quinta-feira, 14 de junho de 2012

Com um olho em Copenhague e outro no Rio



Ontem, enquanto assistia ao Portugal-Dinamarca, recordei as minhas últimas visitas a Copenhague. Foram ambas em 2009. Primeiro no Verão, em turismo, depois em pleno mês de Dezembro, para a Cimeira sobre as Alterações Climáticas.
Copenhague é considerada a cidade mais verde da Europa. Nada de espantar.
Seja Verão ou Inverno, o transporte preferido pelos habitantes de Copenhaga é a bicicleta. Mas não se pense que Copenhaga é apenas  líder a nível de baixas emissões de CO2, graças aos transportes. É também a cidade onde a energia é consumida de forma mais inteligente e racional, os edifícios são estudados de forma a poupar energia, os transportes são eficientes, se desperdiça menos água, se faz o melhor tratamento de resíduos e, por consequência, se respira melhor, porque é melhor a qualidade do ar.Logo a seguir, vêm Estocolmo e Oslo, ocupando Lisboa o 18º lugar, num conjunto de 30 cidades europeias estudadas pela “Economist”.
Convém, no entanto, que falemos claro. Se as três capitais nórdicas ocupam os três primeiros lugares no índice de qualidade de vida, medido em termos ambientais, isso não significa que sejam as cidades com maior qualidade de vida geral. Para um português, amante dos climas quentes, do Sol e dos dias longos, viver numa destas cidades durante o Inverno é deprimente. Anoitece tão cedo, que temos a sensação que o Sol hibernou ou se transferiu para outra galáxia. Nem a animação  nocturna disfarça a tristeza dos dias cinzentos e sem luz
.
O anoitecer temperano convida a emborcar uns copos para afogar a nostalgia porque, mesmo quando não chove, o sol anémico é de tal forma triste e fugaz, que deixa toda a gente com aquela sensação de apenas ter provado uma colher de uma esplendorosa mousse de chocolate.
Viver nos países nórdicos durante o Inverno (digo eu com o saber de experiência feito) é como ir à Bica do Sapato comer um “menu degustação”. Ficamos com a sensação de que tudo aquilo que o Chefe confecciona é muito bom, mas carece da confirmação de um repasto a preceito. 
Na Friedrichstrasse os bares estão abertos até horas tardias, animados com música ao vivo, cerveja a escorrer pelas goelas, as prostitutas oferecem os seus serviços gratuitamente, em protesto contra as decisões do governo local que pretende cobrar-lhes impostos . Em Christiania os “hippies” continuam com os seus slogans sessentistas e o seu modo de vida espartano, mas contraditório. 
Seja Verão ou Inverno, nas manhãs de domingo, em Friedrichstrasse, russos e ucranianos continuam a enganar os turistas  em jogos de “vermelhinha” viciados com notas falsas e os arranha céus de Ströget reflectem as suas luzes na água dos canais.
Naquele Dezembro de 2009, apesar dos 6ºC diurnos, que desciam próximo do Zero quando a noite caía, dispensando uma visita ao sempre muito frequentado Ice Bar, o ambiente em Nyhavn (o velho porto onde os bordéis e tabernas foram substituídos por restaurantes e bares com música ao vivo) é caloroso. Linguarejares de gentes de todo o mundo alimentam uma confraternização calorosa, ao longo do canal, entre pessoas que sempre se reencontram nestes eventos .


Havia animação, avisos de que a qualidade de vida de que desfrutamos pode estar em risco se nada fizermos para refrear a degradação ambiental desta casa que se chama Terra e pedimos emprestada aos nosso filhos para habitar, mas que estamos a degradar com a inconsciência de inquilinos desmazelados.
Havia euforia naquelas noites gélidas e uma ponte ligando Copenhaga a Malmö que se distendia num frenesim consumista.
Havia conversas entusiasmadas sobre questões ambientais, muita cerveja a correr pelas goelas, críticas à globalização, muito whisky, muitos estrangeiros a comprar “souvenirs” e prendas de Natal.
 Havia recriminações aos poderes instituídos por se preocuparem mais com o bem estar económico do que com a preservação do ambiente,  muitos jornalistas a fazer a cobertura da Cimeira, entusiasmados pelo calor que exala dos corpos das ninfas loiras de linguarejar rude,  e  a reportar notícias e estudos sobre a inevitabilidade de morrermos esturricados em CO2 e gases com efeito de estufa. Logo que se desconectavam do canal televisivo que os enviou a Copenhaga, escoavam para os pulmões enegrecidos bafuradas de cigarros provenientes da terra do Tio Sam, ou de cigarrilhas made in Havana, enquanto faziam tilintar o seu copo, num tchim-tchim dengoso, celebrando a companhia da musa inspiradora, ao lado de quem sonham acordar na manhã seguinte.
Foi neste cenário “faz de conta”, de noites natalícias com Papais Noel e Meninos Jesus pigarreantes e Mamães Natal generosamente expostas aos olhares masculinos, que decorreu a Cimeira da ONU sobre alterações climáticas em 2009.
Ontem, no Rio de Janeiro, começou a Cimeira Rio+ 20. No Inverno do hemisfério sul estão 27 graus! Bem, mas sobre o Inverno carioca escreverei na próxima semana. 



14 comentários:

  1. De facto, o clima nos países nórdicos não é bom para quem os latino. É por isso também que alguns procuram o sol.
    É verdade também que tudo é mais limpo e mais verde e o ar bem mais respirável.
    Será que as cimeiras conseguem resolver os problemas ambientais?

    Bj

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  2. Uma amiga que foi trabalhar para Estocolmo, queixava-se precisamente do mesmo: chegou em Julho, entusiasmada, mas o Inverno por lá é muito deprimente, passou aqueles meses todos muito em baixo. Ou seja, a qualidade ambiental pode ser das melhores da Europa, mas a falta de sol é um grande entrave negativo para quem está habituado a tê-lo quase todo o ano... :)

    Boa Cimeira, Carlos!

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    1. Aconteceu-me exactamente o mesmo que à sua amiga. Cheguei a Estocolmo em Abril e fiquei encantado, mas quando cheguei ao fim de Novembro já andava com uma neura, que não podia. Quiseram renovar-me o contrato, mas recusei. Não queria passar o ano seguinte a correr para o psiquiatra:-)

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  3. Se o sol já o temos, a que esperamos nós para fazer os nossos países mais limpos?

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    1. Fazer Portugal mais limpo é que é mais difícil... Os tugas gostam de chafurdar na porcaria!

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  4. O que o Carlos aqui descreve sobre Copenhague quase se podia aplicar à cidade onde vivo, que nunca abandonaria para ir para uma outra cidade mais quente, a não ser para o meu querido Porto.

    Eu não preciso do sol para ser feliz!

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    1. Pois eu, sem Sol, fico estilo alma penada. Já estou farto destes dias que me fazem pensar que estou em Fevereiro.
      A sua cidade é Dusseldorf, não é?

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  5. Carlos
    Não conheço outros países!
    Mas para mim viver sem sol é deprimente.

    Beijinho e uma flor

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  6. Esse terrível Inverno carioca - como é que se suporta? :)))

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  7. Esperemos que não chova três dias sem parar...os Invernos cariocas nem sempre são amenos e pacíficos.
    Beijos.

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    1. Se estiver como em 1992, ainda dá para tomar umas banhocas em Copacabana! :-))

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