quinta-feira, 24 de maio de 2012

A Valsa das horas


Manuel está agora em pé. Chegou a hora de entrar no Casino. Dirige-se para a porta em passo lento. E se não o deixam entrar? 
Porque não hão-de deixar se ainda ontem lá estive? Porque ontem ias com o senhor engenheiro, parece ouvir uma voz  interior responder. Omessa! Lá por ir com o senhor engenheiro deixei de ser quem era antes de o encontrar? Entrei sem um tostão agora sou remediado, não roubei nada a ninguém, porque não me vão deixar entrar? 
Tu não percebes nada da vida, Manuel, diz-lhe a voz interior
Se o porteiro não me deixar entrar lembro-lhe que ontem estive cá com o senhor engenheiro, ele vai reconhecer-me porque trago a mesma camisola cinzenta enfarruscada e cheia de nódoas, as calças de ganga e os ténis que não largo há dois meses, quem não reconhece um tipo como eu?
Manuel abranda o passo, faz menção de desistir, raio que os parta se não me quiserem deixar entrar digo-lhe que venho devolver o que ganhei ontem, mas vou devolver em prestações e quero gozar um bocado enquanto entrego cada uma delas, até me esmifrarem o dinheiro todo.
Estás a ser inconsciente, Manuel, diz-lhe a voz , ele abana  a cabeça como que a repeli-la e avança em direcção ao casino.
O porteiro vê Manuel  aproximar-se, reconhece-o de imediato, diz para o colega de turno Olha lá vem o amigo do senhor engenheiro, deve pensar que vai ter a mesma sorte de ontem Vem devolver o dinheiro em prestações responde-lhe o colega Espero que sejam poucas, porque o homem cheira mal que tresanda replica o primeiro e riem os dois.
Manuel está a escassa meia centena de metros, já estugou o passo, parece-lhe ouvir uma voz dizer Paizinho, não!  Sente uma mão cair-lhe com vigor sobre  o ombro e volta-se
- Olá senhor engenheiro, como está?
- Que vais fazer Manuel? Tu julgas que no casino se ganha todos os dia? Não percebes que tiveste aquilo a que se chama sorte de principiante que é o Diabo a agarrar-nos? Tu não te metas nisso, Manuel. Queres divertir-te? Então hoje vamos divertir-nos para outro lado, o casino já tu conheces, vou proporcionar-te uma experiência nova.
- Que experiência senhor engenheiro?
- Deixa por minha conta. Ainda bem que tomaste banho. Estás todo cheiroso, foste comprar perfume para vir ao casino, foi? 
Manuel está outra vez envergonhado, a presença do engenheiro  deixou-o irritado porque está habituado a ser livre e a não dar satisfações a ninguém da sua vida, mas quem é que este gajo se julga para mandar em mim, repele vigorosamente o engenheiro com o braço, depois pede desculpa, mas já é tarde, o mal está feito.
O engenheiro percebe que Manuel já bebeu demais, opta por não ripostar. 
-Vamos jantar Manuel
- Mas hoje pago eu, senhor engenheiro
- É justo. Vamos lá.


( no texto original segue-se uma descrição da conversa que tiveram ao  jantar, mas já percebi que os leitores/leitoras estão impacientes para saber o final da história, por isso amputei essa parte que ficará reservada só para mim e limito-me a dizer-vos que jantaram no mesmo local da véspera, um restaurante com o sugestivo nome BlackJack, Manuel pediu bitoque com ovo e enfardou dois pães que foi molhando ora no ovo ora no molho. Tudo acompanhado por uma garrafa de vinho a que deve ser retirado o conteúdo de dois copos,  porção que o engenheiro reservou para acompanhar  o bacalhau à Lagareiro. Passemos então adiante…)


