sábado, 30 de junho de 2012

Porque hoje é sábado

"A nossa sociedade não está interessada em pessoas. Não está interessada em gente criativa e autónoma. O nosso sistema educativo deixou de estar interessado em qualidade, está interessado em standards"
(Rob Riemen)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A vida ao contrário






"Na minha próxima vida quero viver de trás para a frente. Começar morto, para despachar logo esse assunto. Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a aposentadoria e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.
Trabalhar por 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo.
E depois estar pronto para o secundário e para o básico antes de virar criança e só brincar sem responsabilidades. Aí  torno-me num bebé inocente, até nascer. Por fim passo nove meses flutuando num "spa" de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e espaço maior dia-a-dia. Por fim - "voilà!" - desapareço num orgasmo."
Não sei quem escreveu, mas é bonito, não é?

O Scrabble

Embora tenha sido inventado em 1938, o Scrabble só vem a tornar-se popular uma década mais tarde.  Não vos sei dizer quando apareceu a versão portuguesa, mas sei que jogar o Scrabble na versão inglesa era um excelente exercício para aprender a língua e passei muitas horas com um tabuleiro igual a este em frente a mim.
Hoje em dia existem versões on line que podem ser descarregadas gratuitamente. Tal como o jogo que ontem vos apresentei, o Scrabble é um exemplo de sucesso duradoiro.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Monopolios


Não deixa de ser curioso que o Monopólio tenha sido inventado em plena Grande Depressão (1934) por um desempregado. Nesse ano, já Hitler e Salazar tinham chegado ao poder, o fascismo alastrado na Europa e Portugal  já se orgulhava de ser um fiel seguidor da Alemanha.

Jogo intemporal, que atravessou gerações, foi-se adaptando à evolução dos tempos, apresentando versões ajustadas a cada época. Na versão inicial, lançada no mercado americano no ano em que Mao Tse Tung iniciava a "Grande Marcha", os jogadores compravam ruas, avenidas, cinemas e teatros.
Hoje, o Monopólio está mais virado para as novas tecnologias, mas admito que a versão inicial continue a ser a que reúne mais fervorosos adeptos, embora as casas e os terrenos já não sejam pagos em escudos, mas sim em euros. Sabe-se lá por quanto tempo!
Não me lembro de alguma vez ter ganho uma partida de Monopólio mas , pelas razões que aqui adianto, também não tive grandes oportunidades para o fazer.
E vocês, meus caros leitores, gostavam de jogar Monopólio?

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Apitó comboio!


O brinquedo mais emblemático dos anos 20 não é acessível a todas as bolsas.  Faz sonhar meninos e meninas e transformar-se-á , anos mais tarde, numa verdadeira paixão para muitos adultos. Invade as casas com luzes e sons que recriam as autênticas viagens de comboio, o transporte mais usado na época, atravessando paisagens de sonho. 
Em lares mais abastados, o comboio eléctrico ganha tamanhas proporções, que sai da sala de brinquedos e passa a ter direito a sala própria. 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Perdido no Labirinto dos Sonhos




Os dias plúmbeos em que o Céu, como que alijando as suas responsabilidades, deposita sobre as nuvens o peso de todas as agruras do mundo, obrigando-as a derramar sobre a Terra as lágrimas de desconforto provocadas por tantas injustiças, catástrofes humanas e naturais, deixam-me macambúzio.
Sempre que posso procuro o mar, na tentativa de aproveitar a circunstância da praia deserta para dialogar com ele. Invariavelmente pergunto-lhe:
-Ó Mar! Tu que estás constantemente em diálogo com o Céu, numa linha do horizonte que nós, humanos, não conseguimos alcançar, já alguma vez lhe perguntaste a razão de ter posto cá na Terra seres humanos tão ignóbeis e hipócritas, prenhes de maldade, que enchem a boca com conselhos que não cumprem? Porque falam os homens de igualdade, justiça ou paz, mas os seus actos são sempre contrários àquilo que apregoam?
O mar traz-me a resposta na espuma de uma onda que se espreguiça no areal. É uma resposta cifrada que nunca consigo traduzir. Volto um e outro dia até que, desalentado, vazio de esperança, decido rumar a Sul ao encontro do Céu azul e do calor das gentes da América Latina. Lá já não procuro o Mar. Refugio-me na calma dos parques naturais da Patagónia ainda por descobrir, onde a avidez do Homem ainda não matou o sonho.
Ontem, a minha agenda não me permitiu ir falar com o mar. Trabalho pela manhã e, à tarde, uma consulta. Como já conheço o médico, sei que a consulta marcada para as quatro da tarde não se realizará antes das sete. Decidi, por isso, comprar um livro para me entreter enquanto esperava. Entrementes, pensei que deveria pedir ao médico que descontasse na consulta o preço do livro, mas desisti porque seria falta de educação afrontar o senhor doutor na sua catedral onde exerce medicina privada, zombando dos seus pacientes, a quem sujeita à obrigatoriedade de expiarem os seus pecados na dura prova da paciência purificadora.
 Com um médico do SNS que se atrase meia hora na consulta, todos podem protestar, mas com um senhor doutor professor e o raio que o parta, que cobra 100 euros por cada consulta (sem direito a recibo), ninguém pode protestar, porque seria uma falta de educação que Sua Sumidade não toleraria.

Não sei se já vos disse como odeio consultórios médicos. A maioria deles não tem luz directa, são tão sombrios como a antecâmara da morte, com a diferença de existir sempre um televisor sem som,cuja utilidade nunca descortinei, salvo quando estão a transmitir um combate de boxe ou outra qualquer actividade desportiva que não precisa de legendas. Só que a maioria dos médicos não paga a Sport TV, por isso as imagens que saem do televisor de um consultório são tão inúteis e inexpressivas como os programas da SIC durante a tarde. Na verdade, aquilo não precisa de som. Adivinha-se que entre sorrisos e lágrimas, desfila pela pantalha a descrição do lado mais sombrio da vida dos portugueses. Há queixas e lamúrias, campanhas de solidariedade ou exaltação do voluntariado, acopladas a cenários de desgraça que numa sociedade que se pretende justa não deveriam existir. 
De qualquer modo, talvez seja preferível ver um daqueles programas, a ter de suportar o canal da Assembleia da República em dia de sessão plenária, como me aconteceu um dia em que uma forte dor de dentes me atirou para o consultório de um dentista.
A dor era tão forte que não conseguia concentrar-me na leitura de um livro e, folhear uma dessas revistas da imprensa cor de rosa que enxameiam qualquer consultório médico que se preze onde, com sorte, podemos encontrar uma edição com três meses de atraso, não é actividade que se recomende. Entretive-me, por isso, a tentar decifrar o que os deputados e o primeiro-ministro diziam. Em vão. O que não me causou qualquer embaraço, pois muitas vezes também não consigo perceber o que dizem, mesmo com o som ligado. A verdade, porém, é que naquele esforço consegui distrair-me e aliviar a dor. Quando me chamaram para a consulta já nem sabia ao certo identificar o dente que me doía e a custo cedi à tentação de dizer à zelosa e curvilínea funcionária que afinal já não precisava da consulta, porque a dor tinha passado. Limitei-me a sugerir à dentista que acabara de fazer uma descoberta sensacional: a AR TV é um excelente analgésico. Pelo menos para as dores de dentes.
Bem, mas voltemos ao consultório onde ontem passei a tarde. Já as sete da tarde se tinham esfumado há um bom pedaço, quando a empregada, mais carcomida do que a madeira da mesa onde repousavam as revistas, anunciou com voz de enfado ser a minha vez. 

