domingo, 1 de abril de 2012

Nouvelle cuisine



Não sou  grande apreciador da nouvelle cuisine. Apesar de cultivar uma alimentação frugal e adequada à idade, sou  mais de sarrabulhos, feijoada à transmontana ou favas com entrecosto, quando amesendo com  amigos em prolongado convívio.
No entanto, como (quase) todos os homens, sou fraco perante os exóticos gostos das mulheres e  por vezes concedo visitar esses altares da gastronomia, cedendo ao apelo de vozes femininas a quem estes locais onde o preço de uma refeição é inversamente proporcional ao da quantidade  de comida que nos colocam no prato, agrada sobremaneira.
Tal como acontece com os títulos nobiliárquicos e a avaliação dos produtos tóxicos pelas agências de rating,  nestes restaurantes onde se fala em surdina e  os empregados nos rodeiam  a mesa como se estivessem a executar um bailado em pontas, enquanto decantam o vinho,  o nome dos pratos também é determinante para a elaboração do preço. Já aprendi, por isso, que quanto mais sofisticado for o título do prato colocado na coluna da esquerda das ementas, mais  desproporcionada será a relação qualidade preço fixada na coluna da direita.
Apesar de ser uma pessoa mais ou menos familiarizada com os segredos da culinária, não foram  raras as vezes em que já me senti tentado a propor a existência de um glossário acompanhado as  ementas, para evitar  o incómodo de perguntar ao empregado:
“ Desculpe, mas o que é isto de línguas de fettucini com repas de suíno em couli de frutos silvestres?”
Não é que não me tivesse passado pela cabeça que a tradução correcta fosse “ pasta com presunto,  ensopada num molho agridoce”, mas nestas situações gosto sempre de confirmar, se  um prato daqueles vale mesmo 25€!
Bem, mas neste restaurante a que fui atraído pelos pedidos dengosos de Marlene Vanessa, a tradução até nem era difícil. Havia, por exemplo,  “ O prato que a Branca de Neve serviu aos 7 anões”*, que a Ana Zannatti me ensinou a confeccionar  nos longínquos anos 80 e que por vezes reproduzo fielmente, para  impressionar alguns convivas que aportam ao meu rochedo.
Também não tive dificuldade em interpretar  o significado de “ Cama de borreguinho  em almofada de cítricos e lençol de frutos do Atlântico”. Não me pareceu nada módico que me cobrassem 20€ por um bocado de borrego  recostado sobre uma rodela de laranja com sumo de limão e coberto por umas rodelas transparentes de ananás dos Açores” mas, à falta de alternativas que me fizessem explodir no palato as excrescências salivares, foi este o prato que escolhi.
Já a Marlene Vanessa escolheu, sem hesitações,  “Espuma de ruibarbo e rabano com espargos salteados, alcachofra, portobellos e tomate cereja”. Não sei se a escolha teve a intenção de me provar os seus conhecimentos da nouvelle cuisine, ou foi motivada pela sua aposta numa dieta que lhe permita  manter firmes as curvilíneas formas  que, a cada passada,  parecem  indecisas entre saltar da blusa prudentemente desabotoada no topo, ou pela generosa racha da saia que permitia antever o prazer do pecado da carne.
Sei, é que Marlene Vanessa recusou o “amuse bouche”  de anchovas  de escabeche com raspas de tomate, cebola  e coentros, que nos serviram para amenizar  a espera e invocar o néctar de Baco, criteriosamente por mim escolhido. Exibindo os conhecimentos adquiridos na Faculdade de Medicina –  que garante  aplicar nas dietas nutricionais prescritas aos seus pacientes-  Marlene teceu uma longa dissertação sobre os malefícios das anchovas para a pele que  apenas me despertaram o apetite para abocanhar a dose dela. Porém, o recato que um homem deve ter nestes locais inibiu-me de o fazer e, se lamentei não estar a jantar no tasco do senhor Alexandre, para deixar a gula em roda livre, logo me reconfortei ao pensar que outros pitéus me poderiam estar reservados para mais tarde.
O jantar decorreu naquela conversa pisca-pisca  que deixa sempre no homem a dúvida de estar a ser  cana de pesca  ou isco para o anzol.  Quando, no momento de pedir o café, sugeri um digestivo, Marlene Vanessa  colocou o duque de trunfo na mesa, cortando-me a manilha de copas:
“ Já é um bocado tarde e gostava que fosses lá a casa para me dares a tua opinião sobre dois quadros que comprei no fim de semana. Podíamos tomar lá o copo. Que te parece?”
Neste momento, se o protagonista masculino fosse Santana Lopes, talvez tivesse pensado que estava a ouvir o tão famoso concerto  para violinos de Chopin , mas como eu sou pessoa buçal e de gostos simples apenas pensei: “Que se lixe! Quero lá saber se sou cana ou isco…o importante é que haja pescaria!”.
E foi assim que, a pretexto de apreciar duas obras de arte, algumas horas mais tarde estava a apreciar pormenorizadamente os relevos de uma outra que não vinha no catálogo, mas tinha a preciosa vantagem de falar e ser sensível ao toque.
Deitado na cama perfumada  de Marlene Vanessa,  não senti falta dos lençóis de frutos dos Açores, nem da almofada de cítricos. Lembrei-me apenas da Branca de Neve e das vantagens da “nouvelle cuisine”.

