quinta-feira, 31 de maio de 2012

Momentos Roubados


                                                                Copenhague ( Junho 2010)

O barco estava parado junto ao cais e eu preparava-me para tirar um foto. Ela vinha da direita. Quando me viu de máquina fotográfica em riste, decidiu parar. Fiquei uns minutos na expectativa. Como ela não saía dali, tirei a fotografia à mesma. Quando o barco arrancou , ouvia-dizer:
- Send me one copy!
Riu-se e retomou o seu caminho...
Bem, este pequeno apontamento serve apenas de pretexto para vos informar que estão mesmo a chegar as crónicas de férias e de viagem. Alguma serão reedições, outras originais. Já que não nos deixam ir de férias, que venham as férias até nós.
Ah, é verdade, amanhã é Dia da Criança e cá estarei a contar algumas histórias sobre elas.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Olha que três!




Na sala, diante do televisor  a ver um seriado americano, estão três gerações: avó, filha e neto. Como só há um canal, ninguém reclama ver o programa da sua preferência e como a televisão ainda é a preto e branco as duas mulheres não comentam as cores dos vestidos.
Na sala está também um gato- aparentemente alheio às imagens que vão passando no ecrã e à cena de comunhão intergeracional-  que assumirá papel relevante  no final da história.
Voltemos, por agora, ao televisor  onde  JR acaba de fazer mais uma sacanice a Sue Ellen e Bob Ewing envida esforços  para o desmascarar. Tarde demais… é hora de intervalo.
A mãe –  que tem um terço entre as mãos-  lança um suspiro  e dá início em surdina a mais um mistério do seu rosário; a  avó levanta-se para fazer mais um chichi; o neto olha mais uma vez para o relógio, devem estar a chegar os amigos com quem vai sair nessa noite, porque é sábado.
Quando a avó regressa à sala  já recomeçou o Dallas. Bob Ewing discute com J.R.
“ A televisão está cada vez pior, já vi este filme não sei quantas vezes, vou mas é deitar-me…” 
Mãe e filho trocam um sorriso cúmplice.
Toca a campainha. O jovem  dá um beijo à mãe, Não venhas tarde, meu filho, beija  a avó  que está de pé na sala  ainda hesitante entre ficar ou ir deitar-se Não ficas para ver o resto do filme? Eu já vi, é muito bom, Fernando apressa-se nas despedidas desce as escadas  em direcção à porta que dá para a rua.
-Olá Luís, então onde vamos hoje?
-Esperamos que chegue o Beto para decidir.
Ficam os dois na soleira da porta  a tergiversar sobre o local onde haverá mais miúdas, sob o olhar atento do gato que aproveitou a boleia de Fernando para se escapulir da sala e arejar um bocado. Apesar de estarem na rua, Fernando mantém a porta entreaberta, para que o gato possa voltar a entrar quando quiser.
Corre uma brisa fresca.
-  Está frio, não achas, Luís? O melhor é fechar a porta!
O gato fixa os olhos em Fernando lança uma miadela de compaixão  e escapa-se rua abaixo. Já bem longe volta-se para trás. Parece  dizer “ Que família de malucos onde eu vim parar!” 

domingo, 27 de maio de 2012

A Visita



A noite caiu há muito, está escuro como breu,  uma chuva miudinha rega  a terra seca  pelo prolongado estio.  Isilda chega à janela, afasta o reposteiro, abre a vidraça para sentir o cheiro da terra húmida,  procura  luzes  acesas em alguma das casas próximas. De Monfortinho a Monsanto toda a gente  já se foi deitar. Como sempre ela é a última, esteve até àquela hora a fazer companhia às personagens da telenovela que todas as noites lhe entram em casa. Com elas bebe chá ou café, no verão um refresco, quase sempre limonada, porque limões é coisa que tem em casa com fartura.

Isilda tem a sensação que as visitas  hoje se foram embora mais cedo. Olha para o relógio a confirmar, está parado nas 11 e 23 desde a morte do tio Marcelino, porque ela nunca mais deu corda àquela geringonça. Dá uma volta pela casa a certificar-se se está tudo bem fechado, um relâmpago ilumina o corredor escuro  e logo de seguida um trovão  ribomba, fazendo estremecer as frágeis paredes da casa.
Isilda tem medo, aconchega melhor o xaile ao corpo e pede protecção a Santa Bárbara.


Santa Bárbara, Bendita
Que no céu está escrita
Com papel e água benta
Para espantar esta tormenta
Espalhe-a lá para bem longe
Onde não haja eira nem beira
Nem raminho de oliveira
Nem raminho de figueira
Nem mulheres com meninos
Nem ovelhas com borreguinhos
Nem vacas com bezerrinhos
Nem pedrinhas de sal
Nem nada que faça mal…
Amen!


Um segundo trovão leva-a de volta à sala. Fica à espera. Passam alguns minutos, mas nada.  Vai para o quarto.Antes de apagar a luz beija o retrato do marido que há 24 anos repousa na cabeceira até que alguém lhe dê outro destino, quando Isilda morrer e com ele se for encontrar. Pelo menos é assim que ela pensa... Não consegue dormir. Volta a acender a luz, pega no livro de orações e finalmente adormece.
(…)
Acorda com o sr. Abílio que lhe traz o pão à porta.Fala-lhe do quarto.
Já tiraste o leite à vaca, Abílio?
Já D. Isilda. Está tudo direitinho. Quer vir ver?
Não, já vou buscar.
 A Júlia vem trazer-lhe o almoço à hora do costume. Hoje tem um petisquinho especial!
Ela que não se atrase, ouviste?
Esteja descansada!
Isilda levanta-se.  Liga o rádio enquanto toma o pequeno almoço. Está um belo dia de sol. Talvez dê uma volta pelo jardim, mas não pode demorar muito, porque- lembra-se- é dia de o filho lhe telefonar da Suíça.
Vai arranjar-se. Já não olha para o espelho, porque não quer ver  as rugas que lhe sulcam o rosto , outrora fascínio de  bela moçoila requestada em todos os bailes de Idanha, pelos rapazes desde Monfortinho a Castelo Branco.  Sai para o jardim. Corre uma aragem húmida e opta por ficar no alpendre enquanto espera a chegada das visitas. A Estrela troca mugidos com o Loiro da D. Ester, namoro antigo, o ti Tono passa com o rebanho e saúda-a com um bom dia, ela volta para dentro, esqueceu-se de pôr as jóias, apressa-se porque as visitas estão a chegar.
Senta-se no sofá em frente ao televisor , a Praça da Alegria já regurgita de gente, Bom dia sr. Gabriel, Bom dia menina, Sónia. Então de que vamos falar hoje?

sábado, 26 de maio de 2012

Especialidades doceiras

Algumas leitoras perguntaram na caixa de comentários daqui e do CR o que eram os "Beija-me Depressa" e  os "Jesuítas"
Nada melhor, portanto, do que exemplificar com imagens. Em cima estão os "Beija-me depressa", especialidade de Tomar muito açucarada e calórica que deve o seu nome ao facto de deixar na boca o seu sabor durante um curtíssimo espaço de tempo.



Aqui fica também uma fotografia dos tradicionais jesuítas, especialidade da confeitaria Moura em Santo Tirso, também famosa pelos limonetes.
O jesuíta - cujo nome presumo se deva ao facto de a receita ser um segredo dos jesuítas- foi tomando outras formas e paladares, aparecendo agora, com frequência coberto de amêndoas, com recheio a condizer.
Sirvam-se à vontade e tenham um bom sábado. Até amanhã, dia em que vos apresentarei as visitas da D. Isilda, uma anciã de Idanha que tem sempre a casa cheia de amigos.
E se ainda não leram o final  do conto Homem rico, Homem pobre, vão ler o post anterior... 

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Amélia, dos olhos doces...

( Conclusão)
O segurança aprestava-se para barrar a entrada ao Manuel, mas o engenheiro logo o dissuadiu dizendo Ele vem comigo!
Engoliu em seco e lá o deixou entrar , mas logo começou a congeminar uma forma de dizer ao engenheiro, à saída, que seria aconselhável pedir ao amigo para se vestir de forma mais conveniente quando viesse visitar as meninas.


