terça-feira, 29 de maio de 2012

Olha que três!




Na sala, diante do televisor  a ver um seriado americano, estão três gerações: avó, filha e neto. Como só há um canal, ninguém reclama ver o programa da sua preferência e como a televisão ainda é a preto e branco as duas mulheres não comentam as cores dos vestidos.
Na sala está também um gato- aparentemente alheio às imagens que vão passando no ecrã e à cena de comunhão intergeracional-  que assumirá papel relevante  no final da história.
Voltemos, por agora, ao televisor  onde  JR acaba de fazer mais uma sacanice a Sue Ellen e Bob Ewing envida esforços  para o desmascarar. Tarde demais… é hora de intervalo.
A mãe –  que tem um terço entre as mãos-  lança um suspiro  e dá início em surdina a mais um mistério do seu rosário; a  avó levanta-se para fazer mais um chichi; o neto olha mais uma vez para o relógio, devem estar a chegar os amigos com quem vai sair nessa noite, porque é sábado.
Quando a avó regressa à sala  já recomeçou o Dallas. Bob Ewing discute com J.R.
“ A televisão está cada vez pior, já vi este filme não sei quantas vezes, vou mas é deitar-me…” 
Mãe e filho trocam um sorriso cúmplice.
Toca a campainha. O jovem  dá um beijo à mãe, Não venhas tarde, meu filho, beija  a avó  que está de pé na sala  ainda hesitante entre ficar ou ir deitar-se Não ficas para ver o resto do filme? Eu já vi, é muito bom, Fernando apressa-se nas despedidas desce as escadas  em direcção à porta que dá para a rua.
-Olá Luís, então onde vamos hoje?
-Esperamos que chegue o Beto para decidir.
Ficam os dois na soleira da porta  a tergiversar sobre o local onde haverá mais miúdas, sob o olhar atento do gato que aproveitou a boleia de Fernando para se escapulir da sala e arejar um bocado. Apesar de estarem na rua, Fernando mantém a porta entreaberta, para que o gato possa voltar a entrar quando quiser.
Corre uma brisa fresca.
-  Está frio, não achas, Luís? O melhor é fechar a porta!
O gato fixa os olhos em Fernando lança uma miadela de compaixão  e escapa-se rua abaixo. Já bem longe volta-se para trás. Parece  dizer “ Que família de malucos onde eu vim parar!” 

30 comentários:

  1. O que o gato não sabe é que existiam muitas famílias de malucos como essa, por todo o país... :)))

    E o Dallas era sempre a mesma coisa! Sem tirar nem pôr... :D

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    1. Uma xaropada, mesmo! Ainda vi a primeira série, mas depois fartei-me.

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  2. O Verão chegou a Düsseldorf, por isso não paro em casa, perdendo assim muitas leituras interessantes.

    Comecei por "Olha que três!".
    Penso que o meu Casimir diz: "A minha dona é tão fofinha, foi uma sorte vir aqui parar"

    Nunca vi a série Dallas, só que há tempos uma familiar alemã ofereceu-me dois DVDs com vários episódios, que ainda nem abri, mas depois de ler este episódio de família a três, talvez os veja numa noite de chuva.

    PS: A dona do Casimir é a minha filha mais nova!!!

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    1. Já agora, fico a aguardar a sua opinião sobre o conto que animou o On the rocks" durante a última semana...

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  3. Carlos
    E eu vivo num mundo de loucos.

    Beijinho e uma flor

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  4. Carlos
    Fez bem em recordar esses tempos. Um só canal? Para muito jovem e até menos, é inpensável. O Dallas vi todos os episódios(ou quase).
    Vou só contar uma patifaria que fazia à minha Mãe. Vá-se lá saber porquê? Não perdia uma das "conversas em família". No meu quarto havia vários aparelhos electricos. Deitava-me e encostando dois fios, fundia os fusíveis. Sim eram daqueles com fios enrolados. No outro dia de manhã lá enrolava mais um fio no fusível e ficava tudo bem.
    Abraço
    Rodrigo

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  5. Creio bem que não perdi um episódio da primeira série Dallas, apesar de quase ficar "doente" com a malvadez do JR. Depois enjoei!
    Eu acho que o gato não tem lá muita razão de queixa da loucura dessa famíla, Carlos. A não ser que o vestissem com uma farpela igual ao do gato da imagem. Aí, sim! Pobre animal!
    Se a história tivesse continuação, eu arriscaria dizer que o trio que poderia trazer surpresas seriam, o Beto,o Luís e o Fernando.

    Beijinhos

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    1. Mas não haverá continuação, Janita. Apesar de muitas histórias deste trio que poderia aqui contar...
      Quanto ao Dallas, comigo aconteceu o mesmo
      Beijinhos

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  6. Tempos de um só canal... e nem sonhos de facebook :)

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    1. Nem de televisão a cores, Luísa, quanto mais FB? Aliás, naquele tempo, quem sabia o que era um computador?

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  7. Tempos não muito longe...um só canal...uma só televisão a (P&B), mas mais diálogo...

    Beijos.

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  8. E têm sete vidas, Carlos.
    Os outros, que só têm uma, e que têm que aturar tantos malucos, sofrem muito mais

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    1. Não tenha dúvida, Pedro. Talvez por isso eu gostasse de ser gato...

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  9. Cada vez mais percebo que todas as relações familiares vistas de fora para dentro dão a sensação de caos, enquanto dentro olham para fora muito espantados pelo olhar perdido dos de fora,


    cumprimentos,
    JD

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  10. Logo à noite espero ter tempo para responder aos vossos comentários mas, por agora, apenas venho manifestar a minha estranheza pelo facto de nenhum dos leitores ter manifestado a sua perplexidade pelo facto de o jovem Fernando querer fechar a porta de casa para se proteger do frio, uma vez que estava na rua! :-)

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    1. Carlos, reparei nesse pormenor, sim! Por isso fiz referência às possíveis surpresas vindas dos três amigos! lol

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  11. Prmeira impressão ao ler o texto: regresso acelerado à minha memória dos tempos parados, tristonhos,de uma adolescência mergulhada em livros e fora da realidade. Não tenho saudades desses tempos, até porque não havia gatos na minha família, só cães!
    Segunda impressão: o gato é um prisioneiro, que por vezes consegue, à socapa, dar uma voltinha na rua. Metáfora dos donos e dos tempos?
    Abraço

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    1. Em minha casa também não havia gatos. Só cães, tartarugas, peixes e um burro! O meu pai não gostava de gatos, por isso eles só lá entraram depois dele morrer. Eu, pelo contrário, sempre adorei gatos
      Abraço

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  12. O quotidiano de há uns anos com o "Dallas" em pano de fundo!

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    1. Era a telenovela daqueles tempos. A diferença é que só entrava nas nossas casas uma vez por semana. Ao sábado, se bem me lembro...

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  13. Compreendi, que os rapazes estavam na soleira da porta e, que antes de fecharem a dita cuja, tinham entrado para dentro!!!
    Caso, tenham fechado a porta, por causa do frio, e ficado lá fora, então compreendo o pensamento do pobre bichano.

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  14. O que vai na cabeça de certos homens e o que vai na cabeça de certos bichos é... tão idêntico.

    Beijo

    Laura

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  15. Soubesse eu contar histórias de gatos ou gatas, tanto faz! :-))
    Matéria felina não me falta, tenho três! :-))

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    1. Eu actualmente não tenho nenhum, porque morreu ano passado a última. Mas adoro gatos!
      Venham daí essas histórias, Rosa

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  16. A minha imaginação recuou a esses tempos; como o mundo mudou...

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