*“ O prato que a Branca de Neve serviu aos 7 anões” é um gratinado onde o ingrediente base é o queijo da serra. Ou melhor dizendo, a casca...

28 comentários:

  1. Eu não sou apreciador, de todo, da nouvelle cuisine, que pode encher os olhos, mas nunca enche a barriga...e os bolsos dos restaurantes que a servem.

    ResponderEliminar
  2. Não aprecio grandemente cozinha e cozinha de laboratório ainda menos.

    Por toda a corte celestial inventada por João Paulo II, não me obriguem a comer algo que parece pescada e tem sabor a doce de amêndoa - além de arruinar quem paga!!

    Bom domingo, amigo.

    ResponderEliminar
  3. O importante é que haja pescaria!(adorei isso)
    E crônicas como essa.
    Parabéns!!!
    Beijinho

    Lucia

    ResponderEliminar
  4. Pois a crónica satisfez na perfeição o meu apetite...por crónicas bem escritas e cheias de humor:-)))

    Confesso que me irrita um pouco isso de os cozinheiros terem passado todos a poetas - pelo menos nos títulos dos pratos! Mas se isso for pretexto para um bom "naco" de prosa, então que fique o tasco do Sr.Alexandre para outro dia qualquer:-))))
    Abraço

    ResponderEliminar
  5. Que delícia de post...e que bem finalizado. Mas o princípio lembrou-me o meu almoço de hoje.Arrisquei preparar, em linguagem popular: arroz com lulas, camarões, curry e leite de coco.É uma combinação, perfumada, adocicada, apimentada e bem feminina que deu certo!

    ResponderEliminar
  6. Deve ser bem bom esse prato que a Branca de Neve serviu aos sete Anões... Quanto à nouvelle cuisine... do que eu gosto mesmo é de um bom bife da vazia...

    Beijinhos pantagruélicos...

    ResponderEliminar
  7. Este Crónica on the Rocks promete! : )))

    ResponderEliminar
  8. Gostei de conhecer este Crónicas on the rocks.
    Beijo Primaveril com cheiro e tempo a Inverno

    ResponderEliminar
  9. Olá Carlos... Não sei se ainda vou a TEMPO... Mas esta escolha de cores deixa-me a vista atrofiada! Fundo azul e letras pretas não dá!
    Até me começam a chorar os olhos! E começo a ver uma aura branca...

    Não consigo ler aqui directo! Copio e colo no gedit...

    Vou ler!

