domingo, 20 de maio de 2012

Homem rico, homem pobre


Está sentado no banco do jardim em frente ao casino. Na extremidade de um braço uma mão segura uma garrafa de cerveja, na outra uma mão cheia de nada. 
Pede um cigarro a quem passa. As pessoas olham mas, ao ver o seu ar andrajoso, estugam o passo.
Indiferente, permanece  de olhar fixo no bailado das  luzes do casino que o convidam a entrar.
De quando em vez mete a mão no bolso, faz menção de se  levantar e dirigir-se para o casino, mas volta a pousar a mão sobre o joelho, desvia o olhar das luzes apelativas e bebe mais uma golada de cerveja. 
Um homem de fato e gravata para. Estende-lhe dois maços de cigarros
- Tem preferência?
O mendigo encolhe os ombros 
- Algum deles sabe a pão com chouriço?
O homem de fato e gravata ri-se
- Tem fome?
- Tenho, mas um cigarro também mata a fome. Não me pode dar um dos  maços?
O homem de fato e gravata convida
- Venha daí  comer qualquer coisa.
O mendigo não se faz rogado.  Sentado ao balcão devora uma sandes de presunto e depois um prego. Acompanha com duas cervejas. Mais uma  laranja para aconchegar.
O homem de fato e gravata quer saber da vida do mendigo
-Não tenho nada para contar. Já fui feliz. Trabalhei, casei, tive três filhos agora estou desempregado, a minha mulher também e dos meus filhos só sei do rapaz que foi preso há um mês por assaltar uma bomba de gasolina. As cachopas devem andar por aí a ganhar  a vida com o corpo. Conte-me você da sua vida…
- Também não tenho nada para contar. Nasci pobre,  agora vivo bem, mas nunca fui feliz. Bom emprego, casado, mulher, dois filhos bem na vida… mas a mulher que eu amava casou com outro tipo, porque eu não lhe garantia estabilidade no futuro. O tempo foi passando até me fartar de tudo. Menos do jogo e das mulheres...
- Também gosto de mulheres, mas só tenho uma. Jogar, nunca joguei…
-Então venha daí…
Entraram os dois no casino sob o  olhar cirúrgico de porteiros e seguranças, atónitos ao ver um par tão improvável. Curvaram-se numa melopeia de deferências,  boa noite senhor engenheiro, ignorando o comparsa.
O homem de fato e gravata que agora sabemos ser engenheiro conduziu o mendigo até à roleta.
- Toma lá 20€ , joga no teu palpite e também no 14.
O mendigo sentiu a tentação de desaparecer com os 20€ , mas não podia defraudar o senhor engenheiro. Jogou 10€ no 14, porque não tinha nenhum palpite.
Saltita  a bola na roleta, gira que gira, o mendigo torce o corpo numa tentativa de a fazer parar no 14, a bola trava junto ao 2, parece que vai ficar por ali, mas dá mais um salto e aloja-se no casulo do 14.

Com o olhar esbugalhado parece perguntar  “ e agora que é que eu faço?”. 
 O sr engº ri, abraça-o e diz “Ganhámos”
Então posso ir embora? 
Não vais nada, joga mais uma vez, ainda tens aí 10€ do dinheiro que te dei, joga no teu palpite.
Então já não jogo no 14?
Não, joga no teu palpite!
O mendigo  continua sem palpite, está tentado a jogar no 2 que fica  ao lado do 14, mas  lembra-se que o filho que está agora na prisão vai fazer anos na semana seguinte, aposta as fichas de 10 euros no 22 , tanto se lhe dá  ganhar ou não, terminada a jogada pira-se, espera uma boa recompensa , está nestes pensamentos  quando o sr engº o abraça outra vez e volta a dizer “ 22! Ganhámos!”. 
O mendigo continua sem saber o que fazer,  tem a boca seca, Bebia uma cerveja Qual cerveja qual quê vais mas é beber um uísque, Mas eu nunca bebi isso se calhar não vou gostar Experimentas é melhor do que bagaço Mas eu não gosto de bagaço Então experimentas à mesma e ficas a saber... 
Vêm os uísques o mendigo bebe quase tudo de um trago, faz um esgar de  rejeição Sr engº não posso beber uma cerveja?
Vem a cerveja , bebe-a, a mente já está um bocado toldada, as luzes do casino começam a bailar à sua frente, mas sem  o frenesim apelativo com que o convidam todos os dias a entrar quando está sentado no banco do jardim ao fim da tarde. Agora está lá dentro, ouve campainhas a tocar, as luzes da roleta não são psicadélicas, mas convidam a ficar. Ele quer ir embora, o engº não deixa, ensina-o  a apostar em cavalos, splits, , plenos, ruas, corners , baskets e snakes, a princípio aquilo faz-lhe confusão mas à medida que  vai aprendendo, começa a entusiasmar-se. Ganha umas vezes, perde outras, mas as fichas continuam a aumentar.
Ouve o croupier dizer última jogada aposta mais uma vez, mas desta vez não ganha nada. Não era a a voz do croupier, era a do senhor engenheiro, mas saíram à mesma porque ele mandou.Logo agora, Manel que estavas a gostar.
Saem os dois, ele vai cambaleante, o sr. engenheiro feliz, pega em 200€ e mete-os ao bolso Isto foi o que eu perdi, o resto é teu Mas isso é muito dinheiro e era todo seu, eu só cumpri as suas ordens Como te chamas? Manel  Não o nome todo Manuel dos Santos Zeferino Espera aí
O engº afasta-se, vai à caixa, passados uns minutos volta com um papel na mão
Tens aqui um cheque, é melhor assim, não vás ser assaltado no caminho amanhã vais ao banco e levantas o dinheiro obrigado por esta noite há muito tempo que não passava uma noite divertida.
As luzes cá fora já se apagaram, o engenheiro  e o mendigo sem título despedem-se, vão os dois felizes talvez se encontrem num outro dia no banco de jardim.
O mendigo chega a casa a mulher está  em alvoroço O que é que te aconteceu homem, estava em cuidados, Mulher encontrei  um anjo  fui com ele ao casino e no fim ele deu-me isto Tu não me enganas, Manel, andaste a roubar Mas como é que eu ia roubar  um cheque com o meu nome? Vê lá está aqui o meu nome! Mas que anjo era esse? Não sei, era engenheiro porque assim lhe chamaram quando entrámos no casino.
Deitaram-se. A mulher, que já há muito perdera a Fé, continuava incrédula com a história e revolveu-se na cama a magicar uma explicação para estória tão estapafúrdia, até ser vencida pelo sono e pelo cansaço.
( … )


