sexta-feira, 20 de abril de 2012

Entre fadas e duendes


Eu estava profundamente interessado no relato, mas a beleza da paisagem fazia-me por vezes desviar o olhar que se perdia ao longe nas águas dos lagos de Epuyen,  sem  contudo perder o fio à meada.
Talvez por pensar que a narrativa se estava tornar fastidiosa, Lihue elevou a voz e sublinhou com ênfase:
Co-mo já per-ce bes-te!… 
Fez uma pausa, assegurou-se que eu o voltara a fitar olhos nos olhos e prosseguiu:
"os funcionários estavam interessados em inventar bandidos onde eles não existiam, pois isso permitia-lhes tomar posse de parte das terras de onde os índios eram expulsos. Foi assim que surgiram lendas sobre muitos bandidos que nunca dispararam um tiro, gente pacífica apenas interessada em viver em paz e sem a presença dos funcionários por perto.
Maria Ancapichún tinha tudo para ser detestada pelos funcionários. Denunciou muitas ocupações feitas com base em factos falsos, conseguindo ser ouvida por alguns funcionários mais escrupulosos que, embora fossem defensores da expulsão dos índios, pugnavam pela verdade. Assim, muitos funcionários viram inviabilizada a tentativa de se apoderarem de terras e, sempre que isso acontecia, eram enviados para Buenos Aires, proibidos de voltar a Chubut.
Maria tinha terras  suficientemente vastas para manter  os 12 filhos à sua volta. Sempre que um casava, todos se uniam na construção de uma casa para o casal, suficientemente grande  para albergar uma prole tão numerosa como a que ela e o gringo tinham procriado..."
 Mas como é que ela conseguiu as terras? perguntei a Lihué não só para satisfazer a minha curiosidade, mas também para demonstrar que permanecia interessado na narrativa. Propositadamente, quando fiz a pergunta, tinha os olhos fixos no horizonte mostrando, assim, que não era paisagem que me desviava das suas palavras.
"...Como já te disse, o gringo vivia da apanha do ouro e com o produto da venda foi comprando terras, mas também alguns dos que ela defendeu, denunciando os abusos dos funcionários, lhe legaram algumas em testamento, autorizando-a desde logo a ter o usufruto de uma pequena parte. 
Bem , mas deixa-me terminar, porque estou quase a chegar ao fim. 
As terras despertavam muita cobiça dos garimpeiros, funcionários e até de alguns índios Tehuelche  que a viam como uma intrusa na  região. Por isso, quando o gringo morreu daquela forma misteriosa, alguém pensou que acusá-la seria uma forma expedita de ficar com as terras. 
Como já te disse não havia provas, mas a justiça em Chubut e Rio Negro não era feita por burocratas. O povo decidia. E decidiu que ela era culpada e condenou-a à morte por enforcamento, uma prática que não era nada comum na Patagónia, mas que foi sentenciada para fazer querer que seria a vingança do gringo.
No dia da execução, quando Maria estava a ser conduzida ao cadafalso improvisado dentro das suas próprias terras, apareceu em grande cavalgada o cavalo branco do gringo. Na desfilada derrubou dois algozes e Maria, com a sua força bruta, derrubou os outros dois à chapada, fugindo a galope na garupa do cavalo que sobrevivera à morte do marido..."
E para onde foi ela?- perguntei.
"...Não se sabe ao certo. Uns dizem que se juntou aos guerrilheiros , mas é pouco provável que seja verdade, pois nessa altura a resistência mapuche aos espanhóis já estava quase no fim e ela sabia que não seria a luta armada a libertar o nosso povo.
Acredito mais em quem defende  que foi para El Bolsón, onde o gringo foi sepultado e por lá terá morrido, amaldiçoando os seus algozes.  Quando estiveres em El Bolsón, contar-te-ão histórias dela e de uns duendes da região que a acolheram. Descobre por ti próprio…"
A tarde aproximava-se do fim. Agradeci a Lihué os bons  momentos que me proporcionara e afiancei-lhe que nunca mais ia esquecer a história de Maria Ancapichún.
"Mesmo que não fixes a história, o importante é que percebas que, na Patagónia, uma história se conta sempre como um poeta. Só assim serás feliz por aqui e poderás desfrutar desta terra".
Enchia o cantil e preparava-me para as despedidas, quando Suyai  se aproximou. Trazia umas tortas fritas, empanadas de enchidos e queijos, embrulhados numa alvíssima toalha.
"Leva para o caminho. E se quiseres uma cerveja artesanal, também tenho, feita por mim, mas não trouxe porque não é bom beber cerveja enquanto se caminha. É boa à noite, quando estamos à lareira a ouvir histórias."
Agradeci, despedi-me respeitosamente de Suyai, evitando qualquer contacto desrespeitoso para os princípios mapuches e troquei um longo abraço com Lihue. 
“ Quando voltares passa por cá. Comemos um cordero assado ou uma lebre”
Adeus amigo. A Patagónia já me conquistou!
Regressei à pequena estalagem onde me hospedara,  exausto. Comi o resto do farnel  acompanhado de uma cerveja artesanal e dormi o sono dos justos. Durante a noite sonhei com fadas e duendes. Entrara, definitivamente, no espírito da Terra das Mil Lendas.


7 comentários:

  1. Penso, Carlos, que há momentos na vida da gente que não serão jamais esquecidos, momentos mágicos que, a cada vez que o lembramos, refortalecemos nossas almas para os próximos caminhares...
    E esse seu momento, vivido na longínqua Patagônia, misto de história e lenda, parece-me ter sido um deles. Estarei enganada?

    Beijos e uma boa tarde para você.

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  2. Ai que invejinha ( da branca ) que eu tenho de ti por teres ouvido esta lenda em local tão rico em Lendas e da boca de quem tanto tem para contar.
    Claro que fico ansiosa por ouvir mais e por isso cá me terás na continuação desta ou outras lendas que queiras contar-nos.

    PS - também te sigo na Revista do Inatel

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  3. E foi como um Poeta que tu a contaste para nós, Carlos!
    Que visão linda...a Maria Ancapichún salva pelo cavalo branco, partindo à desfilada rumo à liberdade...Os heróis ou heroínas das Lendas, são eternos!

    Também a nós, a Patagónia nos irá conquistar...

    Beijinho, Carlos.

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  4. Espero que as histórias da Patagónia não acabem por aqui. Essa Maria devia ser mesmo uma mulher de garra... :)))

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  5. Um dia gostava de ir à Patagónia...mas uma forma de "ir", é lendo livros e textos como este. Obrigada.

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