quarta-feira, 18 de abril de 2012

O gringo do cavalo branco


( Continuado daqui)

Começava a soprar mais forte a brisa patagónica. Recostei-me na cadeira, com a cabaça na mão, acendi um cigarro e sorvi mais um gole de mate.
Só então Lihue começou a sua narrativa:
“ Os primeiros viajantes que chegaram à Patagónia , no final do século XIX, eram aventureiros que vinham em busca de desafios.  A ideia de que por aqui habitavam índios ferozes com dois metros e que a Patagónia era a terra do Diabo, eram motivos suficientes para despertar a curiosidade dessas pessoas. Só mais tarde perceberam que os índios Tehuelche não eram assim tão ferozes nem tão altos como os imaginavam e que o Diabo, se existe, nunca escolheria uma terra tão fria e agreste para viver. 
Por esse tempo, chegou a Chubut um tipo bizarro. Media quase dois metros, pesava mais de cem quilos, falava um espanhol arrevesado com um sotaque estranho, e usava expressões que ninguém entendia. Vinha do Chile, mas rapidamente correu a notícia de que era a reincarnação de Gualitchu, o deus do Mal dos Querandies, índios sedentários  que habitavam nas margens do Rio de La Plata. Segundo contam os seus descendentes, a razão de lhe terem atribuído essa origem divina  devia-se ao facto de o homem ser mau como uma  jibóia. Adorava briga, andava sempre armado com dois revólveres prateados junto às coxas e nunca falhava um tiro, o que fez dele uma personagem temível.
Na verdade o tipo  era um gringo que veio cá parar não se sabe como, mas de certeza que em busca de aventura não vinha. Deambulou pelo Chubut durante uns tempos, montando um cavalo branco, e acabou por se fixar  em Esquel, a poucos quilómetros da casa onde viviam Butch Cassidy e Sundance Kid. 
Há quem diga que ele veio para cá contratado pelos gringos, com o fito de prender ou matar Butch Cassidy, mas se esse era o seu propósito, nunca o concretizou. E não foi por falta de oportunidade, pois muitas vezes foi visto na companhia dos dois bandidos.
O que se sabe é que  o gringo,  depois de em várias rixas ter comprovado ser tão humano como nós, gostava de beber e de jogar e por isso passava a vida nas tabernas. Chegava, pousava os revólveres em cima da mesa, pedia um jarro de vinho e desafiava os presentes para jogar Tranca. Assim passava horas intermináveis, pois só abandonava a mesa do jogo quando se acabava o vinho, ou os companheiros de jogatana.
Quando não estava a jogar e a beber ia para as margens dos rios  em busca de ouro. Uma tarde, no Parque Nacional de Los Alerces,  viu uma mulher tão grande como ele a quem dirigiu a palavra.
 Maria Ancapichún- assim se chamava a mulher- era uma índia mapuche , muito bela, mas também com muito mau feitio. A verdade é que casaram e tiveram doze filhos. O mau feitio de Maria dominava o do gringo e não eram raras as vezes em que entrava na taberna, interrompia o jogo e dizia:
- Ele não se demora. Só me vai fazer um filho e volta já.
Se alguém protestasse, Maria Ancapichún respondia-lhe com um par de bofetadas. Depois , pegava o gringo por um braço e lá iam os dois, sem que o valentão ousasse dizer palavra.
Não te sei dizer se todos os filhos do casal foram feitos assim, mas sabe-se que teve 12 e a filha mais nova, ainda viva, tem muita descendência espalhada pela Patagónia.

