sexta-feira, 25 de maio de 2012

Amélia, dos olhos doces...

( Conclusão)
O segurança aprestava-se para barrar a entrada ao Manuel, mas o engenheiro logo o dissuadiu dizendo Ele vem comigo!
Engoliu em seco e lá o deixou entrar , mas logo começou a congeminar uma forma de dizer ao engenheiro, à saída, que seria aconselhável pedir ao amigo para se vestir de forma mais conveniente quando viesse visitar as meninas.


Àquela hora da noite a música que saía das colunas de som  era arrastada, os decibéis espreguiçavam-se  pela sala como se tivessem sido apanhados  pela  crise e o televisor estava ligado sem som  na Sport TV que transmitia um jogo qualquer de uma liga secundária. 
Havia apenas um cliente, mais concentrado no copo de uísque do que nas meninas que se perfilavam ao balcão, tagarelando sabe-se lá sobre quê mas Manuel, apesar de embasbacado com o ambiente e seduzido pelo alinhamento perfeito daqueles rabos, percebeu que a conversa se travava entre  as apreciadoras dos bícepes de Hulk e  de Cristiano Ronaldo.
 Cada um vê futebol com os órgãos que mais exercita-  disse Manuel  em surdina ao engenheiro, que respondeu com uma sã e sonora gargalhada.
Pressentindo a entrada de clientes, duas das raparigas rodaram a cabeça  em direcção da porta, para ver  se valia a pena preparar  anzol  e isco para atrair clientes tão temperanos.
Cristina reconheceu o engenheiro Então por aqui hoje, senhor engenheiro? Vim apresentar a Rebeca a este meu amigo A Rebeca ainda não chegou, telefonou a dizer que vinha mais tarde porque tinha um assunto a tratar.
Olhou para o andrajoso amigo do engenheiro pensou que não valia a pena perder tempo com ele mas Luciana que observara a cena sentada ao balcão, apesar de nunca ter sido boa aluna a matemática, quando  viu que o andrajoso vinha com o engenheiro fez uma regra de três simples  e concluiu que seria um bom investimento. Por isso, ao mesmo tempo que encostava a face à dele deixando escapar um beijo que se perdeu no ar, perguntou:
- Como te chamas?
- Manel
- Prazer, sou a Luciana. Bebes alguma coisa, querido?
Mas que é isto, pensou Manuel enquanto lançava um olhar suplicante para o engenheiro como que a perguntar E agora qu’é qu’eu faço?
O engenheiro adivinhou-lhe os intentos,  disse a Luciana traz uma garrafa de Gancia mas aviso-te desde já que se entrar aí um cliente e tu fizeres o número de despejar a garrafa em cima da roupa do meu amigo vais ter que me prestar contas.
Por quem é senhor engenheiro, eu era lá capaz de fazer uma coisa dessas...Então sentamo-nos?
Sentaram-se.

Àquela hora, no outro extremo da cidade, uma mulher  passeia em frente ao casino. Parece procurar, ou estar à espera de alguém. Olha nervosamente para o relógio. Não escapou ao visionamento do porteiro, que comenta com o colega
-Tu já viste aquele pedaço? Achas que vai entrar?
- Eu aposto que não - responde o colega.
- Está apostado. Entra dentro de 10 minutos. Prepara-te para me trazeres amanhã uma garrafa de uísque.
Não teve de esperar tanto tempo. Cinco minutos depois a mulher entra, apressada, larga um Boa Noite no ar, os porteiros nem respondem, ficam a admirar-lhe as formas curvilíneas e a passada elegante que faz mover cadenciadamente os glúteos sob a saia justa, em direcção à sala de jogo.
A mulher não se demora mais do que um quarto de hora, sai disparada como entrou, desta vez nem sequer diz boa noite, volta a olhar a avenida de uma ponta a outra, avista um táxi, manda-o parar.

No night club Manuel e Luciana estão a acabar a segunda garrafa de champagne, o engenheiro observa-os a partir do balcão com um sorriso nervoso e divertido,  entremeia consultas ao relógio com um depenicar distraído de  amendoins e  goladas de uísque. Já perguntou cinquenta vezes aos seus botões  Onde é que ela se terá metido? mas os botões fazem-se de surdos e deixam-no sem resposta Decide telefonar-lhe, mas no preciso momento em que pega no telemóvel  Manuel explode como um vulcão, manchando  a alcatifa com  uma lava de vómito.
Ele não está habituado a beber e hoje bebeu um bocado demais - desculpa-se o engenheiro
Isto nunca aconteceu- desculpa-se Manuel
Luciana olha enojada para a alcatifa, faz uma reza rápida a santa Maria Madalena  em agradecimento pela protecção ao seu vestido que saiu imaculado, um empregado chama  Dona Lisette, traga os produtos de limpeza!...
Bem, o melhor é irmos embora, Manuel- alvitra o engenheiro.

