quarta-feira, 25 de abril de 2012

O meu 25 de Abril


Pelas seis ou sete da manhã, pouco depois da alvorada, ligo o meu minúsculo rádio de pilhas comprado em Gibraltar e fico atónito com o que ouço. Por entre os acordes de marchas militares e comunicados evasivos, digo ao Zé Calvário:
"Isto é cá dentro, são os gajos da Acção Psicológica a experimentar-nos".
Sabia do que falava e conhecia bem as práticas e proveniências de uma boa parte dos milicianos que então andavam pela Acção Psicológica. O Zé Calvário alvitrou entre dentes que podia ser um golpe da extrema-direita, chefiado por Kaúlza de Arriaga, descontente com as aberturas de Marcelo. Só de pensar na hipótese, assustei-me.
O pequeno almoço foi comido em silêncio, com "cochichos" à mistura. O suspense aumentou à medida que o dia foi passando. O nervosismo era evidente em cada rosto, seguíamos atentamente todas as movimentações, para ver se percebíamos o que estava a acontecer. Da parte da tarde começaram a correr alguns boatos, sendo o mais insistente o de que o Comandante tinha sido preso. Alguém alvitrou que, a ser verdade, não poderia tratar-se de um golpe da extrema-direita. Agarrei-me a essa hipótese de uma forma tenaz. Se não fosse de extrema-direita, só poderia ser o golpe Redentor.
O alferes miliciano , comandante de pelotão, respondia de forma evasiva a todas as questões que lhe colocávamos,enquanto aprendíamos a desmontar, limpar e voltar a montar uma G3.
Só ao final da tarde, quando diante do televisor instalado no bar ouvimos o comunicado da Junta de Salvação Nacional, tivemos a certeza que Marcelo Caetano tinha sido deposto e a ditadura derrubada. Respirei de alívio e, juntamente com outros camaradas, demos azo à alegria companheira de uma bebedeira colectiva que fez esgotar as bebidas.
Havia nomes , naquela Junta de Salvação Nacional, que não incutiam grande confiança, mas as dúvidas quanto à possibilidade de se ter tratado de um golpe da extrema-direita haviam-se dissipado.
No dia seguinte, as dúvidas não ficaram todas esclarecidas. Dentro de um quartel, com a informação limitada , impedidos de aceder aos transistores que apenas emitiam um ruído ensurdecedor ( sem que ninguém percebesse as razões de não ser possível escutar a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português) e a televisão do bar desligada por pretensa avaria, a tensão subia a olhos vistos.
Na manhã do dia 27 foi-nos finalmente comunicado o que se tinha passado. Senti vontade de fugir dali e juntar-me às pessoas que festejavam na rua. Só no 1º de Maio tivemos essa possibilidade. Deixaram-nos sair no dia 30 e eu, em vez de ir para o Porto, onde era suposto uma namorada estar a minha espera, saí disparado para Lisboa. Mergulhei naquela multidão imensa , abracei e beijei centenas de pessoas que não conhecia e acabei com meia dúzia de amigos a comemorar no único restaurante que devia estar aberto em Lisboa naquele dia, a comer umas omoletas feitas por especial favor por se tratar de jovens militatres.
(Não recordo o nome, lembro apenas que fica junto ao Hotel Rex e ainda existe)
Nunca vi - e provavelmente nunca voltarei a ver- uma manifestação como a do 1º de Maio de 74. Foi a coisa mais inesquecível e inebriante que se me ofereceu viver em toda a vida.
Foram dia felizes os que se seguiram. O pior, está a ser este despertar do sonho…

19 comentários:

  1. Muito pior. Eu estava em Angola e lá chegavam notícias contraditórias e sussurrava-se, apenas.

    Beijo

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  2. O "teu" 25 de Abril, no que concerne ao desconhecimento do que havia acontecido nessa madrugada, foi um pouco idêntico ao meu.
    Nessa manhã fui para o Hospital Maria Pia, onde fazia serviço o pediatra do meu filho, com o bebé a arder em febre. Só lá, soube pelos comentários das outras mães que tinha havido "uma revolta contra o Estado". Ainda toda a informação era muito vaga e enquanto não cheguei a casa não descansei. Nas ruas não havia indícios de nada. Foi através do único canal televisivo na altura, que fui acompanhando o desenrolar da situação.

    Tens razão! O primeiro 1º de Maio em Portugal será sempre a manifestação, até hoje inultrapassável, que movimentou mais gente cheia de esperança e alegria, a comemorar essa data do Dia do Trabalhador.
    Pior ainda do que este despertar do sonho, é sabermos que existem pessoas que continuam adormecidas!

    Gostei muito de saber onde estavas e como viveste esse período nacional tão esperançoso.
    Obrigada pela partilha desse retalho tão importante da tua vida, Carlos.

    Um beijo.

