quarta-feira, 23 de maio de 2012

O dia seguinte




No dia seguinte, ao final da tarde, Manuel  está  novamente sentado no banco de jardim em frente ao casino.  Uma das mãos continua a segurar uma garrafa de cerveja, a outra já não está vazia. Tem um cigarro a bailar nervosamente entre os dedos, à espera de ser consumido. Este cigarro não foi cravado a um passante, como habitualmente, porque logo pela manhã  Manuel saiu de casa  para ir ao banco levantar o cheque.
O empregado do banco olhou-o desconfiado, conferiu diversas vezes o  bilhete de identidade, pediu a Manuel para assinar o cheque, verificou demoradamente a assinatura e finalmente, entre o incrédulo e o inconformado,  entregou-lhe  o dinheiro com a recomendação que o guardasse bem, para não ser assaltado. 
Manuel pediu para ir à casa de banho. O funcionário estranhou, mas acedeu quando ele lhe sinalizou discretamente as suas intenções
 Manuel  meteu algumas notas nas cuecas, amolfadando os testículos, outras nas meias, outras ainda numa bolsa de pano que pediu à mulher para lhe coser às calças - onde habitualmente guarda uma faca de ponta e mola. Meteu as restantes no bolso das calças. Cumprida a função foi ao balcão despedir-se do funcionário sendo retribuído  com uma piscadela de olho  cúmplice, aprovadora  das precauções tomadas.
Chegado a casa meteu o dinheiro  dentro do colchão, retirando apenas duas notas de 50 euros e outra de dez.  Saiu para comprar cigarros e  deu-se ao luxo – pela primeira vez em muitos meses - de tomar uma bica. Pediu para embrulharem um jesuíta para a mulher.
A seguir ao almoço não dormiu a sesta. Deixou-se ficar na sala, em frente ao televisor, a ver a Volta a Itália em bicicleta. Pelo menos era isso que pensava a mulher, que não podia adivinhar que enquanto os ciclistas escalavam montanhas e cruzavam o Valle d’Aosta, o marido voava  por outras paragens  nas asas de sonhos por cumprir. 
À hora habitual come uma sopa e despede-se da mulher. Avisa-a que talvez venha tarde, ela pergunta  se vai encontrar-se com o anjo, ele responde que os anjos não são como os carteiros de um filme que viu na televisão, só aparecem uma vez.

Manuel  está  então a esta hora  sentado com o cigarro a bailar entre os dedos numa mão e a garrafa de cerveja na outra. Como todos os dias, as luzes feéricas  fascinam-no, mas hoje o apelo é ainda mais forte. Podia ter entrado logo, porque ao contrário dos outros dias hoje tem dinheiro no bolso, mas  não quer perder o hábito de se deixar seduzir pelas luzes que há semanas o convidam a entrar, mas o deixam sempre à porta, porque ele tem medo de arriscar a nota de 5 euros que sempre traz consigo para uma emergência.
 Pensara  qua a sua primeira ida ao casino seria para jogar nas slot machines, que não requerem ciência nem sabedoria. Mete-se uma moeda, fica-se a ver as figurinhas a rodar e espera-se que marquem as combinações certas. Isso sabe Manuel  de ver nos filmes, não de experiência própria. 
O encontro com o engenheiro, no entanto, alterou-lhe-lhe os planos. Agora sente-se um doutor em jogo, com capacidade para determinar à roleta onde deve fazer parar a bola. Lembra-se de um provérbio chinês que diz se alguém tem fome não lhe dês o peixe, ensina-o a pescar  e acredita que foi essa a missão confiada  ao engenheiro por alguma entidade divina.  
Levanta os olhos ao céu para agradecer ao seu Anjo da Guarda por lhe ter enviado tão experiente mensageiro, balbucia umas palavras, mas não chega a benzer-se porque nesse momento uma criança se aproxima dele, toca-lhe no braço, deposita-lhe uma moeda na mão  é a minha mãe que manda.
Manuel olha em frente, vê uma senhora, agradece com um audível muito obrigado, a criança foge a correr para as saias da mãe e agarra-lhe a mão, numa súplica de protecção. 
A senhora devolve-lhe um sorriso afectuoso Muita saúde e boa sorte Obrigado , Manuel tem a certeza que nunca viu um sorriso tão bonito, sente o coração aquecer-se de reconhecimento, mas agora não sabe se é mendigo ou  desempregado, por momentos sente arrependimento por estar a enganar a senhora que dele se compadeceu, logo havia de ser hoje, que não tinha pedido nem esmola nem cigarros tantas vezes recusados, que haviam de lhe dar uma esmola. 
Logo hoje, um dia em que não se sente pobre porque tem mais de dois mil euros enfiados no colchão, mesmo quando trabalhava nunca tinha tido tanto dinheiro junto. Está envergonhado, tem vontade de fugir dali, se alguém sabe que ele tem tanto dinheiro no colchão o que irá dizer? Mas quem vai saber que na véspera encontrou um engenheiro enviado pelo seu Anjo da Guarda que num gesto de generosidade lhe aliviou a vida para os próximos meses? 
Passa um carro dos bombeiros com a sirene a tocar Há fogo onde será? Manuel lembra-se do incêndio que no ano anterior deflagrara no seu bairro  consumindo barracas de gente pobre como ele, mas poupando a sua que ele protegera com cimento aos fins de semana, enquanto os outros jogavam às cartas e bebiam minis na tasca do sr Zé. Sente um arrepio percorrer-lhe a espinha enquanto recorda, olha em volta a senhora já vai  longe, o miúdo de vez em quando olha para trás e de uma das vezes lança-lhe um aceno, Manuel retribui, olha  agora para a fachada  do casino, as luzes continuam a piscar e a lua espreita prazenteira, como que observando-lhe os passos.
(...)