Àquela hora da noite a música que saía das colunas de som  era arrastada, os decibéis espreguiçavam-se  pela sala como se tivessem sido apanhados  pela  crise e o televisor estava ligado sem som  na Sport TV que transmitia um jogo qualquer de uma liga secundária. 
Havia apenas um cliente, mais concentrado no copo de uísque do que nas meninas que se perfilavam ao balcão, tagarelando sabe-se lá sobre quê mas Manuel, apesar de embasbacado com o ambiente e seduzido pelo alinhamento perfeito daqueles rabos, percebeu que a conversa se travava entre  as apreciadoras dos bícepes de Hulk e  de Cristiano Ronaldo.
 Cada um vê futebol com os órgãos que mais exercita-  disse Manuel  em surdina ao engenheiro, que respondeu com uma sã e sonora gargalhada.
Pressentindo a entrada de clientes, duas das raparigas rodaram a cabeça  em direcção da porta, para ver  se valia a pena preparar  anzol  e isco para atrair clientes tão temperanos.
Cristina reconheceu o engenheiro Então por aqui hoje, senhor engenheiro? Vim apresentar a Rebeca a este meu amigo A Rebeca ainda não chegou, telefonou a dizer que vinha mais tarde porque tinha um assunto a tratar.
Olhou para o andrajoso amigo do engenheiro pensou que não valia a pena perder tempo com ele mas Luciana que observara a cena sentada ao balcão, apesar de nunca ter sido boa aluna a matemática, quando  viu que o andrajoso vinha com o engenheiro fez uma regra de três simples  e concluiu que seria um bom investimento. Por isso, ao mesmo tempo que encostava a face à dele deixando escapar um beijo que se perdeu no ar, perguntou:
- Como te chamas?
- Manel
- Prazer, sou a Luciana. Bebes alguma coisa, querido?
Mas que é isto, pensou Manuel enquanto lançava um olhar suplicante para o engenheiro como que a perguntar E agora qu’é qu’eu faço?
O engenheiro adivinhou-lhe os intentos,  disse a Luciana traz uma garrafa de Gancia mas aviso-te desde já que se entrar aí um cliente e tu fizeres o número de despejar a garrafa em cima da roupa do meu amigo vais ter que me prestar contas.
Por quem é senhor engenheiro, eu era lá capaz de fazer uma coisa dessas...Então sentamo-nos?
Sentaram-se.

Àquela hora, no outro extremo da cidade, uma mulher  passeia em frente ao casino. Parece procurar, ou estar à espera de alguém. Olha nervosamente para o relógio. Não escapou ao visionamento do porteiro, que comenta com o colega
-Tu já viste aquele pedaço? Achas que vai entrar?
- Eu aposto que não - responde o colega.
- Está apostado. Entra dentro de 10 minutos. Prepara-te para me trazeres amanhã uma garrafa de uísque.
Não teve de esperar tanto tempo. Cinco minutos depois a mulher entra, apressada, larga um Boa Noite no ar, os porteiros nem respondem, ficam a admirar-lhe as formas curvilíneas e a passada elegante que faz mover cadenciadamente os glúteos sob a saia justa, em direcção à sala de jogo.
A mulher não se demora mais do que um quarto de hora, sai disparada como entrou, desta vez nem sequer diz boa noite, volta a olhar a avenida de uma ponta a outra, avista um táxi, manda-o parar.

No night club Manuel e Luciana estão a acabar a segunda garrafa de champagne, o engenheiro observa-os a partir do balcão com um sorriso nervoso e divertido,  entremeia consultas ao relógio com um depenicar distraído de  amendoins e  goladas de uísque. Já perguntou cinquenta vezes aos seus botões  Onde é que ela se terá metido? mas os botões fazem-se de surdos e deixam-no sem resposta Decide telefonar-lhe, mas no preciso momento em que pega no telemóvel  Manuel explode como um vulcão, manchando  a alcatifa com  uma lava de vómito.
Ele não está habituado a beber e hoje bebeu um bocado demais - desculpa-se o engenheiro
Isto nunca aconteceu- desculpa-se Manuel
Luciana olha enojada para a alcatifa, faz uma reza rápida a santa Maria Madalena  em agradecimento pela protecção ao seu vestido que saiu imaculado, um empregado chama  Dona Lisette, traga os produtos de limpeza!...
Bem, o melhor é irmos embora, Manuel- alvitra o engenheiro.

 Em menos de um fósforo estão na rua, Manuel precisa de ar por isso caminham um bocado.  
Caiu-me mal o champagne, senhor engenheiro, as minhas desculpas, eu bem dizia que o melhor era não vir cá.
O pior mal foi teu. Nem conheces a Rebeca, nem vês o strip tease. Olha vou levar-te a casa.
Nem pense nisso senhor engenheiro, deixe-se estar, eu estou fino, apanho um táxi e em 10 minutos estou em casa.
Então vou só ali levar-te à praça de táxis. Entram os dois no carro, quando o engenheiro arranca para um táxi mesmo à frente deles. O engenheiro vê que a mulher que sai de lá de dentro é Rebeca,  faz menção de parar para dizer a Rebeca que volta já, mas não diz nada, porque não quer que ela conheça Manuel  naquele estado.

-Amanhã dou-te notícias sobre as aulas de condução. 
-Fico à espera senhor engenheiro, muito obrigado. Posso fazer-lhe só uma pergunta?
- Diz lá...
- Aquela mulher que ia a sair do táxi é a Rebeca?
O engenheiro sente-se apanhado em flagrante mas devolve
- Porque perguntas isso?
- Nada, senhor engenheiro, desculpe a curiosidade, não tenho nada com isso.
- É gira, não é?
- Quem?
- A Rebeca 
- Ah sim, claro. É muito bonita e elegante, sim. Sai à mãe...
- Porque dizes isso? Conheces a mãe dela?
-  Não ligue, senhor engenheiro. Lá na minha terra quando se vê uma rapariga muito bonita costumamos dizer "sais mesmo à tua mãe" porque, está bom de ver, uma mulher bonita nunca pode sair ao canastrão do pai Eheheh!
- Essa está boa Manel. Olha, um dia destes a gente volta cá para tu a conheceres, está bem? 
- Combinado, senhor engenheiro. Qualquer dia a gente fala disso.




O engenheiro volta ao night club Olá meu amor trouxe aqui o mendigo para tu o conheceres mas não estavas , onde andaste? Tive de tratar uns assuntos, mas quero pedir-te uma coisa, não quero conhecer esse mendigo Então porquê?  Não sei, acho que Santo Expedito* não quer que eu o conheça Quem é esse santo de que nunca ouvi falar? Não sei, gosto do nome e tenho muita Fé nele Então está bem não se fala mais nisso.
(...)
Manuel chega  a casa. Ainda está um bocado atordoado e fica a fumar um cigarro na rua, antes de entrar. Ouvem-se os acordes de uma música de telenovela. Manuel entra em casa, dá um beijo à mulher  e senta-se em silêncio ao lado dela no sofá. A mulher vai entabulando diálogo com algumas personagens, ele está silencioso e distante a consolidar uma mentira que arquitectou no táxi . Quando a telenovela acaba rompe o silêncio:
- Hoje vi a Amélia!
- Viste ? Aonde? Falaste com ela? Desembucha… Depressa, vá lá!
- Vinha no autocarro e vi-a sair de um táxi à porta do cinema Alvalade. Ia com um senhor muito bem vestido, pareciam apaixonados.
-Iam de mão dada?
- Iam e riam-se os dois muito. Tinham uns amigos à espera à porta do cinema  que os receberam a cantar os parabéns. Se calhar ele fazia anos…
- Achas que se a Amélia casar nos diz alguma coisa, Manel?
- Tenho a certeza que sim. Ela no fundo é boa menina.
- Ai minha rica filha, que afinal não foi p’ra puta como tu dizias! Valham-me  Santo Onofre e Santa Genoveva. Protegei a minha filhinha!
Foram-se deitar. Adormeceram tarde. Abraçados.

