quinta-feira, 21 de junho de 2012

Espelho meu


 O dia convidava a um almoço na esplanada. Como a hora já ia avançada, escolhi um espaço recatado, em Telheiras, que serve almoços até tarde.
Poucos minutos depois de me ter sentado chegou uma senhora a meio caminho, entre os 40 e os 50, corpo escorreito a pedir “mão de mexer”, como diria o Rui Veloso. Vinha com o filho, aparentando uns 18 anos e um corpo amolecido por uma dieta alimentar à base da batata frita, hamburguers e toda a variedade de “fast food”. Pediram a lista e ele, claro, escolheu um hamburguer no pão com batatas fritas. Para acompanhar, a óbvia Coca Cola.

“ Não peças isso, Pedro, olha o que a médica te disse! Tens de comer saladas, coisas saudáveis, em vez dessas porcarias. Ou queres ficar como o monstro do teu pai?”.

“ E tu o que vais comer?”

“ Vou pedir uma salada”.

Mirou e remirou a lista e por fim fez o pedido.“ Traga-me uma salada de frutas. E para beber uma caipirinha”.

Continuei a ler e a dar umas garfadas na minha salada de frango crocante. Um arroto fez-me levantar os olhos das páginas da “Visão”. O jovem, que entretanto já se esparramara na cadeira, deslizando rumo à calçada portuguesa, libertava os gases da Coca –Cola. A mãe riu-se. Eu distraí-me um pouco da leitura. Ele pegava nas batatas com a mão e mergulhava-as ora no ketch-up, ora na mayonnaise. Metia metade à boca e repetia a operação com a metade sobrante. Sorvia a Coca Cola por uma palhinha, abrilhantando o acto com efeitos sonoros.

Acelerei a refeição. A mãe acelerou na caipirinha, enquanto comentava:

“ Na happy hour as caipirinhas são melhor servidas”.

Pediu outra e um café. O jovem, entre dois arrotos, pediu reforço de Coca-cola. Pedi a minha bica e voltei a mergulhar na leitura.

Ela pediu a conta, o jovem pediu à mãe:

“ Deixa-me pagar hoje o almoço!”.

“ Estás-me a pedir desculpa por me teres batido ontem? ”- perguntou num sussurro, mas mesmo assim audível.

Ele levantou o corpo pesado, enlaçou-a num abraço forte e cobriu-a de beijos. Pagou a conta.

Ela disse:“ Vai andando, fico aqui a corrigir uns testes daquela turma de monstrinhos”.

12 comentários:

  1. Quem tem um monstrinho em casa atrevesse a chamar aos outros miúdos monstrinhos? Uma professora com um filho sem educação? Enfim...Como serão então os miúdos de quem tem habilitações baixas? Pois é, começam a ser precisas decisões para esses miúdos. Beijinhos

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  2. Triste imagem da educação de hoje, normalmente, na classe dita média ou melhor "medíocre"!

    Que futuro, para um país, com exemplos destes????

    Beijos.

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  3. Credo! É tudo monstros e monstrinhos, só o "lindo" menino dela é que escapa? Imagino como será como professora, se educou tão bem o filho... :P

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  4. Que horror! Mas, em fim, mãe e filho se merecem. Como diria minha avó, ¨lé com lé e cré com cré¨

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  5. Por vezes a boa educação é notavel nos da classe baixa!

    Beijinho e uma flor

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  6. Por vezes deparamo-nos com quadros destes... grotescos...

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  7. Não sei se foi assim que tudo aconteceu...:)
    Gostaria de acreditar que a parte em que o monstro bate na mãe escorreita a pedir "mão de mexer", tivesse sido ficcão!!
    É dose forte demais, em gente de tão "alta condição social".
    Mas, se as habilitações literárias tivessem influência na boa formação do carácter das pessoas, não teríamos visto um juiz a agredir uma filha deficiente por ela estar na internet.

    "Como serão então os miúdos de quem tem habilitações baixas?"

    A dignidade e boa formação de carácter, não tem nada a ver com estatuto social e muito menos com dinheiro, não é verdade, Carlos?
    Beijinhos.

    P.S. Já foste dar um mergulho na águinha morna de Copacabana?:-))

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  8. Se não é real, bem que o podia ser.
    Mas, mesmo que não seja real, e porque o podia ser, mete impressão.

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  9. Este é o nosso admirável mundo novo...

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  10. Auch chocante desde o "libertava os gases da Coca –Cola" já tinha idade para ter juízo à rica mãe que ainda leva porrada :s

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  11. Como é boa a vida no campo... Adelaide!!

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  12. Se os monstrinhos forem ainda piores que o filho dela, devem ser assustadores!

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