Meia hora e 100 euros depois estava na rua.
A noite já caíra sobre a cidade, disfarçando o céu plúmbeo. Filas de carros conduziam de regresso a casa, em marcha lenta, milhares de almas no fim de mais um dia de trabalho. Muitos deles passaram o dia enjaulados, como eu, mas em escritórios assépticos, privados da luz do dia. Alguns regressam com a sensação de alívio de quem justificou o seu vencimento. Outros, ansiando pelo dia seguinte, porque quanto mais tarde saírem do escritório, menos tempo são obrigados a viver no ambiente familiar que já não suportam.
O senhor do Audi vai com o ar satisfeito de quem enganou alguém num negócio. A senhora do Fiat Uno leva, no banco traseiro, o fruto de uma noite de amor, preso a uma cadeirinha. O jovem do Opel Corsa vai a falar ao telemóvel . Pelo ar entusiasmado, deve estar a combinar uma patuscada com amigos. As jovens do Clio vão em conversa animada. Irão a contar as aventuras do fim de semana? No semáforo, pára ao  lado um Renault Laguna. Lá dentro, um casal na casa dos quarenta. Nos minutos em que estão parados não trocam uma palavra. Cada um vai mergulhado nos seus pensamentos. Que provavelmente nunca se cruzarão.
Eu vou num táxi. Disfarço a preocupação com as notícias do médico. Uma intervenção cirúrgica nunca se encara de ânimo leve. Pego no livro que não li. Releio o título e respiro fundo: “ A Sombra do que Fomos”. Decido escrever um post sobre o primeiro livro que li deste autor,  ( "O Velho que Lia Romances de Amor")quando chegar a casa. Gosto do velhos que lêem romances de amor. E gosto do Luís.

(Post publicado no Crónicas do Rochedo em Outubro de 2009. Felizmente, a intervenção cirúrgica acabou por não ser necessária)



Soldadinhos e fadas do lar



Após a primeira guerra mundial  os rapazes brincam com soldadinhos de chumbo.

Formam exércitos, ganham e perdem batalhas imaginárias.


 A coqueluche das raparigas é uma boneca de celulóide. Chama-se Kewpie e aparece nas embalagens de um sem número de produtos. Ainda não chora, nem diz papá e mamã e as roupas para a vestir são feitas em casa. Mas não nestas máquinas de costura...

Estas eram para as meninas brincar e começar a aprender a ser fadas do lar


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Utensílios de praia


Mudaram os materiais e o design e há uma maior variedade mas, entre os brinquedos de praia, não falta nunca a pá e o balde. porque é preciso fazer covas, túneis, construções e acarretar água do mar...

domingo, 24 de junho de 2012

Uma noite em Ljubliana



Estava uma noite escura como breu quando aterrei em Ljubliana. Não se ouvia o ribombar dos trovões, mas os sucessivos relâmpagos que rasgavam o céu testemunhavam a intempérie. 
Uma luz branca suja  iluminava a sala de desembarque, conferindo ao ambiente um ar de presídio. As pessoas alinhavam-se em duas longas filas, diante de homens fardados que escondiam a carranca por detrás de óculos escuros. Perguntei-me a razão de os guardas da alfândega usarem óculos escuros numa noite de tempestade mas os meus botões, únicos interlocutores possíveis naquele momento, não me deram resposta. Optei pela fila da direita. Estava  avisado do rigor do inquérito alfandegário e preparei-me para uma longa espera. Era quase meia-noite, o avião aterrara com duas horas de atraso, devido a uma paragem não prevista em Milão, forçada pela tempestade. Fiz figas para que a pessoa que me devia esperar do outro lado da fronteira não  tivesse debandado. Sabia o nome do hotel, mas não tinha moeda local para pagar o transporte e a agência do banco local já encerrara. 
A fila foi avançando lentamente e o mau humor dos guardas alfandegários parecia aumentar à medida que ia engrossando. Passara quase uma hora quando enfrentei o guarda. Apresentei-lhe o meu passaporte diplomático. Ele tirou os óculos escuros, fixou demoradamente o olhar em mim e finalmente perguntou:
-Quanto tempo vai ficar na Jugoslávia?
- Para já, três meses…
O corpo de quase dois metros de altura virou-me as costas mostrando o coldre que abrigava uma arma. Parecia procurar qualquer coisa que não encontrava. Fez-me um sinal para esperar e afastou-se em passo lento. Levou com ele o meu passaporte, que segurava na mão direita e fazia bater na esquerda em compassos impacientes. Vi-o desaparecer por detrás de uma parede cujo único ornamento era uma fotografia de Tito.  Passados uns minutos, voltou acompanhado de uma mulher  igualmente fardada em tons de castanho esmaecido debroados  a vermelho vivo. A farda escondia-lhe as formas, mas não o cabelo loiro curto e dois olhos verdes emoldurando um rosto agreste e másculo.  Olhou-me sem mexer um músculo da face. Depois folheou o passaporte e perguntou:

- Vai ficar em Ljubliana?
- Apenas esta noite. Amanhã sigo para Split . É lá que vou ficar.
-Onde vai ficar esta noite?
- No hotel …
- Como vai para lá?
- Tenho alguém à minha espera lá fora.
- Nome?
- Jorge Martinez. É funcionário da OCDE.
- Sabe onde é que ele está à sua espera?
- Creio que deva estar na sala de espera, mas é a primeira vez que cá venho, não conheço o aeroporto. Provavelmente terá um cartaz com o meu nome.
Mandou-me sair da fila e aguardar.
Embora um silêncio respeitoso continuasse a pesar no ambiente da sala, senti que as pessoas respiravam de alívio atrás de mim. A fila  ia voltar a mover-se.
O guarda alfandegário voltou à sua rotina.
Já só havia três ou quatro pessoas na fila, quando a mulher regressou. Vinha com cara de poucos amigos.
- Não há ninguém com esse nome à sua espera. 
- Mas deverá estar alguém. Não viu nenhum cartaz com o meu nome?
- Não. Acompanhe-me.
Deixei-me conduzir. Desaguei numa sala tão inóspita como a anterior. Apenas os tetos eram mais altos e no topo havia um varandim onde meia dúzia de pessoas deviam estar a aguardar  familiares.  Olhei em volta, à procura de um cartaz com o meu nome. Em vão. 
- Se não estiver ninguém à sua espera, nós levamo-lo ao hotel. Amanhã de manhã  resolveremos o assunto. Sabe como vai para Split?
- Não. Alguém irá buscar-me ao hotel.
Finalmente o rosto da mulher abriu-se num sorriso.
- A mesma pessoa que devia estar aqui à sua espera? 
- Tenho um número de telefone. Amanhã de manhã entro em contacto, no caso de não aparecer ninguém.
Um homem apareceu junto de nós, vindo do nada.
És o Carlos Oliveira? Desculpa, mas atrasei-me com o temporal. Devia ter saído de Split mais cedo, porque a estrada está um caos.
 Acompanhou a frase, em espanhol, com um gesto indicador de destruição.
A zelosa funcionária perguntou:
- É esta a pessoa que devia estar à sua espera? 
Virando-se para o Jorge pediu-lhe os documentos.