FIM







quinta-feira, 24 de maio de 2012

A Valsa das horas


Manuel está agora em pé. Chegou a hora de entrar no Casino. Dirige-se para a porta em passo lento. E se não o deixam entrar? 
Porque não hão-de deixar se ainda ontem lá estive? Porque ontem ias com o senhor engenheiro, parece ouvir uma voz  interior responder. Omessa! Lá por ir com o senhor engenheiro deixei de ser quem era antes de o encontrar? Entrei sem um tostão agora sou remediado, não roubei nada a ninguém, porque não me vão deixar entrar? 
Tu não percebes nada da vida, Manuel, diz-lhe a voz interior
Se o porteiro não me deixar entrar lembro-lhe que ontem estive cá com o senhor engenheiro, ele vai reconhecer-me porque trago a mesma camisola cinzenta enfarruscada e cheia de nódoas, as calças de ganga e os ténis que não largo há dois meses, quem não reconhece um tipo como eu?
Manuel abranda o passo, faz menção de desistir, raio que os parta se não me quiserem deixar entrar digo-lhe que venho devolver o que ganhei ontem, mas vou devolver em prestações e quero gozar um bocado enquanto entrego cada uma delas, até me esmifrarem o dinheiro todo.
Estás a ser inconsciente, Manuel, diz-lhe a voz , ele abana  a cabeça como que a repeli-la e avança em direcção ao casino.
O porteiro vê Manuel  aproximar-se, reconhece-o de imediato, diz para o colega de turno Olha lá vem o amigo do senhor engenheiro, deve pensar que vai ter a mesma sorte de ontem Vem devolver o dinheiro em prestações responde-lhe o colega Espero que sejam poucas, porque o homem cheira mal que tresanda replica o primeiro e riem os dois.
Manuel está a escassa meia centena de metros, já estugou o passo, parece-lhe ouvir uma voz dizer Paizinho, não!  Sente uma mão cair-lhe com vigor sobre  o ombro e volta-se
- Olá senhor engenheiro, como está?
- Que vais fazer Manuel? Tu julgas que no casino se ganha todos os dia? Não percebes que tiveste aquilo a que se chama sorte de principiante que é o Diabo a agarrar-nos? Tu não te metas nisso, Manuel. Queres divertir-te? Então hoje vamos divertir-nos para outro lado, o casino já tu conheces, vou proporcionar-te uma experiência nova.
- Que experiência senhor engenheiro?
- Deixa por minha conta. Ainda bem que tomaste banho. Estás todo cheiroso, foste comprar perfume para vir ao casino, foi? 
Manuel está outra vez envergonhado, a presença do engenheiro  deixou-o irritado porque está habituado a ser livre e a não dar satisfações a ninguém da sua vida, mas quem é que este gajo se julga para mandar em mim, repele vigorosamente o engenheiro com o braço, depois pede desculpa, mas já é tarde, o mal está feito.
O engenheiro percebe que Manuel já bebeu demais, opta por não ripostar. 
-Vamos jantar Manuel
- Mas hoje pago eu, senhor engenheiro
- É justo. Vamos lá.


( no texto original segue-se uma descrição da conversa que tiveram ao  jantar, mas já percebi que os leitores/leitoras estão impacientes para saber o final da história, por isso amputei essa parte que ficará reservada só para mim e limito-me a dizer-vos que jantaram no mesmo local da véspera, um restaurante com o sugestivo nome BlackJack, Manuel pediu bitoque com ovo e enfardou dois pães que foi molhando ora no ovo ora no molho. Tudo acompanhado por uma garrafa de vinho a que deve ser retirado o conteúdo de dois copos,  porção que o engenheiro reservou para acompanhar  o bacalhau à Lagareiro. Passemos então adiante…)


Quando acabaram de  jantar ainda era cedo, o engenheiro propôs uma caminhada para desmoer.Vão a falar da crise, dos desmiolados do governo, do desemprego, quando passa um Mercedes descapotável com duas loiras espampanantes. O engenheiro lança um prolongado assobio, aponta para os pneus num alerta para um furo imaginário, as mulheres percebem a brincadeira, a pendura solta uma gargalhada e  faz um sinal à condutora para parar. Parece que quer entrar no jogo, mas  vê Manuel e muda de ideias, a condutora acelera e desaparece na curva ao fundo da alameda.
- Grandes pedaços, Manel hein? Aquilo é que era uma noite…
- Estraguei tudo, não foi, senhor engenheiro?
O engenheiro faz-se desentendido
-  Que fazias antes de estar desempregado, Manel?
- Era contínuo do banco  ECPV – que as pessoas traduzem por Estamos Cagando Para Vocês-    na Paiva Couceiro. Fazia também trabalho de estafeta mas o senhor engenheiro sabe como é… com as novas tecnologias, ou lá como chamam àquilo, já ninguém precisa de estafetas e para que querem os bancos contínuos se os clientes agora resolvem tudo pela Internet? O gerente ainda me aguentou uns anitos, mas com a crise foi mesmo obrigado a despedir-me, coitado. Deram-me uma indemnização mexeruca,  gastou-se tudo num instante. Inscrevi-me no Centro de Emprego, fui às Novas Oportunidades, mas aquilo era muito difícil para mim e tive de desistir.  Durante dois anos corri tudo, até fui à Câmara oferecer-me para varrer as ruas e os jardins, há um ano desisti. Quem vai empregar um homem com 48 anos sem estudos?
O engenheiro parece alheado da conversa , vai a fazer contas de cabeça, responde Pois e pergunta  Gostavas de voltar a trabalhar Manel?
- Isso era o que eu mais queria, senhor engenheiro. Já viu a minha vida? Ontem aquele dinheirinho  no casino foi uma bênção de Deus.
- E hoje preparavas-te para retribuir a bênção de Deus entregando o dinheiro ao Diabo não era Manuel? Olha lá, tu sabes conduzir?
Manuel ficou acabrunhado com a advertência do engenheiro, responde entre dentes:
- Carta eu tenho, mas nunca tive carro, só ia guiando às vezes o de algum amigo que me deixava dar uma voltinha…
- Então vamos fazer assim. Vais ter umas lições de condução e quando estiveres apto contrato-te para meu motorista. 
Manuel arregala os olhos, dá dois passos em frente,  estica o pescoço para ver melhor a cara do engenheiro  e se certificar que está a falar a sério.
- O senhor engenheiro está a falar a sério?
- Achas que ia brincar com coisas tão sérias, Manel? Está combinado. Amanhã falo para a escola de condução de um amigo para combinar quando começas as aulas…
O engenheiro olha para o relógio. São horas de ir andando. Entram no carro e dirigem-se para o outro lado da cidade. 
É noite de  quinta-feira , ainda há pouco movimento nas ruas, mas as luzes  já piscam nos corpos desenhados  em posições eróticas.
-Onde vamos senhor engenheiro?
- Tu nunca foste às putas, pois não, Manel?
- Só quando era catraio, duas ou três vezes. Lá na terra , putas, só havia a Micas do Bobó e a filha. O meu pai levou-me lá quando eu fiz  18 anos, porque como eu não era namoradeiro queria saber se eu era mesmo homem e não tinha desvios. Foi a primeira vez que estive com uma mulher.
O engenheiro sorriu. Parou o carro mesmo em frente ao night club.
-Chegámos, Manel. Vou apresentar-te  a gaja que ando a comer e me está a deixar doido. Qualquer dia divorcio-me e caso com ela. Faz-me lembrar a mulher da minha vida de que já te falei. Lembras-te?
(…)
Conclui amanhã 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O dia seguinte




No dia seguinte, ao final da tarde, Manuel  está  novamente sentado no banco de jardim em frente ao casino.  Uma das mãos continua a segurar uma garrafa de cerveja, a outra já não está vazia. Tem um cigarro a bailar nervosamente entre os dedos, à espera de ser consumido. Este cigarro não foi cravado a um passante, como habitualmente, porque logo pela manhã  Manuel saiu de casa  para ir ao banco levantar o cheque.
O empregado do banco olhou-o desconfiado, conferiu diversas vezes o  bilhete de identidade, pediu a Manuel para assinar o cheque, verificou demoradamente a assinatura e finalmente, entre o incrédulo e o inconformado,  entregou-lhe  o dinheiro com a recomendação que o guardasse bem, para não ser assaltado. 
Manuel pediu para ir à casa de banho. O funcionário estranhou, mas acedeu quando ele lhe sinalizou discretamente as suas intenções
 Manuel  meteu algumas notas nas cuecas, amolfadando os testículos, outras nas meias, outras ainda numa bolsa de pano que pediu à mulher para lhe coser às calças - onde habitualmente guarda uma faca de ponta e mola. Meteu as restantes no bolso das calças. Cumprida a função foi ao balcão despedir-se do funcionário sendo retribuído  com uma piscadela de olho  cúmplice, aprovadora  das precauções tomadas.
Chegado a casa meteu o dinheiro  dentro do colchão, retirando apenas duas notas de 50 euros e outra de dez.  Saiu para comprar cigarros e  deu-se ao luxo – pela primeira vez em muitos meses - de tomar uma bica. Pediu para embrulharem um jesuíta para a mulher.
A seguir ao almoço não dormiu a sesta. Deixou-se ficar na sala, em frente ao televisor, a ver a Volta a Itália em bicicleta. Pelo menos era isso que pensava a mulher, que não podia adivinhar que enquanto os ciclistas escalavam montanhas e cruzavam o Valle d’Aosta, o marido voava  por outras paragens  nas asas de sonhos por cumprir. 
À hora habitual come uma sopa e despede-se da mulher. Avisa-a que talvez venha tarde, ela pergunta  se vai encontrar-se com o anjo, ele responde que os anjos não são como os carteiros de um filme que viu na televisão, só aparecem uma vez.

