domingo, 29 de abril de 2012

A minha primeira vez


Era uma soalheira manhã de Primavera, que apelava aos sentidos. Estava trajado a rigor e a custo disfarçava o nervosismo provocado pela ansiedade da minha primeira vez . Na sala havia uma fila de homens à minha frente, aguardando. Muitos eram jovens como eu e não tinha dúvidas que para eles também seria a primeira vez. Tal como eu, disfarçavam o nervosismo contando anedotas e algumas histórias de uma vida ainda com muito para desfiar. Alguns, mais velhos, tranquilizavam-nos.:
"É natural que estejam nervosos, mas vão ver que vale a pena." -avançou um
 "Tomara eu que a minha primeira vez tivesse sido assim"- disse um velhote ao passar por nós. Outro, emigrante, afiançava:" Em França é que é bom!"
Todos olhavam para o meio da sala onde ela se expunha, apelativa, aos nossos olhares gulosos. Era linda e deixava-nos em devaneio cada vez que repousávamos o olhar sobre ela.
À medida que me aproximava e lhe percebia melhor os contornos, imaginava o momento emocionante. Assim que depositasse naquela fenda todo o vigor da minha vontade, iria finalmente aprender a ser homem!
Finalmente chegou o momento. Aproximei-me, trémulo. Uma senhora aparentando 40 anos olhou-me com um sorriso. Estendeu-me um papel e disse-me:
- "Vá até àquela cabine, preencha o papel e volte cá".
Assim fiz. Abeirei-me dela. Olhei-a com enlevo e, num gesto súbito, penetrei-a com vigor, manifestando-lhe o meu desejo e pedindo-lhe para não me desiludir .Quando saí, as pernas tremiam-me.


Tinha acabado de votar pela primeira vez na minha vida!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Maria da Abrilada


Tinham acordado que a primeira filha se chamaria Maria. Nasceu em Janeiro de 1976. A mãe foi peremptória:
- Vai-se chamar Maria de Abril. Foi na véspera do 1º de Maio que a concebemos. Lembras-te, Luís?
O pai, já um pouco desiludido com a revolução, respondeu:
- Qual Abril, qual nada, Julieta. Não quero a miúda ligada a uma revolução que vai fracassar.Vai chamar-se Nádia Maria
Algumas discussões depois chegaram a um consenso.Baptizaram-na Maria da Abrilada.
Há dias, a madrinha insistia com os pais. Estão a ver o que fizeram? Baptizaram-na de Abrilada e agora ela foi para o governo fazer jus ao nome.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O meu 25 de Abril


Pelas seis ou sete da manhã, pouco depois da alvorada, ligo o meu minúsculo rádio de pilhas comprado em Gibraltar e fico atónito com o que ouço. Por entre os acordes de marchas militares e comunicados evasivos, digo ao Zé Calvário:
"Isto é cá dentro, são os gajos da Acção Psicológica a experimentar-nos".
Sabia do que falava e conhecia bem as práticas e proveniências de uma boa parte dos milicianos que então andavam pela Acção Psicológica. O Zé Calvário alvitrou entre dentes que podia ser um golpe da extrema-direita, chefiado por Kaúlza de Arriaga, descontente com as aberturas de Marcelo. Só de pensar na hipótese, assustei-me.
O pequeno almoço foi comido em silêncio, com "cochichos" à mistura. O suspense aumentou à medida que o dia foi passando. O nervosismo era evidente em cada rosto, seguíamos atentamente todas as movimentações, para ver se percebíamos o que estava a acontecer. Da parte da tarde começaram a correr alguns boatos, sendo o mais insistente o de que o Comandante tinha sido preso. Alguém alvitrou que, a ser verdade, não poderia tratar-se de um golpe da extrema-direita. Agarrei-me a essa hipótese de uma forma tenaz. Se não fosse de extrema-direita, só poderia ser o golpe Redentor.
O alferes miliciano , comandante de pelotão, respondia de forma evasiva a todas as questões que lhe colocávamos,enquanto aprendíamos a desmontar, limpar e voltar a montar uma G3.
Só ao final da tarde, quando diante do televisor instalado no bar ouvimos o comunicado da Junta de Salvação Nacional, tivemos a certeza que Marcelo Caetano tinha sido deposto e a ditadura derrubada. Respirei de alívio e, juntamente com outros camaradas, demos azo à alegria companheira de uma bebedeira colectiva que fez esgotar as bebidas.
Havia nomes , naquela Junta de Salvação Nacional, que não incutiam grande confiança, mas as dúvidas quanto à possibilidade de se ter tratado de um golpe da extrema-direita haviam-se dissipado.
No dia seguinte, as dúvidas não ficaram todas esclarecidas. Dentro de um quartel, com a informação limitada , impedidos de aceder aos transistores que apenas emitiam um ruído ensurdecedor ( sem que ninguém percebesse as razões de não ser possível escutar a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português) e a televisão do bar desligada por pretensa avaria, a tensão subia a olhos vistos.
Na manhã do dia 27 foi-nos finalmente comunicado o que se tinha passado. Senti vontade de fugir dali e juntar-me às pessoas que festejavam na rua. Só no 1º de Maio tivemos essa possibilidade. Deixaram-nos sair no dia 30 e eu, em vez de ir para o Porto, onde era suposto uma namorada estar a minha espera, saí disparado para Lisboa. Mergulhei naquela multidão imensa , abracei e beijei centenas de pessoas que não conhecia e acabei com meia dúzia de amigos a comemorar no único restaurante que devia estar aberto em Lisboa naquele dia, a comer umas omoletas feitas por especial favor por se tratar de jovens militatres.
(Não recordo o nome, lembro apenas que fica junto ao Hotel Rex e ainda existe)
Nunca vi - e provavelmente nunca voltarei a ver- uma manifestação como a do 1º de Maio de 74. Foi a coisa mais inesquecível e inebriante que se me ofereceu viver em toda a vida.
Foram dia felizes os que se seguiram. O pior, está a ser este despertar do sonho…

