domingo, 3 de junho de 2012

Je t'aime. Moi non plus!



Vi-te hoje na Versailles. Estavas sentada diante de uma chávena de café, com o olhar distante de quem procura ontens no dia de amanhã. Inerte, como se tivesses parado naquela posição desde o dia em que te vi pela última vez, há quase 20 anos. Entre as mãos tinhas um cigarro apagado, em posição de desafio, mas no teu olhar já não existia a expressão lutadora de outros tempos.
Aproximei-me.
O cigarro começou a rolar entre os teus dedos, como se num momento eu tivesse accionado um interruptor que te trouxe de volta à vida.
Sorri.
Devolveste-me um sorriso apagado e estendeste a face para que te beijasse.
Obedeci.
Arrastaste enfim a voz num esforço perceptível. Há quanto tempo!
Sim, há quanto tempo...
Perguntei por ti.
Respondeste-me em palavras enroladas nos sedativos que te mantêm agarrada à vida.
Perguntei por ele.
Deixaste o olhar fugir na procura de uma resposta que te escapou por entre os dedos, no momento em que deixaste cair o cigarro apagado sobre a mesa.
Mudei de assunto.
Tocaste-me na mão ao de leve e pediste para me sentar.
Obedeci, como nos tempos em que éramos apenas um. Passaste-me os dedos pela face como que a querer fazer-me a barba com as costas da mão.
Continuas charmoso.
Silêncio...
Bom, tenho de ir embora.
Pois, tiveste sempre de partir...
Dei-te um beijo de despedida.
Agarraste a minha mão num quase pedido de socorro.
Desprendi-me e levantei-me. Da porta lancei-te um último aceno.
O cigarro voltara a bailar entre os teus dedos, como a substituir a mão que eu te negara.
Saí. Respirei fundo. Que teria sido de mim se não me tivesse libertado de ti?
No cérebro soaram fortes os acordes.« Je vais et je viens, entre tes reins »
E tu :« Tu es la vague, moi l’île nue»
E eu outra vez:«L’amour physique est sans issue»


( Original publicado em 2008)

16 comentários:

  1. Carlos
    Um encontro que mostra um outro desencontro.
    Uma estória que me parece ser um retalho de uma vida "cheia".
    Abraço
    Rodrigo

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  2. Momentos de:

    encontro
    reencontro
    desencontro
    e
    de solidão...

    Momentos de quem não se encontra ("l’île nue") e momentos de quem foge ("la vague"), porque é a fuga que o consegue definir.

    Há uma grande densidade psicológica,a que o cigarro apagado se alia ,intensificando-a.

    Gosto, sinceramente!Parabéns!

    Beijo

    Laura

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  3. Triste!
    Senti um enorme arrepio!

    Beijinho e uma flor

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  4. Apesar de deprimente, gostei!

    Não se devia ter aproximado!

    Avivaram-se-lhe as saudades de um amor que não conseguiu esquecer...

    Beijos.

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  5. Gostei e não gostei! Será que dá para entender? Este post podia ter sido escrito pom mim...

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  6. Adorei esta crónica, apesar de ela me ter deixado uma estranha sensação de vazio. Não te sei bem explicar, Carlos!
    Vinte anos é muito tempo, mas o reencontro com alguém com quem se viveu uma intensa história de amor e de irresistível atracção física, poderá ainda esconder sob as cinzas algum calor que faça reacender a chama? O pior é o "moi non plus"...
    Uma vaga é um vai-vem instável, que permanece pouco tempo numa ilha nua e sequiosa.
    Há reencontros que seria melhor nunca terem acontecido!
    Sinto que não fez bem a nenhum dos dois. Mas fiquei triste por ela!
    Beijinho.

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  7. Lembro-me ainda do original e continuo achando a cena mais significativa esta: Tocaste-me na mão ao de leve (e pediste para me sentar.)

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  8. A vida prega-nos algumas rasteiras, mas conseguimos escapar de outras. Como diz o provérbio chinês, "a flor cortada não volta ao ramo"... ;)

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  9. Há recordações que por mais anos que passem continuam como se tivessem acontecido ontem à noite!

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  10. A "doença" passou, felizmente isso já lá vai, senão ainda teria ficado ali pregado...:))

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  11. Está aqui muito bem expressa a nostalgia de um amor passado...

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  12. Amigo Carlos:
    Muito belo, nostálgico e triste.
    Há reencontros que nunca se devem realizar.


    beijinhos

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  13. Recordações, mera recordações que aquecem a alma nas noites solitárias.
    Foi bom ter partido?? Ou teria sido melhor, ficar?? Nunca se saberá.
    ADOREI!!!!
    Beijo Primaveril

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  14. Há separações dolorosas, mas necessárias... E, por vezes até sem querer, não evitamos recordá-las...
    Gostei do seu blog, voltarei mais vezes!

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