domingo, 27 de maio de 2012

A Visita



A noite caiu há muito, está escuro como breu,  uma chuva miudinha rega  a terra seca  pelo prolongado estio.  Isilda chega à janela, afasta o reposteiro, abre a vidraça para sentir o cheiro da terra húmida,  procura  luzes  acesas em alguma das casas próximas. De Monfortinho a Monsanto toda a gente  já se foi deitar. Como sempre ela é a última, esteve até àquela hora a fazer companhia às personagens da telenovela que todas as noites lhe entram em casa. Com elas bebe chá ou café, no verão um refresco, quase sempre limonada, porque limões é coisa que tem em casa com fartura.

Isilda tem a sensação que as visitas  hoje se foram embora mais cedo. Olha para o relógio a confirmar, está parado nas 11 e 23 desde a morte do tio Marcelino, porque ela nunca mais deu corda àquela geringonça. Dá uma volta pela casa a certificar-se se está tudo bem fechado, um relâmpago ilumina o corredor escuro  e logo de seguida um trovão  ribomba, fazendo estremecer as frágeis paredes da casa.
Isilda tem medo, aconchega melhor o xaile ao corpo e pede protecção a Santa Bárbara.


Santa Bárbara, Bendita
Que no céu está escrita
Com papel e água benta
Para espantar esta tormenta
Espalhe-a lá para bem longe
Onde não haja eira nem beira
Nem raminho de oliveira
Nem raminho de figueira
Nem mulheres com meninos
Nem ovelhas com borreguinhos
Nem vacas com bezerrinhos
Nem pedrinhas de sal
Nem nada que faça mal…
Amen!


Um segundo trovão leva-a de volta à sala. Fica à espera. Passam alguns minutos, mas nada.  Vai para o quarto.Antes de apagar a luz beija o retrato do marido que há 24 anos repousa na cabeceira até que alguém lhe dê outro destino, quando Isilda morrer e com ele se for encontrar. Pelo menos é assim que ela pensa... Não consegue dormir. Volta a acender a luz, pega no livro de orações e finalmente adormece.
(…)
Acorda com o sr. Abílio que lhe traz o pão à porta.Fala-lhe do quarto.
Já tiraste o leite à vaca, Abílio?
Já D. Isilda. Está tudo direitinho. Quer vir ver?
Não, já vou buscar.
 A Júlia vem trazer-lhe o almoço à hora do costume. Hoje tem um petisquinho especial!
Ela que não se atrase, ouviste?
Esteja descansada!
Isilda levanta-se.  Liga o rádio enquanto toma o pequeno almoço. Está um belo dia de sol. Talvez dê uma volta pelo jardim, mas não pode demorar muito, porque- lembra-se- é dia de o filho lhe telefonar da Suíça.
Vai arranjar-se. Já não olha para o espelho, porque não quer ver  as rugas que lhe sulcam o rosto , outrora fascínio de  bela moçoila requestada em todos os bailes de Idanha, pelos rapazes desde Monfortinho a Castelo Branco.  Sai para o jardim. Corre uma aragem húmida e opta por ficar no alpendre enquanto espera a chegada das visitas. A Estrela troca mugidos com o Loiro da D. Ester, namoro antigo, o ti Tono passa com o rebanho e saúda-a com um bom dia, ela volta para dentro, esqueceu-se de pôr as jóias, apressa-se porque as visitas estão a chegar.
Senta-se no sofá em frente ao televisor , a Praça da Alegria já regurgita de gente, Bom dia sr. Gabriel, Bom dia menina, Sónia. Então de que vamos falar hoje?

24 comentários:

  1. Respostas
    1. De uma variedade de solidão, Laura. Porque há a boa e a má. Da boa eu gosto e procuro-a com frequência.
      Beijo

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  2. Gostei muito, Carlos.
    Isto é o retrato fiel de muitas vidas solitárias.
    Essa intrusa, que entra nas nossas casas e nos tira o sossego com notícias revoltantes é, ainda, a única companhia de muitos idosos.
    Felizmente, a D. Isilda ainda permanece na sua casinha, junto das suas recordações. Pior estão aqueles a quem os filhos entregam ao (des)cuidado de estranhos, privando-os do aconchego de tudo o que lhes é querido.

    Beijinhos.