terça-feira, 24 de abril de 2012

Antes do Adeus- 2



O dia 24 de Abril estava cinzento e uma chuva miudinha caía sobre a parada. Os instruendos que na véspera tinham arribado a Mafra permaneciam sentados, devidamente fardados. Entreolhavam-se, com um misto de curiosidade e expectativa, aguardando alguém que lhes viesse dar as primeiras ordens.
Em todos o nervosismo era evidente mas, de quando em vez, alguém soltava uma graçola que aliviava o ambiente. José Calvário era um dos mais descontraídos. Já estivera em Mafra uns meses antes, mas não pudera concluir a recruta por razões que já não recordo. Em contraponto o meu amigo João Durão, sempre com uma graçola na ponta da língua e que fora o grande animador da nossa viagem até Mafra, perdera todo o sentido de humor desde o momento em que entráramos no quartel. O seu rosto fechara-se num esgar de mágoa indisfarçável.
Seriam talvez umas 10 horas quando apareceu um alferes que nos mandou reunir em círculo e fez uma palestra, esclarecendo as regras do jogo a partir daquele dia. Estranhei-lhe o olhar vago, detectei-lhe algum alheamento ( ou seria impaciência mal disfarçada?) e uma afabilidade no trato de que não estava à espera.
Quando nos mandou formar e depois dar umas voltas à parada em passo de corrida moderada, não pensei mais no assunto.
Chegou a hora do “rancho” ( imprestável) e comecei a interrogar-me como iria viver três meses com aquela dieta. Como toda a gente, trouxera mantimentos para as horas de aflição, mas pela amostra não me parecia que fossem suficientes até ao fim de semana, altura em que esperava regressar a casa e proceder ao reabastecimento.
A tarde, salvo as tímidas tentativas do Sol a tentar romper o céu plúmbeo, foi idêntica ao período da manhã, mas às 4 da tarde mandaram-nos destroçar e fomos para a caserna esperar pela hora do jantar. No caminho perguntei ao Zé Calvário se aquilo ia ser sempre assim. Respondeu-me com um evasivo “Não” onde entrevi, oculta, alguma inquietação. Meia hora depois não conseguia suportar a caserna e saí. Ninguém correspondeu ao convite para me acompanhar. Sem conhecer ainda os cantos à casa e algo receoso de me perder naquele emaranhado labiríntico de corredores despidos, fui tacteando o caminho, sempre com o cuidado de colher referências que me facilitassem o regresso.
Quando passei por um telefone, que me olhava espantado nas arribas de uma parede tão nua como as palmas das minhas mãos, tive um impulso pouco habitual. Peguei no auscultador e disquei o número de casa. Ainda hoje não sei explicar porque o fiz. A surpresa da minha mãe, quando atendeu, foi igual à minha. Por que raio estava eu a telefonar, se estava habituado a passar semanas fora do país, sem dizer “água vai”?
Disse que estava bem e que aquilo afinal era uma treta, porque tinha passado o dia sem fazer mais nada, para além de aprender a formar e dar umas voltas à parada em passo de corrida. A conversa foi breve.
( Ainda hoje, a minha mãe pensa que eu sabia o que se estava a preparar e que o meu telefonema era um código que inventara à pressa, para que estivessem sossegados).
Quando regressei à caserna eram horas de jantar. Alguns comeram com prazer, mas eu fiquei ali especado a olhar para eles, interrogando-me como era possível tragar aquela mixórdia.
Pouco depois, ouviu-se o toque a recolher. ( A cerimónia dos toques é uma coisa que se aprende com facilidade, digo-vos eu, um ouvido duro e pouco familiarizado com a música).
Quando estava a pronto para trepar para o “beliche”, uma simpática ratazana veio-me dar as boas noites, atravessando os lençóis em rápidos salamaleques. Impávido, correspondi com um aceno. Estava a habituar-me ao ambiente, pensei, antes de adormecer como um justo até à Alvorada Gloriosa que rebentaria com os açaimes da ditadura e nos devolveria a esperança e a Liberdade!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Antes do Adeus -1

Faz hoje 38 anos que este jovem mancebo se apresentou em Mafra para cumprir o serviço militar. Tal como está na imagem. Sentia-me uma espécie de Egas Moniz, por isso decidi conceder ao barbeiro de serviço o prazer de me depilar. Quando me apresentei tinha a certeza absoluta de que não iria bater com os costados em África mas estava longe de imaginar que, 48 horas depois, iria viver "por dentro" o 25 de Abril. Sobre as 48 horas que se seguiram e o que vivi dentro da Escola Prática de Infantaria, postarei amanhã e quarta-feira.

domingo, 22 de abril de 2012

Uma profissão com futuro


Hoje* encontrei no metropolitano um par de namorados sub-25 com QI abaixo dos 30.
Não conhecem o género? Então eu explico…Ele veste jeans coçados e usa o cabelo em pontas, empastelado de gel. Quando se senta no metro, põe os ténis ( ou as botas da tropa do irmão mais velho) sujos de lama, no banco da frente, para desmotivar alguém que pretenda ocupar o lugar.
Ela usa collants de cor garrida e uma pequena tira de pano em volta da cintura a fingir de saia, coloca os pés em cima do colo dele e envolve-lhe o pescoço com os braços, para não o deixar fugir.
Ambos mascam chiclets enquanto falam. Ela começa as frases sempre com “Ó Môreeeee!” em tom de barítono e ele responde-lhe em contralto: “Fala mais baixo C……”
Agora que já identifiquei o género, passo ao relato.
Sentei-me em frente dela, desejando que não tivessem trocado de lugar antes de eu entrar e comecei a ler o Metro, sem prestar atenção à conversa deles. Pouco tempo depois , a voz dela eleva-se e pergunta:
“Ó Môreeee! Quantos SMS envias por dia?”
Percebi logo que estava a ler o meu jornal ( a noticia de capa era “ Cada jovem envia 235 SMS por dia” )e decidira comentá-lo em voz alta. Ele não parecia interessado na réplica, por isso respondeu com ar de enfado:
“Sei lá C……. Não faço contas a essas m….”
Ela mudou de assunto:
“Ó Môreeee!” os Xutos fizeram anos ónte…”
Percebi que tinha acabado de ler a primeira página e suspirei de alívio. Na estação seguinte, ele saiu. Trocaram um Chuak sonoro e ela disse-lhe em tom de despedida:
“ Môreee, telefona-me quando chegares ao Cól Centre”
Ecoaram-me, sibilinas, as palavras de Sócrates na inauguração de um “call center “ em Santo Tirso: “Trabalhar num call center é um emprego de futuro”.
Pensei para os meus botões:
“Atão num é, Môreee!”