22 comentários:

  1. Ai, Ai, Ai, Ai! Isto hoje ficou ,menos claro. Ação, precisa-se de ação. É dela que advirá o desenrolar dos acontecimentos...

    Vá, não seja mauzinho e não nos ponha aqui a pensar no que irá contar-nos...

    Beijo e até amanhã! Não vou perder o episódio!

    Laura

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    1. Amanhã é o penúltimo episódio e já vai dar para perceber o que na realidade irá ou não acontecer. Cá a espero...

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  2. Carlos
    Tenho cá a impressão que o meu caro está a usar a táctica daques realizadores de telenovela. Vai adaptando a estória consoante as reacções, criando cada vez mais suspense.
    Atrevo-me a imaginar que o Manuel vai gastar os cinco euros, ganha mais umas massas, entusiasma-se perde tudo, mas tem um felling e vai buscar o dinheiro que guardou e fica teso. Jogo só pode dar nisso, porque aí não há milagres. Penso eu.
    Abraço
    Rodrigo

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    1. Como digo no comentário mais abaixo que dirigi a todos os leitores, o conto já estava escrito antes de começar a publicá-lo. Admito que haja alguma surpresa inesperada. Na verdade só devia acabar no sábado, mas decidi alongar um bocado os capítulos para antecipar o final

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  3. Agora paciência. Como disse o "folha seca" o Carlos está a utilizar a táctica da telenovela (ou melhor, porque então não existia a televisão, daqueles folhetins que se publicavam nos jornais), de maneira que cá os leitores ficamos presos ao seguinte episódio. A ver vamos.

    (Fiquei feliz porque sei o que é um jesuíta: ora, veja com que pouco a gente se contenta.)

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    1. Só o jesuita Sun Iou Miou? Buáaa!
      Não há truqe na manga, nem táctica de telenovela embora, reconheça que o seu comentário e o do Rodrigo me fizeram pensar que, se calhar é boa ideia publicar aqui uma blogonovvela, como já fiz no CR
      Talvez depois do Verão...

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  4. Ai ai ai, que lá lhe ardeu o colchão...

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  5. Hoje já soltei umas risadas, neste episódio, mas não te vou dizer porquê, Carlos!!

    Tenho a mesma opinião do Rodrigo! Tanto em relação à tua estratégia de desenvolvimento da história, quanto ao temor de o homem pobre se meter na roleta e acabar por ficar tão pobre como dantes e ainda mais infeliz e frustado.

    Acho melhor aguardar e não dar mais palpites...
    Beijinhos.

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    1. Atão não dizes porquê? Isso não vale!
      Quanto à estratégia, repito o que já escrevi em anteriores respostas e no final. O conto estav escrito antes de eu iniciar a publicação.

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  6. Fez-me recuar 40 anos quando o vizinho do meu pai tinha 200 contos na majedoura das vacas, um dia o filho tombou o candeiro a petróleo, ardeu o curral das vacas e o dinheiro foi para o caraças.

    Carlos aqui também tenho dificuldade em entrar, mas entro melhor do que no CR.

    Beijinho e uma flor

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    1. É bom vê-la por aqui, Flor
      Folgo em aber que entra aqui com mais facilidade. Espero por si nos dois últimos episódios.
      Beijinho

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  7. Aviso à navegação:
    Este conto já estava totalmente escrito quando o comecei a publicar, não o tendo alterado em nada, mas a verdade é que a vossa colaboração e os vossos palpites têm sido preciosos.
    Na sexta-feira termina. Ou seja, faltam apenas dois capítulos

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  8. Bem me parecia que essa sorte de principiante o iria aliciar para mais jogatina... :)

    Vamos esperar, para ver no que resulta! :D

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    1. Que fará o Anjo da Guarda? Falta pouco para se saber :-)

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  9. Apagou-se-me a luz!

    Baralhaste-me!

    Será que o engenheiro o está a"`pôr à prova",mandando dar-lhe uma esmola?

    Fico à espera!

    Beijinhos.

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    1. Se o texto não estivesse já escrito, essa poderia ser uma boa ideia, sem dúvida. Mas fui por outros caminhos...
      Beijinhos

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  10. Tadinho dele, presinto algo sinistro...a sorte nunca vem assim ,sem volta rs
    Bem Carlos 'tomar uma bica ' sei o que é mas levar um 'jesuita' pra mulher, ficou indecifrável rs
    gostei muito Carlos, muito bom!
    volto ,claro!
    abraço

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    1. Bom vê-la pela filial, Lis. Como recompensa no fds vou-lhe apresentar um jesuíta...

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  11. Essas luzes a piscar que, cientificamente provado, são um poderoso chamariz e que já levaram à desgraça tanta gente, Carlos.

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    1. É verdade, Pedro! E o meu amigo, aí em Macau, sabe melhor do que ninguém...

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  12. As personagens continuam a cruzar-se de forma inesperada. Será que a esmola da mulher lhe vai tirar a vontade de jogar e de se tornar um viciado?
    O suspense mantém-se.

    A narrativa ganha novo fôlego.

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