……..
Saímos do aeroporto em direcção ao hotel. A cidade estava deserta.
No dia seguinte, um sol anémico espreitava entre nuvens ameaçadoras. Antes de partirmos para Split, o Jorge ofereceu-me uma visita rápida pela cidade. Subimos ao castelo, descemos para o centro histórico, atravessámos o rio Ljublinica, percorremos algumas ruas ladeadas de edifícios belíssimos, respirando história. Tomámos um café num  local que me pareceu inóspito, na rua Mestni. Passavam pela rua algumas pessoas, cujo caminhar me fazia lembrar a marcha dos militares. Mulheres jovens, altas e bonitas vestiam de forma simples, embora mais descontraída do que noutros países de leste. A breve visita deixou-me uma sensação de incomodidade. Estava lá tudo que qualquer cidade deve ter, mas faltava-lhe um sopro de vida. Quiçá um beijo de um príncipe encantado que a despertasse do torpor em que parecia mergulhada.
Esta foi a Ljubliana que eu vi em 1985. Cerca de 20 anos depois, quando lá voltei, a cidade parecia ter ressuscitado de um período de hibernação. Resta saber se foi graças ao beijo de um príncipe, ou de uma malévola figura disfarçada de fada madrinha, que a cidade ficou como a descrevo aqui

sexta-feira, 22 de junho de 2012

P´rá menina e p´ró menino

 Em 1901, um  urso era ídolo de uma banda desenhada do Washington Post. O sucesso foi tal, que no ano seguinte  Teddy  se transformou em boneco de peluche com pernas e braços articulados.Foi uma revelação e uma revolução nas brincadeiras das meninas. E começaram a surgir, então, os hospitais das  bonecas, para tratar de ursinhos decepados em brigas e brincadeiras.
Para os meninos tinha aparecido no ano anterior, em Inglaterra, o Meccano. Um jogo de construções em peças de metal, que fazia as delícias dos engenheiros de palmo e meio e só seria destronado, muitos anos mais tarde, pelo Lego.
Se faço referência a estes dois brinquedos é porque alguns consideram que a sua aparição marcou o brinquedo sexista. Como se na Antiga Grécia, os meninos não brincassem com carrinhos e espadas e as meninas com bonecas! 
Enfim, há sempre quem goste de pensar que o mundo começou no século XX!


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Espelho meu


 O dia convidava a um almoço na esplanada. Como a hora já ia avançada, escolhi um espaço recatado, em Telheiras, que serve almoços até tarde.
Poucos minutos depois de me ter sentado chegou uma senhora a meio caminho, entre os 40 e os 50, corpo escorreito a pedir “mão de mexer”, como diria o Rui Veloso. Vinha com o filho, aparentando uns 18 anos e um corpo amolecido por uma dieta alimentar à base da batata frita, hamburguers e toda a variedade de “fast food”. Pediram a lista e ele, claro, escolheu um hamburguer no pão com batatas fritas. Para acompanhar, a óbvia Coca Cola.

“ Não peças isso, Pedro, olha o que a médica te disse! Tens de comer saladas, coisas saudáveis, em vez dessas porcarias. Ou queres ficar como o monstro do teu pai?”.

“ E tu o que vais comer?”

“ Vou pedir uma salada”.

Mirou e remirou a lista e por fim fez o pedido.“ Traga-me uma salada de frutas. E para beber uma caipirinha”.

Continuei a ler e a dar umas garfadas na minha salada de frango crocante. Um arroto fez-me levantar os olhos das páginas da “Visão”. O jovem, que entretanto já se esparramara na cadeira, deslizando rumo à calçada portuguesa, libertava os gases da Coca –Cola. A mãe riu-se. Eu distraí-me um pouco da leitura. Ele pegava nas batatas com a mão e mergulhava-as ora no ketch-up, ora na mayonnaise. Metia metade à boca e repetia a operação com a metade sobrante. Sorvia a Coca Cola por uma palhinha, abrilhantando o acto com efeitos sonoros.

Acelerei a refeição. A mãe acelerou na caipirinha, enquanto comentava:

“ Na happy hour as caipirinhas são melhor servidas”.

Pediu outra e um café. O jovem, entre dois arrotos, pediu reforço de Coca-cola. Pedi a minha bica e voltei a mergulhar na leitura.

Ela pediu a conta, o jovem pediu à mãe:

“ Deixa-me pagar hoje o almoço!”.

“ Estás-me a pedir desculpa por me teres batido ontem? ”- perguntou num sussurro, mas mesmo assim audível.

Ele levantou o corpo pesado, enlaçou-a num abraço forte e cobriu-a de beijos. Pagou a conta.

Ela disse:“ Vai andando, fico aqui a corrigir uns testes daquela turma de monstrinhos”.

O meu cavalo de pau



Nos primeiros 30 anos do século XX, antes da era do plástico, os brinquedos eram de metal ou de madeira



Alguns eram movidos a corda
Outros manualmente

Outros ainda, à força dos sonhos de criança

trotando mundos em  grandes cavalgadas.

No entanto, já em 1901, dois brinquedos se tornaram ícones das brincadeiras de muitos meninos e meninas. sobre eles escreverei amanhã.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A sala de brinquedos



Durante o século XX jogámos ao pião, brincámos com marafonas e jogámos futebol com bolas de trapos. Bamboleámo-nos com o Hulla- Hoop, fizemos acrobacias com o disco voador e habilidades com o iô-iô.
Enlouquecemos com o cubo de Rubik, perdemos noites a tentar enriquecer com o Monopólio, a construir palavras com o Scrabble ou a testar a cultura geral com o Trivial Pursuit.
As raparigas fizeram da Barbie a menina dos olhos, os rapazes montaram no cavalo dos sonhos com o Cavaleiro Andante ou o Mosquito e todos mostraram as suas habilidades no Lego e no Meccano, se emocionaram a ler o Tin-Tin, o Pato Donald ou o Rato Mickey. Fizeram músculo a ver desenhos animados do Poppeye, brincaram às guerras com soldadinhos de chumbo e recriaram o Oeste empunhando pistolas de fulminantes.
Apaixonaram-se pela bicicleta e ansiaram pela idade em que poderiam cavalgar uma Vespa. Depois… bem… depois veio o Dragon Ball, a paixão pelo tamagotchi, a moda do walkman e grudaram-se ao computador viciados em jogos electrónicos e na Play Station.
Tempos houve em que havia salas de brinquedos para meninos e meninas. Hoje as salas já são mistas, mas nelas não há lugar para o pião, o berlinde, ou o arco.
Uniformizaram-se os nomes das bonecas , acabando com os baptizados - momentos raros de brincadeiras entre meninos e meninas.
Já não há carrinhos de plástico e acabaram-se as corridas de “sameiras” em pistas improvisadas. Já não se coleccionam cromos em busca do “carimbado”, despareceu até o carrinho de sabão e o triciclo foi enjeitado. Já não se brinca ao “tira , rapa e põe”, porque na sala de brinquedos ( quase) só resta o computador.
Durante o Verão, pela manhã, o Crónicas on the Rocks vai passar muito tempo na sala dos brinquedos, recordando as brincadeiras que nos entretinham, mas também as que divertiam e educavam os nosso pais e avós. Espero que desfrutem com estas recordações mas, para começar, desafio-vos a dizerem-me qual era o vosso brinquedo preferido.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Recordações


No baú das memórias - que não paga excesso de peso- levo este pôr do sol  captado há duas semanas. Está-se mesmo a ver onde, não está?
Mas, como já avisei na sede, não vou deixar o On the Rocks ao abandono. Bem pelo contrário! (Já viram a imagem  na coluna da direita?)
Durante o Verão, haverá novidades aqui e no CR. Se ainda não as conhecem, vão até lá!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Sábado à tarde