    Abraço

    ResponderEliminar
  10. Voz a 0 db
    Eu também tive dúvidas sobre a legibilidade e por isso pedi às pax para darem sugestões. Agradeço a sua, mas na verdade a maioria disse que lia perfeitamente. De qualquer modo, vou tentar melhorar e agradeço o seu comentário

    ResponderEliminar
  11. Voz a 0db
    Eu tb tive dúvidas quanto à legibilidade e por isso pedi aos leitores para me darem a sua opinião. A maioria disse que não tinha problemas de leitura.
    De qualquer modo agradeço a sua opinião e vou tentar melhorar

    ResponderEliminar
  12. Não me importo de pagar por um bom prato, mas detesto ser levado por um menu "à maneira"!!!

    ResponderEliminar
  13. Ora...ora...desta vez fizeste-me rir, Carlos!
    Isto promete...!!:))

    Vejam só que acompanhante de gostos tão requintados e nome tão foleiro!! Lol

    Essa coisa da nouvelle cuisine com nomes compridos e estrambólicos, para um pisco de comida, só deve servir mesmo para preparar o caminho com vista a um lauto repasto...eheheh

    Beijinhos.

    ResponderEliminar
  14. Gosto de experimentar novos sabores, não digo que não a pratos gastronómicos mais sofisticados. De vez em quando, porque de resto sou igualmente apreciadora da comida tradicional portuguesa... :)))

    Quanto à sobremesa e digestivo, pois, o tio Santana iria ouvir esses concertos fabulosos... :D

    ResponderEliminar
  15. 25 euros pela refeição e para "apreciar os quadros" nem é caro :)))

    ResponderEliminar
  16. "conversa pisca-pisca"... " dúvida de estar a ser cana de pesca ou isco para o anzol", são um must!! mas olhe se se tivesse decido levar a Marlene Vanessa até ao Fundão este fim de semana, tinha comido divinalmente por mais baixo preço e apreciado em conversa pisca pisca as lindissimas cerejeiras em flor...:)))

    ResponderEliminar
  17. ::)) Delicioso.
    Eu cá adoro a nouvelle cuisine - acho os nomes completamente loucos mas acho-lhes piada, só preferia que o serviço não fosse tão chic, com 878798 empregados de mesa à minha volta e eu a ter que falar baixinho ou não falar de todo.:)Aí sinto saudades da tasca, ah pois sinto. E ter estes gourmet pratos no Sr Alexandre? Ora, isso é que era!!:)

    ResponderEliminar
  18. Não há nada como a típica cozinha à portuguesa!

    ResponderEliminar
  19. Carlos
    Estava mesmo a ver como é que conseguia apreciar os "quadros" se em vez daquela comidinha em doses pequenas, sai uma feijoada ou favada. Havia o risco de uma paragem de digestão.
    Abraço
    Rodrgo

    ResponderEliminar
  20. Muito me ri com esta crónica. Se a nouvelle cuisine for sempre compensada com sobre/mesa , sobre/sofá ou sobre/cama, talvez valha a pena! O meu orçamento (infelizmente), não me permite conhecer restaurantes com essas iguarias de nome pomposo e quantidade penosa... Cá em casa, quem cozinha sou eu, mas raramente faço sobre/mesas, rrsssss ( não ligue, foi o seu texto divertido que me contagiou!) Continue com estas crónicas Carlos que são um petisco! bjo

    ResponderEliminar
  21. Não sou apreciadora da nouvelle cuisine, mas depois de ler esta sua crónica tão cheia de humor, até fiquei a sê-lo.
    Graças ao Carlos a minha segunda-feira de trevas acabou em beleza, quero dizer, numa enorme risada. OBRIGADA!

    A minha Marlene Vanessa (sem quadros e sem sobremesa) chama-se Björn. Esses restaurantes encontram-se no porto de Düsseldorf. Pratos brancos enormes sem nada lá dentro, que custam uma fortuna (25€ são peanuts!!!).

    O meu restaurante preferido em Portugal chama-se Vasco da Gama na Póvoa do Varzim, onde sempre como os meus queridos filetes de pescada.

