sexta-feira, 8 de junho de 2012

Senhoras e senhores, apresento-vos o adepto



Um dia alguém perguntou à escritora Dorothee Sölle como explicaria a uma criança o que é a felicidade e ela respondeu:
“Não explicava. Dava-lhe uma bola de futebol”.
No dia em que começa o Europeu 2012, a pergunta pode ser formulada de outra maneira. Como fazer feliz o povo de um país em crise?
A resposta é óbvia: “Oferecendo-lhes um  Mundial de Futebol”. Mas como o Torneio só se realiza de 4 em 4 anos, a Europa inventou um torneio caseiro, ligeiramente mais curto, para intercalar. 
Nos próximos dias, milhões de pessoas  vão passar, diariamente, horas diante da pantalha vendo os jogos da selecção do seu país e os dos adversários, fascinados com os seus ídolos, correndo atrás de uma bola que gira sobre um tapete verde.
Quem não gosta de futebol não percebe o fascínio de um jogo em que vinte jogadores correm atrás de uma bola, para a introduzir entre três paus colocados dentro de um rectângulo branco, tentando iludir a vigilância de outros dois que defendem aquele espaço como guardiões do Templo. Por isso, será tentado a parafrasear Juca Chaves e perguntar "por que razão não oferecem uma bola a cada um, para acabar com aquele espectáculo tão sem graça?"
Se não é amante de futebol, nunca faça essa pergunta a um fanático da bola. O fanático faz parte da essência do futebol. Não só apoia a selecção do seu país, como não perde nenhum dos jogos que envolva selecções de outros países. Não se pense, porém, que a actividade do fanático se resume a ver os três ou quatro jogos que a televisão lhe oferece diariamente – o que equivale a oito horas de trabalho- em tempos de Mundial. O dia de um fanático, é muito mais do que isso, apesar de durante o Europeu só ter direito a dois jogos diários. Digamos, pois, que o Europeu de Futebol é um Mundial em part-time.



O Aquecimento
O verdadeiro fanático iniciou o período de aquecimento quando as televisões começaram a fazer programas especiais dedicados ao evento e deu dinheiro ao filho para comprar a primeira carteira de cromos para a caderneta, mas será nos próximos 21 dias que estará mais atarefado. 
O dia começa cedo, com a leitura dos jornais desportivos que relatam as ocorrências dos jogos da véspera- que já viu, mas quer confirmar se não lhe escapou nada. É que às vezes, um lance que viu e reviu mais de 20 vezes e confirmou com os seus próprios olhos que não era falta, pode ser analisado de uma forma diferente por um jornalista especializado na matéria.
Se o fanático pertencer ao sub-grupo dos fanáticos gregários, esta informação pode ser importantíssima, porque uma vez na posse dela estará habilitado a discutir com o grupo uma nova visão do lance. Além do mais, o fanático gosta de saber as opiniões dos comentadores sobre as exibições dos jogadores de cada equipa e ler as declarações dos que não foram ao “flash interview” depois do jogo. E há ainda aqueles pormenores de bastidores relatados nos jornais, que só leitores apaixonados pelo futebol estão habilitados a descodificar.
Como já perceberam, é de extraordinária importância para o fanático do sub-grupo gregário, recolher uma vasta quantidade de informação antes de reunir com os outros elementos do grupo. A hora do encontro e a ordem de trabalho são variáveis. Depende do interesse dos jogos do dia. No entanto, haverá sempre um ponto prévio para confrontar os prognósticos dos jogos da véspera e fazer as apostas para os jogos do dia. Só depois deste período é que se entra na Ordem do Dia.