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  3. Li todos estes "capítulos" com muito interesse. Gosto de saber como as pessoas do nosso tempo viveram este acontecimento. Quanto ao 1º de Maio de 1974, dúvido que, nos anos que me restam de vida, veja uma manifestação igual, ou sequer parecida.

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  4. Julgava que teria sido a única completamente alheada do que se passava nesse dia, apesar de já ter idade para perceber: a minha mãe acordou-nos e avisou-nos que estava a acontecer uma revolução e que nesse dia não havia aulas. Mas eu acordei com uma otite e com febre, até os protestos da minha irmã que queria ir ao treino de basquete me incomodaram. Ao final da tarde, também me levantei um pouco e vi esse comunicado na TV, mas pouco mais. No dia seguinte continuei sem ir às aulas, passou-me quase tudo ao lado... :(((

    Mas pronto, adorei este relato na primeira pessoa, se bem que a informação que teve na altura fosse quase tanta como a minha! :))

    Quanto ao primeiro 1º de maio, os meus pais não nos deixaram ir à manif, o que hoje em dia compreendo: eu tinha acabado de fazer 15 anos, a minha irmã ainda tinha 13... :D

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  5. Pois eu estive como tu, Carlos, a ouvir notícias toda a manhã onde escutei todas as músicas de intervenção que até aí não tínhamos direito, e só isso me fazia crer que o Golpe era de Esquerda mas... o coração tremia só de pensar que poderia haver um volte face tal foi o debate crítico de Salgueiro Maia com Superiores Fascistas e os debates secretos em pleno Quartel do Carmo.

    Foi bonita a festa pá, no 1º de Maio e em momentos vividos no pós 25 de Abril.

    Será que, apesar da idade, ainda iremos voltar a viver algo parecido?

    Esta é a minha grande interrogação que certamente será partilhada por muitos dos teus leitores.

    Obrigada por teres partilhado a tua vivência que, vejo agora, não foi tão intensa quanto a minha, dadas as limitações de um quartel que não foi arregimentado para a "Revolta".

    Abreijos

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    1. Estava em Luanda, ouvi a notícia, pouco entendi , pois tudo era dito em surdina.
      Lembro-me de ligar o rádio e ficar atenta às notícias, pois não tínhamos TV.Sentia que algo pairava...
      Foram momentos de ansiedade!

      Beijos.

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  6. Voltei!

    O pior é o "AGORA".Os cravos murcharam, os sonhos enegreceram...a esperança está prestes a ruir!

    Beijos.

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  7. Estava no mato, em Moçambique e só soube no dia seguinte. Claro que a primeira coisa que me veio à ideia é de que poderia voltar para Portugal mais cedo...

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  8. Meu amigo, eu era uma jovem de 16 anos. Estava a estudar no Instituto Comercial de Lisboa e vivia em Belém.
    Lembro-me que não fui às aulas, estava tudo atento à televisão e no dia seguinte fui com centenas de pessoas, para a av. das Descobertas, gritar para os automóveis que passavam:
    " O povo unido jamais será vencido!

    Passados estes anos, não estamos unidos e fomos vencidos.

    beijinhos

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  9. Foi um dia inigualável! Nunca haveremos de viver um outros assim! (Só se o Otelo, que é maluco, se meter a fazer outro golpe...)

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  10. Mas o que é uma namorada quando há uma revolução de cravos? Um zero à esquerda!

    Liberdade, Igualdade, Progresso é o que desejo para o nosso país e, quero pedir desculpa ao Carlos pelo meu comentário agressivo no CR, mas hoje, é um mau dia para mim.

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  11. Foi de facto a coisa mais inebriante e nunca mais repetida aquela primeiro 1º de Maio...

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  12. Amigo Carlos, cá estou eu a ler o seu novo blog e comecei logo por um texto fantástico! Não tinha a noção que dentro dos quartéis não tinham tido aceso a informações do que estava a suceder cá fora.
    O meu marido que estava no serviço militar no Ultramar, diz que teve conhecimento da Revolução dos Cravos, logo no dia 26 de Abril.

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  13. Um relato na primeira pessoa que gostei muito de ler. Nao se vai repetir... nao da mesma forma... nem de outra forma.

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  14. O primeiro Primeiro de Maio foi o dia mais emocionante ecomovente e vibrante da minha vida inteira!!

    O 25 de Abril pasei-o a ver os aviões a sobrevoarem o Centro Médico-Educativo do Alfeite onde trabalhava na altura e onde fora permitida a entrada a civis.

    Obrigada , muito obrigada, pela mudança das cores, rrss

    Bons sonhos.

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  15. ERRATA:

    Só os militares puderam entrar nas instalações do Alfeite!

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  16. Isto vai passar, Carlos.
    Não há mal que sempre dure.

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  17. Claro que vai passar ...não se pode viver sempre assim esperando pelo D. Sebastião :(Eu estou farta.
    Obrigado pela partilha das saus lembranças.

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  18. Foram dias de sorrisos que nos querem tirar!

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