*Na verdade a cena passou-se em 2009 e já tinha publicado no CR, mas reproduzo-a aqui com outro título, porque a maioria dos leitores não a terá lido

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Entre fadas e duendes


Eu estava profundamente interessado no relato, mas a beleza da paisagem fazia-me por vezes desviar o olhar que se perdia ao longe nas águas dos lagos de Epuyen,  sem  contudo perder o fio à meada.
Talvez por pensar que a narrativa se estava tornar fastidiosa, Lihue elevou a voz e sublinhou com ênfase:
Co-mo já per-ce bes-te!… 
Fez uma pausa, assegurou-se que eu o voltara a fitar olhos nos olhos e prosseguiu:
"os funcionários estavam interessados em inventar bandidos onde eles não existiam, pois isso permitia-lhes tomar posse de parte das terras de onde os índios eram expulsos. Foi assim que surgiram lendas sobre muitos bandidos que nunca dispararam um tiro, gente pacífica apenas interessada em viver em paz e sem a presença dos funcionários por perto.
Maria Ancapichún tinha tudo para ser detestada pelos funcionários. Denunciou muitas ocupações feitas com base em factos falsos, conseguindo ser ouvida por alguns funcionários mais escrupulosos que, embora fossem defensores da expulsão dos índios, pugnavam pela verdade. Assim, muitos funcionários viram inviabilizada a tentativa de se apoderarem de terras e, sempre que isso acontecia, eram enviados para Buenos Aires, proibidos de voltar a Chubut.
Maria tinha terras  suficientemente vastas para manter  os 12 filhos à sua volta. Sempre que um casava, todos se uniam na construção de uma casa para o casal, suficientemente grande  para albergar uma prole tão numerosa como a que ela e o gringo tinham procriado..."
 Mas como é que ela conseguiu as terras? perguntei a Lihué não só para satisfazer a minha curiosidade, mas também para demonstrar que permanecia interessado na narrativa. Propositadamente, quando fiz a pergunta, tinha os olhos fixos no horizonte mostrando, assim, que não era paisagem que me desviava das suas palavras.
"...Como já te disse, o gringo vivia da apanha do ouro e com o produto da venda foi comprando terras, mas também alguns dos que ela defendeu, denunciando os abusos dos funcionários, lhe legaram algumas em testamento, autorizando-a desde logo a ter o usufruto de uma pequena parte. 
Bem , mas deixa-me terminar, porque estou quase a chegar ao fim. 
As terras despertavam muita cobiça dos garimpeiros, funcionários e até de alguns índios Tehuelche  que a viam como uma intrusa na  região. Por isso, quando o gringo morreu daquela forma misteriosa, alguém pensou que acusá-la seria uma forma expedita de ficar com as terras. 
Como já te disse não havia provas, mas a justiça em Chubut e Rio Negro não era feita por burocratas. O povo decidia. E decidiu que ela era culpada e condenou-a à morte por enforcamento, uma prática que não era nada comum na Patagónia, mas que foi sentenciada para fazer querer que seria a vingança do gringo.
No dia da execução, quando Maria estava a ser conduzida ao cadafalso improvisado dentro das suas próprias terras, apareceu em grande cavalgada o cavalo branco do gringo. Na desfilada derrubou dois algozes e Maria, com a sua força bruta, derrubou os outros dois à chapada, fugindo a galope na garupa do cavalo que sobrevivera à morte do marido..."
E para onde foi ela?- perguntei.
"...Não se sabe ao certo. Uns dizem que se juntou aos guerrilheiros , mas é pouco provável que seja verdade, pois nessa altura a resistência mapuche aos espanhóis já estava quase no fim e ela sabia que não seria a luta armada a libertar o nosso povo.
Acredito mais em quem defende  que foi para El Bolsón, onde o gringo foi sepultado e por lá terá morrido, amaldiçoando os seus algozes.  Quando estiveres em El Bolsón, contar-te-ão histórias dela e de uns duendes da região que a acolheram. Descobre por ti próprio…"
A tarde aproximava-se do fim. Agradeci a Lihué os bons  momentos que me proporcionara e afiancei-lhe que nunca mais ia esquecer a história de Maria Ancapichún.
"Mesmo que não fixes a história, o importante é que percebas que, na Patagónia, uma história se conta sempre como um poeta. Só assim serás feliz por aqui e poderás desfrutar desta terra".
Enchia o cantil e preparava-me para as despedidas, quando Suyai  se aproximou. Trazia umas tortas fritas, empanadas de enchidos e queijos, embrulhados numa alvíssima toalha.
"Leva para o caminho. E se quiseres uma cerveja artesanal, também tenho, feita por mim, mas não trouxe porque não é bom beber cerveja enquanto se caminha. É boa à noite, quando estamos à lareira a ouvir histórias."
Agradeci, despedi-me respeitosamente de Suyai, evitando qualquer contacto desrespeitoso para os princípios mapuches e troquei um longo abraço com Lihue. 
“ Quando voltares passa por cá. Comemos um cordero assado ou uma lebre”
Adeus amigo. A Patagónia já me conquistou!
Regressei à pequena estalagem onde me hospedara,  exausto. Comi o resto do farnel  acompanhado de uma cerveja artesanal e dormi o sono dos justos. Durante a noite sonhei com fadas e duendes. Entrara, definitivamente, no espírito da Terra das Mil Lendas.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

O gringo do cavalo branco


( Continuado daqui)