Tarde de sábado, céu de um azul límpido sem mácula, temperatura amena, a pedir um agasalho.
Ali estava eu, deitado na espreguiçadeira da piscina do hotel, pedindo ao mar a devolução das palavras que se esgueiraram entre ondas de revolta, batendo na areia com desânimo.
Um livro à espera de ser lido, enquanto eu voava por Ushuaia em Janeiro, cigarrilha bailando-me entre os dedos, a compasso de pensamentos de aconchego.
No silêncio da tarde quieta, um sorriso assoma de um bikini. Um cigarro que se acende. Dois copos que se tocam numa saudação vaga: SKOL!
Quando olho aquele corpo nórdico quase nu, anunciando um Verão que ainda vem longe, desloco-me mais para norte e deixo-me ancorar nas Caraíbas.
A tarde escorre entre palavras, num diálogo em crescendo, percorrendo o Globo na narrativa de experiências vividas, apenas com o farol por testemunha.
Quando o sol começa a cair no horizonte, um arrepio percorre o corpo do bikini. Um braço estende-se para reconfortar o corpo frio. Percorre a pele sedosa, onde é perceptível o vigor próprio dos 30 anos. Um roupão de feltro vem aconchegar o corpo frio, provocando-lhe um estremecimento de conforto. Lábios que se tocam num beijo fugaz.
O sol desaparece no horizonte. Ela estende a mão, sem dizer uma palavra, deixando desprender um calor apelativo. Deixam a piscina enlaçados pela cintura. Lá dentro, os corpos vão envolver-se numa troca de calor.
Porque era sábado!

sábado, 16 de junho de 2012

Às vezes chegam cartas




Durante as actividades num campo de férias, o monitor perguntou:
O que preferiam receber de um(a) amigo(a) distante que vos desperta especial atenção ? Um convite para um encontro por e-mail, ou por SMS?
As opiniões dividiram-se. A maioria manifestou preferência pelo SMS. Uma miúda de 16 anos respondeu:
"Preferia receber por carta"
Todos viraram os olhos na sua direcção. Um, mais atrevidote, avançou:
"Deves ser muito romântica... já ninguém escreve cartas."
O monitor perguntou:
"Por que razão preferias a carta?"
A miúda, envergonhada, mas convicta, respondeu:
" Porque uma carta dá mais trabalho a escrever e ainda é preciso metê-la no correio. E depois, se for verdadeiramente meu amigo, ainda me vai mandar qualquer coisa a acompanhar. Uma flor seca, uma ilustração, ou uma fotografia. E ainda há mais uma coisa. A carta pode ser perfumada e quando toco no papel, sei que ele também teve que o tocar para escrever a carta."
Os jovens entreolharam-se. Uns sorriram de escárnio.Outros reflectiram sobre as palavras da colega.
À noite, o monitor encontrou alguns rapazes a escrever cartas.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Pensamento do dia

A escrita é como a culinária. O bom cozinheiro não é  o que reproduz fielmente a receita, mas sim o que consegue recriá-la de modo conceber  um prato ainda mais saboroso. Por isso,  quando falta a criatividade e a inspiração, o melhor é remetermo-nos ao silêncio.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Com um olho em Copenhague e outro no Rio



Ontem, enquanto assistia ao Portugal-Dinamarca, recordei as minhas últimas visitas a Copenhague. Foram ambas em 2009. Primeiro no Verão, em turismo, depois em pleno mês de Dezembro, para a Cimeira sobre as Alterações Climáticas.
Copenhague é considerada a cidade mais verde da Europa. Nada de espantar.
Seja Verão ou Inverno, o transporte preferido pelos habitantes de Copenhaga é a bicicleta. Mas não se pense que Copenhaga é apenas  líder a nível de baixas emissões de CO2, graças aos transportes. É também a cidade onde a energia é consumida de forma mais inteligente e racional, os edifícios são estudados de forma a poupar energia, os transportes são eficientes, se desperdiça menos água, se faz o melhor tratamento de resíduos e, por consequência, se respira melhor, porque é melhor a qualidade do ar.Logo a seguir, vêm Estocolmo e Oslo, ocupando Lisboa o 18º lugar, num conjunto de 30 cidades europeias estudadas pela “Economist”.
Convém, no entanto, que falemos claro. Se as três capitais nórdicas ocupam os três primeiros lugares no índice de qualidade de vida, medido em termos ambientais, isso não significa que sejam as cidades com maior qualidade de vida geral. Para um português, amante dos climas quentes, do Sol e dos dias longos, viver numa destas cidades durante o Inverno é deprimente. Anoitece tão cedo, que temos a sensação que o Sol hibernou ou se transferiu para outra galáxia. Nem a animação  nocturna disfarça a tristeza dos dias cinzentos e sem luz
.
O anoitecer temperano convida a emborcar uns copos para afogar a nostalgia porque, mesmo quando não chove, o sol anémico é de tal forma triste e fugaz, que deixa toda a gente com aquela sensação de apenas ter provado uma colher de uma esplendorosa mousse de chocolate.
Viver nos países nórdicos durante o Inverno (digo eu com o saber de experiência feito) é como ir à Bica do Sapato comer um “menu degustação”. Ficamos com a sensação de que tudo aquilo que o Chefe confecciona é muito bom, mas carece da confirmação de um repasto a preceito. 
Na Friedrichstrasse os bares estão abertos até horas tardias, animados com música ao vivo, cerveja a escorrer pelas goelas, as prostitutas oferecem os seus serviços gratuitamente, em protesto contra as decisões do governo local que pretende cobrar-lhes impostos . Em Christiania os “hippies” continuam com os seus slogans sessentistas e o seu modo de vida espartano, mas contraditório. 
Seja Verão ou Inverno, nas manhãs de domingo, em Friedrichstrasse, russos e ucranianos continuam a enganar os turistas  em jogos de “vermelhinha” viciados com notas falsas e os arranha céus de Ströget reflectem as suas luzes na água dos canais.
Naquele Dezembro de 2009, apesar dos 6ºC diurnos, que desciam próximo do Zero quando a noite caía, dispensando uma visita ao sempre muito frequentado Ice Bar, o ambiente em Nyhavn (o velho porto onde os bordéis e tabernas foram substituídos por restaurantes e bares com música ao vivo) é caloroso. Linguarejares de gentes de todo o mundo alimentam uma confraternização calorosa, ao longo do canal, entre pessoas que sempre se reencontram nestes eventos .