Manuel  está  então a esta hora  sentado com o cigarro a bailar entre os dedos numa mão e a garrafa de cerveja na outra. Como todos os dias, as luzes feéricas  fascinam-no, mas hoje o apelo é ainda mais forte. Podia ter entrado logo, porque ao contrário dos outros dias hoje tem dinheiro no bolso, mas  não quer perder o hábito de se deixar seduzir pelas luzes que há semanas o convidam a entrar, mas o deixam sempre à porta, porque ele tem medo de arriscar a nota de 5 euros que sempre traz consigo para uma emergência.
 Pensara  qua a sua primeira ida ao casino seria para jogar nas slot machines, que não requerem ciência nem sabedoria. Mete-se uma moeda, fica-se a ver as figurinhas a rodar e espera-se que marquem as combinações certas. Isso sabe Manuel  de ver nos filmes, não de experiência própria. 
O encontro com o engenheiro, no entanto, alterou-lhe-lhe os planos. Agora sente-se um doutor em jogo, com capacidade para determinar à roleta onde deve fazer parar a bola. Lembra-se de um provérbio chinês que diz se alguém tem fome não lhe dês o peixe, ensina-o a pescar  e acredita que foi essa a missão confiada  ao engenheiro por alguma entidade divina.  
Levanta os olhos ao céu para agradecer ao seu Anjo da Guarda por lhe ter enviado tão experiente mensageiro, balbucia umas palavras, mas não chega a benzer-se porque nesse momento uma criança se aproxima dele, toca-lhe no braço, deposita-lhe uma moeda na mão  é a minha mãe que manda.
Manuel olha em frente, vê uma senhora, agradece com um audível muito obrigado, a criança foge a correr para as saias da mãe e agarra-lhe a mão, numa súplica de protecção. 
A senhora devolve-lhe um sorriso afectuoso Muita saúde e boa sorte Obrigado , Manuel tem a certeza que nunca viu um sorriso tão bonito, sente o coração aquecer-se de reconhecimento, mas agora não sabe se é mendigo ou  desempregado, por momentos sente arrependimento por estar a enganar a senhora que dele se compadeceu, logo havia de ser hoje, que não tinha pedido nem esmola nem cigarros tantas vezes recusados, que haviam de lhe dar uma esmola. 
Logo hoje, um dia em que não se sente pobre porque tem mais de dois mil euros enfiados no colchão, mesmo quando trabalhava nunca tinha tido tanto dinheiro junto. Está envergonhado, tem vontade de fugir dali, se alguém sabe que ele tem tanto dinheiro no colchão o que irá dizer? Mas quem vai saber que na véspera encontrou um engenheiro enviado pelo seu Anjo da Guarda que num gesto de generosidade lhe aliviou a vida para os próximos meses? 
Passa um carro dos bombeiros com a sirene a tocar Há fogo onde será? Manuel lembra-se do incêndio que no ano anterior deflagrara no seu bairro  consumindo barracas de gente pobre como ele, mas poupando a sua que ele protegera com cimento aos fins de semana, enquanto os outros jogavam às cartas e bebiam minis na tasca do sr Zé. Sente um arrepio percorrer-lhe a espinha enquanto recorda, olha em volta a senhora já vai  longe, o miúdo de vez em quando olha para trás e de uma das vezes lança-lhe um aceno, Manuel retribui, olha  agora para a fachada  do casino, as luzes continuam a piscar e a lua espreita prazenteira, como que observando-lhe os passos.
(...)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Private Dance




No outro lado da cidade  havia locais com as  luzes a piscar, formando corpos de mulheres de banda desenhada em posições eróticas.
O engenheiro para o Mercedes à porta de um dos bares, retribui a saudação do porteiro e entra. Assim que franqueia a porta detém-se à procura da mulher que nos últimos meses lhe dá umas horas de conforto  e ouve os seus queixumes, duas vezes por semana, a troco de generosas  quantias.
 Está acompanhada por um tipo gordo, com ar de pato bravo. Assim que o vê acena-lhe. Pela sinalética, percebe que a mulher  despachará rapidamente o cliente e dirige-se para o balcão. 
Na pista, um par dança ao som de música dengosa. Ele está ébrio, ela procura segurá-lo de pé. Um passo desacertado e o homem estatela-se no chão. Ela faz menção de o querer içar, mas rapidamente desiste e afasta-se para a mesa, mascando chiclet. Dois empregados entram na pista, a custo içam o fardo e depositam-no ao lado da rapariga. O gerente chega junto do homem Deseja que lhe chame um táxi?  A resposta é ímperceptível Lourenço chama aí um táxi Voltam os empregados que o tinham levantado do chão e levam o fardo até à porta. O segurança entregá-lo-á ao taxista.
O engenheiro está sentado ao balcão. Beberica o uísque sem vontade. De quando em vez olha de soslaio para a mesa. Observa a  mulher  a despejar parte da garrafa de espumante sobre o  cliente, num descuido estudado. Já a vira fazer isso duas ou três vezes mas, mais uma vez, sorri com o profissionalismo da mulher que se desdobra em desculpas pelo acidente. Sabe que a cena seguinte é um beijo na boca do cliente, vacina utilizada  para aplacar uma reacção desbragada da vítima.
Dez minutos depois, Rebeca já está sentada ao seu lado. Beija-o afectuosamente, fazendo-o sentir que estavam cada vez mais próximos. Pouco sabe dela. Basta-lhe o calor do seu corpo, os seus gestos meigos e a ternura que a cada noite lhe parece mais sincera, para regressar a casa mais feliz.

Nas primeiras vezes que saíram, Rebeca apenas pensava em ser generosamente recompensada pelo seu serviço mas, com o tempo, foi percebendo que sentia a sua falta e, não raras vezes, às quartas e sábados deu por si a olhar para o relógio, impaciente. 
Uma noite,  em que os ponteiros do relógio demoravam mais tempo e  a noite se tornara mais prolongada porque não tivera nenhum cliente com quem entreter o tempo,  a sua impaciência foi motivo de remoque de uma colega:
- Então o teu engenheiro hoje não vem? Se calhar da última vez  não foste competente e ele foi pescar para outro lado…
Num acesso de fúria, Rebeca atirou-lhe com um copo de sumo . Correu para o quarto de banho  e rebentou em lágrimas. Quando saiu, o engenheiro estava sentado ao balcão à sua espera. Lançou-se-lhe nos braços, beijou-o repetidas vezes e deixou cair a cabeça no seu ombro, permitindo que  a acariciasse repetidamente. Nessa noite, pela primeira vez, sentiu  prazer ao ser penetrada por aquele homem que tinha idade para ser seu pai, mas lhe proporcionava um prazer  que  há muito não sentia.