Começava a soprar mais forte a brisa patagónica. Recostei-me na cadeira, com a cabaça na mão, acendi um cigarro e sorvi mais um gole de mate.
Só então Lihue começou a sua narrativa:
“ Os primeiros viajantes que chegaram à Patagónia , no final do século XIX, eram aventureiros que vinham em busca de desafios.  A ideia de que por aqui habitavam índios ferozes com dois metros e que a Patagónia era a terra do Diabo, eram motivos suficientes para despertar a curiosidade dessas pessoas. Só mais tarde perceberam que os índios Tehuelche não eram assim tão ferozes nem tão altos como os imaginavam e que o Diabo, se existe, nunca escolheria uma terra tão fria e agreste para viver. 
Por esse tempo, chegou a Chubut um tipo bizarro. Media quase dois metros, pesava mais de cem quilos, falava um espanhol arrevesado com um sotaque estranho, e usava expressões que ninguém entendia. Vinha do Chile, mas rapidamente correu a notícia de que era a reincarnação de Gualitchu, o deus do Mal dos Querandies, índios sedentários  que habitavam nas margens do Rio de La Plata. Segundo contam os seus descendentes, a razão de lhe terem atribuído essa origem divina  devia-se ao facto de o homem ser mau como uma  jibóia. Adorava briga, andava sempre armado com dois revólveres prateados junto às coxas e nunca falhava um tiro, o que fez dele uma personagem temível.
Na verdade o tipo  era um gringo que veio cá parar não se sabe como, mas de certeza que em busca de aventura não vinha. Deambulou pelo Chubut durante uns tempos, montando um cavalo branco, e acabou por se fixar  em Esquel, a poucos quilómetros da casa onde viviam Butch Cassidy e Sundance Kid. 
Há quem diga que ele veio para cá contratado pelos gringos, com o fito de prender ou matar Butch Cassidy, mas se esse era o seu propósito, nunca o concretizou. E não foi por falta de oportunidade, pois muitas vezes foi visto na companhia dos dois bandidos.
O que se sabe é que  o gringo,  depois de em várias rixas ter comprovado ser tão humano como nós, gostava de beber e de jogar e por isso passava a vida nas tabernas. Chegava, pousava os revólveres em cima da mesa, pedia um jarro de vinho e desafiava os presentes para jogar Tranca. Assim passava horas intermináveis, pois só abandonava a mesa do jogo quando se acabava o vinho, ou os companheiros de jogatana.
Quando não estava a jogar e a beber ia para as margens dos rios  em busca de ouro. Uma tarde, no Parque Nacional de Los Alerces,  viu uma mulher tão grande como ele a quem dirigiu a palavra.
 Maria Ancapichún- assim se chamava a mulher- era uma índia mapuche , muito bela, mas também com muito mau feitio. A verdade é que casaram e tiveram doze filhos. O mau feitio de Maria dominava o do gringo e não eram raras as vezes em que entrava na taberna, interrompia o jogo e dizia:
- Ele não se demora. Só me vai fazer um filho e volta já.
Se alguém protestasse, Maria Ancapichún respondia-lhe com um par de bofetadas. Depois , pegava o gringo por um braço e lá iam os dois, sem que o valentão ousasse dizer palavra.
Não te sei dizer se todos os filhos do casal foram feitos assim, mas sabe-se que teve 12 e a filha mais nova, ainda viva, tem muita descendência espalhada pela Patagónia.

Um dia o gringo apareceu morto junto à margem do rio Corcovado. Todos suspeitaram  ter-se tratado de vingança de um garimpeiro e a coisa assim teria ficado, se não tivesse havido alguém que denunciou Maria Ancapichún como autora do crime.  Não se encontraram provas e ainda hoje ninguém acredita que ela tivesse cometido um crime porque, apesar do mau feitio, era uma mulher extremamente bondosa e amava o gringo.
Por essa época, as terras dos índios começaram a ser ocupadas. A Buenos Aires chegavam diariamente relatos de atrocidades cometidas pelos índios, gente sem moral e sem lei, que andava a semear o pânico. Funcionários corruptos criaram, nas elites da capital, uma imagem da Patagónia como terra  sem lei onde campeva o banditismo, pelo que era preciso estabelecer a Lei e a Ordem a fim de evitar que os índios ocupassem território que não lhes pertencia. 
Claro que o objectivo destes funcionários era apropriarem-se  de algumas dessas terras e expulsar os índios. Em Buenos Aires, os relatos destes funcionários eram acompanhados por notícias de jornais  que confirmavam o terror  instalado pelos índios.  Muitas notícias relacionavam a violência com Maria Ancapichún, acusada de ser a mentora e chefe de um perigoso grupo de bandoleiros.
 Não sei se as elites argentinas – que nunca tinham pisado território patagónico - confiavam muito nas notícias que lhes chegavam, mas é certo que se aproveitaram delas, para aplicarem o seu plano de conquista de terras aos índios.
Fizeram então uma lei que determinava a possibilidade de expulsão dos índios  das suas terras, sempre que homens imbuídos de civilização e progresso fossem obrigados a ocupar as terras para impedir os actos de banditismo". 
( Conclui no próximo post)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Palavras loucas, orelhas moucas...



Viajo no Alfa Pendular, sentado naqueles  lugares incómodos que nos colocam frente a frente com pessoas que não conhecemos, durante  quase três horas. 
Um  homem já entrado nos 40 dá conselhos sobre higiene  alimentar à mulher que segue a seu lado. Ela estará perto dos 30, tem corpo de geração fast-food.  
“Comer pouco depois das 18 horas. Não tomar café, nem beber bebidas alcoólicas  depois das 19 e não fumar três horas antes de  deitar.”
São quase sete da tarde. Passa a funcionária com o carrinho “chá, café ou laranjada”. A mulher faz-lhe sinal de paragem. Pede um Sumol de laranja, um croissant com queijo e fiambre e um queque. 
O homem olha-a de soslaio.  Ela esboça um sorriso. Toca o telemóvel dela:
“ Sim, Mãe, conta comigo para jantar!”.
O homem  coloca os headphones e recosta-se na cadeira. Ela come com visível gosto. Lança-me um sorriso cúmplice, pedindo aprovação.
Seguimos em silêncio até ao Porto. Posso, finalmente, concentrar-me na leitura.