Primeira Parte
Nos dias em que a selecção do seu país entra em campo a reunião começará, pelo menos, duas horas antes do jogo e haverá dose reforçada de “bejecas” acompanhadas por camarão de Espinho e uns salgadinhos para aconchegar o estômago ou ajudar à digestão, consoante a hora do jogo. O importante, é que no momento em que o árbitro apite para o início da “contenda”, o fanático já esteja “quentinho”.
Após os primeiros minutos , vistos em religioso silêncio, com os olhos fixos no ecrã,um dos elementos do grupo protesta contra uma falta mal assinalada pelo árbitro a favor da selecção adversária. A partir deste momento vale tudo, dependendo das ocorrências, da evolução do jogo e do resultado, o tom do discurso entre os presentes. Quando a bola faz balançar as redes, as reacções variam de acordo com o “véu da noiva”que foi violado. Se foi o da equipa adversária, todos se erguem em festejos, trocam beijos e abraços e alguns mais facilmente emocionáveis deixam escapar uma lágrima furtiva. Se foi o da “sua” selecção, rostos de desânimo misturar-se-ão com impropérios ao guarda-redes, que passará de imediato a ser conhecido como “nabo” ou “filho da p…”.
Terminado o jogo, o treinador também não escapará às invectivas dos fanáticos que de imediato exigem a sua demissão, havendo um mais afoito que depois de lhe chamar todos os nomes que a sua enciclopédica memória insultuosa armazenou, sugere que se faça uma petição nesse sentido, a apresentar ao presidente da Federação e ao membro do governo com a pasta do Desporto.
Um fanático mais ponderado sugere que se espere pelo jogo seguinte e pede mais uma “rodada de bejecas” para aliviar a tensão e a dor. Incapazes de suportar o desgosto, alguns dos elementos dispersam, prometendo voltar no dia seguinte. Cada um vai para sua casa descarregar a ira na mulher que, ao vê-lo entrar, olha para o relógio e nem pergunta o resultado, receosa de uma reacção intempestiva que a obrigue a inventar uma história para contar às colegas do serviço no dia seguinte, quando uma delas perguntar “onde fizeste essa nódoa negra?”.
Se a selecção do fanático ganha, o grupo prolonga as comemorações noite dentro, acompanhadas de muitos vivas e doses generosa de álcool. Quando chega a casa, já a mulher está a dormir e no dia seguinte ele nem dará pela sua saída, pois só se levantará uns minutos antes de nova reunião , onde todos irão discutir as incidências do jogo e preparar mais uma jornada de trabalho diante da pantalha.

Segunda Parte
Nem todo o fanático é gregário. Há também o fanático solitário, que prefere ver o jogo em casa. Sozinho, ou na companhia do filho mais novo. Normalmente só vê os jogos da sua selecção e um ou outro que considera mais importante. No entanto, o fanático solitário não dispensa o cachecol, a bejeca e comidinha a tempo e horas, se o jogo cai em cima da hora do jantar.
Alguns equipam-se a preceito, mas os que não o fazem, incitam o filho a fazê-lo e a empunhar uma bandeira. O fanático solitário também não dispensa alguns rituais. Uma hora antes de começar o jogo já está sentado no sofá a ver “o lançamento do jogo” com uma cerveja na mão e uns aperitivos na mesa de apoio comprada no IKEA para estas ocasiões.
Consciente das suas funções de educador, pede ao filho a caderneta de cromos que começou a coleccionar no mês anterior e indaga se já sabe o nome dos 640 jogadores. Ao terceiro falhanço, diz “assim não vais lá Joãozinho, tens de estudar mais”, devolve-lhe a caderneta de cromos, bebe mais uma golada de cerveja, engole uns amendoins que estavam em promoção no Continente e olhando a garrafa vazia manda o filho ir buscar outra ao frigorífico.
As reacções durante o jogo são em tudo idênticas às do fanático gregário, mas menos estridentes. A gestualidade pode ser mais contida ( como se vê na foto acima), mas quando se trata de pedir reforço de “bejeca” e aperitivos, em vez de estalar os dedos e puxar pela carteira, o fanático solitário grita "Maria, traz mais uma bejeca!". Quando ela chega à sala, acedendo ao pedido , acrescenta "podias ter trazido mais uns aperitivos que estes estão a acabar”.
O solitário, mais concentrado que o gregário, faz jogo de cintura e de pés durante a partida, no esforço inglório de encaminhar a bola para o sítio que mais lhe interessa, ou desviá-la dos adversários, o que proporciona belíssimos espectáculos a observadores posicionados fora do seu ângulo de visão.
O fanático solitário também é menos violento que o seu congénere. Quer dizer… não bate na mulher nem faz distúrbios em casa, mas quando ela passa durante um milésimo de segundo diante do televisor, porque teve de ir à sala buscar alguma coisa, é impulsionado por uma mola e grita “ sai da frente, que não me deixas ver o jogo, carago!!!!” Se a sua selecção perde, pode muito bem acontecer que perca o apetite...

O Prolongamento

Durante os próximos dias, muitos governantes em todo o mundo ansiarão que as selecções dos seus países cheguem à final. Serão pelo menos 21 dias de descanso, graças ao precioso contributo de jornais, rádios e televisões que, com a sua overdose diária de “informação desportiva”, alimentam os fanáticos e aqueles que, não o sendo, vibram intensamente com as vitórias da selecção do seu país, transformando um jogo de futebol num problema nacional.

Nota: este texto foi adaptado a partir de uma "Crónica de Graça" que escrevi  sobre o Mundial 2010, ao desafio com a minha parceira e amiga Patti, para meu desgosto agora afastada da blogosfera. Mas tenho um feeling que um dia destes ela vai voltar para animar as nossas e vossas sextas-feiras.

12 comentários:

  1. No século XXI é o Manel a levar as cervejas à Maria, porque hoje em dia as mulheres são tão fanáticas com o rei futebol como os homens.

