quinta-feira, 3 de maio de 2012

Tirem-me daqui!


(Continuado daqui)
Cumprida a árdua tarefa das pesagens e selagens, Frederico foi percorrendo as diferentes secções onde se perfilavam, em postura irrepreensível, queijos, iogurtes, enchidos, carnes verdes, pastas, bolachas, carapaus, pescadinhas de rabo na boca e às postas.
Distraidamente ia enchendo o carrinho com as mais diversas iguarias. A hora do almoço aproximava-se e o hipermercado estava a abarrotar. À sua volta, as pessoas dividiam-se entre alegres e conformadas. Famílias inteiras comungavam do acto de consumir, sem que descortinasse se o faziam por prazer ou sacrifício. Foi dando mais umas voltas pelos escaparates, na vã esperança de que as filas que se distendiam diante das caixas registadoras diminuíssem, mas depressa compreendeu que a tendência era precisamente a inversa. Com o açafate ( mais que) suficientemente fornecido, dirigiu-se então vagarosamente para uma fila. À sua frente, uma sexagenária dormitava encostada a um carrinho a abarrotar, onde se destacava um saco isotérmico de onde escorria uma baba suspeita.
Reparou que entrara naquele “inferninho” há mais de duas horas e foi nessa altura que descobriu uma das vantagens das grandes superfícies: NÃO FUMARA DESDE QUE LÁ CHEGARA!
 Diligente, apontou no seu bloco de notas: “Bom exercício para os potenciais candidatos a não fumadores. Dar o conselho no próximo dia mundial dos não fumadores”.
Tinham passado 45 minutos desde que chegara à fila da caixa registadora e avançara apenas escassos centímetros. Foi quando interromperam a música ambiente ( pela enésima vez desde que lá entrara) para dar lugar a uma voz sofrida que clamava insistentemente pela Drª Ana Paula (devia ser coisa urgente, porque agora já diziam a matrícula do carro, a marca e a cor! Veio a saber, dias mais tarde, que se tratava de um truque publicitário de uma jovem advogada, mas isso fica para outra história...) que decidiu desistir. Mas que fazer às pescadinhas de rabo na boca que se começavam a babar, gotejando o chão, só porque na sua forretice de consumidor careta, recusara comprar um saco isotérmico?
Foi então que Frederico teve uma ideia genial: distribuir os produtos que acumulara no carrinho, pelos perseverantes companheiros de fila. 
Um senhor de meia idade ficou-lhe com os belíssimos enchidos e uma jovem de olhar expectante (seria ela a Ana Paula?) condescendeu, com alguma relutância, é certo, ficar com as pescadinhas de rabo na boca. Despediu-se com amargura do apetitoso queijo da serra que há longos minutos o fazia salivar e, um a um, lá se foi desfazendo de todos os produtos. Apenas não encontrou candidatos para os panos de cozinha que estavam em promoção e pensava que fariam as delícias da sua empregada doméstica, nem para a pasta dentífrica que prometia devolver aos seus dentes a brancura dos tempos de criança. À passagem de um funcionário depositou-lhe nas mãos aqueles ex-pertences e escapuliu-se para a saída, deixando-o com ar atónito entre couves lombardas e latas de atum em promoção.
( Conclui amanhã)

4 comentários:

  1. Carlos
    Excelente analogia...
    Abraço
    Rodrigo

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  2. Eu não estaria tanto tempo numa fila. Deixava as compras, já o fiz num hipermercado no Porto. Tempo é dinheiro

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  3. Carlosamigo

    Só tu para criticares o senhor Alexandre SS que é muito amigo dos Portugueses e, também dos Holandeses. Dor de cotovelo, éoké. E um destes dias há mais. Filantropos assim - nem de encomenda. Oxalá a Nossa Senhora de Fátima nos proporcione outros iguais. Quiçá converta o Azevedo e o Américo. Deo gratias. Ite promotio est.

    Abç

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  4. Nunca tinah pensado nas grandes superfícies como método eficaz de desabituação tabágica :))

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