domingo, 15 de abril de 2012

A menina das troncas


Há uns meses, na tertúlia semanal sobre o século XX que oriento para um grupo de jovens, perguntei se algum deles sabia quem era a menina das troncas.
Houve sorrisos, gargalhadas e um mais atrevidote adiantou:
-  Deve ser a Beatriz. Tem umas bem boas!
Lá tive então de esclarecer que a menina das troncas era a quem ligávamos para pedir  uma chamada interurbana, mas nunca soube se alguma delas tinha belas pernas. Algumas tinham vozes maviosas, mas isso nada assegurava quanto aos predicados dos membros locomotores.
Gargalhadas!
“ O que é isso de chamada interurbana?”
Foi então tempo de explicar que, em tempos não muito recuados, quando se queria ligar de uma cidade para outra, as chamadas não eram automáticas como hoje. O pedido tinha de ser feito através de um número específico ( o 9, se a memória não me falha), atendido por uma voz feminina a que se chamava “menina das troncas”. O nome tinha uma razão de ser, mas seria fastidioso  estar aqui agora a explicar. 
Quando disse aos jovens que por vezes era preciso esperar algumas horas para estabelecer uma ligação entre Porto e Lisboa e que no caso de a chamada ser urgente, tinha de se pagar um suplemento de 50% sobre o custo da chamada, um bruáa percorreu a sala e instalou-se um enorme borborinho. Senti-me como um dinossauro que tivesse acabado de entrar num centro comercial!
Aproveitei a confusão para apreciar as trancas da Beatriz e confirmar, graças à generosidade do seu gesto que lhe levantou a saia até bem ao meio da coxa, que na realidade eram de qualidade apreciável. 
As perguntas que se seguiram sobre os sistemas de comunicação nos anos 50 e 60, proporcionaram-me alguns momentos de prazer. Afinal, ser velho não é assim tão inútil como alguns pensam. O importante é encontrar os interlocutores certos.



16 comentários:

  1. Pelo menos esses interlocutores, estavam interessados na informação, o que já não é mau! Essas aulas, com a presença da Beatriz também devem ser bem mais interessantes... :) beijo

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  2. Ainda foi esta semana que perguntei a um grupo de jovens 913/14 anos) se já tinham visto uma máquina de escrever. Se conheciam as automáticas e as manuais. Uns disseram que sim, que o professor tal tinha uma na sua sala e que tinham tentado escrever umas linhas. Perguntei-lhes se alguma vez podiam imaginar um mundo sem computador. Pausa. Um respondeu (são sempre os rapazes os mais diretos...): Miss, you’re talking ancient times!

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  3. Velhos são os trapos...dizia a minha avó!

    São sabedoria e experiência adquiridas pela idade...

    Beijos.

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  4. Carlos, olha que eu também sou do tempo em que as chamadas interurbanas tinham de ser efectuadas através das "meninas dos telefones" e nunca ouvi esse termo!
    Para mim não seria fastidioso explicares o significado de TRONCAS. Trancas sei o que são...a Baixinha é que não deve saber!!
    A vantagem da idade é justamente essa, transmitir conhecimentos aos interlocutores certos...sejam eles ( os conhecimentos) de que índole forem!

    Será por causa das trancas que há tantos sexagenários a dedicar-se à Formação? lol.

    Beijinho, Carlos!

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  5. CARLOS, as vezes,percebo que, em tão pouco tempo, tantas coisas mudaram. Tenho sobrinhos jovens que se surpreendem quando menciono os diversos meios de comunicação e tudo mais que usavamos. Só na máquina de escrever, eu fiquei durante vinte anos, numa Editora.

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  6. Encontrar os interlocutores certos,,, neste caso as pernocas da Beatriz!!

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  7. Dei boas risadas aqui Dinossauro Carlos.
    A velocidade que as mudanças aconteceram é impressionante.
    Bom encontrar interlocutores e certos é melhor ainda.
    Beijinhos e excelente semana

    Lucia

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  8. Pois quando estava a ler no Rochedo, pensei na "interurbana"... sem saber que era essa a estória da História das comunicações.
    Na Figueira , e trabalhava sazonalmente no Turismo , onde havia 5 cabines, e o pessoal que ía de férias, lá íam à noite ,pois era mais barato ligar par Tortozendo, Lousã, eu sei lá que mais... tantos locais onde as ligações não eram diretas...
    Também foi desse modo, que chamei em alta voz (micro) à cabine a família do Dr. Salazar, para que tivessem notícias do Hospital CV. Depois por causa dissso houve continuação de história.... Isto aconteceu há 44 anos...
    :))

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  9. Antes de ler esta crónica, eu pensava que a "menina das troncas", era uma menina com um corpo tipo Monroe, com umas boas curvas.
    Uma pessoa aprende até morrer.

    PS: Ontem fiquei muito impressionada com a notícia sobre o rei de Espanha, não por causa dele, mas sim, por causa do elefante.
    Hoje ao falar ao telefone com familiares portugueses disseram-me que não é permitido matar elefantes em África e, que eu compreendi mal a notícia.
    Eu li e compreendi bem a notícia, só não sei, se era apenas uma brincadeira, por causa do neto ter disparado contra o próprio pé?!

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  10. Dos tempos em que os TLP tinham uma péssima fama.
    Lembro-me bem porque havia rivalidade com os CTT.
    E a minha mãe trabalhava nos CTT

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  11. Às leitoras que se mostraram surpreendidas com a expressão "Menina das troncas" - e sem prejuízo de vir a escrever um post sobre o assunto- aqui fica a explicação:
    Era a própria telefonista que, quando se ligava para a interurbana, respondia" Troncas, troncas, para onde deseja falar?"
    A palavra troncas tem a ver com uma peça do PBX que servia para estabelecer a ligação ( pelo menos era isso que me diziam na altura...)
    Bem mais difícil, para mim, é explicar a origem da palavra " trancas" para designar as pernas...

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  12. Nunca tinha ouvido falar da "menina das troncas", embora me lembre bem "das meninas dos telefones"! Mas não era só para as chamadas Lisboa Porto ou assim que elas eram chamadas para fazer a ligação.

    Os meus avós, que depois do meu avô se reformar foram viver ali para uma casinha de campo na região saloia entre Loures e Caneças, nem sequer disco tinham no telefone - levantavam o auscultador e esperavam que a menina viesse atender para fazer a ligação que desejavam, fosse para Lisboa ou outro sítio qualquer. Tenho ideia (mas aí não posso garantir), que só uns anitos depois do 25 A é que lhes trocaram o telefone para um com disco, onde já podiam ligar diretamente para a capital... :)

    Mas deve dar um grande gozo explicar coisas destas a miúdos assim! Velho, não, experiente! :D

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  13. Que giro!!!
    A minha Madrinha de Casamento é nem mais nem menos a Menina dos Telefones que ainda hoje aparece nas fotos do Museu dos Correios Telégrafos e Telefones ex-CTT. Era linda de morrer (ainda é mas não tão de morrer porque os anos não perdoam) e tinha uma vozinha maviosa como tinha que ser para tal fim.

    Com este post fizeste-me recordar a tão gozada expressão - Alô troncas! Aqui broncas.

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  14. Foi compensador porque a malta continua muito interessada na pré-história :) Tomara que fossem assim tão interventivos quando se trata de discutir o presente.

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