domingo, 6 de maio de 2012

Os meus pecados



De quando em vez,  seja deliberada ou involuntariamente,  os meus dedos  de flâneur  do teclado,  vão deixando escapar alguns dos meus pecados. ( Honni soit qui mal y pense, Catarina)*
Hoje, de forma voluntária, vou confessar-vos de uma assentada dois pecados que, se confessados no local próprio, mereceriam certamente a aplicação de uma penitência  de 10 Avé Marias, outros tantos Padre Nossos, uma Salve Rainha e, no caso de ter diante de mim um intermediário de Deus privado de subsídio de férias e Natal, o pagamento de uma coima depositada como óbulo na caixa das esmolas de S. Judas Tadeu. 
Optei, por isso, por me confessar aos meus leitores, ciente da vossa clemência, cabalmente expressa nas visitas que me fazem e na bondade dos vossos comentários. Vamos a isso, então…
 Não sou guloso por doces, embora aprecie de forma desmesurada um dulce de leche genuinamente argentino,  umas profiterolles  cujo segredo descobri num livro de receitas da minha mãe,  um merengue de limão,  um quindin de manuseamento brasileiro  e umas outras quantas iguarias  de que destacaria, não fosse o receio de poder ser acusado de publicidade, uns maravilhosos artefactos doceiros da confeitaria Rapetti, na Visconde de Valmor. Confesso, ainda, já ter experimentado algumas receitas recolhidas no blog da Cristina, acicatado pela sua mestria em misturar crónicas soberbas,  com receitas doceiras  que me exaltam o palato. 
No entanto, o pecado da gula que me põe verdadeiramente  em órbita e me faz revirar os olhos em alvo, não é doce . Dá pelo nome genérico de queijo, mas não contempla algumas mixórdias que à pala do nome se vendem por aí.
Além de ser um apreciador desta iguaria, certamente confeccionada nas melhores cozinhas  de Belzebú, com leite de vacas açorianas que deixam  Cavaco em transe, ou de cabras montesas que acicatam a líbido de Passos Coelho, devo ao queijo um inestimável favor. 
Com efeito, quando percebi que  o sabor do queijo à hora do almoço era avivado, se não fumasse de manhã,  bani definitivamente a cigarrada matinal, compensando os pulmões com uma dose extra de nicotina em forma de cigarrilha, duas horas após o almoço. Ganhei em três tabuleiros:  reduzi drasticamente a ingestão diária de nicotina, poupei na conta bancária e, last but not the least, passei a ser ainda mais exigente quanto à qualidade dos queijos.
Vai a prosápia longa sem  me chegar aos finalmentes, é  hora de apressar o final e explicar a razão de vos confessar este  pecado que, inapelavelmente, condenará as minhas cinzas a permanecer ad aeternum nas catacumbas crematórias de Satanás.
Ao revelar-vos esta minha fraqueza quero, acima de tudo, protestar de forma veemente contra as plataformas gastronómicas onde é possível amesendar à hora do almoço a preços médios, na zona do Saldanha.
 Só procuro estes antros cujos proprietários são regularmente praticantes de outros pecados  -  da avareza, não da gula,  caso contrário cuidariam melhor do receituário gastronómico e da relação qualidade preço- quando não posso desfrutar a culinária da Isabel, a zelosa empregada que me alegra os dias com pão fresquinho pela manhã e cuidados culinários no receituário do almoço, onde presumo meça com desvelo a percentagem de gorduras, para não dar hipóteses ao meu colesterol de fazer arregalar os olhos do médico que me mede as tensões e  se esforça por aplacar eventuais distúrbios gástricos e biliares.
Ora acontece, que quando sou obrigado a repastar  nesses locais, o meu estômago fica  (quase) sempre insatisfeito e, para tapar um buraco que o repasto não vulcanizou devidamente, exige para remate da refeição  um bocado de queijo, acompanhado pelo néctar  com que Baco e Dionísio brindaram a Humanidade.
E aí, caros leitores, o pecado da gula dá normalmente lugar ao pecado da Ira, porque na maioria destes locais de amesendagem  o queijo não tem lugar, a não ser na versão “fresco”, mais apropriada a servir de amuse bouche do que a rescaldo gastronómico. Mas se, por qualquer acaso,  aparece no rol das sobremesas, vem mascarado em  versões “tipo serra” ou “camembert” da Makro, pouco condizentes com a fidalguia do meu palato, mais afeiçoado aos queijos nacionais não industrializados.
Acresce, ainda, que quando olhamos para a coluna da direita, o preço indicia uma dose equivalente a meio queijo  mas,  uma vez aceites  as exigências estomacais, somos confrontados  com uma dose suficiente para  tapar a cova de um dente, mas não o buraco estomacal reclamante.
Sendo Portugal um país com alguns queijos de qualidade, interrogo-me sobre as razões desta ausência láctea nas listas dos restaurantes médios  que me força a derramar no teclado a azia acumulada.