Quando acabaram de  jantar ainda era cedo, o engenheiro propôs uma caminhada para desmoer.Vão a falar da crise, dos desmiolados do governo, do desemprego, quando passa um Mercedes descapotável com duas loiras espampanantes. O engenheiro lança um prolongado assobio, aponta para os pneus num alerta para um furo imaginário, as mulheres percebem a brincadeira, a pendura solta uma gargalhada e  faz um sinal à condutora para parar. Parece que quer entrar no jogo, mas  vê Manuel e muda de ideias, a condutora acelera e desaparece na curva ao fundo da alameda.
- Grandes pedaços, Manel hein? Aquilo é que era uma noite…
- Estraguei tudo, não foi, senhor engenheiro?
O engenheiro faz-se desentendido
-  Que fazias antes de estar desempregado, Manel?
- Era contínuo do banco  ECPV – que as pessoas traduzem por Estamos Cagando Para Vocês-    na Paiva Couceiro. Fazia também trabalho de estafeta mas o senhor engenheiro sabe como é… com as novas tecnologias, ou lá como chamam àquilo, já ninguém precisa de estafetas e para que querem os bancos contínuos se os clientes agora resolvem tudo pela Internet? O gerente ainda me aguentou uns anitos, mas com a crise foi mesmo obrigado a despedir-me, coitado. Deram-me uma indemnização mexeruca,  gastou-se tudo num instante. Inscrevi-me no Centro de Emprego, fui às Novas Oportunidades, mas aquilo era muito difícil para mim e tive de desistir.  Durante dois anos corri tudo, até fui à Câmara oferecer-me para varrer as ruas e os jardins, há um ano desisti. Quem vai empregar um homem com 48 anos sem estudos?
O engenheiro parece alheado da conversa , vai a fazer contas de cabeça, responde Pois e pergunta  Gostavas de voltar a trabalhar Manel?
- Isso era o que eu mais queria, senhor engenheiro. Já viu a minha vida? Ontem aquele dinheirinho  no casino foi uma bênção de Deus.
- E hoje preparavas-te para retribuir a bênção de Deus entregando o dinheiro ao Diabo não era Manuel? Olha lá, tu sabes conduzir?
Manuel ficou acabrunhado com a advertência do engenheiro, responde entre dentes:
- Carta eu tenho, mas nunca tive carro, só ia guiando às vezes o de algum amigo que me deixava dar uma voltinha…
- Então vamos fazer assim. Vais ter umas lições de condução e quando estiveres apto contrato-te para meu motorista. 
Manuel arregala os olhos, dá dois passos em frente,  estica o pescoço para ver melhor a cara do engenheiro  e se certificar que está a falar a sério.
- O senhor engenheiro está a falar a sério?
- Achas que ia brincar com coisas tão sérias, Manel? Está combinado. Amanhã falo para a escola de condução de um amigo para combinar quando começas as aulas…
O engenheiro olha para o relógio. São horas de ir andando. Entram no carro e dirigem-se para o outro lado da cidade. 
É noite de  quinta-feira , ainda há pouco movimento nas ruas, mas as luzes  já piscam nos corpos desenhados  em posições eróticas.
-Onde vamos senhor engenheiro?
- Tu nunca foste às putas, pois não, Manel?
- Só quando era catraio, duas ou três vezes. Lá na terra , putas, só havia a Micas do Bobó e a filha. O meu pai levou-me lá quando eu fiz  18 anos, porque como eu não era namoradeiro queria saber se eu era mesmo homem e não tinha desvios. Foi a primeira vez que estive com uma mulher.
O engenheiro sorriu. Parou o carro mesmo em frente ao night club.
-Chegámos, Manel. Vou apresentar-te  a gaja que ando a comer e me está a deixar doido. Qualquer dia divorcio-me e caso com ela. Faz-me lembrar a mulher da minha vida de que já te falei. Lembras-te?
(…)
Conclui amanhã 

17 comentários:

  1. Eu não acredito!!|!

    Será possível???

    Beijo

    Laura

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    1. Não acredite não, Laura, porque muitas vezes as aparências enganam, mas amanhã terá a resposta
      Beijo

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  2. Carlos
    Vai ser muito complicado, vai!
    Excelente narração.
    Abraço
    Rodrigo

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    1. Não vai ser tão complicado assim, Rodrigo, vai ver
      Abraço

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  3. Não pode ser o que todos estamos a pensar. :)

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    1. Não sei, sinceramente, o que todos estão a pensar,mas provavelmente o epílogo não será o que a maioria pensa...

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  4. ...Manuel emudeceu ao ver a filha, ficando a saber que a mulher que o engenheiro amou era a sua mulher.

    Espero ansiosa pela "sentença" final!

    Beijos.

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  5. Juntando as pontas soltas...queres dizer que uma das estonteantes belezas loiras, é filha do Manuel, mas não é a Rebeca!:))
    Logo, andam as duas irmãs, perdidas na vida...
    Se acontecer aquilo que eu estou a pensar, nem o homem pobre chega a chauffeur nem esta história vai acabar bem.:)
    E nunca mais chega amanhã...
    Beijos

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    1. Raciocínio interessante, sem dúvida, Janita.
      Amanhã é já hoje, daqui a umas horitas
      Beijos

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  6. Vou aguardar para ver o que me espera.

    Beijinho e uma flor

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  7. Amanhã cá estarei então para o grande final!!

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  8. Um bocadinho atrasada, mas ainda a tempo de não perder o fio à meada. Vou ler a conclusão... :)

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  9. Mais um belíssimo capítulo. O Manuel quase que cai em tentação, mas o senhor engenheiro aparece para o salvar e o levar a conhecer a noite.

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