terça-feira, 24 de abril de 2012

Antes do Adeus- 2



O dia 24 de Abril estava cinzento e uma chuva miudinha caía sobre a parada. Os instruendos que na véspera tinham arribado a Mafra permaneciam sentados, devidamente fardados. Entreolhavam-se, com um misto de curiosidade e expectativa, aguardando alguém que lhes viesse dar as primeiras ordens.
Em todos o nervosismo era evidente mas, de quando em vez, alguém soltava uma graçola que aliviava o ambiente. José Calvário era um dos mais descontraídos. Já estivera em Mafra uns meses antes, mas não pudera concluir a recruta por razões que já não recordo. Em contraponto o meu amigo João Durão, sempre com uma graçola na ponta da língua e que fora o grande animador da nossa viagem até Mafra, perdera todo o sentido de humor desde o momento em que entráramos no quartel. O seu rosto fechara-se num esgar de mágoa indisfarçável.
Seriam talvez umas 10 horas quando apareceu um alferes que nos mandou reunir em círculo e fez uma palestra, esclarecendo as regras do jogo a partir daquele dia. Estranhei-lhe o olhar vago, detectei-lhe algum alheamento ( ou seria impaciência mal disfarçada?) e uma afabilidade no trato de que não estava à espera.
Quando nos mandou formar e depois dar umas voltas à parada em passo de corrida moderada, não pensei mais no assunto.
Chegou a hora do “rancho” ( imprestável) e comecei a interrogar-me como iria viver três meses com aquela dieta. Como toda a gente, trouxera mantimentos para as horas de aflição, mas pela amostra não me parecia que fossem suficientes até ao fim de semana, altura em que esperava regressar a casa e proceder ao reabastecimento.
A tarde, salvo as tímidas tentativas do Sol a tentar romper o céu plúmbeo, foi idêntica ao período da manhã, mas às 4 da tarde mandaram-nos destroçar e fomos para a caserna esperar pela hora do jantar. No caminho perguntei ao Zé Calvário se aquilo ia ser sempre assim. Respondeu-me com um evasivo “Não” onde entrevi, oculta, alguma inquietação. Meia hora depois não conseguia suportar a caserna e saí. Ninguém correspondeu ao convite para me acompanhar. Sem conhecer ainda os cantos à casa e algo receoso de me perder naquele emaranhado labiríntico de corredores despidos, fui tacteando o caminho, sempre com o cuidado de colher referências que me facilitassem o regresso.
Quando passei por um telefone, que me olhava espantado nas arribas de uma parede tão nua como as palmas das minhas mãos, tive um impulso pouco habitual. Peguei no auscultador e disquei o número de casa. Ainda hoje não sei explicar porque o fiz. A surpresa da minha mãe, quando atendeu, foi igual à minha. Por que raio estava eu a telefonar, se estava habituado a passar semanas fora do país, sem dizer “água vai”?
Disse que estava bem e que aquilo afinal era uma treta, porque tinha passado o dia sem fazer mais nada, para além de aprender a formar e dar umas voltas à parada em passo de corrida. A conversa foi breve.
( Ainda hoje, a minha mãe pensa que eu sabia o que se estava a preparar e que o meu telefonema era um código que inventara à pressa, para que estivessem sossegados).
Quando regressei à caserna eram horas de jantar. Alguns comeram com prazer, mas eu fiquei ali especado a olhar para eles, interrogando-me como era possível tragar aquela mixórdia.
Pouco depois, ouviu-se o toque a recolher. ( A cerimónia dos toques é uma coisa que se aprende com facilidade, digo-vos eu, um ouvido duro e pouco familiarizado com a música).
Quando estava a pronto para trepar para o “beliche”, uma simpática ratazana veio-me dar as boas noites, atravessando os lençóis em rápidos salamaleques. Impávido, correspondi com um aceno. Estava a habituar-me ao ambiente, pensei, antes de adormecer como um justo até à Alvorada Gloriosa que rebentaria com os açaimes da ditadura e nos devolveria a esperança e a Liberdade!

11 comentários:

  1. Com que então foi um dos sortudos que não demorou tempo a libertar-se!!!
    Sabes o que mais me impressionou? A ratazana.
    E pensava eu que os afortunados selecionados para Mafra não tinham visitantes desta categoria para lhes atormentar o sono :-))))

    Amanhã há mais?

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    1. Claro que amanhã há mais, Tite. Podia lá deixar de contar como vivi esse dia...

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  2. Mafra era e é um enormíssimo armazém de ratos.
    E não são ratinhos pequenos, são grandes ratazanas e contam-se histórias terríveis que se terão passado...

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    1. É verdade, João, mas também há muitas lendas à volta dessas ratazanas...

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  3. Como sempre, um relato maravilhosamente escrito e descrito, Carlos.

    Vou pegar no final da tua Crónica e dizer apenas mais isto:
    Esperança e Liberdade que, quase quatro décadas depois da Alvorada, se desvaneceu e evaporou.
    Hoje, outras ratazanas invadiram o nosso solo e aqueles que nos deviam proteger empurram-nos para longe.
    Haverá ainda Esperança de outras Alvoradas, Carlos?

    É evidente que em foco está a forma como viveste e sentiste essa data histórica do nosso País. É isso que eu aguardo com interesse para ler, amanhã.
    Beijinho.

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  4. Antes essas ratazanas, com direito a lenda, do que as actuais.

    Até sempre.

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  5. Amanha ca estarei... nao posso perder um "episodio".

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  6. Este retrato na primeira pessoa é bem mais interessante que as crónicas estafadas que estou farto de ler.
    Amanhã cá estarei!!

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  7. É, esse primeiro dia no quartel parece ter sido muito leve, para o que era habitual, antes e depois... :)

    Tem piada essa da sua mãe pensar que já sabia de tudo o que se preparava - se todos os instruendos estivessem a par, dificilmente a revolução teria sucesso... ;)

    Muito bom!

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