Demoram-se pouco tempo. O senhor engenheiro sorve mais um gole de uísque, dá-lhe uma palmada no rabo,  Vamos despede-se do barman Até sábado e saem os dois.
Rebeca nota um brilho raro no olhar do engenheiro e arrisca
- Hoje vens com ar feliz, Diogo. A vida está a correr-te bem?
Diogo conta-lhe o sucedido nessa noite. O encontro casual com o mendigo que não lhe parecera propriamente mendigo, mas assim se comportava talvez porque carregasse às costas a culpa de estar desempregado e de não ter  sabido cuidar dos filhos, o jantar, o impulso estranho de o convidar a ir ao casino. Riu-se com vontade ao descrever  o bambúrrio de sorte, exaltou a forma como ele rapidamente aprendeu os diversos tipos de apostas e a cara dele quando lhe entregou o cheque com os 2300€ que ganhara. 
 -Encontraste esse mendigo  à porta do casino, foi o que disseste?
- Sim… pediu-me um cigarro e olha, deu-me para entabular conversa. O tipo era simpático, parece que tinha fome, coitado, por isso convidei-o para comer uma sandes. Depois, conversa puxa conversa, deu-me para o levar comigo ao casino. Longe de mim imaginar o que ia acontecer e como tudo aquilo me ia fazer feliz.
- E como se chamava o homem?
- Não sei, nem sequer lhe perguntei- respondeu sem saber explicar a razão de ter mentido. Sei que tem três filhos e um deles está preso porque fez um assalto a um supermercado, ou a uma bomba de gasolina, não me lembro…
- E onde é que esse homem mora? Vive em frente ao casino? É um sem abrigo?
- Não! Ele tem casa, por isso é que te disse que não me parece que seja mendigo… Ainda me ofereci para o levar a casa, mas recusou e eu não insisti, porque tive medo que se sentisse envergonhado.
-E ele para todos os dias nesse banco em frente do casino?
- Eh pá! Isso é um interrogatório, ou quê? Não sei, não faço ideia, mas um dia destes vou voltar a passar por lá para ver se o encontro. Espero é que não vá gastar o dinheiro no casino, senão ainda me sinto culpado de ter viciado um homem que não tem onde cair morto.
O que tens? De repente ficaste aí parada, de olhar perdido… Passa-se alguma coisa?
- Não se passa nada. Essa história comoveu-me e fiquei contente por saber  que um mendigo te conseguiu fazer feliz. 
- Estás com medo que te troque pelo mendigo?
- Não sejas parvo! Dá-me um beijo…
Na penumbra do quarto, Diogo não se apercebeu que uma lágrima se escapara dos olhos de Rebeca, mas sentiu que ela estava tensa enquanto faziam amor. Não disse nada. Aliviou-se e foi tomar um duche.
(...)

domingo, 20 de maio de 2012

Homem rico, homem pobre


Está sentado no banco do jardim em frente ao casino. Na extremidade de um braço uma mão segura uma garrafa de cerveja, na outra uma mão cheia de nada. 
Pede um cigarro a quem passa. As pessoas olham mas, ao ver o seu ar andrajoso, estugam o passo.
Indiferente, permanece  de olhar fixo no bailado das  luzes do casino que o convidam a entrar.
De quando em vez mete a mão no bolso, faz menção de se  levantar e dirigir-se para o casino, mas volta a pousar a mão sobre o joelho, desvia o olhar das luzes apelativas e bebe mais uma golada de cerveja. 
Um homem de fato e gravata para. Estende-lhe dois maços de cigarros
- Tem preferência?
O mendigo encolhe os ombros 
- Algum deles sabe a pão com chouriço?
O homem de fato e gravata ri-se
- Tem fome?
- Tenho, mas um cigarro também mata a fome. Não me pode dar um dos  maços?
O homem de fato e gravata convida
- Venha daí  comer qualquer coisa.
O mendigo não se faz rogado.  Sentado ao balcão devora uma sandes de presunto e depois um prego. Acompanha com duas cervejas. Mais uma  laranja para aconchegar.
O homem de fato e gravata quer saber da vida do mendigo
-Não tenho nada para contar. Já fui feliz. Trabalhei, casei, tive três filhos agora estou desempregado, a minha mulher também e dos meus filhos só sei do rapaz que foi preso há um mês por assaltar uma bomba de gasolina. As cachopas devem andar por aí a ganhar  a vida com o corpo. Conte-me você da sua vida…
- Também não tenho nada para contar. Nasci pobre,  agora vivo bem, mas nunca fui feliz. Bom emprego, casado, mulher, dois filhos bem na vida… mas a mulher que eu amava casou com outro tipo, porque eu não lhe garantia estabilidade no futuro. O tempo foi passando até me fartar de tudo. Menos do jogo e das mulheres...
- Também gosto de mulheres, mas só tenho uma. Jogar, nunca joguei…
-Então venha daí…
Entraram os dois no casino sob o  olhar cirúrgico de porteiros e seguranças, atónitos ao ver um par tão improvável. Curvaram-se numa melopeia de deferências,  boa noite senhor engenheiro, ignorando o comparsa.
O homem de fato e gravata que agora sabemos ser engenheiro conduziu o mendigo até à roleta.
- Toma lá 20€ , joga no teu palpite e também no 14.
O mendigo sentiu a tentação de desaparecer com os 20€ , mas não podia defraudar o senhor engenheiro. Jogou 10€ no 14, porque não tinha nenhum palpite.
Saltita  a bola na roleta, gira que gira, o mendigo torce o corpo numa tentativa de a fazer parar no 14, a bola trava junto ao 2, parece que vai ficar por ali, mas dá mais um salto e aloja-se no casulo do 14.

Com o olhar esbugalhado parece perguntar  “ e agora que é que eu faço?”. 
 O sr engº ri, abraça-o e diz “Ganhámos”
Então posso ir embora? 
Não vais nada, joga mais uma vez, ainda tens aí 10€ do dinheiro que te dei, joga no teu palpite.
Então já não jogo no 14?
Não, joga no teu palpite!
O mendigo  continua sem palpite, está tentado a jogar no 2 que fica  ao lado do 14, mas  lembra-se que o filho que está agora na prisão vai fazer anos na semana seguinte, aposta as fichas de 10 euros no 22 , tanto se lhe dá  ganhar ou não, terminada a jogada pira-se, espera uma boa recompensa , está nestes pensamentos  quando o sr engº o abraça outra vez e volta a dizer “ 22! Ganhámos!”. 
O mendigo continua sem saber o que fazer,  tem a boca seca, Bebia uma cerveja Qual cerveja qual quê vais mas é beber um uísque, Mas eu nunca bebi isso se calhar não vou gostar Experimentas é melhor do que bagaço Mas eu não gosto de bagaço Então experimentas à mesma e ficas a saber... 
Vêm os uísques o mendigo bebe quase tudo de um trago, faz um esgar de  rejeição Sr engº não posso beber uma cerveja?
Vem a cerveja , bebe-a, a mente já está um bocado toldada, as luzes do casino começam a bailar à sua frente, mas sem  o frenesim apelativo com que o convidam todos os dias a entrar quando está sentado no banco do jardim ao fim da tarde. Agora está lá dentro, ouve campainhas a tocar, as luzes da roleta não são psicadélicas, mas convidam a ficar. Ele quer ir embora, o engº não deixa, ensina-o  a apostar em cavalos, splits, , plenos, ruas, corners , baskets e snakes, a princípio aquilo faz-lhe confusão mas à medida que  vai aprendendo, começa a entusiasmar-se. Ganha umas vezes, perde outras, mas as fichas continuam a aumentar.
Ouve o croupier dizer última jogada aposta mais uma vez, mas desta vez não ganha nada. Não era a a voz do croupier, era a do senhor engenheiro, mas saíram à mesma porque ele mandou.Logo agora, Manel que estavas a gostar.
Saem os dois, ele vai cambaleante, o sr. engenheiro feliz, pega em 200€ e mete-os ao bolso Isto foi o que eu perdi, o resto é teu Mas isso é muito dinheiro e era todo seu, eu só cumpri as suas ordens Como te chamas? Manel  Não o nome todo Manuel dos Santos Zeferino Espera aí
O engº afasta-se, vai à caixa, passados uns minutos volta com um papel na mão
Tens aqui um cheque, é melhor assim, não vás ser assaltado no caminho amanhã vais ao banco e levantas o dinheiro obrigado por esta noite há muito tempo que não passava uma noite divertida.
As luzes cá fora já se apagaram, o engenheiro  e o mendigo sem título despedem-se, vão os dois felizes talvez se encontrem num outro dia no banco de jardim.
O mendigo chega a casa a mulher está  em alvoroço O que é que te aconteceu homem, estava em cuidados, Mulher encontrei  um anjo  fui com ele ao casino e no fim ele deu-me isto Tu não me enganas, Manel, andaste a roubar Mas como é que eu ia roubar  um cheque com o meu nome? Vê lá está aqui o meu nome! Mas que anjo era esse? Não sei, era engenheiro porque assim lhe chamaram quando entrámos no casino.
Deitaram-se. A mulher, que já há muito perdera a Fé, continuava incrédula com a história e revolveu-se na cama a magicar uma explicação para estória tão estapafúrdia, até ser vencida pelo sono e pelo cansaço.
( … )