Havia animação, avisos de que a qualidade de vida de que desfrutamos pode estar em risco se nada fizermos para refrear a degradação ambiental desta casa que se chama Terra e pedimos emprestada aos nosso filhos para habitar, mas que estamos a degradar com a inconsciência de inquilinos desmazelados.
Havia euforia naquelas noites gélidas e uma ponte ligando Copenhaga a Malmö que se distendia num frenesim consumista.
Havia conversas entusiasmadas sobre questões ambientais, muita cerveja a correr pelas goelas, críticas à globalização, muito whisky, muitos estrangeiros a comprar “souvenirs” e prendas de Natal.
 Havia recriminações aos poderes instituídos por se preocuparem mais com o bem estar económico do que com a preservação do ambiente,  muitos jornalistas a fazer a cobertura da Cimeira, entusiasmados pelo calor que exala dos corpos das ninfas loiras de linguarejar rude,  e  a reportar notícias e estudos sobre a inevitabilidade de morrermos esturricados em CO2 e gases com efeito de estufa. Logo que se desconectavam do canal televisivo que os enviou a Copenhaga, escoavam para os pulmões enegrecidos bafuradas de cigarros provenientes da terra do Tio Sam, ou de cigarrilhas made in Havana, enquanto faziam tilintar o seu copo, num tchim-tchim dengoso, celebrando a companhia da musa inspiradora, ao lado de quem sonham acordar na manhã seguinte.
Foi neste cenário “faz de conta”, de noites natalícias com Papais Noel e Meninos Jesus pigarreantes e Mamães Natal generosamente expostas aos olhares masculinos, que decorreu a Cimeira da ONU sobre alterações climáticas em 2009.
Ontem, no Rio de Janeiro, começou a Cimeira Rio+ 20. No Inverno do hemisfério sul estão 27 graus! Bem, mas sobre o Inverno carioca escreverei na próxima semana. 



quarta-feira, 13 de junho de 2012

Santos Populares: a cada um seu paladar



Nunca fui grande fã das noites de Santo António. Quando cheguei a Lisboa, com apenas 17 anos, a primeira noite de Santo António foi uma grande desilusão.Durante muitos anos carreguei com o estigma de ser vítima de um bairrismo que não me permitia assumir o Santo António. O tempo demonstrou quão errado era o juízo dos que pensavam assim.
Levei muitos amigos lisboetas ao S. João do Porto. Num ano - já longínquo - aluguei um autocarro e levei 40 amigos lisboetas para viverem, in loco, uma noite de S. João. Começámos com o alho porro e o irritante martelinho nas ruas da cidade e terminámos, madrugada alta, com uma cabritada e caldo verde no jardim da minha casa.
Obviamente que não faltaram os típicos balões sãojoaninos- que os deixou a olhar para o ar como pategos- e o “cachaporrão” que lhes conferiu o direito a uma valente ressaca. No dia seguinte ninguém sentiu a falta das sardinhas nem das marchas populares, mas alguns perceberam, depois de uma volta pela cidade às primeiras alvoradas, a razão de o mês de Março ter sido, durante muitos anos, o mês de maior natalidade no distrito do Porto.
Os tempos mudaram e o S. João perdeu o seu encanto, mas tenho amigos lisboetas que ainda hoje recordam aquela noite de S. João e alguns, sempre que o calendário o permite, rumam ao Porto para recordar.
Tenho algumas boas recordações das noites de S. João, mas de Stº António, apenas uma.Ano passado ainda fui dar uma volta, mas este ano fiquei em casa a visitar-vos e depois a trabalhar até ao raiar do Sol.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Rapidinhas



Estive nas termas, em gozo de fim de semana prolongado
Nos tempos modernos instituiu-se este conceito como sinónimo de descanso. Valha a verdade que gozar um desses fins de semana é como dar uma rapidinha: sabe bem, alivia as tensões, mas quando acaba ficamos como a madame do anúncio da Ferrero Rocher :“Jerónimo, apetece-me algo…” 
Esse algo, evidentemente, significa férias... Que ainda estão distantes, infelizmente! 

domingo, 10 de junho de 2012

Chá Canasta



Amélia, Benvinda, Irene e Estela reuniam-se três tardes por semana no Ateneu Comercial do Porto para um chá canasta. Pontualmente, às três e meia, o sr. Adelino, motorista do sr. Bernardo, marido de D. Benvinda, deixava as quatro senhoras à porta do vetusto edifício. Terminadas as mesuras, despedia-se com um “até amanhã minhas senhoras, tenham uma boa tarde”. 
As senhoras subiam as escadas entre saudações de boas vindas, a que respondiam com cerimoniosos inclinares de cabeça. Só o já trôpego sr Teixeira, ex-libris da casa, era alvo de saudação especial e de uma troca de palavras que passava sempre por saber como estavam os filhos e a mulher. ( Nunca percebi porquê, naquele tempo, as mães dos filhos de homens como o sr. Teixeira eram as suas mulheres , mas estas senhoras eram sempre as esposas dos respectivos maridos. Adiante…) 
Terminada a breve conversa eram conduzidas à mesa do costume, já preparada para o início do jogo. Quatro baralhos de cartas, um bloco de notas imaculado e uma caneta esperavam a hora de serem manuseados por aquelas mãos delicadas que nunca na vida devem ter acariciado o sabão macaco, no medo de estragar o trabalho da manicura do cabeleireiro Soares. 
 Perto da mesa de jogo perfilava-se um carrinho de chá com chávenas de porcelana  e trem em prata.   “Naperons” bordados, esperando a hora de cobrir as torradas, os croissants, o bolo de fatia e uma ou outra iguaria de ocasião, eram  alvo de apreciação em unânimes  elogios  ao trabalho de Emilinha, a bordadeira.
 Por vezes, um olhar mais intuitivo, descobria uma nódoa  ténue, ou um fio prestes a desmembrar-se do laborioso bordado, ameaçando danificá-lo irremediavelmente. Nesses momentos,era pedida a intervenção  do sr Teixeira que acorria ofegante na sua decrepitude e, perante o espectáculo que lhe era mostrado por dedos indicadores apontando o crime, chamava um grumete que de imediato se encarregava da substituição, perante o olhar atento das senhoras. 
Só quando ficavam sozinhas na sala iniciavam o jogo, de forma concentrada e quase profissional. Só quando terminava uma jogada, ou uma das jogadoras apanhava um saboroso “monte”, havia lugar a conversas. Quase sempre ligadas a questões de criadagem, troca de receitas, apreciação do lanche onde havia sempre alguma coisa que não estava bem. O chá estava demasiado quente, ou frio, as torradas tinham muito ou pouca manteiga, a massa dos croissants estava pouco estaladiça, o bolo de fatia tinha cozido demasiado, ou ficado quase cru. Preocupação maior eram os estudos das crianças e a crescente incompetência das criadas, cada vez mais careiras e negligentes. Como as revistas cor de rosa ainda não tinham surgido no mercado, cada uma contava as suas fofocas privadas, ouvidas normalmente na véspera pela boca do marido ou inteceptada numa conversa entre criadas.
O jogo terminava, imperetrivelmente, quando chegavam os maridos que as levavam de regresso a casa.

sábado, 9 de junho de 2012

Dieta alimentar

 Como não sou igual ao adepto que ontem aqui vos apresentei, estou a preparar-me para o jogo seguindo uma dieta alimentar rigorosa.
Depois de um prato de queijos devidamente acompanhado por um tinto da região,tomei um café acompanhado  destes bolinhos borrachões.
Ai, ai! A vida nas termas é tão cansativa! Estou cansado de dar ao dente...

