domingo, 24 de junho de 2012

Uma noite em Ljubliana



Estava uma noite escura como breu quando aterrei em Ljubliana. Não se ouvia o ribombar dos trovões, mas os sucessivos relâmpagos que rasgavam o céu testemunhavam a intempérie. 
Uma luz branca suja  iluminava a sala de desembarque, conferindo ao ambiente um ar de presídio. As pessoas alinhavam-se em duas longas filas, diante de homens fardados que escondiam a carranca por detrás de óculos escuros. Perguntei-me a razão de os guardas da alfândega usarem óculos escuros numa noite de tempestade mas os meus botões, únicos interlocutores possíveis naquele momento, não me deram resposta. Optei pela fila da direita. Estava  avisado do rigor do inquérito alfandegário e preparei-me para uma longa espera. Era quase meia-noite, o avião aterrara com duas horas de atraso, devido a uma paragem não prevista em Milão, forçada pela tempestade. Fiz figas para que a pessoa que me devia esperar do outro lado da fronteira não  tivesse debandado. Sabia o nome do hotel, mas não tinha moeda local para pagar o transporte e a agência do banco local já encerrara. 
A fila foi avançando lentamente e o mau humor dos guardas alfandegários parecia aumentar à medida que ia engrossando. Passara quase uma hora quando enfrentei o guarda. Apresentei-lhe o meu passaporte diplomático. Ele tirou os óculos escuros, fixou demoradamente o olhar em mim e finalmente perguntou:
-Quanto tempo vai ficar na Jugoslávia?
- Para já, três meses…
O corpo de quase dois metros de altura virou-me as costas mostrando o coldre que abrigava uma arma. Parecia procurar qualquer coisa que não encontrava. Fez-me um sinal para esperar e afastou-se em passo lento. Levou com ele o meu passaporte, que segurava na mão direita e fazia bater na esquerda em compassos impacientes. Vi-o desaparecer por detrás de uma parede cujo único ornamento era uma fotografia de Tito.  Passados uns minutos, voltou acompanhado de uma mulher  igualmente fardada em tons de castanho esmaecido debroados  a vermelho vivo. A farda escondia-lhe as formas, mas não o cabelo loiro curto e dois olhos verdes emoldurando um rosto agreste e másculo.  Olhou-me sem mexer um músculo da face. Depois folheou o passaporte e perguntou:

- Vai ficar em Ljubliana?
- Apenas esta noite. Amanhã sigo para Split . É lá que vou ficar.
-Onde vai ficar esta noite?
- No hotel …
- Como vai para lá?
- Tenho alguém à minha espera lá fora.
- Nome?
- Jorge Martinez. É funcionário da OCDE.
- Sabe onde é que ele está à sua espera?
- Creio que deva estar na sala de espera, mas é a primeira vez que cá venho, não conheço o aeroporto. Provavelmente terá um cartaz com o meu nome.
Mandou-me sair da fila e aguardar.
Embora um silêncio respeitoso continuasse a pesar no ambiente da sala, senti que as pessoas respiravam de alívio atrás de mim. A fila  ia voltar a mover-se.
O guarda alfandegário voltou à sua rotina.
Já só havia três ou quatro pessoas na fila, quando a mulher regressou. Vinha com cara de poucos amigos.
- Não há ninguém com esse nome à sua espera. 
- Mas deverá estar alguém. Não viu nenhum cartaz com o meu nome?
- Não. Acompanhe-me.
Deixei-me conduzir. Desaguei numa sala tão inóspita como a anterior. Apenas os tetos eram mais altos e no topo havia um varandim onde meia dúzia de pessoas deviam estar a aguardar  familiares.  Olhei em volta, à procura de um cartaz com o meu nome. Em vão. 
- Se não estiver ninguém à sua espera, nós levamo-lo ao hotel. Amanhã de manhã  resolveremos o assunto. Sabe como vai para Split?
- Não. Alguém irá buscar-me ao hotel.
Finalmente o rosto da mulher abriu-se num sorriso.
- A mesma pessoa que devia estar aqui à sua espera? 
- Tenho um número de telefone. Amanhã de manhã entro em contacto, no caso de não aparecer ninguém.
Um homem apareceu junto de nós, vindo do nada.
És o Carlos Oliveira? Desculpa, mas atrasei-me com o temporal. Devia ter saído de Split mais cedo, porque a estrada está um caos.
 Acompanhou a frase, em espanhol, com um gesto indicador de destruição.
A zelosa funcionária perguntou:
- É esta a pessoa que devia estar à sua espera? 
Virando-se para o Jorge pediu-lhe os documentos.

……..
Saímos do aeroporto em direcção ao hotel. A cidade estava deserta.
No dia seguinte, um sol anémico espreitava entre nuvens ameaçadoras. Antes de partirmos para Split, o Jorge ofereceu-me uma visita rápida pela cidade. Subimos ao castelo, descemos para o centro histórico, atravessámos o rio Ljublinica, percorremos algumas ruas ladeadas de edifícios belíssimos, respirando história. Tomámos um café num  local que me pareceu inóspito, na rua Mestni. Passavam pela rua algumas pessoas, cujo caminhar me fazia lembrar a marcha dos militares. Mulheres jovens, altas e bonitas vestiam de forma simples, embora mais descontraída do que noutros países de leste. A breve visita deixou-me uma sensação de incomodidade. Estava lá tudo que qualquer cidade deve ter, mas faltava-lhe um sopro de vida. Quiçá um beijo de um príncipe encantado que a despertasse do torpor em que parecia mergulhada.
Esta foi a Ljubliana que eu vi em 1985. Cerca de 20 anos depois, quando lá voltei, a cidade parecia ter ressuscitado de um período de hibernação. Resta saber se foi graças ao beijo de um príncipe, ou de uma malévola figura disfarçada de fada madrinha, que a cidade ficou como a descrevo aqui

4 comentários:

  1. Meu querido Amigo.
    Ler-te é não dar pelo passar do tempo, é sentir com o teu coração e ver pelos teus olhos...
    Ao ler o que escreves, viajo contigo!
    Beijinhos, Carlos.
    Desejo que estejas bem!

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  2. O dilema final dá que pensar.Terá sido o príncipe ou a malévola figura? Será que um não seria o outro? Há sempre um sapo que vira príncipe e muitas madrinhas que não são fadas.

    Beijo

    Laura

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  3. Também eu visitei Ljubliana ainda no tempo da Jugoslávia, três meses após a morte de Tito. Ainda não voltei lá, como Eslovénia.

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  4. Esse interrogatório todo fez-me lembrar a primeira vez que fui a Inglaterra nos anos 70. Ganhei uma bolsa da Gulbenkian e estive lá um mês. Só não me perguntaram o número do sapato...

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