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Da Patagónia ao Guincho



No sábado de manhã o Jaime telefonou. Tinha chegado da Patagónia, onde esteve a passar férias com a Marta. Pelas suas palavras, percebi que vinha eufórico.Trazia também saudades de peixe e do mar do Guincho. Combinámos, por isso, um jantar à beira do Atlântico.
Fiquei feliz quando me apercebi da euforia do Jaime. Afinal eu fora co- responsável pela escolha da Patagónia como destino de férias, tantas vezes ele e a Marta me ouviram enaltecer a Argentina e esse paraíso imenso que é a Patagónia. Ajudara-os a preparar a viagem com todos os detalhes, mas avisando-os sempre que a Patagónia é o destino de férias ideal para podermos reprogramar itinerários diariamente, de acordo com a vontade do momento. Nunca, em nenhum lugar do planeta, dei melhor significado à expressão “férias em liberdade” do que na Patagónia.
O jantar foi animado, com o mar do Guincho em pano de fundo. Eu e a Ana estávamos ansiosos por ouvir o relato da viagem e o Jaime e a Marta por contar tudo ao pormenor. Tenho as minhas dúvidas que tenham apreciado a santola recheada e o peixe ao sal como pretendiam, tal era a sua sofreguidão em contar todos os detalhes das três semanas de aventura.
Percorremos a Patagónia de Bariloche a Calafate, num mosaico de aventuras, partilhando descrições quando descobríamos que tínhamos pernoitado, comido, ou apenas parado para tomar uma bebida, num lugar que nos trazia recordações comuns.
Mas quando chegou a sobremesa, a conversa ficou suspensa. É que a mousse de avelã das “Furnas do Guincho”, meus amigos, é um daqueles manjares que só um momento de luxúria divina permite conceber. Durante alguns minutos, subimos ao Olimpo e comungámos com Zeus e Athena momentos de lascívia, enaltecendo a criação.
Foi neste momento de suprema comunhão que eclodiu numa mesa à nossa esquerda uma conversa onde se falava de “rating”, reserve banking, índices Dow Jones spreads e taxas de juro. Creio ainda ter ouvido falar ( mas não estou certo...) de off shores e PSI 20.
Rodei a cabeça 90 graus, no intuito de identificar os animados interlocutores, imaginado-os desde logo anciões saídos de “limousines” de vidros fumados. A muito custo, não abri a boca de espanto, ao constatar que os intervenientes em tão animada conversa eram dois casais jovens, seguramente “under –30”. A tonalidade da tez denunciava um recente regresso de férias. Foi então que desci do Olimpo e dei por mim, de pés assentes na Terra, a perguntar-me ( estupidamente, claro) o que estaria errado naquele quadro. A animação de uns cinquentões  falando de aventuras de férias ou os jovens, regressados de férias, a falarem com transbordante entusiasmo do Dow Jones?
A resposta, enviada por um qualquer mensageiro de Zeus, foi arrepiante e desoladora!
( Escrevi esta história em Setembro de 2007 no CR. Publico-a novamente, porque cinco anos volvidos  constato que Zeus tinha razão. E os jovens também...)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dia da Espiga

Faz parte da tradição do Dia da Espiga, fazer uma caminhada da matinal. Como já não são horas para vos fazer tal proposta convido-vos ( especialmente a quem ainda não conhece, ou não foi lá hoje tomar a bica) a fazer uma visita à sede. 
Hoje divulgo lá uma nova forma de enamoramento, baseado numa variante do Patcholy, que está a fazer furor nos EUA e não me admiraria nada se virasse "reality show"  da TVI.
No entanto, se essas coisas não vos interessam e o que efectivamente querem saber é como passei o dia de hoje, então podem ler o relato aqui.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Se não é poesia, é efeito da anestesia



Outra tarde passada na dentista. Não vim por ela ser uma brasa balzaquiana de cortar a respiração (embora isso ajude muito a passar o tempo, confesso...) foi mesmo por estar disposto a arranjar o frontispício!
Depois de ver o orçamento abri a boca, mas não pedi para pagar em suaves prestações. Quando soube que tenho de ir lá todas as semanas, só lhe perguntei se não há passes sociais para tratamentos de estomatologia...
Ela riu-se. Retribuí e, enquanto olhava para ela, pensei na faceta positiva da questão. Este tratamento (prolongado) pode ser encarado como um 2 em 1. Enquanto ela me trata da boca eu vou lavando a vista e poupo no oftalmologista.
Parafraseando um senhor cujo nome não pode ser mencionado neste blog, as dores de dentes podem ser uma oportunidade de negócio para os pacientes.
Não tarda nada, estou a escrever um livro de poesia. Reparem como nas duas últimas frases eu fiz poesia espontânea! Se não é poesia, é efeito da anestesia!

terça-feira, 15 de maio de 2012

A radiografia



Passei a tarde no dentista.
Foi a primeira vez que abri a minha boca a esta simpática profissional, filha de um amigo já falecido. Recorri aos seus prestimosos serviços, no intuito de saber se a minha dentuça tinha salvação, já que diagnóstico anterior me anunciara uma velhice a comer papas, sopas e gelados.
Regozijei-me, ao ver que também ela abriu a boca perante o espectáculo que eu lhe proporcionava. Claro que pensei, de imediato, cobrar-lhe bilhete, já que  ver  à borla um espectáculo onde desfilam pontes chinesas, coroas peruanas e algumas cavidades lunares tecidas na Índia, não se coaduna com os tempos de crise que atravessamos.
Ainda por cima, tão espantada ela estava, que ainda me perguntou se podia tirar uma fotografia!
 Acedi, sem cobrar cachet. 
A preetexto de obter uma visão panorâmica,enfiou-me numa máquina giratória que  desvendou todos os segredos da minha cavidade bucal.  Examinou atentamente as fotografias e, pelas vezes que torceu o nariz, percebi que não tinha gostado do resultado. 
Decidi que não a deixava  tirar mais fotos.
Depois mostrou-me o resultado, que me deixou francamente animado. Não o reproduzo aqui, porque estou a pensar vender cópias da fotografia a mães desesperadas por não conseguirem obrigar os rebentos a comer a sopa.
“ Não comes a sopa? Então eu vou chamar o homem do saco. Queres ver uma fotografia dele, queres?  Olha!”
Garanto-vos que não haverá criancinha que recuse comer a sopa…
Bem, mas voltando ao diagnóstico, fiquei com a certeza de a encontrar mais vezes. Vou funcionar como uma espécie de slot machine, onde ela ganha sempre o jackpot, mas em contrapartida ela garante-me que poderei continuar a trincar uns belos nacos de carne sempre que me apetecer.
Aviso: a foto que  ilustra esta crónica não é da minha boca, porque não vos quero afugentar daqui.

domingo, 13 de maio de 2012

Arrogância e boas maneiras




A senhora directora-geral, galardoada com vários títulos académicos, mestrada em falta de educação e empossada pela via horizontal  em tardes de fornicanço  passadas num hotel, com  factura paga pelo contribuinte, entrou no serviço que  inferiormente dirigia, batiam as quatro da tarde.
O segurança – trabalho das 13 às 21  retribuído com o salário mínimo- estava  embebido na leitura de um livro e não deu pela sua chegada.
“É assim que zela pela segurança do serviço?”- perguntou-lhe a directora geral do alto da sua superioridade
O segurança ruboresceu, desdobrou-se em desculpas e penitenciou-se pela falha que nunca ocorrera em  mais de 30 anos de trabalho.
“ Que é que está a ler?”- perguntou
O segurança pegou no livro para ler o título que não lhe ocorrera na ponta da língua.
“ Está muito culto! Qualquer dia ainda se inscreve  na Universidade da Terceira Idade, não?”- ironizou com o acento de tia de Cascais que se lhe colara à pele.
O segurança abriu a gaveta da secretária, tirou de lá um livro e respondeu:
“ Para a Universidade não penso ir, senhora directora, mas gosto muito de ler. A senhora directora já leu este?”
Quando leu o título, foi a vez de  a senhora doutora sentir o sangue assomar ao rosto. O livro era “O Manual das Boas Maneiras”.
Sem uma palavra, disparou para o gabinete. De tão habituadas, as secretárias não estranharam o seu rosto fechado revelando uma fúria incontida. Deixou escapar  um “boa tarde” entre os dentes e pediu a uma das secretárias que lhe ligasse para a empresa de segurança.
Entrou de sopetão no seu privado gabinete com secretária de mogno, aguardou a chamada e exigiu que lhe levassem aquela mercadoria e a trocassem por outra. No dia seguinte, porque não queria mais ver a cara daquele insolente.
(….)
No gabinete do chefe, o sr. Luís, 15 anos ao serviço da empresa, foi perguntado sobre a ocorrência. Contou tintin por tintin todos os pormenores sem se esquecer, inclusivé, de mostrar a capa do livro que exasperara a senhora directora.
O Chefe evitou a custo uma gargalhada, mas esboçou um sorriso de orelha a orelha,que deixou o sr Luís aliviado. Levantou-se, deu-lhe uma palmada nas costas e disse:
“Fizeste bem! Não te preocupes, porque nunca faltará trabalho para ti nesta casa”.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A máscara



Num daqueles programas da TV cor de rosa que copia para a pantalha as revistas de jet set, sucediam-se os elogios encomiásticos ao entrevistado, as lágrimas emocionadas, os sorrisos de plástico.
Terminada a gravação, o entrevistador diz ao entrevistado:
“ Agora que entrevistei a sua máscara e passou a ideia que você gosta que os outros façam de si, quando é que podemos marcar uma entrevista para o conhecer a si?”

terça-feira, 8 de maio de 2012

Foram só 30 segundos, porra!


