domingo, 8 de abril de 2012

Amores de Abril



Era uma bebé linda. Primeira filha e neta era o orgulho da família, que não se cansava de exaltar a sua beleza e inteligência.
 Na escola primária, Cátia Janine não se destacava apenas pela originalidade do nome que fez o padre Roberto tossir duas vezes e olhar de soslaio os pais, no dia do baptismo. Era também excelente aluna. Tinha dificuldade em fazer amigas, porque era egoísta e recusava qualquer colaboração com as colegas, mas a sua dedicação aos estudos e o seu ar franzino,  contribuíram para cativar a professora que sempre a apontava como exemplo a seguir.
No liceu, Cátia Janine começou a mudar. Aos 12 anos o seu rosto angelical começou a transformar-se e a beleza de criança deu  lugar a uma fealdade extrema, que haveria de carregar durante o resto da vida.
Entrou na Faculdade de Direito com média elevada, mas com poucos amigos. Nos convívios semanais nunca ninguém a convidava para dançar e, se algum rapaz se aproximava dela, era para tentar obter algum proveito do seu saber académico.
Aos 28 anos Cátia Janine era  assistente na Faculdade de Direito, mas nunca acariciara o corpo nu de um homem, nem desfrutara a volúpia do amor. Sentia-se amargurada e um dia desabafou em pranto com a tia Esmeralda, senhora de grande Fé, que intercedeu junto do padre Roberto para que arranjasse um companheiro para a sobrinha.
O bom do padre, sentindo-se devedor dos favores sexuais que Esmeralda lhe prestara em tempos recuados, recomendou um responso a Santo António como receita para resolver o problema de Cátia Janine.
Durante os 31 dias do més de Março, Esmeralda fez o responso  seguindo  todos os preceitos aconselhados pelo padre Roberto.
No primeiro dia de Abril, que os pagãos dedicam à Mentira, Cátia Janine  passeava sozinha pelas margens do rio da sua terra natal. Como companhia, apenas códigos e processos. A tarde estava amena e o sol brilhava num esplendoroso céu azul. Sentou-se junto à margem, desfrutando os favores da Natureza , desperta pelas cores da Primavera, mas a determinada altura rebentou num pranto contido, lamentando interiormente a sua infelicidade e a desdita de não ter ninguém com quem desabafar.
O coaxar de uma rã despertou-lhe a atenção. Aproximou-se mais do rio, pegou no animal e começou a acariciar-lhe a pele sedosa. Inopinadamente, sem que encontrasse explicação para o seu impulso, beijou a rã que, acto contínuo, se transformou num homem alto e espadaúdo.
Cátia Janine lembrou-se que nas histórias que lera na infância, estes momentos de comunhão entre humanos e animais  terminavam com casamentos felizes, precedidos de agradecimentos intermináveis, por parte do príncipe libertado. Por isso estranhou o ar mal humorado do homem alto, loiro e de olhos azuis quando a enfrentou nos olhos e disse:
- Que raio de azar o meu!
Cátia Janine reprimiu a custo as lágrimas, afivelou mesmo um sorriso e perguntou:
- Porque  dizes isso? Sou assim tão feia?
 O homem alto, loiro e de olhos azuis pigarreou, disfarçou como pôde e respondeu:
- Não, não é nada disso. Estava cá a pensar na minha vida e nem pensei no que disse.
-Como te chamas?  - perguntou Cátia Janine um pouco mais animada , mas ainda não convencida.
-  Alain.
- Então és francês?
- Claro que sou francês. Fiquei  gravemente ferido  na batalha de Austerlitz, ao serviço de Napoleão e, para evitar a morte, aceitei converter-me numa rã, na esperança de que alguém me libertasse e voltasse à vida. Tu salvaste-me e vou recompensar-te. O que queres que faça por ti?
- Quero que cases comigo!
- Está bem. O que tenho de fazer?
- Nada. Eu trato de tudo, está descansado.
Nesse mesmo dia, Cátia Janine apresentou o seu futuro marido à tia Esmeralda que,  feliz, correu para a Igreja , na ânsia de comunicar ao padre Roberto os resultados da sua miraculosa receita.