Um dia o gringo apareceu morto junto à margem do rio Corcovado. Todos suspeitaram  ter-se tratado de vingança de um garimpeiro e a coisa assim teria ficado, se não tivesse havido alguém que denunciou Maria Ancapichún como autora do crime.  Não se encontraram provas e ainda hoje ninguém acredita que ela tivesse cometido um crime porque, apesar do mau feitio, era uma mulher extremamente bondosa e amava o gringo.
Por essa época, as terras dos índios começaram a ser ocupadas. A Buenos Aires chegavam diariamente relatos de atrocidades cometidas pelos índios, gente sem moral e sem lei, que andava a semear o pânico. Funcionários corruptos criaram, nas elites da capital, uma imagem da Patagónia como terra  sem lei onde campeva o banditismo, pelo que era preciso estabelecer a Lei e a Ordem a fim de evitar que os índios ocupassem território que não lhes pertencia. 
Claro que o objectivo destes funcionários era apropriarem-se  de algumas dessas terras e expulsar os índios. Em Buenos Aires, os relatos destes funcionários eram acompanhados por notícias de jornais  que confirmavam o terror  instalado pelos índios.  Muitas notícias relacionavam a violência com Maria Ancapichún, acusada de ser a mentora e chefe de um perigoso grupo de bandoleiros.
 Não sei se as elites argentinas – que nunca tinham pisado território patagónico - confiavam muito nas notícias que lhes chegavam, mas é certo que se aproveitaram delas, para aplicarem o seu plano de conquista de terras aos índios.
Fizeram então uma lei que determinava a possibilidade de expulsão dos índios  das suas terras, sempre que homens imbuídos de civilização e progresso fossem obrigados a ocupar as terras para impedir os actos de banditismo". 
( Conclui no próximo post)

13 comentários:

  1. Isto das elites, completamente fora da realidade, decretarem leis supostamente para beneficiar os povos, alastrou-se até à Europa!
    Pobres índios...
    Tenho a certeza que Maria Ancapichún não matou o gringo, cujo nome não referiste.
    As mulheres com mau feitio, quando amam alguém, são até capazes de dar a vida por esse amor. Mas...daí não sei! Os ciúmes são tramados.

    Carlos, vais desculpar, mas a propósito do gringo obedecer à indía, lembrei-me de um caso lá da minha terra em que havia um tipo enorme, forte e mau como as cobras casado com uma mulher com metade do seu tamanho. Falava-se à boca pequena que ela lhe batia, mas ninguém tinha coragem para tirar isso a limpo, claro!
    Um dia, na taberna, um fulano encheu o peito de ar e assim à laia de seja o que Deus quiser, interpelou o gigante e questionou-o nesse sentido. A resposta deixou todos os presentes estupefactos:
    "É verdade, pois! Ela gosta e a mim não me dói nada."
    Desculpa lá a ousadia, Carlos.
    Cá fico a aguardar a continuação.
    Beijinho

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    1. Não referi o nome do gringo, por uma razão: cada vez que ouvi esta história, o gringo tinha um nome diferente. Mas essa explicação fica mais para diante...
      Quanto à estória que contas, também conheci um caso idêntico, mas não esqueças que Maria Ancapichún era tão, ou ainda mais, alta como o gringo
      Beijinho

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  2. Esta história, com mais ou menos lenda à mistura, não difere muito dos relatos de Luis Sepúlveda no seu último livro "Últimas Notícias do Sul". Relatos diferentes, evidentemente, mas no mesmo sentido... :)

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    1. Na verdade, ouvi pelo menos meia dúzia de versões diferentes da história de Maria Ancapichún. É isso que faz a Patagónia mágica e a torna única para quem teve a sorte de a visitar.

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  3. Estas terras são sempre saqueadas por criaturas muito civilizadas...

    Bons sonhos

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    1. Nos últimos anos a Patagónia foi saqueada por farmacêuticas e figuras do jet set americano. Mas, sobre isso, escreverei mais adiante...

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  4. Esta é para seguir com a maior atenção.

    P.S. Adorei o comentário da São.

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  5. Ora... vamos ficar a aguardar!
    Mas a coisa... promete!

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  6. Carlosamigo

    Cá cheguei e voltarei. No meio de toda esta filhadeputice toda, entrar aqui no ónderoques é porreiríssimo. E as crónicas são deliciosas. Quando eu for grande quero ser comatu. E viva a Patagónia! E viva a Ancapichún! Emendo: quando eu for grande quero ser Ancapitchún! Muitos parabéns pelo neófito!

    Abç

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    1. HenriquAmigo
      Como já dise na Travessa é um prazer ter-te de volta, embora saiba bem o quanto isso custa...
      Espero que te tornes clientes deste cantinho, onde talvez venhas a encontrar algumas histórias que te são familiares.

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  7. Quantas vezes o culpado é inocente? Adorei o Blog e voltarei. Beijinhos

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