 Em menos de um fósforo estão na rua, Manuel precisa de ar por isso caminham um bocado.  
Caiu-me mal o champagne, senhor engenheiro, as minhas desculpas, eu bem dizia que o melhor era não vir cá.
O pior mal foi teu. Nem conheces a Rebeca, nem vês o strip tease. Olha vou levar-te a casa.
Nem pense nisso senhor engenheiro, deixe-se estar, eu estou fino, apanho um táxi e em 10 minutos estou em casa.
Então vou só ali levar-te à praça de táxis. Entram os dois no carro, quando o engenheiro arranca para um táxi mesmo à frente deles. O engenheiro vê que a mulher que sai de lá de dentro é Rebeca,  faz menção de parar para dizer a Rebeca que volta já, mas não diz nada, porque não quer que ela conheça Manuel  naquele estado.

-Amanhã dou-te notícias sobre as aulas de condução. 
-Fico à espera senhor engenheiro, muito obrigado. Posso fazer-lhe só uma pergunta?
- Diz lá...
- Aquela mulher que ia a sair do táxi é a Rebeca?
O engenheiro sente-se apanhado em flagrante mas devolve
- Porque perguntas isso?
- Nada, senhor engenheiro, desculpe a curiosidade, não tenho nada com isso.
- É gira, não é?
- Quem?
- A Rebeca 
- Ah sim, claro. É muito bonita e elegante, sim. Sai à mãe...
- Porque dizes isso? Conheces a mãe dela?
-  Não ligue, senhor engenheiro. Lá na minha terra quando se vê uma rapariga muito bonita costumamos dizer "sais mesmo à tua mãe" porque, está bom de ver, uma mulher bonita nunca pode sair ao canastrão do pai Eheheh!
- Essa está boa Manel. Olha, um dia destes a gente volta cá para tu a conheceres, está bem? 
- Combinado, senhor engenheiro. Qualquer dia a gente fala disso.




O engenheiro volta ao night club Olá meu amor trouxe aqui o mendigo para tu o conheceres mas não estavas , onde andaste? Tive de tratar uns assuntos, mas quero pedir-te uma coisa, não quero conhecer esse mendigo Então porquê?  Não sei, acho que Santo Expedito* não quer que eu o conheça Quem é esse santo de que nunca ouvi falar? Não sei, gosto do nome e tenho muita Fé nele Então está bem não se fala mais nisso.
(...)
Manuel chega  a casa. Ainda está um bocado atordoado e fica a fumar um cigarro na rua, antes de entrar. Ouvem-se os acordes de uma música de telenovela. Manuel entra em casa, dá um beijo à mulher  e senta-se em silêncio ao lado dela no sofá. A mulher vai entabulando diálogo com algumas personagens, ele está silencioso e distante a consolidar uma mentira que arquitectou no táxi . Quando a telenovela acaba rompe o silêncio:
- Hoje vi a Amélia!
- Viste ? Aonde? Falaste com ela? Desembucha… Depressa, vá lá!
- Vinha no autocarro e vi-a sair de um táxi à porta do cinema Alvalade. Ia com um senhor muito bem vestido, pareciam apaixonados.
-Iam de mão dada?
- Iam e riam-se os dois muito. Tinham uns amigos à espera à porta do cinema  que os receberam a cantar os parabéns. Se calhar ele fazia anos…
- Achas que se a Amélia casar nos diz alguma coisa, Manel?
- Tenho a certeza que sim. Ela no fundo é boa menina.
- Ai minha rica filha, que afinal não foi p’ra puta como tu dizias! Valham-me  Santo Onofre e Santa Genoveva. Protegei a minha filhinha!
Foram-se deitar. Adormeceram tarde. Abraçados.