domingo, 15 de abril de 2012

A menina das troncas


Há uns meses, na tertúlia semanal sobre o século XX que oriento para um grupo de jovens, perguntei se algum deles sabia quem era a menina das troncas.
Houve sorrisos, gargalhadas e um mais atrevidote adiantou:
-  Deve ser a Beatriz. Tem umas bem boas!
Lá tive então de esclarecer que a menina das troncas era a quem ligávamos para pedir  uma chamada interurbana, mas nunca soube se alguma delas tinha belas pernas. Algumas tinham vozes maviosas, mas isso nada assegurava quanto aos predicados dos membros locomotores.
Gargalhadas!
“ O que é isso de chamada interurbana?”
Foi então tempo de explicar que, em tempos não muito recuados, quando se queria ligar de uma cidade para outra, as chamadas não eram automáticas como hoje. O pedido tinha de ser feito através de um número específico ( o 9, se a memória não me falha), atendido por uma voz feminina a que se chamava “menina das troncas”. O nome tinha uma razão de ser, mas seria fastidioso  estar aqui agora a explicar. 
Quando disse aos jovens que por vezes era preciso esperar algumas horas para estabelecer uma ligação entre Porto e Lisboa e que no caso de a chamada ser urgente, tinha de se pagar um suplemento de 50% sobre o custo da chamada, um bruáa percorreu a sala e instalou-se um enorme borborinho. Senti-me como um dinossauro que tivesse acabado de entrar num centro comercial!
Aproveitei a confusão para apreciar as trancas da Beatriz e confirmar, graças à generosidade do seu gesto que lhe levantou a saia até bem ao meio da coxa, que na realidade eram de qualidade apreciável. 
As perguntas que se seguiram sobre os sistemas de comunicação nos anos 50 e 60, proporcionaram-me alguns momentos de prazer. Afinal, ser velho não é assim tão inútil como alguns pensam. O importante é encontrar os interlocutores certos.



quinta-feira, 12 de abril de 2012

Mozart na Rua Augusta



Há já uns meses que Mozart mora na Rua Augusta. Porque os tempos estão difíceis e a música erudita já não dá para ganhar para o sustento, vai fazendo pela vida deixando-se fotografar a troco de umas moedas. Que não pede explicitamente, mas que nenhum turista rejeita na hora de captar um momento da sua passagem por Lisboa.
Há dias, deambulando pela cidade sem destino certo, demorei-me algum tempo a observá-lo. Os turistas afluíam a bom ritmo e as moedas tilintavam. Ele agradecia.
A determinada altura, aproximou-se uma portuguesa. Pediu para o fotografar. Ele acedeu com o mesmo sorriso que dispensa a qualquer turista. A senhora, idade pós-reforma ainda recente, fotografou-o de vários ângulos.  Afastou-se para ver na câmara digital o resultado do seu trabalho, que mostrou ao homem que a acompanhava. Recebeu um aceno aprovador. Dirigiu-se novamente ao Mozart  e perguntou-lhe se podia tirar uma fotografia com ele. A anuência foi imediata. Um, dois, três, olhó passarinho! click… já está. Só mais uma.
A senhora afastou-se para ver o resultado. Aprovado. Acenou ao Mozart em jeito de despedida, murmurou um obrigado e seguiu em frente, rumo ao Terreiro do Paço.
Mozart continuou impávido. Já deve estar habituado a dar borlas aos tugas.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Solidões

Ainda não estava em casa há uma hora, quando o telefone tocou
-Então, passaste um bom dia?
-Sim. E tu?
- Estou aqui sozinha...
-Mas eu estive aí a almoçar contigo, Mãe.
( Pausa do lado de lá da linha...) 
-Pois estiveste, mas já te foste embora e agora estou aqui sozinha...