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    1. E conheço muitos casos desses que falas, Janita. Muitas dessas pessoas estão a morrer aos poucos, mas nem sempre a culpa pode ser assacada aos filhos...
      Beijinho

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  3. Olá,

    a vida no campo é mais simples mas mais dura. É muito solitária, também. Vive-se como se pode, um dia de cada vez.
    Mais um miniconto?

    Fico à espera.

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    1. Poderia ser, Natália,porque não faltam escapatórias para prolongar o tema. Mas, como disse, contos por aqui só muito esporadicamente. Talvez para o Natal possa ler alguns num suporte mais tradicional...

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  4. Oi Carlos
    Estou ficando fã incondicional dos seus contos e pelo que percebo também tem a veia poética aflorada e os poemas começam a surgir .
    Amém a Santa Bárbara!
    D.Isilda continua vaidosa e é querida na redondeza , talvez pela firmeza nas palavras e atitudes( ..."ela que nao se atrase,ouviste?")rs
    ...então, falemos de poesia, que tal?
    meu abraço Carlos e boa semana

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    1. Boa semana também para si, Lis ( a minha começou e vai continuar bastante atribulada, mas isso passa...)
      A oração não é da minha autoria, encontrei-a num livrinho da minha Mãe e resolvi repescá-la para aqui.
      Abraço

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  5. Olá Carlos

    Agradou-me , particularmente,este bucólico conto passado no nosso portugal profundo, onde a solidão é notória, embora nas grandes cidades seja pior, pois a entreajuda não existe.Quantas vezes nem a televisão?!
    A tua escrita, fluente, favorece a narrativa.
    Saliento o promenor de D.Isilda(vaidosa) não olhar para o espelho...(devia olhar). As rugas são lindas. São os percursos da nossa vida.

    Ahhhhhh...adoro trovoada!

    Beijos.

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    1. Vou trazer aqui outros contos passados nesse ambiente, porque ao longo dos dois últimos anos recolhi muito material, em trabalhos que tenho vindo a fazer sobre a velhice pelo país.
      Também gosto de trovoada sobre o mar. Um espectáculo deslumbrante!
      Beijos

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  6. Infelizmente, para muita gente são as únicas visitas que aparecem em casa...

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    1. É bem verdade, Teté. Isso explica que muitos caiam no conto do vigário. Precisam de conversar com alguém e quando lhes aparece um estranho com falinhas mansa, caem num instante...

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  7. Amigo Carlos
    Gosto da tua veia contista. Consegues prender o leitor, desarrincando aqui e acolá, eruditas buchas que nem Saramago ousaria e acima de tudo não é uma leitura "chata".
    Vou ficar pendurado a imaginar o que acontecerá à minha conterrânea Isilda, já que eu adoro trovões, não que os não tema.
    Grande abraço

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    1. Amigo KIm
      Como já disse à Natália, desta vez não haverá conto, embora não falte matéria para dar continuidade à crónica. Talvez num outro registo...
      Grande abraço

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  8. Haja Sol para esta gente, mesmo que em forma de TV e a TDT veio tirá-lo a tantos.

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    1. Olha a senhora do 31 pelo On the rocks! A que devo tal honra, Fugitiva?
      Bjitos

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  9. Carlosamigo

    O vinho do Porto éke quanto mais velho?... Foi tempo; hoje tu desbanca-o. Este testículo, com x, é um primor, porque é uma fita do que somos - e ao retardador. És mesmo bom; és mesmo bué da fixe. Quando for grande quero ser coma tu.

    Abç

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    1. HenriquAmigo

      Queres ser como eu quando fores grande? Que ideia é essa de quereres retroceder? Se desejares comparar-te a alguém escolhe alguém melhor que tu e não eu, meu caro, que ao pé de ti sou aprendiz de feiticeiro!
      Grande abraço

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  10. o desafio também é para mim. Em boa hora me lembrei dele, não teria encontrado este belo conto se não tivesse vindo vasculhar o on the rocks.
    Uma descrição extraordinário do dia-a-dia de milhares de lares portugueses. No campo ainda passam vizinhos que dão os bons dias, já na cidade...

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    1. Ainda bem que o seu desafio a conduziu até aqui e lhe deu oportunidade de ler esta estória.
      Em breve as crónicas vão voltar, mas anda a faltar-me tempo, porque estou envolvido noutro projecto que me ocupa bastante o tempo e os neurónios :-)
      Obrigado pelas suas palavras

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