FIM







46 comentários:

  1. Carlos
    Os encontros e desencontros. Não sei se a sua estória é ficção (até me parece que não). Quantas situações semelhelhantes não há por aí?
    Gostei!
    Abraço
    Rodrigo

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    1. Esta é mesmo ficção, Rodrigo, mas não duvido que haja situações idênticas por aí.
      Abraço e bom fds

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  2. Logo vi que essa Rebeca/Amélia era uma e a mesma pessoa. Será que é dos muitos livros policiais que leio? :)))

    Esse engenheiro é que me parece da mais pura ficção! :D

    Mas gostei da blogonovela!

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    1. Consigo tenho de ter cuidado, Teté, porque a minha amiga é tramada para decifrar enigmas :-)
      Não é só o engenheiro que é ficção, mas na próxima semana penso poder dar mais notícias sobre este conto que tive de amputar, porque se o prolongasse mais tempo ficava sem leitores...

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  3. Sempre era uma das filhas...

    Triste realidade...
    Apreciei a atitude de Manuel não magoando a mulher...

    Gostei!

    Beijos.

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  4. Gostei da história, semelhante a muitas que por aí haverá...

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  5. Este final e, sobretudo a crença da mãe,o amor do Manel que o levou a mentir, emocionou-me. Acredite que não imaginava este desfecho.

    Por favor continue a escrever contos.

    Beijo

    Laura

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    1. Se abuso dos contos ainda fico sem leitores, Laura! Depois do Verão talvez volte com um projecto de contos inovador mas, até lá, vou regressar às crónicas de episódio único. No domingo vou publicar uma que, tenho quase a certeza, também vai gostar.
      Obrigado pelas suas palavras

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  6. Muito engenho anda por aqui. Uma história bem engendrada, sim senhor.

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  7. Apesar do ar simplório, encavacado e mal arranjado, o Manel, ainda que provávelmente fruto da sua imaginação, amigo Carlos, não deixa de representar e encarnar a bondade enraizada no coração...
    E afinal, lembremo-nos que todos podemos ter telhados de vidro.
    Abraço

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    1. No original, este conto também tem algumas acções maldosas, João, mas como decidi encurtar estripei-o dessas partes
      Gostei de o ver por aqui
      Abraço

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    1. Obrigado, JD
      Cumprimentos
      No domingo faço-lhe uma visita.

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  9. Parabéns, Carlos!
    Um conto cheio de suspense, emoção e verosímil, quanto baste, para se assemelhar com a realidade. É disso que gosto.
    Agradou-me imenso este final tão ternurento. És um escritor maravilhoso, Carlos!

    Beijinho e bom fim-de-semana.

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    1. És muito gentil, Janita. Obrigado pelas tuas palavras
      Beijinho e bom fds também para ti

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    2. ...assim uma espécie de gentil camponesa, Carlos? :-)
      ( estou a brincar, claro!)

      Eu é que te agradeço, por partilhares connosco o teu fabuloso talento.

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  10. Excelente!
    Parabéns carlos! Gostei imenso da estória e do final, mas será que para não magoar é preciso mentir!
    Bom fim de semana

    Beijinho e uma flor

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    1. Obrigado pelas suas palavras, Flor.
      As mentiras piedosas são perdoáveis, não lhe parece?
      Beijinho e bom fds

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  11. Carlos
    Voltei para lhe sugerir este link.
    Acho que esta linda canção encaixava:
    http://www.youtube.com/watch?v=H1QunUv41gY

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    1. Rodrigo
      Vou-lhe fazer uma confidência. Originalmente a Amélia chamava-se Laura, porque me lembrei de uma história (real) que contei sobre uma empregada de bar de alterne que contei há tempos lá no CR ( Table Dance é o título.
      Depois, à medida que fui escrevendo, fui-me lembrando da Amélia dos Olhos Doces e ficou Amélia.
      Foi muito gratificante para mim esta sintonia que o meu amigo também estabeleceu.
      Abraço e bom fds

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  12. Oi Carlos
    Nem imaginas o quanto me divirto com o que escreve seja nesse conto ou nos posts que venho lendo, aqui. Tens uma linguagem hilária e umas tiradas excelentes.
    Gosto de mentiras sinceras e o Manuel(tinha que ser) rs saiu-se bem!
    Gostei também da personagem que limpa o chão nesse seu conto rs 'quase' parece comigo rs
    Sabe,Carlos devido o nosso tempo curto aqui nos blogs, é bem mais gostoso quando o conto encerra-se num único episódio, mesmo que mais longo.No meu caso , muitas vezes preciso retomar ao último pra lembrar e entender rs mas quando gostamos nada impede que aconteça assim.
    Fica só o registro.
    um abraço ,mil abraços