domingo, 8 de abril de 2012

Amores de Abril



Era uma bebé linda. Primeira filha e neta era o orgulho da família, que não se cansava de exaltar a sua beleza e inteligência.
 Na escola primária, Cátia Janine não se destacava apenas pela originalidade do nome que fez o padre Roberto tossir duas vezes e olhar de soslaio os pais, no dia do baptismo. Era também excelente aluna. Tinha dificuldade em fazer amigas, porque era egoísta e recusava qualquer colaboração com as colegas, mas a sua dedicação aos estudos e o seu ar franzino,  contribuíram para cativar a professora que sempre a apontava como exemplo a seguir.
No liceu, Cátia Janine começou a mudar. Aos 12 anos o seu rosto angelical começou a transformar-se e a beleza de criança deu  lugar a uma fealdade extrema, que haveria de carregar durante o resto da vida.
Entrou na Faculdade de Direito com média elevada, mas com poucos amigos. Nos convívios semanais nunca ninguém a convidava para dançar e, se algum rapaz se aproximava dela, era para tentar obter algum proveito do seu saber académico.
Aos 28 anos Cátia Janine era  assistente na Faculdade de Direito, mas nunca acariciara o corpo nu de um homem, nem desfrutara a volúpia do amor. Sentia-se amargurada e um dia desabafou em pranto com a tia Esmeralda, senhora de grande Fé, que intercedeu junto do padre Roberto para que arranjasse um companheiro para a sobrinha.
O bom do padre, sentindo-se devedor dos favores sexuais que Esmeralda lhe prestara em tempos recuados, recomendou um responso a Santo António como receita para resolver o problema de Cátia Janine.
Durante os 31 dias do més de Março, Esmeralda fez o responso  seguindo  todos os preceitos aconselhados pelo padre Roberto.
No primeiro dia de Abril, que os pagãos dedicam à Mentira, Cátia Janine  passeava sozinha pelas margens do rio da sua terra natal. Como companhia, apenas códigos e processos. A tarde estava amena e o sol brilhava num esplendoroso céu azul. Sentou-se junto à margem, desfrutando os favores da Natureza , desperta pelas cores da Primavera, mas a determinada altura rebentou num pranto contido, lamentando interiormente a sua infelicidade e a desdita de não ter ninguém com quem desabafar.
O coaxar de uma rã despertou-lhe a atenção. Aproximou-se mais do rio, pegou no animal e começou a acariciar-lhe a pele sedosa. Inopinadamente, sem que encontrasse explicação para o seu impulso, beijou a rã que, acto contínuo, se transformou num homem alto e espadaúdo.
Cátia Janine lembrou-se que nas histórias que lera na infância, estes momentos de comunhão entre humanos e animais  terminavam com casamentos felizes, precedidos de agradecimentos intermináveis, por parte do príncipe libertado. Por isso estranhou o ar mal humorado do homem alto, loiro e de olhos azuis quando a enfrentou nos olhos e disse:
- Que raio de azar o meu!
Cátia Janine reprimiu a custo as lágrimas, afivelou mesmo um sorriso e perguntou:
- Porque  dizes isso? Sou assim tão feia?
 O homem alto, loiro e de olhos azuis pigarreou, disfarçou como pôde e respondeu:
- Não, não é nada disso. Estava cá a pensar na minha vida e nem pensei no que disse.
-Como te chamas?  - perguntou Cátia Janine um pouco mais animada , mas ainda não convencida.
-  Alain.
- Então és francês?
- Claro que sou francês. Fiquei  gravemente ferido  na batalha de Austerlitz, ao serviço de Napoleão e, para evitar a morte, aceitei converter-me numa rã, na esperança de que alguém me libertasse e voltasse à vida. Tu salvaste-me e vou recompensar-te. O que queres que faça por ti?
- Quero que cases comigo!
- Está bem. O que tenho de fazer?
- Nada. Eu trato de tudo, está descansado.
Nesse mesmo dia, Cátia Janine apresentou o seu futuro marido à tia Esmeralda que,  feliz, correu para a Igreja , na ânsia de comunicar ao padre Roberto os resultados da sua miraculosa receita.
O padre Roberto andava no Compasso, estendendo a cruz aos fiéis para que a beijassem. Em cada casa que entrava,  bebericava um cálice de porto , metia umas amêndoas ao bolso e depenicava um bocado de pão de ló.
Quando regressou à Igreja, cambaleante, viu Esmeralda que de sopetão lhe contou a história da sobrinha.
O bom do padre Roberto explodiu numa gargalhada, mas rapidamente emendou a gaffe perguntando:
-E para quando é o casório?
Trinta dias depois, num primeiro de Maio que ainda não era feriado, mas apenas pretexto  para a polícia exercitar os músculos cascando em alguns trabalhadores que ousavam manifestar-se e os agentes da PIDE fazerem horas extraordinárias, o padre Roberto declarava Cátia Janine e Alain de Rochefort marido e mulher, unidos para sempre pelo sagrado sacramento do matrimónio.
O casamento, na verdade, nunca chegou a consumar-se segundo os preceitos  do direito romano, pois Alain gostava mais de repartir o leito com camaradas de armas, do que com Cátia Janine. Noites sucessivas, Cátia Janine  ficou acordada à espera da chegada de Alain. Debalde. Enquanto a professora esperava, o garboso soldado de Napoleão passeava-se no Conde Redondo ou assentava arraiais em bares de travestis em busca de algum que lhe saciasse a volúpia dos prazeres da carne. Quando chegava a casa, invariavelmente bêbado, já  a mulher se entregara a  Morfeu,  o único que noite após noite lhe não recusava um abraço de aconchego.
O tempo foi passando e o sorriso de Cátia Janine voltou a fechar-se. Andava  mais amargurada do que dantes e perdera qualquer esperança em seduzir Alain. Entregou-se afincadamente ao trabalho e, numa manhã de Abril do ano seguinte, despertou  ao som de marchas militares. Alain já saíra de casa. Ela seguiu-lhe o exemplo.  Deambulou sozinha durante uns minutos, mas rapidamente se viu rodeada de pessoas que a abraçavam e beijavam. Cátia Janine, até então alheia à política, sentiu um frémito revolucionário nunca antes imaginado. Durante três dias não pôs os pés em casa, não pensou em Alain, marimbou-se para a desdita amorosa e na manif do 1º de Maio, desfilou de braço dado com pessoas que nunca vira, entoando Vivas à Liberdade e Abaixo o Fascismo.
O seu tempo passou a ser vivido entre a Faculdade e um minúsculo partido de extrema –esquerda a que aderira, embora nem sequer conhecesse o seu programa. As noites estendiam-se até de madrugada, prenhas de fervor militante,  ajudou a pintar murais e afixou cartazes.  Em noites de bebedeira experimentou finalmente as volúpias do amor, mas sem saber destrinçar o perfume dos corpos, do odor etílico que se desprendia das bocas que a beijavam.
 Numa tarde de Novembro, à porta do RALIS, percebeu que tudo ia mudar. E mudou. Cátia Janine  percebeu que tinha de agir depressa. Desvinculou-se  do partido e procurou outro que lhe pareceu estar mais talhado para as tarefas governativas. Embora fosse inteligente, faltava-lhe a perspicácia política, por isso foi progredindo lentamente.
 O fervor militante esvaíu-se há muito. A sua experiência sexual não lhe deixou saudades e a vida amorosa é inexistente, embora continue a partilhar a mesma casa com Alain, que desaparece  durante longos períodos, embeiçado por um jovem a quem compra momentos de prazer.
Cátia Janine é uma mulher frustrada, mas recusa-se a admiti-lo. Tem apenas um objectivo: vingar-se dos homens. Pôde cumprir o seu desejo, quando chegou a directora-geral Entregou todas as chefias a mulheres da sua confiança política e desembaraçou-se dos homens que lhe pudessem colocar entraves no caminho.
Cátia Janine julga-se uma mulher feliz. Não é. A frieza do seu olhar, a aspereza do seu relacionamento, a dureza da sua conduta,   espelham a frustração que a invade , mas tenta  disfarçar exercendo o poder de forma despótica .

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Pepe e a maldição das medialunas


