terça-feira, 22 de maio de 2012

Private Dance




No outro lado da cidade  havia locais com as  luzes a piscar, formando corpos de mulheres de banda desenhada em posições eróticas.
O engenheiro para o Mercedes à porta de um dos bares, retribui a saudação do porteiro e entra. Assim que franqueia a porta detém-se à procura da mulher que nos últimos meses lhe dá umas horas de conforto  e ouve os seus queixumes, duas vezes por semana, a troco de generosas  quantias.
 Está acompanhada por um tipo gordo, com ar de pato bravo. Assim que o vê acena-lhe. Pela sinalética, percebe que a mulher  despachará rapidamente o cliente e dirige-se para o balcão. 
Na pista, um par dança ao som de música dengosa. Ele está ébrio, ela procura segurá-lo de pé. Um passo desacertado e o homem estatela-se no chão. Ela faz menção de o querer içar, mas rapidamente desiste e afasta-se para a mesa, mascando chiclet. Dois empregados entram na pista, a custo içam o fardo e depositam-no ao lado da rapariga. O gerente chega junto do homem Deseja que lhe chame um táxi?  A resposta é ímperceptível Lourenço chama aí um táxi Voltam os empregados que o tinham levantado do chão e levam o fardo até à porta. O segurança entregá-lo-á ao taxista.
O engenheiro está sentado ao balcão. Beberica o uísque sem vontade. De quando em vez olha de soslaio para a mesa. Observa a  mulher  a despejar parte da garrafa de espumante sobre o  cliente, num descuido estudado. Já a vira fazer isso duas ou três vezes mas, mais uma vez, sorri com o profissionalismo da mulher que se desdobra em desculpas pelo acidente. Sabe que a cena seguinte é um beijo na boca do cliente, vacina utilizada  para aplacar uma reacção desbragada da vítima.
Dez minutos depois, Rebeca já está sentada ao seu lado. Beija-o afectuosamente, fazendo-o sentir que estavam cada vez mais próximos. Pouco sabe dela. Basta-lhe o calor do seu corpo, os seus gestos meigos e a ternura que a cada noite lhe parece mais sincera, para regressar a casa mais feliz.

Nas primeiras vezes que saíram, Rebeca apenas pensava em ser generosamente recompensada pelo seu serviço mas, com o tempo, foi percebendo que sentia a sua falta e, não raras vezes, às quartas e sábados deu por si a olhar para o relógio, impaciente. 
Uma noite,  em que os ponteiros do relógio demoravam mais tempo e  a noite se tornara mais prolongada porque não tivera nenhum cliente com quem entreter o tempo,  a sua impaciência foi motivo de remoque de uma colega:
- Então o teu engenheiro hoje não vem? Se calhar da última vez  não foste competente e ele foi pescar para outro lado…
Num acesso de fúria, Rebeca atirou-lhe com um copo de sumo . Correu para o quarto de banho  e rebentou em lágrimas. Quando saiu, o engenheiro estava sentado ao balcão à sua espera. Lançou-se-lhe nos braços, beijou-o repetidas vezes e deixou cair a cabeça no seu ombro, permitindo que  a acariciasse repetidamente. Nessa noite, pela primeira vez, sentiu  prazer ao ser penetrada por aquele homem que tinha idade para ser seu pai, mas lhe proporcionava um prazer  que  há muito não sentia.