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Senhoras e senhores, apresento-vos o adepto



Um dia alguém perguntou à escritora Dorothee Sölle como explicaria a uma criança o que é a felicidade e ela respondeu:
“Não explicava. Dava-lhe uma bola de futebol”.
No dia em que começa o Europeu 2012, a pergunta pode ser formulada de outra maneira. Como fazer feliz o povo de um país em crise?
A resposta é óbvia: “Oferecendo-lhes um  Mundial de Futebol”. Mas como o Torneio só se realiza de 4 em 4 anos, a Europa inventou um torneio caseiro, ligeiramente mais curto, para intercalar. 
Nos próximos dias, milhões de pessoas  vão passar, diariamente, horas diante da pantalha vendo os jogos da selecção do seu país e os dos adversários, fascinados com os seus ídolos, correndo atrás de uma bola que gira sobre um tapete verde.
Quem não gosta de futebol não percebe o fascínio de um jogo em que vinte jogadores correm atrás de uma bola, para a introduzir entre três paus colocados dentro de um rectângulo branco, tentando iludir a vigilância de outros dois que defendem aquele espaço como guardiões do Templo. Por isso, será tentado a parafrasear Juca Chaves e perguntar "por que razão não oferecem uma bola a cada um, para acabar com aquele espectáculo tão sem graça?"
Se não é amante de futebol, nunca faça essa pergunta a um fanático da bola. O fanático faz parte da essência do futebol. Não só apoia a selecção do seu país, como não perde nenhum dos jogos que envolva selecções de outros países. Não se pense, porém, que a actividade do fanático se resume a ver os três ou quatro jogos que a televisão lhe oferece diariamente – o que equivale a oito horas de trabalho- em tempos de Mundial. O dia de um fanático, é muito mais do que isso, apesar de durante o Europeu só ter direito a dois jogos diários. Digamos, pois, que o Europeu de Futebol é um Mundial em part-time.



O Aquecimento
O verdadeiro fanático iniciou o período de aquecimento quando as televisões começaram a fazer programas especiais dedicados ao evento e deu dinheiro ao filho para comprar a primeira carteira de cromos para a caderneta, mas será nos próximos 21 dias que estará mais atarefado. 
O dia começa cedo, com a leitura dos jornais desportivos que relatam as ocorrências dos jogos da véspera- que já viu, mas quer confirmar se não lhe escapou nada. É que às vezes, um lance que viu e reviu mais de 20 vezes e confirmou com os seus próprios olhos que não era falta, pode ser analisado de uma forma diferente por um jornalista especializado na matéria.
Se o fanático pertencer ao sub-grupo dos fanáticos gregários, esta informação pode ser importantíssima, porque uma vez na posse dela estará habilitado a discutir com o grupo uma nova visão do lance. Além do mais, o fanático gosta de saber as opiniões dos comentadores sobre as exibições dos jogadores de cada equipa e ler as declarações dos que não foram ao “flash interview” depois do jogo. E há ainda aqueles pormenores de bastidores relatados nos jornais, que só leitores apaixonados pelo futebol estão habilitados a descodificar.
Como já perceberam, é de extraordinária importância para o fanático do sub-grupo gregário, recolher uma vasta quantidade de informação antes de reunir com os outros elementos do grupo. A hora do encontro e a ordem de trabalho são variáveis. Depende do interesse dos jogos do dia. No entanto, haverá sempre um ponto prévio para confrontar os prognósticos dos jogos da véspera e fazer as apostas para os jogos do dia. Só depois deste período é que se entra na Ordem do Dia.

Primeira Parte
Nos dias em que a selecção do seu país entra em campo a reunião começará, pelo menos, duas horas antes do jogo e haverá dose reforçada de “bejecas” acompanhadas por camarão de Espinho e uns salgadinhos para aconchegar o estômago ou ajudar à digestão, consoante a hora do jogo. O importante, é que no momento em que o árbitro apite para o início da “contenda”, o fanático já esteja “quentinho”.
Após os primeiros minutos , vistos em religioso silêncio, com os olhos fixos no ecrã,um dos elementos do grupo protesta contra uma falta mal assinalada pelo árbitro a favor da selecção adversária. A partir deste momento vale tudo, dependendo das ocorrências, da evolução do jogo e do resultado, o tom do discurso entre os presentes. Quando a bola faz balançar as redes, as reacções variam de acordo com o “véu da noiva”que foi violado. Se foi o da equipa adversária, todos se erguem em festejos, trocam beijos e abraços e alguns mais facilmente emocionáveis deixam escapar uma lágrima furtiva. Se foi o da “sua” selecção, rostos de desânimo misturar-se-ão com impropérios ao guarda-redes, que passará de imediato a ser conhecido como “nabo” ou “filho da p…”.
Terminado o jogo, o treinador também não escapará às invectivas dos fanáticos que de imediato exigem a sua demissão, havendo um mais afoito que depois de lhe chamar todos os nomes que a sua enciclopédica memória insultuosa armazenou, sugere que se faça uma petição nesse sentido, a apresentar ao presidente da Federação e ao membro do governo com a pasta do Desporto.
Um fanático mais ponderado sugere que se espere pelo jogo seguinte e pede mais uma “rodada de bejecas” para aliviar a tensão e a dor. Incapazes de suportar o desgosto, alguns dos elementos dispersam, prometendo voltar no dia seguinte. Cada um vai para sua casa descarregar a ira na mulher que, ao vê-lo entrar, olha para o relógio e nem pergunta o resultado, receosa de uma reacção intempestiva que a obrigue a inventar uma história para contar às colegas do serviço no dia seguinte, quando uma delas perguntar “onde fizeste essa nódoa negra?”.
Se a selecção do fanático ganha, o grupo prolonga as comemorações noite dentro, acompanhadas de muitos vivas e doses generosa de álcool. Quando chega a casa, já a mulher está a dormir e no dia seguinte ele nem dará pela sua saída, pois só se levantará uns minutos antes de nova reunião , onde todos irão discutir as incidências do jogo e preparar mais uma jornada de trabalho diante da pantalha.

Segunda Parte
Nem todo o fanático é gregário. Há também o fanático solitário, que prefere ver o jogo em casa. Sozinho, ou na companhia do filho mais novo. Normalmente só vê os jogos da sua selecção e um ou outro que considera mais importante. No entanto, o fanático solitário não dispensa o cachecol, a bejeca e comidinha a tempo e horas, se o jogo cai em cima da hora do jantar.
Alguns equipam-se a preceito, mas os que não o fazem, incitam o filho a fazê-lo e a empunhar uma bandeira. O fanático solitário também não dispensa alguns rituais. Uma hora antes de começar o jogo já está sentado no sofá a ver “o lançamento do jogo” com uma cerveja na mão e uns aperitivos na mesa de apoio comprada no IKEA para estas ocasiões.
Consciente das suas funções de educador, pede ao filho a caderneta de cromos que começou a coleccionar no mês anterior e indaga se já sabe o nome dos 640 jogadores. Ao terceiro falhanço, diz “assim não vais lá Joãozinho, tens de estudar mais”, devolve-lhe a caderneta de cromos, bebe mais uma golada de cerveja, engole uns amendoins que estavam em promoção no Continente e olhando a garrafa vazia manda o filho ir buscar outra ao frigorífico.
As reacções durante o jogo são em tudo idênticas às do fanático gregário, mas menos estridentes. A gestualidade pode ser mais contida ( como se vê na foto acima), mas quando se trata de pedir reforço de “bejeca” e aperitivos, em vez de estalar os dedos e puxar pela carteira, o fanático solitário grita "Maria, traz mais uma bejeca!". Quando ela chega à sala, acedendo ao pedido , acrescenta "podias ter trazido mais uns aperitivos que estes estão a acabar”.
O solitário, mais concentrado que o gregário, faz jogo de cintura e de pés durante a partida, no esforço inglório de encaminhar a bola para o sítio que mais lhe interessa, ou desviá-la dos adversários, o que proporciona belíssimos espectáculos a observadores posicionados fora do seu ângulo de visão.
O fanático solitário também é menos violento que o seu congénere. Quer dizer… não bate na mulher nem faz distúrbios em casa, mas quando ela passa durante um milésimo de segundo diante do televisor, porque teve de ir à sala buscar alguma coisa, é impulsionado por uma mola e grita “ sai da frente, que não me deixas ver o jogo, carago!!!!” Se a sua selecção perde, pode muito bem acontecer que perca o apetite...