Estou parado na esquina da Duque de Ávila com a Av da República, à espera de autorização do semáforo para atravessar.  Perto da Versailles vejo uma mulher abordar pessoas, que estugam o passo quando ela se aproxima. Penso que seja uma pedinte.
O semáforo dá-me autorização para prosseguir e, quando me estou a aproximar da mulher, ela dirige-se para mim e balbucia a medo:
“Pode dar-me uma informação?”
Lembro-me da velha que durante anos andou pelo Saldanha a pedir esmola, com o pretexto de ter perdido a camioneta, mas páro para ouvir o que a mulher tem para me contar.
“ Pode dizer-me onde é o ministério da educação?”
Tento disfarçar a surpresa e  explico-lhe direitinho como deve lá chegar.
O seu rosto negro abre-se num sorriso e vejo estampado nos seus olhos um agradecimento que traduz com repetidos “Muito obrigada! Muito obrigada!”.
Não sei quanto tempo aquela preta terá estado ali à espera de alguém que se dignasse escutá-la. Pela forma como exprimiu o seu agradecimento, deveria estar já há uns largos minutos. Só lhe dei 30 segundos do meu tempo para lhe resolver um problema.
Sigo o meu caminho, pensando que raio de sociedade é esta, onde as pessoas recusam uns segundos do seu tempo para ouvir o que alguém tem para lhes dizer.  
Se a mulher fosse branca, procederiam da mesma forma?

domingo, 6 de maio de 2012

Os meus pecados



De quando em vez,  seja deliberada ou involuntariamente,  os meus dedos  de flâneur  do teclado,  vão deixando escapar alguns dos meus pecados. ( Honni soit qui mal y pense, Catarina)*
Hoje, de forma voluntária, vou confessar-vos de uma assentada dois pecados que, se confessados no local próprio, mereceriam certamente a aplicação de uma penitência  de 10 Avé Marias, outros tantos Padre Nossos, uma Salve Rainha e, no caso de ter diante de mim um intermediário de Deus privado de subsídio de férias e Natal, o pagamento de uma coima depositada como óbulo na caixa das esmolas de S. Judas Tadeu. 
Optei, por isso, por me confessar aos meus leitores, ciente da vossa clemência, cabalmente expressa nas visitas que me fazem e na bondade dos vossos comentários. Vamos a isso, então…
 Não sou guloso por doces, embora aprecie de forma desmesurada um dulce de leche genuinamente argentino,  umas profiterolles  cujo segredo descobri num livro de receitas da minha mãe,  um merengue de limão,  um quindin de manuseamento brasileiro  e umas outras quantas iguarias  de que destacaria, não fosse o receio de poder ser acusado de publicidade, uns maravilhosos artefactos doceiros da confeitaria Rapetti, na Visconde de Valmor. Confesso, ainda, já ter experimentado algumas receitas recolhidas no blog da Cristina, acicatado pela sua mestria em misturar crónicas soberbas,  com receitas doceiras  que me exaltam o palato. 
No entanto, o pecado da gula que me põe verdadeiramente  em órbita e me faz revirar os olhos em alvo, não é doce . Dá pelo nome genérico de queijo, mas não contempla algumas mixórdias que à pala do nome se vendem por aí.
Além de ser um apreciador desta iguaria, certamente confeccionada nas melhores cozinhas  de Belzebú, com leite de vacas açorianas que deixam  Cavaco em transe, ou de cabras montesas que acicatam a líbido de Passos Coelho, devo ao queijo um inestimável favor. 
Com efeito, quando percebi que  o sabor do queijo à hora do almoço era avivado, se não fumasse de manhã,  bani definitivamente a cigarrada matinal, compensando os pulmões com uma dose extra de nicotina em forma de cigarrilha, duas horas após o almoço. Ganhei em três tabuleiros:  reduzi drasticamente a ingestão diária de nicotina, poupei na conta bancária e, last but not the least, passei a ser ainda mais exigente quanto à qualidade dos queijos.
Vai a prosápia longa sem  me chegar aos finalmentes, é  hora de apressar o final e explicar a razão de vos confessar este  pecado que, inapelavelmente, condenará as minhas cinzas a permanecer ad aeternum nas catacumbas crematórias de Satanás.
Ao revelar-vos esta minha fraqueza quero, acima de tudo, protestar de forma veemente contra as plataformas gastronómicas onde é possível amesendar à hora do almoço a preços médios, na zona do Saldanha.
 Só procuro estes antros cujos proprietários são regularmente praticantes de outros pecados  -  da avareza, não da gula,  caso contrário cuidariam melhor do receituário gastronómico e da relação qualidade preço- quando não posso desfrutar a culinária da Isabel, a zelosa empregada que me alegra os dias com pão fresquinho pela manhã e cuidados culinários no receituário do almoço, onde presumo meça com desvelo a percentagem de gorduras, para não dar hipóteses ao meu colesterol de fazer arregalar os olhos do médico que me mede as tensões e  se esforça por aplacar eventuais distúrbios gástricos e biliares.
Ora acontece, que quando sou obrigado a repastar  nesses locais, o meu estômago fica  (quase) sempre insatisfeito e, para tapar um buraco que o repasto não vulcanizou devidamente, exige para remate da refeição  um bocado de queijo, acompanhado pelo néctar  com que Baco e Dionísio brindaram a Humanidade.
E aí, caros leitores, o pecado da gula dá normalmente lugar ao pecado da Ira, porque na maioria destes locais de amesendagem  o queijo não tem lugar, a não ser na versão “fresco”, mais apropriada a servir de amuse bouche do que a rescaldo gastronómico. Mas se, por qualquer acaso,  aparece no rol das sobremesas, vem mascarado em  versões “tipo serra” ou “camembert” da Makro, pouco condizentes com a fidalguia do meu palato, mais afeiçoado aos queijos nacionais não industrializados.
Acresce, ainda, que quando olhamos para a coluna da direita, o preço indicia uma dose equivalente a meio queijo  mas,  uma vez aceites  as exigências estomacais, somos confrontados  com uma dose suficiente para  tapar a cova de um dente, mas não o buraco estomacal reclamante.
Sendo Portugal um país com alguns queijos de qualidade, interrogo-me sobre as razões desta ausência láctea nas listas dos restaurantes médios  que me força a derramar no teclado a azia acumulada.


No Quebec, o termo flâneur tem um sentido pejorativo, daí a minha advertência à Catarina que, apesar de viver em Toronto, não deve desconhecer a possibilidade do equívoco.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Uma história sem final feliz?


(continuado daqui) - Conclusão


Aliviado, desaguou novamente no amplo espaço onde centenas de pessoas se continuavam a cruzar carregando nos seus carrinhos, como formiguinhas diligentes, os produtos essenciais e supérfluos que foram recolhendo e que meia dúzia de engarrafamentos depois iriam armazenar nas suas arcas congeladoras.
Entrou no seu carro a sério e dirigiu-se para a saída, mas ao atravessar uma lomba destinada a travar os ímpetos de alguns aceleras, um prego cravou-se num pneu. Rapidamente a fila de automóveis se avolumou atrás de si, enquanto um diligente funcionário se prontificava para o ajudar.
A impaciência de alguns mais apressados, traduziu-se em buzinadelas e alguns impropérios. Interrogou-se então o que levaria pessoas que tinham permanecido três ou quatro horas dentro do hipermercado sem um mínimo lamento, a manifestar-se tão exaltadas por uma demora que não seria superior a 15 minutos, mas não encontrou resposta adequada...
Quando finalmente recuperou a liberdade decidiu que o melhor era mesmo almoçar fora. Ao entrar no restaurante deu de caras com o sr.Casimiro, dono de uma pequena mercearia do seu bairro, a quem se apressou a contar a história. Solícito, o bom homem apenas respondeu:
-Deixe-me acabar de almoçar que eu já o avio do que precisar na minha loja.
- Mas então não está fechado aos domingos? – inquiriu
-Estou sim senhor, mas para clientes amigos, abro uma excepção! E a sua esposa era uma grande cliente... todos os sábados à tarde ia lá comprar as coisas para a semana, nunca me trocou por um hipermercado...
Frederico não respondeu, mas passou o fim de semana a matutar no que faria a mulher ao sábado à tarde, quando lhe dizia que tinha passado a tarde no hipermercado!
FIM

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Tirem-me daqui!


