quarta-feira, 4 de abril de 2012

Pepe e a maldição das medialunas


A primeira vez que fui à Argentina, a vida era muito cara para um europeu  e, muito mais, para um português que à época nem sequer imaginava a hipótese de poder vir a manusear uma nota europeia, em circulação apenas nos países ricos. 
Na busca de um alojamento  central relativamente barato, aportei a um  hotel na Avenida de Mayo, propriedade de um galego há várias décadas emigrado, tão sovina como um escocês. Ficámos amigos, depois de longas conversas  ao pequeno almoço, enquanto comia umas minúsculas, mas deliciosas medialunas feitas pela mulher e que  durante alguns anos classifiquei como as melhores que se podiam comer em Buenos Aires.
Apesar da sua sovinice, Pepe autorizava-me a comer  mais do que as duas medialunas  regimentais que faziam parte do pequeno almoço, em troca de dois dedos de conversa que tinham como alvo preferencial a sua Galiza.
Nos dois anos seguintes voltei a hospedar-me no Hotel Avenida e mesmo quando o troquei por um hotel mais moderno e confortável na Suypacho, continuei a visitar o meu amigo Pepe e a tomar um  longo pequeno almoço, pago com narrativas  frescas da Galiza.
Não sei se por hábito, ou superstição, no dia de regressar a Portugal  ia sempre despedir-me dele. Entregava-me um cartão com a sua morada na Galiza e dizia-me:
"Quando vuelvas acá yo estaré en Galícia. Si quieres medialunas, vá a visitarme aya, coño!"
Esta frase, repetida durante quase duas décadas,  funcionava para mim como um talismã. Acreditava que no  dia em que Pepe não a pronunciasse,  isso significaria que não  voltaria à Argentina. 
Na última ida  a Buenos Aires,  não encontrei o Pepe. Tinha finalmente regressado à Galiza, mas tinha-me deixado um  bilhete com a sua morada, os seus contactos e a recomendação habitual, a que acrescentou uma frase em português:
“ Enquanto não me fores visitar, não voltas a Buenos Aires!”.
Quando regressei a Portugal  telefonei-lhe e prometi-lhe uma visita em Março, mas  não pude concretizar esse meu desejo. Reprogramei a visita para Maio, depois de regressar da Argentina, para onde tencionava partir no próximo dia 19. 
“ Vais à Argentina sem me vires visitar? Não acredito! Queria pedir-te que me levasses uma encomenda para os meus netos…”
Disse-lhe que me podia enviar a encomenda por correio para Lisboa ou para o Porto e eu me encarregaria de a levar.
Pepe recusou a sugestão, dizendo que ele próprio se encarregaria disso.
Na sexta-feira soube que afinal a viagem não se iria realizar, ficando adiada para Novembro. Logo que recebi a notícia, telefonei ao Pepe. 
“ Foi maldição tua, coño?”- perguntei-lhe com uma risada esforçada...

20 comentários:

  1. No creo en brujas pero que las hay las hay...:))

    ResponderEliminar
  2. Acredito que foi, eheheh.
    Portanto Buenos Aires só para Novembro, ou talvez não.
    beijo

    ResponderEliminar
  3. Ah... deve ter sido mesmo... hehehehe

    ResponderEliminar
  4. Maldição ou não, o Carlos tem que ir visitar o espanholito.
    Qual é o problema?
    Do Porto à Galiza é só um pulo!!!

    E agora vou entrar nos fornos crematórios... a história alemã é a minha maldição.

    ResponderEliminar
  5. Maldições existem, mesmo para quem não acredita nelas! São como as bruxas... :)))

    ResponderEliminar
  6. "O que tem que ser, tem muita força!"
    O melhor de tudo é que terá que fazer duas viagens :)

    ResponderEliminar
  7. Não acredito em bruxas, mas que as há, há.

    Beijinho e uma flor

    ResponderEliminar
  8. Meu caro, obviamente, que las hay, las hay!!!

    ResponderEliminar
  9. Ora... coincidências, parece que nem existem!! O melhor será lá dar um salto se quiser alguma vez voltar à Argentina Carlos!Senão, nem em Novembro!! :)

    ResponderEliminar
  10. Carlos
    Os Galegos são lixados...foi mesmo maldição, por aqui chamamos-lhe "praga"
    Abraço

    ResponderEliminar
  11. Como não sou supersticiosa não acredito em maldições nem pragas nem nada dessa treta, mas lá que tens de ir à Galiza visitar o Pepe, isso tens, Carlos!
    Não só para matar saudades do galego e pôr a conversa em dia, como para te deliciares com as medialunas que só a mulher dele sabe fazer.
    E só não te digo: vai lá, coño! - porque não sei muito bem o que isso quer dizer...

    Beijinhos

    ResponderEliminar
  12. Não acredito em bruxedos... mas que que há umas malapatas lixadas, isso há!!

    ResponderEliminar
  13. Não acredito em bruxas, amuletos, etc..etc...

    Penso que há um tempo para tudo...que nada acontece por acaso...a tua viagem tinha que ser em Novembro!

    Beijos.

    ResponderEliminar
  14. Voltei para lhe desejar uma Boa Páscoa!

    Beijos.

    ResponderEliminar
  15. Bom dia caro Amigo
    Agradeço a visita que me orientou para cá. Parece-me já ter visto este blogue ontem, mas não li nada.
    Hoje deliciei-me com a vossa amizade.
    Uma hospedagem muito agradável. Afinal o teu amigo até era um homem "fixe".

    Retribuo os votos de uma boa Páscoa

    ResponderEliminar
  16. Seria???
    Não creio em nada dessas tretas, mas.............

    Passa-se sempre um bom momento consigo.

    ResponderEliminar
  17. Ai Buenos Aires ...será que não foi?
    Numa noite de estrelas, larguei os saltos impossíveis, os croquetes intragáveis, as companhias sensaboronas, passei a Plaza de Mayo deserta e, aterrei em La boca, numa milonga de estrelas.

    ResponderEliminar