e bosques da região, onde nem sequer falta um lendário Nessie - réplica argentina do monstro escocês - e perdi a noção do tempo.
A tarde seca e cálida convidava a uma sesta  e a leve brisa começara a soprar com mais força. A água do cantil  já se esgotara e estava sedento. Não tendo nas imediações nenhum lugar onde saciar a sede, olhei em volta e vislumbrei, a umas centenas de metros, uma pequena casa perdida na paisagem.  Segui até lá por um caminho serpenteado bordejado por flores silvestres, de onde se desprendiam fragrâncias açoitadas pelo vento.
A escassos metros da casa, o ladrar de um cão anunciou-me e o rosto de um homem com vincados traços mapuche assomou por entre as sebes. Saudei-o e pedi para encher o cantil. Convidou-me a entrar para o jardim e acompanhá-lo num mate.
Sentámo-nos junto de um canteiro de hidranjas multicolores.Bebi  um longo  trago da cabaça e, acalmada a sede, começámos a conversar, acompanhando o mate em goles lentos, com umas tortas fritas que a mulher, entretanto,diligentemente providenciara.
 Falei-lhe sobre a minha viagem sem prazo ou itinerário certo, que fluiria ao sabor das circunstâncias, mas manifestei-lhe a minha vontade de rumar a Esquel, para conhecer o local onde vivera Butch Cassidy. O meu propósito era entabular conversa com Aladin Sepúlveda- o homem que então habitava a casa- e de quem esperava ouvir algumas histórias sobre os bandidos mais conhecidos da História recente.
- Muito interessantes as histórias de Butch Cassidy e Sundance Kid- disse-me com visível enfado.
-Certamente haverá muitas histórias e lendas de outras pessoas que habitaram a região- retorqui. Espero ouvir algumas enquanto por aqui andar...
- Não há lendas, amigo. Há é maneiras diferentes de contar histórias. Uns contam-nas como poetas, outros como doutores. Aqui na Patagónia, contamo-las como poetas. Desconfia de quem te contar histórias como doutor, porque esses estão a mentir-te.
- A mentir? Porquê?
- Porque contam as histórias à maneira que mais convém aos gringos. É assim que se fazem os compêndios de História, não te parece Carlitos?
- E tens alguma para me contar antes de partir?
Lihue olhou para o céu, em direcção ao sol, como quem consulta o relógio e disse:
- Ainda tenho algum tempo antes de ir  recolher o gado. Já ouviste falar de Maria Ancapichun?
- Não!
Então escuta. Vou-te contar toda a verdade sobre esta mulher mapuche. Como um poeta, não como um juiz...

Adenda: A primeira crónica que aqui vos deixo não podia deixar de ser sobre a minha primeira viagem à Patagónia. A fotografia que escolhi para  acompanhar o texto é do Lago Espejo, próximo de Bariloche, a sul do Paralelo 42. Outras histórias sobre as minhas viagens pela Patagónia ( como a de Maria Ancapichun que me contou Lihue) e outras regiões da argentina e do Mundo - passarão por aqui, mas a principal razão para ter escolhido como ponto de partida uma crónica vivida na Terra das Mil Lendas é dizer-vos que ao contrário do que acontecia no CR, onde quase todas as crónicas eram verdadeiras, as que aqui vos vou trazer , embora tenham um fundo verdadeiro,  poderão muitas vezes encerrar uma dose de fantasia. Não foi por acaso que escolhi, para template do blog, uma foto da Patagónia...


quinta-feira, 22 de março de 2012

Apresentação

Meus caros amigos
Mudei de casa. Ou melhor...arrendei este novo espaço alternativo ao Crónicas do Rochedo. O propósito é separar a política das crónicas. Aqui, não escreverei sobre política. Apenas escreverei crónicas de vida e de viagens. Adicionalmente, poderão aparecer fotografias e outras rubricas relacionadas com o lazer.
O Crónicas On the Rocks só abrirá oficialmente na próxima semana, servindo este post apenas de apresentação e declaração de intenções.
Espero que apreciem este novo espaço e, se assim o entenderem, o divulguem aos vossos leitores e amigos.
Obrigado e até breve.