No Quebec, o termo flâneur tem um sentido pejorativo, daí a minha advertência à Catarina que, apesar de viver em Toronto, não deve desconhecer a possibilidade do equívoco.

11 comentários:

  1. Curiosamente, o queijo, assim como as azeitonas são as duas únicas coisas de comida de que não gosto mesmo nada...

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  2. Pois....

    Ohhhhhh...teria de penitência ,um rosário!

    Adoro doces, queijos (cabra e ovelha) e enchidos!

    Beijos.

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  3. : )))
    Flâneur e Baudelaire!

    Queijo... uma das minhas perdições!

    Abraço

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  4. Pela minha parte, além de absolvido não levas nenhuma penitência. Isto, quanto ao pecado da Gula, quanto ao da Ira, já vais ter de rezar uma Avé Maria.
    Sabes porquê, Carlos? Para um apreciador de bom queijo nacional, não industrializado, devias saber que o melhor queijo que existe no mercado é o de Serpa.
    A não ser que nesses restaurantes da zona do Saldanha, onde costumas amesendar - adorei este termo - não tenham essa iguaria inigualável.
    Também sou doida por queijo e ainda há pouquinho comi um bom naco de um de Seia.
    Como vês, por aqui somos(quase)todos pecadores!!

    Beijinhos...

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  5. Adoro queijos bons, mas para minha desgraça, apesar de ser magricelas como um pau seco, tenho colesterol e devo dominar-me. Ai, se não, os queijos que se cuidassem!

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  6. Os verdadeiros queijos Portugueses, internacionalmente afamados e de que tanto gostas, como eu te compreendo, não dão a margem de lucro que estes "locais de amesendagem" pretendem.

    Assim, se queres pecar e ficar saciado dessa malvada Gula que tão bem conheço, Paga e não Bufes, lá diz o Povo e com razão.

    :-)

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  7. Também adoro bons queijos portugueses, embora possivelmente não tenha um palato tão fidalgo... :)

    Mas nunca os como em restaurantes, devido a essa coluna da direita ser tão excessiva para a parca bolsa dos portugueses, em geral, e a minha, em particular, além de realmente mais parecerem um aperitivo que uma sobremesa... :D

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  8. Eu pecadora me confesso porque gosto e como queijo de Azeitão, queijo de Nisa, queijinhos pequeninos de Évora que se guardam em frascos com azeite, queijo de Castelo Branco que em casa da minha avó se embrulhavam em folhas de couve...queijo que a minha cunhada faz e põe a "amadurecer" sobre um tabuleiro onde apetece ir de vez em quando. Tenho é pena de não comer tanto, não com medo do colesterol, que tenho, mas por causa dos euros que não tenho.
    Celene 2012/05/07

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  9. Ser guloso é um pecado só assim pequenininho....:)))

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  10. Esta confissão fez-me lembrar que há muito tempo que não como, em jeito de sobremesa, uma bela fatia de queijo com uma banana :) E o que eu gosto disto!

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