domingo, 10 de junho de 2012

Chá Canasta



Amélia, Benvinda, Irene e Estela reuniam-se três tardes por semana no Ateneu Comercial do Porto para um chá canasta. Pontualmente, às três e meia, o sr. Adelino, motorista do sr. Bernardo, marido de D. Benvinda, deixava as quatro senhoras à porta do vetusto edifício. Terminadas as mesuras, despedia-se com um “até amanhã minhas senhoras, tenham uma boa tarde”. 
As senhoras subiam as escadas entre saudações de boas vindas, a que respondiam com cerimoniosos inclinares de cabeça. Só o já trôpego sr Teixeira, ex-libris da casa, era alvo de saudação especial e de uma troca de palavras que passava sempre por saber como estavam os filhos e a mulher. ( Nunca percebi porquê, naquele tempo, as mães dos filhos de homens como o sr. Teixeira eram as suas mulheres , mas estas senhoras eram sempre as esposas dos respectivos maridos. Adiante…) 
Terminada a breve conversa eram conduzidas à mesa do costume, já preparada para o início do jogo. Quatro baralhos de cartas, um bloco de notas imaculado e uma caneta esperavam a hora de serem manuseados por aquelas mãos delicadas que nunca na vida devem ter acariciado o sabão macaco, no medo de estragar o trabalho da manicura do cabeleireiro Soares. 
 Perto da mesa de jogo perfilava-se um carrinho de chá com chávenas de porcelana  e trem em prata.   “Naperons” bordados, esperando a hora de cobrir as torradas, os croissants, o bolo de fatia e uma ou outra iguaria de ocasião, eram  alvo de apreciação em unânimes  elogios  ao trabalho de Emilinha, a bordadeira.
 Por vezes, um olhar mais intuitivo, descobria uma nódoa  ténue, ou um fio prestes a desmembrar-se do laborioso bordado, ameaçando danificá-lo irremediavelmente. Nesses momentos,era pedida a intervenção  do sr Teixeira que acorria ofegante na sua decrepitude e, perante o espectáculo que lhe era mostrado por dedos indicadores apontando o crime, chamava um grumete que de imediato se encarregava da substituição, perante o olhar atento das senhoras. 
Só quando ficavam sozinhas na sala iniciavam o jogo, de forma concentrada e quase profissional. Só quando terminava uma jogada, ou uma das jogadoras apanhava um saboroso “monte”, havia lugar a conversas. Quase sempre ligadas a questões de criadagem, troca de receitas, apreciação do lanche onde havia sempre alguma coisa que não estava bem. O chá estava demasiado quente, ou frio, as torradas tinham muito ou pouca manteiga, a massa dos croissants estava pouco estaladiça, o bolo de fatia tinha cozido demasiado, ou ficado quase cru. Preocupação maior eram os estudos das crianças e a crescente incompetência das criadas, cada vez mais careiras e negligentes. Como as revistas cor de rosa ainda não tinham surgido no mercado, cada uma contava as suas fofocas privadas, ouvidas normalmente na véspera pela boca do marido ou inteceptada numa conversa entre criadas.
O jogo terminava, imperetrivelmente, quando chegavam os maridos que as levavam de regresso a casa.

7 comentários:

  1. Que vidinha mais fútil! Mas, tal como a Sun, gostei da narração... :)

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  2. Estes Chás Canasta destas damas canastronas, eram o pão nosso de cada dia no tempo da outra senhora. Elas eram as Gertrudinhas e as Pitas mais as Bertas...
    Mais tarde seguiram-se-lhes as Marias em reuniões beneméritas, para dar continuidade à caridadezinha.
    E a propósito de mulheres e esposas, já o Zeca Afonso, se não estou em erro, cantava:

    "A rica tem nome fino
    a pobre tem nome grosso
    a rica teve um menino
    e a pobre pariu um moço"

    Beijos e boa semana, meu amigo.

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  3. Foi uma destas senhoras muito finas, que um dia numa reunião no Ateneu Comercial do Porto em que alguma senhoras falavam dos ovos Fabergé e dos seus exorbitantes preços, disse, muito convicta:
    Eu não gosto desses ovos, prefiro os da Arcádia?!

    Abraço de uma mulher muito fútil, só que não sabe jogar a canasta.

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  4. O Carlos agora fez-me lembrar o Júlio Dinis, sobretudo "A Morgadinha dos Canaviais".
    As criadas são uma miséria, lembra-se? :))

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  5. Fizeste-me recordar bons tempos em que frequentava o Ateneu para jogar bridge!
    Havia os torneios à terça feira às 7 da tarde e a partida livre durante o resto da semana!
    Bons tempos!

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