Demoram-se pouco tempo. O senhor engenheiro sorve mais um gole de uísque, dá-lhe uma palmada no rabo,  Vamos despede-se do barman Até sábado e saem os dois.
Rebeca nota um brilho raro no olhar do engenheiro e arrisca
- Hoje vens com ar feliz, Diogo. A vida está a correr-te bem?
Diogo conta-lhe o sucedido nessa noite. O encontro casual com o mendigo que não lhe parecera propriamente mendigo, mas assim se comportava talvez porque carregasse às costas a culpa de estar desempregado e de não ter  sabido cuidar dos filhos, o jantar, o impulso estranho de o convidar a ir ao casino. Riu-se com vontade ao descrever  o bambúrrio de sorte, exaltou a forma como ele rapidamente aprendeu os diversos tipos de apostas e a cara dele quando lhe entregou o cheque com os 2300€ que ganhara. 
 -Encontraste esse mendigo  à porta do casino, foi o que disseste?
- Sim… pediu-me um cigarro e olha, deu-me para entabular conversa. O tipo era simpático, parece que tinha fome, coitado, por isso convidei-o para comer uma sandes. Depois, conversa puxa conversa, deu-me para o levar comigo ao casino. Longe de mim imaginar o que ia acontecer e como tudo aquilo me ia fazer feliz.
- E como se chamava o homem?
- Não sei, nem sequer lhe perguntei- respondeu sem saber explicar a razão de ter mentido. Sei que tem três filhos e um deles está preso porque fez um assalto a um supermercado, ou a uma bomba de gasolina, não me lembro…
- E onde é que esse homem mora? Vive em frente ao casino? É um sem abrigo?
- Não! Ele tem casa, por isso é que te disse que não me parece que seja mendigo… Ainda me ofereci para o levar a casa, mas recusou e eu não insisti, porque tive medo que se sentisse envergonhado.
-E ele para todos os dias nesse banco em frente do casino?
- Eh pá! Isso é um interrogatório, ou quê? Não sei, não faço ideia, mas um dia destes vou voltar a passar por lá para ver se o encontro. Espero é que não vá gastar o dinheiro no casino, senão ainda me sinto culpado de ter viciado um homem que não tem onde cair morto.
O que tens? De repente ficaste aí parada, de olhar perdido… Passa-se alguma coisa?
- Não se passa nada. Essa história comoveu-me e fiquei contente por saber  que um mendigo te conseguiu fazer feliz. 
- Estás com medo que te troque pelo mendigo?
- Não sejas parvo! Dá-me um beijo…
Na penumbra do quarto, Diogo não se apercebeu que uma lágrima se escapara dos olhos de Rebeca, mas sentiu que ela estava tensa enquanto faziam amor. Não disse nada. Aliviou-se e foi tomar um duche.
(...)

18 comentários:

  1. Suspensa do desenrolar da narrativa.

    Quem sabe quem é o sem abrigo? Sabê-lo-á ela? Parece-me que aquela lágrima me elucidou. Estarei enganada?

    Presa nas reticências...

    Beijo

    Laura

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    1. Não sei não, Laura... dentro de dias saberá a resposta. Amanhã haverá novos desenvovimentos
      Beijinho

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  2. Carlos
    O comentário da Laura vai no mesmo sentido do que queria fazer. Passo!
    Abraço
    Rodrigo

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  3. É, já se adivinha que ela conhece o tal "mendigo" de qualquer lado... :)

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  4. Do episódio anterior havia uma frase que queria vir-me à cabeça, mas como não vinha inteira, tive de ir procurá-la: "As cachopas devem andar por aí a ganhar a vida com o corpo". E não é que, pelo menos, uma delas andava?

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  5. Pressagio um final feliz para todos os intervenientes nesta história! Ainda bem!
    A Rebeca já se apaixonou pelo engenheiro e ele já está cativo dos encantos e ternuras daquela que tudo indica ser a filha do homem pobre. O cheque de 2300€ vai tirar do sufoco a mulher do Manel e todos voltarão a sorrir.
    Começo a acreditar que há anjos na Terra...

    Beijinhos.

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  6. Palpita-me que o mendigo é o pai de Rebeca!

    Será?!

    Fiquei suspensa no "suspense"!

    Beijos.

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  7. Não sei não, Laura... dentro de dias terá a resposta. Amanhã haverá outros desenvolvimentos.

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  8. Fico à espera dos desenvolvimentos.
    Confesso que não faço ideia para onde vamos.

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  9. Será que Rebeca é filha de Manuel, o mendigo que o senhor engenheiro? Será? Pode ser que sim. Vou continuar a ler. O suspense continua.
    Estou a gostar muito.

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