O padre Roberto andava no Compasso, estendendo a cruz aos fiéis para que a beijassem. Em cada casa que entrava,  bebericava um cálice de porto , metia umas amêndoas ao bolso e depenicava um bocado de pão de ló.
Quando regressou à Igreja, cambaleante, viu Esmeralda que de sopetão lhe contou a história da sobrinha.
O bom do padre Roberto explodiu numa gargalhada, mas rapidamente emendou a gaffe perguntando:
-E para quando é o casório?
Trinta dias depois, num primeiro de Maio que ainda não era feriado, mas apenas pretexto  para a polícia exercitar os músculos cascando em alguns trabalhadores que ousavam manifestar-se e os agentes da PIDE fazerem horas extraordinárias, o padre Roberto declarava Cátia Janine e Alain de Rochefort marido e mulher, unidos para sempre pelo sagrado sacramento do matrimónio.
O casamento, na verdade, nunca chegou a consumar-se segundo os preceitos  do direito romano, pois Alain gostava mais de repartir o leito com camaradas de armas, do que com Cátia Janine. Noites sucessivas, Cátia Janine  ficou acordada à espera da chegada de Alain. Debalde. Enquanto a professora esperava, o garboso soldado de Napoleão passeava-se no Conde Redondo ou assentava arraiais em bares de travestis em busca de algum que lhe saciasse a volúpia dos prazeres da carne. Quando chegava a casa, invariavelmente bêbado, já  a mulher se entregara a  Morfeu,  o único que noite após noite lhe não recusava um abraço de aconchego.
O tempo foi passando e o sorriso de Cátia Janine voltou a fechar-se. Andava  mais amargurada do que dantes e perdera qualquer esperança em seduzir Alain. Entregou-se afincadamente ao trabalho e, numa manhã de Abril do ano seguinte, despertou  ao som de marchas militares. Alain já saíra de casa. Ela seguiu-lhe o exemplo.  Deambulou sozinha durante uns minutos, mas rapidamente se viu rodeada de pessoas que a abraçavam e beijavam. Cátia Janine, até então alheia à política, sentiu um frémito revolucionário nunca antes imaginado. Durante três dias não pôs os pés em casa, não pensou em Alain, marimbou-se para a desdita amorosa e na manif do 1º de Maio, desfilou de braço dado com pessoas que nunca vira, entoando Vivas à Liberdade e Abaixo o Fascismo.
O seu tempo passou a ser vivido entre a Faculdade e um minúsculo partido de extrema –esquerda a que aderira, embora nem sequer conhecesse o seu programa. As noites estendiam-se até de madrugada, prenhas de fervor militante,  ajudou a pintar murais e afixou cartazes.  Em noites de bebedeira experimentou finalmente as volúpias do amor, mas sem saber destrinçar o perfume dos corpos, do odor etílico que se desprendia das bocas que a beijavam.
 Numa tarde de Novembro, à porta do RALIS, percebeu que tudo ia mudar. E mudou. Cátia Janine  percebeu que tinha de agir depressa. Desvinculou-se  do partido e procurou outro que lhe pareceu estar mais talhado para as tarefas governativas. Embora fosse inteligente, faltava-lhe a perspicácia política, por isso foi progredindo lentamente.
 O fervor militante esvaíu-se há muito. A sua experiência sexual não lhe deixou saudades e a vida amorosa é inexistente, embora continue a partilhar a mesma casa com Alain, que desaparece  durante longos períodos, embeiçado por um jovem a quem compra momentos de prazer.
Cátia Janine é uma mulher frustrada, mas recusa-se a admiti-lo. Tem apenas um objectivo: vingar-se dos homens. Pôde cumprir o seu desejo, quando chegou a directora-geral Entregou todas as chefias a mulheres da sua confiança política e desembaraçou-se dos homens que lhe pudessem colocar entraves no caminho.
Cátia Janine julga-se uma mulher feliz. Não é. A frieza do seu olhar, a aspereza do seu relacionamento, a dureza da sua conduta,   espelham a frustração que a invade , mas tenta  disfarçar exercendo o poder de forma despótica .

