terça-feira, 8 de maio de 2012

Foram só 30 segundos, porra!


Estou parado na esquina da Duque de Ávila com a Av da República, à espera de autorização do semáforo para atravessar.  Perto da Versailles vejo uma mulher abordar pessoas, que estugam o passo quando ela se aproxima. Penso que seja uma pedinte.
O semáforo dá-me autorização para prosseguir e, quando me estou a aproximar da mulher, ela dirige-se para mim e balbucia a medo:
“Pode dar-me uma informação?”
Lembro-me da velha que durante anos andou pelo Saldanha a pedir esmola, com o pretexto de ter perdido a camioneta, mas páro para ouvir o que a mulher tem para me contar.
“ Pode dizer-me onde é o ministério da educação?”
Tento disfarçar a surpresa e  explico-lhe direitinho como deve lá chegar.
O seu rosto negro abre-se num sorriso e vejo estampado nos seus olhos um agradecimento que traduz com repetidos “Muito obrigada! Muito obrigada!”.
Não sei quanto tempo aquela preta terá estado ali à espera de alguém que se dignasse escutá-la. Pela forma como exprimiu o seu agradecimento, deveria estar já há uns largos minutos. Só lhe dei 30 segundos do meu tempo para lhe resolver um problema.
Sigo o meu caminho, pensando que raio de sociedade é esta, onde as pessoas recusam uns segundos do seu tempo para ouvir o que alguém tem para lhes dizer.  
Se a mulher fosse branca, procederiam da mesma forma?

14 comentários:

  1. Se a mulher fosse branca, procederiam da mesma forma, com medo que fosse uma pedinte ou por falta de tempo.

    Aqui, na Alemanha, os alemães paravam para ouvi-la por ela ser preta.

    Há muitas formas de racismo!

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  2. Infelizmente, ser negro ainda significa discriminação/racismo.

    Beijos.

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  3. Se fosse branca, talvez sim, talvez não. Mas se fosse bonita, meu amigo, todos os sorrisos se abririam para ela. Julga-se muito uma pessoa pela aparência. Por isso tantas frustrações pela vida a fora.

    Beijo e uma boa noite.

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  4. Penso que se a mulher fosse branca o comportamento das pessoas seria igual.
    Hoje, são raras as pessoas que se dispõem a ouvir um desconhecido/a, na rua. Medo, a correria do dia a dia, o desinteresse pelos problemas dos outros...podem ser muitos os motivos, mas o principal será a falta de humanismo em relação ao próximo.
    Felizmente, ainda existem excepções.
    Beijinhos.

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  5. Depois de ler os comentários, alvitro... ninguém lhe deu atenção porque, à procura do ministério da educação ( propositadamente escrito com minúsculas), só poderia ser uma professora a querer, naquele espaço, gritar pelos direitos depois de ter sido mandada para o desemprego. Sabe-se lá se as pessoas a quem se dirigiu o não eram também...e se não terão pensado "desenrasca-te !" ,como o Governo nos diz a todos, todos os dias.

    Beijo

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  6. Não seria muito diferente...
    As pessoas estão cada vez menos solidárias...

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  7. Carlosamigo

    O «não me chateie» é geral, para brancos, pretos, amarelos ou misturados. E principalmente devia ser para os gajos que estão no Poder. Mas, o equilíbrio das finanças públicas éké importante. O resto são amendoins.

    Abç

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  8. Talvez seja pior nas grandes cidades...

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  9. Suponho que se fosse branca não a associariam imediatamente a pedinte e paravam para escutar. Preconceitos... ;)

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  10. CARLOS, como muitas vezes acontece, as aparências enganam. As pessoas não param para dar atenção pensando que é uma coisa e, quando acaba, é outra.

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  11. Há medo, Carlos.
    Profunda insegurança.
    Se fosse branca acredito que tivesse tido outra atenção.

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  12. Que tristeza de sociedade... Isto é civilização?

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  13. A sociedade somos nós, e quando desconfiamos dos outros (como parece ser o caso), é porque nós (enquanto sociedade) criámos essa mesma insegurança. Mas individualmente, todos podemos dar muito, muito mais do que uma informaçºao em 30 segundos, qual doente que vai ao médico queixar-se de putativos problemas nas costas, lombares ou de estômago, ou mera dor de cabeça, quando o verdadeiro busílis reside na solidão e em desabafar ali os problemas familiares que a propósito dos sintomas se aliviam mais...

    Somos todos da mesma massa humana, e (não) atender as pessoas olhando ao facto de serem pretos, amarelos, ciganos ou homossexuais, é não srrmos dignos de nós mesmos...

    Para a próxima, e como bem conheço o local, finja que vai à vErsailles e a prop´sotio de nada deixe-a falar (na simbologia de um outro que possa aparecer) a solidão que possa ter...

    UM abraço

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