domingo, 29 de abril de 2012

A minha primeira vez


Era uma soalheira manhã de Primavera, que apelava aos sentidos. Estava trajado a rigor e a custo disfarçava o nervosismo provocado pela ansiedade da minha primeira vez . Na sala havia uma fila de homens à minha frente, aguardando. Muitos eram jovens como eu e não tinha dúvidas que para eles também seria a primeira vez. Tal como eu, disfarçavam o nervosismo contando anedotas e algumas histórias de uma vida ainda com muito para desfiar. Alguns, mais velhos, tranquilizavam-nos.:
"É natural que estejam nervosos, mas vão ver que vale a pena." -avançou um
 "Tomara eu que a minha primeira vez tivesse sido assim"- disse um velhote ao passar por nós. Outro, emigrante, afiançava:" Em França é que é bom!"
Todos olhavam para o meio da sala onde ela se expunha, apelativa, aos nossos olhares gulosos. Era linda e deixava-nos em devaneio cada vez que repousávamos o olhar sobre ela.
À medida que me aproximava e lhe percebia melhor os contornos, imaginava o momento emocionante. Assim que depositasse naquela fenda todo o vigor da minha vontade, iria finalmente aprender a ser homem!
Finalmente chegou o momento. Aproximei-me, trémulo. Uma senhora aparentando 40 anos olhou-me com um sorriso. Estendeu-me um papel e disse-me:
- "Vá até àquela cabine, preencha o papel e volte cá".
Assim fiz. Abeirei-me dela. Olhei-a com enlevo e, num gesto súbito, penetrei-a com vigor, manifestando-lhe o meu desejo e pedindo-lhe para não me desiludir .Quando saí, as pernas tremiam-me.


Tinha acabado de votar pela primeira vez na minha vida!

15 comentários:

  1. A sua primeira vez foi um momento alto, inesquecível.

    Gostei muito do texto, por tudo.

    Beijo

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  2. Muitas primeiras vezes, são sempre assim.

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  3. o comment antes é meu; n sei pq esta cosia não deu.

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  4. Esta história quase que parecia uma das minhas..rsrsrsrs. A sua experiência não foi muito diferente da minha, e se calhar de todos nós... é sempre com emoção que se vai votar a primeira vez. Até já escrevi sobre a emoção que senti quando levei o meu filho pela primeira vez e vi o seu orgulho... claro que as circunstâncias eram outras completamente diferentes... mas a expectativa é a mesma. :)

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  5. Vim aqui a correr, porque pensava que se tratava de uma outra "primeira vez"!!!

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  6. Não sei porquê, adivinhei que não era o que parecia óbvio.

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  7. Pois... eu só em 25 de Abril de 1975... nas eleições para a Constituinte.

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  8. : )
    A primeira vez que se vota, pensamos que vamos fazer uma grande diferença. E isso é motivo para nunca pararmos de votar.

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  9. Brincalhão! E eu a pensar em malandrice! Vai ver que a próxima vai ser muito melhor! É pena não ser já amanhã...

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  10. Carlos
    Para que a minha primeira vez fosse à primeira (constituinte) foi preciso fazer com que se alterasse a idade para ter direito a voto. Na altura era aos 21 anos. Recordo que o processo dirijido pelo MJT (movimento da Juventude Trabalhadora) passou por recolher largas centenas de milhares de assinaturas em postais invividuais e enviar para o CR.
    Inesquecível essa primeira vez. Claro que na altura os resultados foram frustrantes.
    Abraço
    Rodrigo

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  11. A primeira vez é sempre tão emocionante! E também estava cheia de vontade, tanto que até hoje só falhei duas. Eleições, está claro! :D

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  12. Há sempre uma primeira vez para tudo...

    Nem sei quando votei pela primeira vez...75 foi um ano muito complicado...

    Beijos.

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  13. CARLOS, estou rindo até agora. Muito bem bolado este texto! E eu que jamais tive a primeira vez. Sendo portuguesa, nunca votei. Nem lá, nem cá. Aqui,nunca permitiram (sou estrangeira) E, por aí também não voto.

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  14. Havendo uma primeira vez para tudo na vida, há iniciações que se aguardam com ansiedade.
    Esta tua primeira vez, fez-me recordar a minha, Carlos!
    E foi tão idêntica à tua...apenas diferente, porque não abandonei o local com as pernas a tremer...:)
    Depois de sucessivos preliminares - provisórios - o desejo de chegar aos finalmente, foi mais que ansiado.

    Mas a vida dá tantas voltas! Hoje, essa penetração, outrora tão satisfatória e prazeirosa, tornou-se quase um penoso dever. Tudo, porque a única razão do acto está no sonho de alcançar o clímax, e esse, desgraçadamente, depois de o perseguir desde 1976, ainda o vejo distante de ser atingido...E tu, Carlos?

    Beijinhos.

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