terça-feira, 5 de junho de 2012

Um pássaro fora da gaiola


Foi numa carrinha igual a esta, mas com uma decoração menos exuberante, que fiz a minha primeira viagem pela Europa.
Corrijo…
Na realidade  já tinha viajado bastante com os meus pais mas apenas por Espanha porque, para além dos Pirinéus, os meus pais gostavam de viajar sozinhos ou na companhia de um casal amigo. E faziam eles muito bem!
Também já tinha feito uma longa viagem pelo norte da Europa com o meu cunhado, a minha irmã e um dos meus irmãos.
Portanto, para ser correcto, devo dizer que  foi esta a primeira vez que saí de Portugal sem tutela familiar.
A oportunidade surgiu graças à minha amiga Petra W., uma alemã  que conheci  aos 12 anos nos areais de Ofir e com quem ainda hoje mantenho boas relações de amizade.
Nesse ano, muitos ainda acreditavam que havia praias sob a calçada, descobertas numa amálgama  de irreverência  e devaneios juvenis  mas, tal como aconteceria mais tarde à  Revolução daquele Maio florido, também a música francesa  do  yé- yé começava a ser preterida pela  anglo-saxónica, muito por força de quatro cabeludos que gritavam “ Yeah, yeah, yeah”, davam uma nova coreografia à dança com  Twist and shout e, por esta altura, já tinham popularizado pelo mundo inteiro um tal Sargento Pimenta.
Por esses anos  passava algumas semanas nas outrora imaculadas e quase despidas praias de Benidorm. No hotel onde nos hospedávamos éramos os únicos portugueses e, ao longo dos anos, fizemos amizade com vários estrangeiros. A amizade foi-se cimentando e naquele ano em que a minha amiga Petra W. completara 19 anos, apareceu com uma carrinha semelhante à reproduzida na imagem, trazendo à boleia outros amigos, italianos, franceses  e uma belga que fora pescando pelo caminho, mas sempre escoltados pelos pais e tia de Petra que viajavam confortavelmente instalados num Mercedes.
Durante as três semanas de férias foi-se alicerçando a aventura. O regresso à Alemanha seria feito em ziguezague, passando por  França, Bélgica, Holanda, Suíça, Áustria e norte de Itália. Eu assistia todas as noites, de olhos esbugalhados e olhar nostálgico,  aos planos que eles faziam para o regresso e os entusiasmava ainda mais do que aquelas semanas de férias na costa mediterrânica. E lamentava viver no cú da Ibéria, num país que nunca poderia entrar naquele roteiro, por estar geográfica, social e politicamente demasiado afastado da Europa
Faltavam três dias para se iniciar a aventura, quando a Petra me perguntou se eu gostaria de os acompanhar .Gostar, gostava, mas era uma hipótese completamente fora de questão, porque os meus pais nunca permitiriam. O que eu não sabia, é que por aqueles dias a mãe de Petra encetara uma operação de charme junto dos meus pais, no intuito de os convencer,  pelo que foi com grande espanto que no dia seguinte, depois do almoço, os meus pais me comunicaram a sua permissão.
Nos dois dias seguintes fui o filho mais obediente e carinhoso à face da Terra...
Os planos previam que a viagem durasse um mês, ao fim do qual eu chegaria a Pforzheim,  em cujas imediações os pais de Petra tinham uma casa de campo. Passaria aí uma semana e depois seguiria com eles para Hannover e daí me devolveriam ao remetente, por via aérea.
Os planos de viagem tinham uma particularidade: cada um de nós recebera uma quantia dos pais que apenas dava para as primeiras despesas. Teríamos, por isso, de trabalhar para nos aguentarmos. Os tempos eram outros e arranjar emprego a fazer camas e limpezas num hotel,ou  lavar louça e servir à mesa num restaurante, era tarefa relativamente fácil. Mesmo eu, o benjamim do grupo, já tinha idade para trabalhar, embora jeito para fazer camas não tivesse nenhum  e a ideia me aterrorizasse…
O itinerário inicialmente traçado sofreu diversas alterações , muito por força da necessidade de demandar locais onde era mais fácil arranjar quem contratasse dois ou três elementos do grupo para uns dias de trabalho, que restabelecessem a bolsa comum que alimentava o nosso devaneio. A viagem prolongou-se para além do mês previsto, mas ainda a tempo de estar em Lisboa para o início das aulas. Quando me despedi da família de Petra W, em Hannover, sentia-me mais adulto, mais livre e mais capaz de enfrentar a vida. Como um passarinho fora da gaiola, aprendera a sobreviver, saboreando o prazer da liberdade.
Em tempo: haveria de repetir a viagem, anos mais tarde, na década de 70. Do primeiro grupo apenas fazia parte a Petra W. Foi uma viagem mais prolongada, onde o espírito de vida cooperativo voltou a funcionar como da primeira vez mas já não senti, na hora do regresso a casa, a mesma euforia. Dessa vez o regresso foi extremamente penoso e o meu único objectivo era mesmo abandonar o país.