19 comentários:

  1. Muito interessante em variadíssimos aspectos.
    Um autêntico "case study"...

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  2. Vivi esta história intensamente desde o início até ao fim.

    Que belíssimo presente de Páscoa para as suas leitoras e para os seus leitores.

    Cátia Janine é até certo ponto uma mulher ao meu gosto, só me irritou, que como mulher inteligente como ela, quisesse casar à força e, mais tarde, não pusesse o Alain a pontapé fora de casa.

    Páscoa Feliz com ou sem ovos coloridos.

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  3. A Cátia Janine só não acabou como a Amy Winehouse porque aparentemente era ainda mais feia e egocêntrica do que esta:)))

    Há mais, muito mais implícito neste texto do que um "simples" conto. Confesso que me ri imenso embora ache que devesse ter chorado.

    Voltarei para reler, talvez a minha perspicácia esteja levemente afectada pela ingestão dum Barca Velha ao almoço!!!

    Beijo

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  4. Já sei.... É a história da Merkel!.....

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  5. cátia janine vive num quarto bolorento minado por roquefort; o rapaz dá o queijo mas não gosta de bacalhau; não só lhe valeu são mrpp mas também o olho (não o do marido) para perceber de que lado deveria ficar a caminho dos tachos; hoje fome só de morcela pois o pingalim só lhe serve para bater nas paredes; e nas nádegas de quem lhe passa pela frente.

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  6. A Angela Merkel nunca teve problema em arranjar marido: o Joachim já é o segundo, que por sinal, não é nenhum sapo, mas sim, um cientista de valor.
    Os dois são um coração e uma alma.

    Esta história cheira mais à vida de uma socialista portuguesa que trabalha agora em Bruxelas, mas que nos seus tempos de orgia era companheira do Barroso num partido da extrema esquerda.

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  7. Ematejoca
    Tenho que saudar a sua perspicácia, porque quase acertava na mouche. O único erro é que esta Catia Janine ( que não é personagem de ficção) já não trabalha em Bruxelas, mas efectivamente andou por lá uns tempos.
    Tiro-lhe o meu chapéu, mas não digo mais nada por agora, caso contrário iria revelar o que escrevi num post sobre esta mulher e que publicarei amanhã no CR.

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    1. Está tudo dito.
      Lerei a publicação para confirmar o nome da dita cuja.

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  8. Bicho complicado, a mulher! E esta não foi uma exceção...

    beijo

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  9. Ai, quem é , de verdade, a retratatada???

    E nem todas as mulheres sem vida amorosa se transformam em megeras, garanto, rrss

    Boa semana, meu amigo

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  10. Eheheh, não sei porquê esta história soou-me a ter um fundo de verdade, sapo transformado em gay à parte, evidentemente! E já percebi que sim... mas não estou a atinar com a dita personagem! É esperar, até ver se alguém acerta... :D

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  11. Muito bom e intrigante este conto... espero pelo texto de amanhã!

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  12. Ai Carlos eu só vou responder perante o meu advogado!
    Caramba ninguém sabe? Então vou ficar quietinha esperando porque também não sei quem é a dita cuja.

    Carlos muito raramente consigo abrir o blogue cronicasdorochedo.

    Beijinho e uma flor

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  13. Gostei muito de conhecer a Cátia Janine.
    Foi um prazer.

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  14. Como não estou habituada a receber elogios do Carlos, fiquei sem palavras ao ler a sua resposta ao meu comentário.

    A última vez que ouvi falar desta senhora, andava ela por Bruxelas. Agora não sei por onde anda e, também não me interessa, pois nunca gostei dela, mesmo sendo mulher e socialista.

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  15. Não sei a quem se refere o Carlos e, confesso, tive pena e até simpatizei com a dita cuja. Pena que o sentimento vá mudar quando souber quem é!

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  16. Bem me parecia que havia gente frustrada neste governo!!
    Tive agora a confirmação.
    Desde as Cátias Janines, passando pelas Catherine Deneuve... temos de tudo neste dito governo!

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  17. Continuo à espera do final da estória.

    Tem que haver alguma moralidade nisto, coisa que ainda não encontrei.

    (ando tão de rastos que perdi o sentido de humor)

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