    Bom apetite!

    ResponderEliminar
  22. Soube-me mesmo bem este seu magnífico texto.
    Primeiro, tem o tipo de humor que eu mais gosto ... au naturel!
    Depois também gosto de comida, tipo feijoada e tudo, afinal sou portuguesa!!!
    O seu conto, remeteu-me para algumas situações vividas na primeira pessoa do singular, onde entravam os escargots, as anchovas e até o caviar (tudo coisas que visceralmente odeio)e das quais tinha que fugir com as mais absurdas desculpas, tipo sou alérgica :)
    Nunca tive foi a "sorte" de ter sido "pescada" nem pescadinha de cauda na boca, já que essa é outra história mas não menos interessante.

    Adorei.

    Julgo não estar equivocada, não nos conhecemos, pois não?
    Muito prazer, sou a Ná de FerNAnda e venho da casa do Rau.

    ResponderEliminar
  23. Oh Carlos, gostei tanto deste seu conto! Desde o snobismo (porque é isso mesmo, não é?) desses espaços da nouvelle cuisine, até às apreciações às curvas da Marlene Vanessa!
    Soube-me tão bem como um borreguinho em cama de ananás, ou seja lá o que for!
    Bjs

    ResponderEliminar
  24. Diverti-me, diverti-me a ler. De facto não há nada como a comida-comida, a nossa, bem conversada sem ser em surdina, acompanhada por uma gargalhada de uma apetitosa feijoada.

    Vou voltar, porque esta "nouvelle cuisine", muito bem apreciada, a isso me leva.

    Beijo

    ResponderEliminar
  25. Carlos
    Não considerei de forma alguma publicidade o seu convite no meu cantinho, até porque o Rodrigo já me tinha dito para visitar este seu novo espaço, apenas não tenho andado muito bem! Um pouco tarde, mas faça de conta que vim a pé, cheguei e vou ficar, aproveito para agradecer as suas palavras.

    Adorei o texto e como o Carlos me disse, fiquei de sorriso nos lábios sim! Ao olhar para este prato fez-me lembrar uma sobremesa de requeijão com doce de abobora que eu e o Rodrigo pedimos, o empregado perguntou se era uma ou duas sobremesas, perguntamos o porquê, se eram em grande quantidade, o tipo resolveu trazer as duas, a quantidade era de tal forma que o Rodrigo apenas disse "afinal podiam vir quatro", essa dos empregados andarem a rondar a mesa também não vou muito à bola com isso, eu até gosto que seja o Rodrigo a servir-me o vinho. Sabe Carlos eu adoro petiscos, adoro tascas mas infelizmente por estas bandas perderam-se os costumes e as tascas já não existem.

    Beijinho e uma flor

    ResponderEliminar
  26. Parabéns pelo espaço e pelas crónicas.
    Eu sou mais tasquinha e restaurantes "dos normais", com bom ambiente e sem muitos "fricotes". De preferência ao pé do mar.
    Espero é nunca ter o azar de jantar ao som dos violinos de Chopin. :)
    Apresente os meus cumprimentos à Srª D.Marlene Vanessa, que ficou certamente "impressionadissima" com o restaurant. É aliás a função primordial, quiça única, destes sítios e destes pratinhos com nomes delicodoces.(ainda me estou a rir)

    ResponderEliminar
  27. Obrigada pelos comentários tão simpáticos lá no meu "cantinho".

    Dei uma voltinha, por aqui...adorei o que li e...sorri.

    Parece mal dizer...mas detesto a "nouvelle cuisine".
    Prefiro a "cuisine portugaise".

    Beijos.

    ResponderEliminar
  28. Tambem , carlos , levar uma Marlene a uma nouvelle cuisine !:)ia já pensando na pescaria final , não ia com planos de regressar a casa e "matar 2 a fome com um pacotede biscoitos e uma caneca de leite com canela :))))
    Bom fim de semana.

    ResponderEliminar