17 comentários:

  1. Era magnífico viajar nesses tempos e os olhos e os sentidos não se cansavam de obter coisas novas...
    Também eu corri a Europa e mil aventuras me aconteceram. Hoje é tudo mais fácil, há os voos low coast, reservam-se hotéis baratos pela net, eu sei lá, mais quê, mas a pureza dessas viagens, a descoberta de sítios e pessoas, nunca mais será como dantes.

    ResponderEliminar
  2. Espetacular!! Viajei com você.
    E é engraçado como o sabor do regresso se modifica.
    Adoraria fazer uma viagem assim.
    Quem sabe????
    Beijinho e com certeza se não puder vir aqui vou ao Rio vê-lo.

    ResponderEliminar
  3. Eu também lembro com uma paixão inigualável a primeira viagem que fiz pela Europa, aos dezassete anos, de comboio e mochila às costas, durante um mês.

    ResponderEliminar
  4. Há coisas que só se vivem num momento único e inesquecível para o resto da vida! Esse, infelizmente, nunca tive! Mas que tenho pena, lá isso... :)

    Mas adorei essa viagem, que me fez lembrar Kerouac! :D

    ResponderEliminar
  5. Carlos
    Excelentes viagem e momentos que se vivem e não esquecem!
    adorei conhecer esta sua estória, como é bom manter uma amizade ao fim de tanto tempo, como a do Carlos com a Petra W., outros valores que se estão a perder "as amizades".
    Adorei ver esta carrinha porque foi numa muito parecida que fui assistir a um concerto a Paredes de Coura onde apareceu a policia ainda levei uma surdina a escapar pelas orelhas abaixo, nessa altura valia tudo, até de mota fui, mas hoje não se dá o devido valor a estas aventuras marcantes das nossas vidas.

    Beijinho e uma flor

    ResponderEliminar
  6. Meu amigo, que aventura emocionante deve ter sido.
    São prazeres e vivências que nunca tive, sou mesmo só um passarinho na imaginação e na virtualidade :D

    beijinhos

    ResponderEliminar
  7. Grande aventura, sim senhor!
    Mas, pela primeira vez, um mês inteirinho fora da asa dos pais é coisa para nunca mais se esquecer.
    É por isso que se viaja, para que fique sempre na nossa memória :)

    ResponderEliminar
  8. Fiquei maravilhada com a descrição desta tua primeira e grande aventura de passarinho livre, Carlos.
    Quantas e belas outras recordações terás, de tanto teres calcorreado o mundo.
    Agora entendo porque sentes tanta necessidade de sair de Portugal.
    Este País deve representar para ti a gaiola que aprisiona os teus sonhos de liberdade.
    Sê feliz, Carlos! Não te deixes aprisionar.

    Beijinho

    ResponderEliminar
  9. Essa carrinhas, e as Bedford, anos mais tarde, deram para grandes aventuras, Carlos

    ResponderEliminar
  10. Bela viagem ao passado. E essas carrinhas estão de novo na moda. Há quem as recupere e alugue para umas férias diferentes.

    ResponderEliminar
  11. Resumindo: és um cidadão do mundo desde a adolescência! :-))

    ResponderEliminar
  12. Uma viagem épica que te deixou recordações para a vida!!
    Imaginei o sorriso largo com que escreveste esta crónica nostálgica!

    ResponderEliminar
  13. Nunca andei pela europa numa "pão de forma" e quem me dera, sempre achei que tinha perfil para uma viagem do genero, mas acabou por não se realizar (ainda estou a tempo). Mas como sabe bem viajar...e como nos marca!! São as recordações "na estrada" as que me lembro sempre com mais carinho =)
    Que venham muitas dessas*

    ResponderEliminar
  14. E, por ser especial, ficou... e deu para ser partilhada!

    Beijo

    Laura

    ResponderEliminar
  15. Experiências lúdicas que, atendendo à época em que foram vividas, contribuíram grandemente para tua formação como homem.
    Quem, hoje em dia, tiver experiências semelhantes, sem o apoio dos papás, ganhará em absoluto uma boa preparação para as dificuldades da vida.

    Além do mais a adolescência é... a adolescência! LOL

    ResponderEliminar
  16. Belo relato evocativo de um tempo, de uma aventura inesquecível. Viajei consigo, agora, também. :)

    ResponderEliminar
  17. gostei muito de o acompanhar neste regresso a essa viagem! Deve ter sido de facto uma experiência muito boa!

    ResponderEliminar