O Prolongamento

Durante os próximos dias, muitos governantes em todo o mundo ansiarão que as selecções dos seus países cheguem à final. Serão pelo menos 21 dias de descanso, graças ao precioso contributo de jornais, rádios e televisões que, com a sua overdose diária de “informação desportiva”, alimentam os fanáticos e aqueles que, não o sendo, vibram intensamente com as vitórias da selecção do seu país, transformando um jogo de futebol num problema nacional.

Nota: este texto foi adaptado a partir de uma "Crónica de Graça" que escrevi  sobre o Mundial 2010, ao desafio com a minha parceira e amiga Patti, para meu desgosto agora afastada da blogosfera. Mas tenho um feeling que um dia destes ela vai voltar para animar as nossas e vossas sextas-feiras.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Pré silly season

O período entre 15 de Julho e 31 de Agosto é conhecido, no hemisfério norte, por silly season.
Cada dois anos essa época é precedida pela seated season, período em que uma boa parte da humanidade fica, durante três ou quatro semanas, sentada no sofá da sala, de olhos cravados no televisor, expectante, à espera de ver "a bola anichar-se nas malhas".
Este ano a pré - época da silly season inicia-se amanhã e prolonga-se até dia 1 de Julho. Durante esse período aumentará o consumo de cerveja, pipocas, amendoins e similares, o que é bom para a economia. Não deixa de ser curioso que a economia se anime graças a uma bola que nada percebe de cotações da bolsa, índices Dow Jones, Defaults, ratings ou spreads... mas isso acontece por força dos adeptos que fazem girar várias indústrias correlativas.
Mas o que é afinal um adepto e como se comporta?
Amanhã, aqui estarei para responder a essas perguntas, com uma crónica sobre a vida de um adepto de futebol, durante os Europeus e Mundiais de Futebol.


terça-feira, 5 de junho de 2012

Um pássaro fora da gaiola


Foi numa carrinha igual a esta, mas com uma decoração menos exuberante, que fiz a minha primeira viagem pela Europa.
Corrijo…
Na realidade  já tinha viajado bastante com os meus pais mas apenas por Espanha porque, para além dos Pirinéus, os meus pais gostavam de viajar sozinhos ou na companhia de um casal amigo. E faziam eles muito bem!
Também já tinha feito uma longa viagem pelo norte da Europa com o meu cunhado, a minha irmã e um dos meus irmãos.
Portanto, para ser correcto, devo dizer que  foi esta a primeira vez que saí de Portugal sem tutela familiar.
A oportunidade surgiu graças à minha amiga Petra W., uma alemã  que conheci  aos 12 anos nos areais de Ofir e com quem ainda hoje mantenho boas relações de amizade.
Nesse ano, muitos ainda acreditavam que havia praias sob a calçada, descobertas numa amálgama  de irreverência  e devaneios juvenis  mas, tal como aconteceria mais tarde à  Revolução daquele Maio florido, também a música francesa  do  yé- yé começava a ser preterida pela  anglo-saxónica, muito por força de quatro cabeludos que gritavam “ Yeah, yeah, yeah”, davam uma nova coreografia à dança com  Twist and shout e, por esta altura, já tinham popularizado pelo mundo inteiro um tal Sargento Pimenta.
Por esses anos  passava algumas semanas nas outrora imaculadas e quase despidas praias de Benidorm. No hotel onde nos hospedávamos éramos os únicos portugueses e, ao longo dos anos, fizemos amizade com vários estrangeiros. A amizade foi-se cimentando e naquele ano em que a minha amiga Petra W. completara 19 anos, apareceu com uma carrinha semelhante à reproduzida na imagem, trazendo à boleia outros amigos, italianos, franceses  e uma belga que fora pescando pelo caminho, mas sempre escoltados pelos pais e tia de Petra que viajavam confortavelmente instalados num Mercedes.
Durante as três semanas de férias foi-se alicerçando a aventura. O regresso à Alemanha seria feito em ziguezague, passando por  França, Bélgica, Holanda, Suíça, Áustria e norte de Itália. Eu assistia todas as noites, de olhos esbugalhados e olhar nostálgico,  aos planos que eles faziam para o regresso e os entusiasmava ainda mais do que aquelas semanas de férias na costa mediterrânica. E lamentava viver no cú da Ibéria, num país que nunca poderia entrar naquele roteiro, por estar geográfica, social e politicamente demasiado afastado da Europa
Faltavam três dias para se iniciar a aventura, quando a Petra me perguntou se eu gostaria de os acompanhar .Gostar, gostava, mas era uma hipótese completamente fora de questão, porque os meus pais nunca permitiriam. O que eu não sabia, é que por aqueles dias a mãe de Petra encetara uma operação de charme junto dos meus pais, no intuito de os convencer,  pelo que foi com grande espanto que no dia seguinte, depois do almoço, os meus pais me comunicaram a sua permissão.
Nos dois dias seguintes fui o filho mais obediente e carinhoso à face da Terra...
Os planos previam que a viagem durasse um mês, ao fim do qual eu chegaria a Pforzheim,  em cujas imediações os pais de Petra tinham uma casa de campo. Passaria aí uma semana e depois seguiria com eles para Hannover e daí me devolveriam ao remetente, por via aérea.
Os planos de viagem tinham uma particularidade: cada um de nós recebera uma quantia dos pais que apenas dava para as primeiras despesas. Teríamos, por isso, de trabalhar para nos aguentarmos. Os tempos eram outros e arranjar emprego a fazer camas e limpezas num hotel,ou  lavar louça e servir à mesa num restaurante, era tarefa relativamente fácil. Mesmo eu, o benjamim do grupo, já tinha idade para trabalhar, embora jeito para fazer camas não tivesse nenhum  e a ideia me aterrorizasse…
O itinerário inicialmente traçado sofreu diversas alterações , muito por força da necessidade de demandar locais onde era mais fácil arranjar quem contratasse dois ou três elementos do grupo para uns dias de trabalho, que restabelecessem a bolsa comum que alimentava o nosso devaneio. A viagem prolongou-se para além do mês previsto, mas ainda a tempo de estar em Lisboa para o início das aulas. Quando me despedi da família de Petra W, em Hannover, sentia-me mais adulto, mais livre e mais capaz de enfrentar a vida. Como um passarinho fora da gaiola, aprendera a sobreviver, saboreando o prazer da liberdade.
Em tempo: haveria de repetir a viagem, anos mais tarde, na década de 70. Do primeiro grupo apenas fazia parte a Petra W. Foi uma viagem mais prolongada, onde o espírito de vida cooperativo voltou a funcionar como da primeira vez mas já não senti, na hora do regresso a casa, a mesma euforia. Dessa vez o regresso foi extremamente penoso e o meu único objectivo era mesmo abandonar o país.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

domingo, 3 de junho de 2012

Je t'aime. Moi non plus!