(Continuado daqui)
Cumprida a árdua tarefa das pesagens e selagens, Frederico foi percorrendo as diferentes secções onde se perfilavam, em postura irrepreensível, queijos, iogurtes, enchidos, carnes verdes, pastas, bolachas, carapaus, pescadinhas de rabo na boca e às postas.
Distraidamente ia enchendo o carrinho com as mais diversas iguarias. A hora do almoço aproximava-se e o hipermercado estava a abarrotar. À sua volta, as pessoas dividiam-se entre alegres e conformadas. Famílias inteiras comungavam do acto de consumir, sem que descortinasse se o faziam por prazer ou sacrifício. Foi dando mais umas voltas pelos escaparates, na vã esperança de que as filas que se distendiam diante das caixas registadoras diminuíssem, mas depressa compreendeu que a tendência era precisamente a inversa. Com o açafate ( mais que) suficientemente fornecido, dirigiu-se então vagarosamente para uma fila. À sua frente, uma sexagenária dormitava encostada a um carrinho a abarrotar, onde se destacava um saco isotérmico de onde escorria uma baba suspeita.
Reparou que entrara naquele “inferninho” há mais de duas horas e foi nessa altura que descobriu uma das vantagens das grandes superfícies: NÃO FUMARA DESDE QUE LÁ CHEGARA!
 Diligente, apontou no seu bloco de notas: “Bom exercício para os potenciais candidatos a não fumadores. Dar o conselho no próximo dia mundial dos não fumadores”.
Tinham passado 45 minutos desde que chegara à fila da caixa registadora e avançara apenas escassos centímetros. Foi quando interromperam a música ambiente ( pela enésima vez desde que lá entrara) para dar lugar a uma voz sofrida que clamava insistentemente pela Drª Ana Paula (devia ser coisa urgente, porque agora já diziam a matrícula do carro, a marca e a cor! Veio a saber, dias mais tarde, que se tratava de um truque publicitário de uma jovem advogada, mas isso fica para outra história...) que decidiu desistir. Mas que fazer às pescadinhas de rabo na boca que se começavam a babar, gotejando o chão, só porque na sua forretice de consumidor careta, recusara comprar um saco isotérmico?
Foi então que Frederico teve uma ideia genial: distribuir os produtos que acumulara no carrinho, pelos perseverantes companheiros de fila. 
Um senhor de meia idade ficou-lhe com os belíssimos enchidos e uma jovem de olhar expectante (seria ela a Ana Paula?) condescendeu, com alguma relutância, é certo, ficar com as pescadinhas de rabo na boca. Despediu-se com amargura do apetitoso queijo da serra que há longos minutos o fazia salivar e, um a um, lá se foi desfazendo de todos os produtos. Apenas não encontrou candidatos para os panos de cozinha que estavam em promoção e pensava que fariam as delícias da sua empregada doméstica, nem para a pasta dentífrica que prometia devolver aos seus dentes a brancura dos tempos de criança. À passagem de um funcionário depositou-lhe nas mãos aqueles ex-pertences e escapuliu-se para a saída, deixando-o com ar atónito entre couves lombardas e latas de atum em promoção.
( Conclui amanhã)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Labirinto




Frederico, celibatário à força desde o momento em que a mulher o abandonou atraída por um especialista performativo em gabinete ministerial,viu-se um destes últimos sábados a desaguar numa vasta superfície onde, em bailados alucinantes, centenas de pessoas se cruzavam evitando o choque das viaturas para cuja condução não deveriam estar devidamente habilitadas. 
Esgueirou-se a custo, evitando o choque, e dirigiu-se, convicto, a duas portas que ostentavam o sinal de sentido obrigatório e lhe franquearam a entrada assim que o avistaram.
Por entre música ambiente, começou então a vislumbrar vídeogravadores, máquinas de lavar, frigoríficos, ferramentas, vestuário do mais variado e uma parafernália de produtos que o fizeram pensar ter entrado no sítio errado. No meio da confusão, foi abalroado pela esquerda por um carrinho a abarrotar de produtos alimentares, por entre os quais emergia uma criancinha aos gritos, reclamando aos pais a oferta do namorado da Barbie. A breve distracção foi-lhe fatal, pois embateu estrondosamente com um jogo de xadrez , do qual saltou um rei em xeque-mate clamando justiça contra o energúmeno que o destituíra da coroa. O energúmeno, claro, era ele!
Recuperou a custo a calma e dirigiu-se para uma banca que vislumbrou ao longe, onde se acomodavam frutas e legumes. Foi colhendo alguns exemplares que lhe pareceram em bom estado e depositou-os no açafate com carinho. 
Foi então que detectou um ajuntamento de pessoas dispostas em quatro filas orientadas para um centro comum, onde se encontrava uma balança, na qual as pessoas iam pesando os produtos. Da boca do aparelho viu sair pedaços de papel que as pessoas colavam nos sacos onde previamente haviam acomodado as frutas e legumes. Num impulso mimético, foi também depositando em sacos as diferentes espécies e, concluída a operação, alinhou-se no fim da fila que lhe pareceu mais curta. 
Para não fazer má figura quando chegasse a sua vez, foi observando as operações que as pessoas que o precediam efectuavam, mas foi surpreendido por um burburinho que estalou 90º a leste da sua fila. Rapidamente se apercebeu que a causa do tumulto era um indivíduo alto e magro que se aproveitara da distracção de um dos clientes, para assaltar a balança electrónica onde pretendia pesar as bananas que esgrimia, de braço ao alto, em postura heróica. O aparecimento de uma senhora corpulenta, mas com destreza de golfinho, pôs fim à questiúncula e o “chico –esperto” ( nome que a turba em polvorosa rapidamente lhe atribuiu por unanimidade e aclamação) lá foi, envergonhado, para o fim de uma das filas que se formara em torno de uma outra balança mais distante.
( Continua)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Dependências


Na terça feira , ao fim da manhã, fiquei sem bateria a meio de uma conversa e não tinha o carregador comigo. Pânico! O que vou fazer? Os números de telefone estão todos lá, portanto a tentativa de recurso ao telefone fixo é infrutífera.
Alguns números estão registados no “outlook” mas, como estou na rua,a fazer uma reportagem, de nada me vale, porque a única forma de aceder seria através do telemóvel que ali jaz, especado, à espera de um carregador que o reanime e devolva à vida.
Compreendo, especado dentro do carro, numa rua de um dormitório dos arredores de Sintra, que aquele objecto que durante tantos anos rejeitei se foi imiscuindo lentamente na minha vida, impondo a sua presença e adaptando os meus hábitos, até se tornar indispensável. Pior ainda: a minha vida tornou-se dependente daquela geringonça e o telefone fixo que, há não muito tempo, era disputado por milhões acotovelavando-se em filas de espera, metendo empenhos a um amigo dos TLP para passar para a frente da fila, era agora, naquele preciso momento, uma inutilidade.
Pressenti o telemóvel sorrir para mim baixinho e murmurar entre dentes: “Venci!”
Olhei-o com desprezo e engrominei uma forma de me vingar. Saí do carro e entrei num daqueles cafés típicos de subúrbio, com nome sabendo e cheirando a África. Pedi uma bica e autorização para utilizar o telefone. Há alguns números que guardo na memória, incólumes às birras e fraquezas dos telemóveis, que poderão ajudar-me. A Susana veio em meu socorro. Trabalha perto do lugar onde estou, tem um telemóvel igual ao meu e vai levar-me o carregador.
Volto para o carro disposto a vingar-me. Assim que entro, disparo:
“ E tu para que é que serves, se não tiveres um carregador que te alimente, ó imbecil?”
Sibilino, manhoso, vingativo,respondeu-me:
" Já contaste quantos aparelhos tens em casa que dependem de um carregador? Eu dependo de um, mas tu dependes de muitos e sem eles já não sabes viver."
Fiz as contas. Entre telemóvel, computador, máquina de barbear, etc , etc, etc, contei seis carregadores. Que raio de vida esta que nos faz estar constantemente dependentes de um carregador e de uma tomada!