18 comentários:

  1. Toda a gente deveria ter direito a viver um dia igual a esse...!!!
    xx

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  2. É curioso. O Carlos teima em pôr final feliz às histórias (ou pôr fim nas histórias quando elas ainda são felizes). E eu sigo o percurso do relato a pensar que o fim vai ser ruim. Isto era matéria para psicanálise, mas eu já tirei a minha conclusão. Vou ter de mudar de "visão" de futuro.

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    1. Eu não teimo, talvez isso aconteça para sublimar algumas coisas.
      De qualquer modo, a estória ainda não acabou...

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  3. Carlos
    Provavelmente o desgraçado, vai lixar aquele dinheirinho todo no dia seguinte no casino...será?
    Abraço
    Rodrigo

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    1. Terá que vir cá ler o(s) próximo(s) episódio(s) para saber a resposta,Rodrigo
      Abraço

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  4. Hummm... palpita-me que esta história não acabou por aqui. Para além do pedinte agora ainda se poder tornado viciado em jogo, que é coisa que, já se sabe, que ninguém precisa... :)

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  5. Abençoada imaginação a tua, Carlos! Adorei esta estória!
    Dois homens aparentemente sem nada em comum, têm, no entanto, um elo de ligação: ambos não serem felizes.
    Afinal, o dinheiro não compra a felicidade, né?!
    Ainda há engenheiros com boa índole!?!?

    Não sendo eu como a mulher do Manel, com a Fé de todo perdida, mas alguém a quem a vida ensinou a confiar, desconfiando, fico a torcer para que o cheque não seja careca.

    É que quando a esmola é grande...

    Hoje, sinto-me um pouco incoerente, fazer o quê?

    Beijinhos, Carlos e parabéns por mais esta belíssima crónica.

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    1. Há gente com boa e má índole em todas as profissões, Janita.
      Sobre o destino do cheque ficarás a saber amanhã se por aqui passares :-)
      Beijinho

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    2. Ó Carlos, mas eu nem ponho isso em dúvida!

      O meu filho é um deles ( engenheiro ) e tem boa índole, graças a Deus. :)

      Claro que passarei por cá.

      Tem uma boa noite, meu amigo.

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  6. Bela adaptação dos " amigos improváveis".

    Ainda dizem que os anjos não existem !

    Beijos.

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    1. Por acaso lembrei-me do filme enquanto a estória me saía dos dedos, Mona Lisa.
      Agora quanto aos anjos é que já não sei...
      Beijos

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  7. Já ninguém acredita em anjos, Carlos.
    Infelizmente.

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  8. Terá um fim esta narrativa?

    Imaginativa e irreal pois anjos só os que foram expulsos e desses (demónios) estamos, infelizmente rodeados . Ou será que por contestarmos a verdade institucionalizada, somos nós os demónios?

    Beijo

    Laura

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  9. Carlos,

    gostei desta versão do "Homem rico, homem pobre". As personagens apresentem densidade psicológica e estão muito bem caracterizadas. As sequências narrativas criam o suspense necessário a uma boa história.

    Gostei muito

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