Vi-te hoje na Versailles. Estavas sentada diante de uma chávena de café, com o olhar distante de quem procura ontens no dia de amanhã. Inerte, como se tivesses parado naquela posição desde o dia em que te vi pela última vez, há quase 20 anos. Entre as mãos tinhas um cigarro apagado, em posição de desafio, mas no teu olhar já não existia a expressão lutadora de outros tempos.
Aproximei-me.
O cigarro começou a rolar entre os teus dedos, como se num momento eu tivesse accionado um interruptor que te trouxe de volta à vida.
Sorri.
Devolveste-me um sorriso apagado e estendeste a face para que te beijasse.
Obedeci.
Arrastaste enfim a voz num esforço perceptível. Há quanto tempo!
Sim, há quanto tempo...
Perguntei por ti.
Respondeste-me em palavras enroladas nos sedativos que te mantêm agarrada à vida.
Perguntei por ele.
Deixaste o olhar fugir na procura de uma resposta que te escapou por entre os dedos, no momento em que deixaste cair o cigarro apagado sobre a mesa.
Mudei de assunto.
Tocaste-me na mão ao de leve e pediste para me sentar.
Obedeci, como nos tempos em que éramos apenas um. Passaste-me os dedos pela face como que a querer fazer-me a barba com as costas da mão.
Continuas charmoso.
Silêncio...
Bom, tenho de ir embora.
Pois, tiveste sempre de partir...
Dei-te um beijo de despedida.
Agarraste a minha mão num quase pedido de socorro.
Desprendi-me e levantei-me. Da porta lancei-te um último aceno.
O cigarro voltara a bailar entre os teus dedos, como a substituir a mão que eu te negara.
Saí. Respirei fundo. Que teria sido de mim se não me tivesse libertado de ti?
No cérebro soaram fortes os acordes.« Je vais et je viens, entre tes reins »
E tu :« Tu es la vague, moi l’île nue»
E eu outra vez:«L’amour physique est sans issue»


( Original publicado em 2008)

sábado, 2 de junho de 2012

Volvo Ocean Race

Há uns anos  ( não vou dizer quando senão era demasiado fácil...) em Junho...


Estava nesta cidade

 E assisti à chegada de uma etapa da Volvo Ocean Race



 Em que cidade é que eu estava?

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Crianças do mundo


Com apenas 12 anos, uma criança paquistanesa foi assassinada por denunciar os castigos corporais a que ela e outras crianças estavam sujeitas, numa fábrica de tapetes. Há milhares de crianças em todo o mundo sujeitas a maus tratos, obrigadas a trabalhar para produzir objectos que nos deliciam nas montras e atiçam o deleite consumista de senhoras como Christne Lagarde que, depois vêm lamentar o sofrimento dessas crianças.
Deixo-vos aqui histórias de algumas crianças que fui conhecendo ao longo da vida um pouco por todo o mundo, cujos rostos captei e não mais esqueci.


Valeska, miúda de 13 anos que conheci em Santiago do Chile.Vendia artigos de contrafacção numa tenda perto do palácio de La Moneda. Estudou até aos 12, mas entretanto a mãe adoeceu e ela teve que deixar a escola para ajudar ao sustento de 7 irmãos. Tem saudades do tempo da escola e espera poder voltar a estudar um dia. Não tem dinheiro para pensar nos ténis da Nike, nas sapatilhas da Adidas ou da Reebok, cujas imitações vende na sua tenda.
Pablo é uma criança argentina de 12 anos que trabalha num supermercado. A sua tarefa, de segunda a domingo, é meter dentro dos sacos as compras dos clientes. Vejo os seus olhos brilhar quando pega numa pizza congelada que comprei. Ofereço-lha juntamente com um chocolate, mas imediatamente os mete no meu saco com um ar assustado. Explica a sua recusa pelo facto de um dia um vigilante lhe ter chamado ladrão, porque estava a comer um pacote de batatas fritas que uma cliente lhe oferecera.
Tarika é uma miúda de 10 anos. Conheci-a em Wewak, na Papua Nova Guiné, no momento em que as suas mãozitas trémulas entornaram sobre os meus "jeans"parte da sopa. Foge para a cozinha, debulhada em lágrimas, perseguida por um empregado bem adulto que lhe dirigia ameaças. Nunca mais a voltei a ver no hotel, nem sei se é verdade a história que Ben, uma personagem bem conhecida dos turistas que demandam aquela zona em busca de um guia para o rio Sepik me contou.
Segundo a sua história, o patrão condoera-se ao saber que a miúda, filha de uma empregada do hotel, trabalhava em Madang na apanha do café, em condições de quase escravatura. Mandara-a vir para estar junto da mãe, mas não para trabalhar no hotel. Tudo não passara de um descuido. Verdade ou não, o facto é que no dia em que abandonei Wewak para uma viagem pelo rio Sepik, Tarika estava à beira da estrada, com uma mulher aparentando os seus 30 anos, vendendo pequenas peças de artesanato local.

Em Patpong, Banguecoque, é usual ver a altas horas da noite miúdas de 10,12 e 13 anos oferecendo-se para a prostituição. Não é difícil, também, ser abordado por adultos oferecendo os favores sexuais de menores. Em Hua Hin, a escassa centena e meia de quilómetros da capital tailandesa, uma miúda vende relógios aos turistas. Os preços são regateados à exaustão e assisto à cena de um turista anglo saxónico propondo-se a pagar os 500 "bahts" (aproximadamente 15 €) por um Rolex de imitação se a criança "for passar uns momentos na sua companhia".
Nos centros turísticos tailandeses, como nas Filipinas, cenas destas repetem-se diariamente, diversas vezes ao dia.
Em Portugal também não faltam crianças vítimas da exploração do trabalho infantil:
Hélder tem apenas 6 anos e começa às 7 e meia da manhã a britar pedra. Diariamente parte cerca de 500 pedras que vão revestir as calçadas de cidades estrangeiras para onde o seu patrão exporta a pedra.
Adelino foi bem cedo trabalhar para uma serração, mas aos 13 anos um acidente com uma máquina levou-lhe 3 dedos da mão direita e agora faz alguns pequenos trabalhos para ajudar em casa.
Anabela divide o seu dia entre a escola e a casa, onde não estuda nem brinca com meninas da sua idade. O tempo que lhe resta depois da escola, passa-o a coser sapatos. E como ganha à peça, quanto mais trabalha, mais ganha, o que a leva a trabalhar até altas horas da noite.

Porque razão, apesar das medidas internacionais tomadas contra o trabalho infantil, este parece um problema incontornável?A resposta poderia ser encontrada na conversa com este guia indiano...
A cena passou-se nos arredores de Bombaim, ( mas poderia passar-se também em Istambul, Katmandu ou Carachi, onde são inúmeras as crianças a trabalhar na indústria dos tapetes) quando visitava uma fábrica. Crianças desenrolam à minha frente, com esgares de esforço, vistosos tapetes por elas parcialmente confeccionados. Reajo com a indignação possível e o guia pergunta-me em escorreito inglês:
"Nunca viu disto no seu país? E por acaso não compra produtos de grandes marcas, que são fabricados por crianças? Se comprar um destes tapetes está a ajudar o nosso país e a impedir que muitas pessoas morram de fome. Mais vale comprar um tapete destes do que roupa de muitas marcas conceituadas que vocês usam no Ocidente.Vocês não compreendem o que custa sobreviver nestes países!"
Se os argumentos deste indiano podem ser compreensíveis em países asiáticos e africanos onde a miséria é grande, os mesmos nem sempre colhem quando se aborda o problema no mundo ocidental,afogado em desigualdades crescentes, mas esgrimindo os valores da democracia como um bem a preservar.
Outras histórias de crianças portuguesas e estrangeiras sobre as quais escrevi, podem ser lidas aqui