A primeira vez que fui à Argentina, a vida era muito cara para um europeu  e, muito mais, para um português que à época nem sequer imaginava a hipótese de poder vir a manusear uma nota europeia, em circulação apenas nos países ricos. 
Na busca de um alojamento  central relativamente barato, aportei a um  hotel na Avenida de Mayo, propriedade de um galego há várias décadas emigrado, tão sovina como um escocês. Ficámos amigos, depois de longas conversas  ao pequeno almoço, enquanto comia umas minúsculas, mas deliciosas medialunas feitas pela mulher e que  durante alguns anos classifiquei como as melhores que se podiam comer em Buenos Aires.
Apesar da sua sovinice, Pepe autorizava-me a comer  mais do que as duas medialunas  regimentais que faziam parte do pequeno almoço, em troca de dois dedos de conversa que tinham como alvo preferencial a sua Galiza.
Nos dois anos seguintes voltei a hospedar-me no Hotel Avenida e mesmo quando o troquei por um hotel mais moderno e confortável na Suypacho, continuei a visitar o meu amigo Pepe e a tomar um  longo pequeno almoço, pago com narrativas  frescas da Galiza.
Não sei se por hábito, ou superstição, no dia de regressar a Portugal  ia sempre despedir-me dele. Entregava-me um cartão com a sua morada na Galiza e dizia-me:
"Quando vuelvas acá yo estaré en Galícia. Si quieres medialunas, vá a visitarme aya, coño!"
Esta frase, repetida durante quase duas décadas,  funcionava para mim como um talismã. Acreditava que no  dia em que Pepe não a pronunciasse,  isso significaria que não  voltaria à Argentina. 
Na última ida  a Buenos Aires,  não encontrei o Pepe. Tinha finalmente regressado à Galiza, mas tinha-me deixado um  bilhete com a sua morada, os seus contactos e a recomendação habitual, a que acrescentou uma frase em português:
“ Enquanto não me fores visitar, não voltas a Buenos Aires!”.
Quando regressei a Portugal  telefonei-lhe e prometi-lhe uma visita em Março, mas  não pude concretizar esse meu desejo. Reprogramei a visita para Maio, depois de regressar da Argentina, para onde tencionava partir no próximo dia 19. 
“ Vais à Argentina sem me vires visitar? Não acredito! Queria pedir-te que me levasses uma encomenda para os meus netos…”
Disse-lhe que me podia enviar a encomenda por correio para Lisboa ou para o Porto e eu me encarregaria de a levar.
Pepe recusou a sugestão, dizendo que ele próprio se encarregaria disso.
Na sexta-feira soube que afinal a viagem não se iria realizar, ficando adiada para Novembro. Logo que recebi a notícia, telefonei ao Pepe. 
“ Foi maldição tua, coño?”- perguntei-lhe com uma risada esforçada...

domingo, 1 de abril de 2012

Nouvelle cuisine



Não sou  grande apreciador da nouvelle cuisine. Apesar de cultivar uma alimentação frugal e adequada à idade, sou  mais de sarrabulhos, feijoada à transmontana ou favas com entrecosto, quando amesendo com  amigos em prolongado convívio.
No entanto, como (quase) todos os homens, sou fraco perante os exóticos gostos das mulheres e  por vezes concedo visitar esses altares da gastronomia, cedendo ao apelo de vozes femininas a quem estes locais onde o preço de uma refeição é inversamente proporcional ao da quantidade  de comida que nos colocam no prato, agrada sobremaneira.
Tal como acontece com os títulos nobiliárquicos e a avaliação dos produtos tóxicos pelas agências de rating,  nestes restaurantes onde se fala em surdina e  os empregados nos rodeiam  a mesa como se estivessem a executar um bailado em pontas, enquanto decantam o vinho,  o nome dos pratos também é determinante para a elaboração do preço. Já aprendi, por isso, que quanto mais sofisticado for o título do prato colocado na coluna da esquerda das ementas, mais  desproporcionada será a relação qualidade preço fixada na coluna da direita.
Apesar de ser uma pessoa mais ou menos familiarizada com os segredos da culinária, não foram  raras as vezes em que já me senti tentado a propor a existência de um glossário acompanhado as  ementas, para evitar  o incómodo de perguntar ao empregado:
“ Desculpe, mas o que é isto de línguas de fettucini com repas de suíno em couli de frutos silvestres?”
Não é que não me tivesse passado pela cabeça que a tradução correcta fosse “ pasta com presunto,  ensopada num molho agridoce”, mas nestas situações gosto sempre de confirmar, se  um prato daqueles vale mesmo 25€!
Bem, mas neste restaurante a que fui atraído pelos pedidos dengosos de Marlene Vanessa, a tradução até nem era difícil. Havia, por exemplo,  “ O prato que a Branca de Neve serviu aos 7 anões”*, que a Ana Zannatti me ensinou a confeccionar  nos longínquos anos 80 e que por vezes reproduzo fielmente, para  impressionar alguns convivas que aportam ao meu rochedo.
Também não tive dificuldade em interpretar  o significado de “ Cama de borreguinho  em almofada de cítricos e lençol de frutos do Atlântico”. Não me pareceu nada módico que me cobrassem 20€ por um bocado de borrego  recostado sobre uma rodela de laranja com sumo de limão e coberto por umas rodelas transparentes de ananás dos Açores” mas, à falta de alternativas que me fizessem explodir no palato as excrescências salivares, foi este o prato que escolhi.
Já a Marlene Vanessa escolheu, sem hesitações,  “Espuma de ruibarbo e rabano com espargos salteados, alcachofra, portobellos e tomate cereja”. Não sei se a escolha teve a intenção de me provar os seus conhecimentos da nouvelle cuisine, ou foi motivada pela sua aposta numa dieta que lhe permita  manter firmes as curvilíneas formas  que, a cada passada,  parecem  indecisas entre saltar da blusa prudentemente desabotoada no topo, ou pela generosa racha da saia que permitia antever o prazer do pecado da carne.
Sei, é que Marlene Vanessa recusou o “amuse bouche”  de anchovas  de escabeche com raspas de tomate, cebola  e coentros, que nos serviram para amenizar  a espera e invocar o néctar de Baco, criteriosamente por mim escolhido. Exibindo os conhecimentos adquiridos na Faculdade de Medicina –  que garante  aplicar nas dietas nutricionais prescritas aos seus pacientes-  Marlene teceu uma longa dissertação sobre os malefícios das anchovas para a pele que  apenas me despertaram o apetite para abocanhar a dose dela. Porém, o recato que um homem deve ter nestes locais inibiu-me de o fazer e, se lamentei não estar a jantar no tasco do senhor Alexandre, para deixar a gula em roda livre, logo me reconfortei ao pensar que outros pitéus me poderiam estar reservados para mais tarde.
O jantar decorreu naquela conversa pisca-pisca  que deixa sempre no homem a dúvida de estar a ser  cana de pesca  ou isco para o anzol.  Quando, no momento de pedir o café, sugeri um digestivo, Marlene Vanessa  colocou o duque de trunfo na mesa, cortando-me a manilha de copas:
“ Já é um bocado tarde e gostava que fosses lá a casa para me dares a tua opinião sobre dois quadros que comprei no fim de semana. Podíamos tomar lá o copo. Que te parece?”
Neste momento, se o protagonista masculino fosse Santana Lopes, talvez tivesse pensado que estava a ouvir o tão famoso concerto  para violinos de Chopin , mas como eu sou pessoa buçal e de gostos simples apenas pensei: “Que se lixe! Quero lá saber se sou cana ou isco…o importante é que haja pescaria!”.
E foi assim que, a pretexto de apreciar duas obras de arte, algumas horas mais tarde estava a apreciar pormenorizadamente os relevos de uma outra que não vinha no catálogo, mas tinha a preciosa vantagem de falar e ser sensível ao toque.
Deitado na cama perfumada  de Marlene Vanessa,  não senti falta dos lençóis de frutos dos Açores, nem da almofada de cítricos. Lembrei-me apenas da Branca de Neve e das vantagens da “nouvelle cuisine”.