    O "meu Manel" pouco se interessa por futebol, por isso, se amanhã a Alemanha perder não há nódoas negras.
    Se Portugal perder não falo com o "meu Manel" durante uns dias como da última vez que isso aconteceu.

    Como já aqui disse, não fico em casa no sofá. Hoje só assisti à abertura e ao jogo Polónia-Grécia fora de casa.
    Amanhã há uma grande "party" e eu lá vou com a camisola do Ronaldo para a boca do lobo (sou a única portuguesa!!!).

    Graças a Deus, que neste mundo maravilhoso, temos Fado, Fátima e Futebol.

    Força RONALDO!

    Força PORTUGAL!

    Também gostava muito que a Patti voltasse à blogosfera, porque as vossas crónicas às sextas-feiras eram um encanto.

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  2. Meu amigo, ainda bem que não padeço deste mal ;)
    Não tenho saúde para tanta "emoção" :D


    beijinhos e as melhoras :))

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  3. Amigo Carlos!
    Estão aqui descritos todos os passos próprios das mentes mais conspurcadas, já que o futebol também tem a ver com a educação de cada um. Evidentemente que também há os civilizados, mas desse já não falo.
    Vejo regularmente jogos ao vivo e fico estupefacto com os impropérios que os adversários e árbitros são atingidos em momentos menos felizes e também por tudo e por nada.
    Eu joguei quarenta e cinco anos à bola e conheço bem esses meandros. Nunca fui expulso e infelizmente fiquei a conhecer alguns "amigos" através da sua maneira de estar em campo. Cá fora eram excelentes pessoas e lá dentro transformavam-se por completo. Tenho para mim, que quem não souber perder nunca saberá ganhar e não aceito aqueles que acham que o seu clube tem sempre razão, sejam eles quais forem.
    Em futebol, tal como na vida, é preciso ter uma visão periférica e não apenas focalizada em cores mais ou menos berrantes.
    E felizmente que já acabou o tempo de dar "porrada" na mulher quando o seu clube perde.
    Um grande abraço amigo

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  4. Carlos
    Não sou fã de futebol, talvez por não ser um desporto,mas sim um enorme negócio, onde existe muitas coisas más e, isso deixa-me triste, em tempos a minha filha mais velha que ainda hoje é fanática pelo benfica ela fazia-me comprar os cromos para encher as cadernetas.
    Bom fim de semana

    Beijinho e uma flor

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  5. Adeptos fanáticos? Não, obrigada, Carlos!

    Tal como a amiga Fê, não tenho saúde para tanto desiquilíbrio mental...
    Parabéns ao amigo Kim, pela visão lúcida e sensata daquilo que é gostar de futebol sem ultrapassar as barreiras do bom senso.
    Ser o cônjuge a «pagar as favas» por a Selecção ou o clube, perder?
    Valham-me todos os Santos...isto não dá para crer!

    Beijinhos e continuação de bom descanso, Carlos.

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  6. Como tenho saúde de ferro e o meu desiquilíbrio mental é uma forte fonte de inspiração e creatividade, QUERO que os nossos rapazes mostrem aos meninos do Joaquim Löw como se joga o verdadeiro futebol.

    Os hipócritas dos meus familiares e a amigos dizem que vença a melhor selecção, o pior é, que eles pensam que a melhor selecção é a alemã.

    A minha prognose é que PORTUGAL vai empatar com a alemanha 1-1, como os gregos contra o polacos.

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    1. Eu cá sou mais como o João Pinto...prognósticos só no fim do jogo!

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  7. Eu até gosto de futebol como desporto e joguei em criança, não resisto quando uma bola, na rua, num jardim, vem parar perto de mim, a devolvê-la com um pontapé, ou a participar quando em casa dalguns amigos se improvisa um pequeno jogo. Mas do futebol de que aqui se fala, desse renego. Não me interessa nada e produz-me, como Flor de Jasmim diz lá encima, muita tristeza.

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  8. Fanática não sou e até perco muitas vezes os jogos, mas se me sento frente ao televisor.... ai sempre sofro um bocado :))

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  9. Não percebo nadinha de futebol...nem vejo.

    Durante os próximos dias os nossos governantes, aproveitando a distracção do "povinho", tomam novas medidas drásticas, sem que a maioria eufórica se aperceba...pois a BOLA é quem MANDA!

    Beijos.

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  10. Tá-se mesmo a ver que o menino Carlinhos é fanático... Cá por mim, só com os preparativos e o acompanhamento a tempo inteiro dos treinos da nossa Seleção já estou farta de Euro até à raiz dos cabelos...

    Divirta-se!

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  11. Já fui adepta, adepta já não sou. Nem vi o jogo de ontem. Passou-me a doença - não sei se para o bem se para o mal :):)

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