sexta-feira, 18 de maio de 2012

Da Patagónia ao Guincho



No sábado de manhã o Jaime telefonou. Tinha chegado da Patagónia, onde esteve a passar férias com a Marta. Pelas suas palavras, percebi que vinha eufórico.Trazia também saudades de peixe e do mar do Guincho. Combinámos, por isso, um jantar à beira do Atlântico.
Fiquei feliz quando me apercebi da euforia do Jaime. Afinal eu fora co- responsável pela escolha da Patagónia como destino de férias, tantas vezes ele e a Marta me ouviram enaltecer a Argentina e esse paraíso imenso que é a Patagónia. Ajudara-os a preparar a viagem com todos os detalhes, mas avisando-os sempre que a Patagónia é o destino de férias ideal para podermos reprogramar itinerários diariamente, de acordo com a vontade do momento. Nunca, em nenhum lugar do planeta, dei melhor significado à expressão “férias em liberdade” do que na Patagónia.
O jantar foi animado, com o mar do Guincho em pano de fundo. Eu e a Ana estávamos ansiosos por ouvir o relato da viagem e o Jaime e a Marta por contar tudo ao pormenor. Tenho as minhas dúvidas que tenham apreciado a santola recheada e o peixe ao sal como pretendiam, tal era a sua sofreguidão em contar todos os detalhes das três semanas de aventura.
Percorremos a Patagónia de Bariloche a Calafate, num mosaico de aventuras, partilhando descrições quando descobríamos que tínhamos pernoitado, comido, ou apenas parado para tomar uma bebida, num lugar que nos trazia recordações comuns.
Mas quando chegou a sobremesa, a conversa ficou suspensa. É que a mousse de avelã das “Furnas do Guincho”, meus amigos, é um daqueles manjares que só um momento de luxúria divina permite conceber. Durante alguns minutos, subimos ao Olimpo e comungámos com Zeus e Athena momentos de lascívia, enaltecendo a criação.
Foi neste momento de suprema comunhão que eclodiu numa mesa à nossa esquerda uma conversa onde se falava de “rating”, reserve banking, índices Dow Jones spreads e taxas de juro. Creio ainda ter ouvido falar ( mas não estou certo...) de off shores e PSI 20.
Rodei a cabeça 90 graus, no intuito de identificar os animados interlocutores, imaginado-os desde logo anciões saídos de “limousines” de vidros fumados. A muito custo, não abri a boca de espanto, ao constatar que os intervenientes em tão animada conversa eram dois casais jovens, seguramente “under –30”. A tonalidade da tez denunciava um recente regresso de férias. Foi então que desci do Olimpo e dei por mim, de pés assentes na Terra, a perguntar-me ( estupidamente, claro) o que estaria errado naquele quadro. A animação de uns cinquentões  falando de aventuras de férias ou os jovens, regressados de férias, a falarem com transbordante entusiasmo do Dow Jones?
A resposta, enviada por um qualquer mensageiro de Zeus, foi arrepiante e desoladora!
( Escrevi esta história em Setembro de 2007 no CR. Publico-a novamente, porque cinco anos volvidos  constato que Zeus tinha razão. E os jovens também...)

5 comentários:

  1. Carlos, não sei qual foi a resposta que o mensageiro de Zeus vos deu, mas a ilação que eu tiro desta crónica, é que os jovens de hoje - sem generalizar, porque ainda há excepções- podem ser menos românticos do que os cinquentões, mas são mais ambiciosos e estão conscientes da importância que o mundo das finanças pode ter no seu futuro. Vais ver um deles era o Vitor Gaspar!
    Não te rias, ok? lol

    E duvido, que uma mousse de avelã, fizesse os jovens subir ao Olimpo comungando com Zeus e Athena momentos de tão sublime lascívia.

    Fico, porém, desconcertada, como é possível a resposta de Zeus ter sido tão desoladora e ambos terem razão.
    Mas isso sou eu, que não percebo patavina de uma coisa nem doutra. Quero dizer, de finanças e recordações da Patagónia.
    Explica lá tu, fazes favor, ó Carlos!
    Beijinhos

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  2. Assim que ataquei as primeiras linhas do texto, soube que já lera esta crónica.

    Dito isto, desoladora é mais a conversa que ouvi eu ontem no café de Vila Nova de Cerveira onde costumo beber o meu (triste) descafeinado cada dia. Eram dois moços e uma moça a falarem de que se ganhassem o euromilhões (ou qualquer coisa do género -en nenhum momento se falou de trabalho) colocariam o dinheiro num off-shore. Claro que não vou generalizar, mas é desolador mesmo constatar que quem nada tem sonha ser podre de rico para imitar aqueles que fogem à fiscalização e à solidariedade. :(

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  3. Carlos,

    Antes de mais, gostei muito de descobrir este espaço.
    Dito isto, e esquecendo a postura dos jovens, ficou uma certeza: QUERO VISITAR A PATAGÓNIA!!!!

    Abraço.

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  4. E essa mousse de avelã que também deve ser de nos fazer subiir ao Olimpo...

    I wish I had the money to go and visit Patagonia....

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  5. Realmente, que assunto de conversa mais enfadonho para se ter pós-férias! Ou em qualquer outra altura, que não seja numa reunião profissional, para quem trabalha na área... ;)

    Já a viagem à Patagónia era uma daquelas que adoraria fazer na vida. Nunca se sabe se não acontecerá um dia, mas para já não parece muito viável! Mas se esse dia chegar, certamente que lhe pedirei algumas dicas... :)

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