*“ O prato que a Branca de Neve serviu aos 7 anões” é um gratinado onde o ingrediente base é o queijo da serra. Ou melhor dizendo, a casca...

Nouvelle cuisine



Não sou  grande apreciador da nouvelle cuisine. Apesar de cultivar uma alimentação frugal e adequada à idade, sou  mais de sarrabulhos, feijoada à transmontana ou favas com entrecosto, quando amesendo com  amigos em prolongado convívio.
No entanto, como (quase) todos os homens, sou fraco perante os exóticos gostos das mulheres e  por vezes concedo visitar esses altares da gastronomia, cedendo ao apelo de vozes femininas a quem estes locais onde o preço de uma refeição é inversamente proporcional ao da quantidade  de comida que nos colocam no prato, agrada sobremaneira.
Tal como acontece com os títulos nobiliárquicos e a avaliação dos produtos tóxicos pelas agências de rating,  nestes restaurantes onde se fala em surdina e  os empregados nos rodeiam  a mesa como se estivessem a executar um bailado em pontas, enquanto decantam o vinho,  o nome dos pratos também é determinante para a elaboração do preço. Já aprendi, por isso, que quanto mais sofisticado for o título do prato colocado na coluna da esquerda das ementas, mais  desproporcionada será a relação qualidade preço fixada na coluna da direita.
Apesar de ser uma pessoa mais ou menos familiarizada com os segredos da culinária, não foram  raras as vezes em que já me senti tentado a propor a existência de um glossário acompanhado as  ementas, para evitar  o incómodo de perguntar ao empregado:
“ Desculpe, mas o que é isto de línguas de fettucini com repas de suíno em couli de frutos silvestres?”
Não é que não me tivesse passado pela cabeça que a tradução correcta fosse “ pasta com presunto,  ensopada num molho agridoce”, mas nestas situações gosto sempre de confirmar, se  um prato daqueles vale mesmo 25€!
Bem, mas neste restaurante a que fui atraído pelos pedidos dengosos de Marlene Vanessa, a tradução até nem era difícil. Havia, por exemplo,  “ O prato que a Branca de Neve serviu aos 7 anões”*, que a Ana Zannatti me ensinou a confeccionar  nos longínquos anos 80 e que por vezes reproduzo fielmente, para  impressionar alguns convivas que aportam ao meu rochedo.
Também não tive dificuldade em interpretar  o significado de “ Cama de borreguinho  em almofada de cítricos e lençol de frutos do Atlântico”. Não me pareceu nada módico que me cobrassem 20€ por um bocado de borrego  recostado sobre uma rodela de laranja com sumo de limão e coberto por umas rodelas transparentes de ananás dos Açores” mas, à falta de alternativas que me fizessem explodir no palato as excrescências salivares, foi este o prato que escolhi.
Já a Marlene Vanessa escolheu, sem hesitações,  “Espuma de ruibarbo e rabano com espargos salteados, alcachofra, portobellos e tomate cereja”. Não sei se a escolha teve a intenção de me provar os seus conhecimentos da nouvelle cuisine, ou foi motivada pela sua aposta numa dieta que lhe permita  manter firmes as curvilíneas formas  que, a cada passada,  parecem  indecisas entre saltar da blusa prudentemente desabotoada no topo, ou pela generosa racha da saia que permitia antever o prazer do pecado da carne.
Sei, é que Marlene Vanessa recusou o “amuse bouche”  de anchovas  de escabeche com raspas de tomate, cebola  e coentros, que nos serviram para amenizar  a espera e invocar o néctar de Baco, criteriosamente por mim escolhido. Exibindo os conhecimentos adquiridos na Faculdade de Medicina –  que garante  aplicar nas dietas nutricionais prescritas aos seus pacientes-  Marlene teceu uma longa dissertação sobre os malefícios das anchovas para a pele que  apenas me despertaram o apetite para abocanhar a dose dela. Porém, o recato que um homem deve ter nestes locais inibiu-me de o fazer e, se lamentei não estar a jantar no tasco do senhor Alexandre, para deixar a gula em roda livre, logo me reconfortei ao pensar que outros pitéus me poderiam estar reservados para mais tarde.
O jantar decorreu naquela conversa pisca-pisca  que deixa sempre no homem a dúvida de estar a ser  cana de pesca  ou isco para o anzol.  Quando, no momento de pedir o café, sugeri um digestivo, Marlene Vanessa  colocou o duque de trunfo na mesa, cortando-me a manilha de copas:
“ Já é um bocado tarde e gostava que fosses lá a casa para me dares a tua opinião sobre dois quadros que comprei no fim de semana. Podíamos tomar lá o copo. Que te parece?”
Neste momento, se o protagonista masculino fosse Santana Lopes, talvez tivesse pensado que estava a ouvir o tão famoso concerto  para violinos de Chopin , mas como eu sou pessoa buçal e de gostos simples apenas pensei: “Que se lixe! Quero lá saber se sou cana ou isco…o importante é que haja pescaria!”.
E foi assim que, a pretexto de apreciar duas obras de arte, algumas horas mais tarde estava a apreciar pormenorizadamente os relevos de uma outra que não vinha no catálogo, mas tinha a preciosa vantagem de falar e ser sensível ao toque.
Deitado na cama perfumada  de Marlene Vanessa,  não senti falta dos lençóis de frutos dos Açores, nem da almofada de cítricos. Lembrei-me apenas da Branca de Neve e das vantagens da “nouvelle cuisine”.

*“ O prato que a Branca de Neve serviu aos 7 anões” é um gratinado onde o ingrediente base é o queijo da serra. Ou melhor dizendo, a casca...