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    1. Estou de acordo, Lis. Os contos, por vezes, até podem contribuir para afastar leitores, em vez de os atrair. Falo por mim, que normalmente tenho dificuldade em acompanhar esse tipo de narrativas.
      Apenas esporadicamente voltarei a publicar contos aqui. E, se o fizer, nunca terão mais de dois episódios.
      Beijinhos

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  13. Irra...que uma pessoa aqui te de tudo um pouco: Gostei!

    beijo e Paz neste fim de semana
    BShell

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  14. :) não venho comentar por pura falta de tempo , acredite . Estive fora bastante tempo e fiz greve aos emails/blogs/etc (tb tenho direito a uma grevezinha depois de 12h num aeroporto esperando para voltar para casa...) Depois venho ler o seu blog, no entanto vi que tentou comentar ono outsider o post sobre a alemanha .Se ainda tiver tempo e não achar abuso posso pedir se volta e deixa o comentário (prezo mt a sua opnião e gostava de saber o que tinha paradizer sobre o assunto.Pronto é só isto :) BFS Annie

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    1. Vou voltar ao Outsider, obviamente, porque é um local que gosto muito de frequentar, como sabe, Annie. Não prometo é comentar o post porque, sinceramente, não sei se ainda me lembro do que queria dizer sobre o assunto

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    2. Voltarei obviamente ao Outsider, Annie, porque é um local onde gosto de ir sempre que posso. Quanto a comentar o post é que já não prometo, pois não sei se ainda me lembro do comentário que na altura me suscitou.
      Doze horas num aeroporto, Annie? Sei bem o que isso é... uma estucha monumental!
      Obrigado pela visita, mesmo sem cmentário

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  15. Tenho a dizer-lhe que gosto deste conto. Correspondeu às expectativas que foram sendo criadas. O final correspondeu ao que tinha imaginado: Rebeca era filha de Manuel, que protege a esposa da crua verdade de confirmar que a filha é uma prostituta.
    O enredo desenvolve-se de forma brilhante e as relações entre as personagens são coesas. Há suspense, humor, realidade e sonho.
    A nível linguístico encontro um vocabulário variado, figuras de estilo que enriquecem o discurso e um discurso direto marcado graficamente pelo grenito e pelo itálico.

    Parabéns!

    PS- O meu conto "Fantasia" está suspenso por um tempo. Hei de terminá-lo.

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    1. Muito obrigado pela sua análise tão completa e que me deixou obviamente satisfeito.
      Como sabe, gostava muito de visitar as Fantasias mas como está suspenso, vou-a lendo no Nathalie.
      Quando regressar o Fantasia, não deixe de me dizer...

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  16. Caro Carlos, isto foi um conto assim muito condensado, mas quer-me parecer que as personagens tinham ainda muito que se lhes dissesse. Havia pano para mangas, se quiséssemos aprofundar mais um bocadinho a história da Amélia/Rebeca... Deixa assim um gostinho de "soube a pouco" mas foi um prazer ficar a conhecer este fabuloso (ou não) destino! =)

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    1. Pois tinham, Briseis, mas os leitores estavam impacientes para saber o fim e eu cortei bastante do texto original. Como já outros leitores deixaram perceber nos seus comentários, o conto não é propriamente um modelo para a blogosfera

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  17. Ontem li o final do conto de madrugada, mas estava tão cansada que nem comentei. Já estou à espera de novas histórias.

    Obrigada por estes bons momentos de leitura.

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  18. Boa noite, Carlos

    Convido-o a ler o meu conto "Naquele dia..." e dê-me uma opinião se puder ou quiser.

    Grata.

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    1. Claro que quero, Natália. Ainda hoje irei passar por lá

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  19. Excelente, Carlos...do tipo a arte imita a vida ou vice versa.No final lembrei-me da música O Meu Guri, do Chico Buarque.

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  20. Não conheço essa música do Chico, Turmalina, mas vou procurar no Youtube

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  21. Carlos, olha aí: http://youtu.be/wkF0UAGQ8Uc

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  22. Obrigado, Turmalina.
    Não conhecia a canção, como disse. Gostei e adorei a selecção de imagens que a acompanham.
    Obrigado, mesmo, viu?

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  23. Confesso que não estava à espera deste final.
    Nem de perto, nem de longe.

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