domingo, 29 de julho de 2012

A obsolescência das almas




À medida que envelhecemos tornamo-nos mais tolerantes em relação a certas coisas. Passamos a gostar de sopa ( o Dr Emílio Peres, acérrimo defensor da sopa como dieta alimentar de excelência, disse- me um dia  no final de uma brilhante palestra em Évora, que quando as pessoas começam a  perceber que gostam de sopa estão a ficar velhas... Disse-o meio a brincar, meio a sério, mas nunca mais esqueci aquela frase, porque eu já tinha começado a gostar de sopa, embora ainda não tivesse chegado aos  50).
Damos menos importância ao vestuário, deixamos de nos empolgar com as novidades promovidas pela sociedade de consumo e até admitimos que a morte de José Hermano Saraiva foi uma grande perda para o país ( Um ponto a meu favor, porque a morte de um fascista que  chamou a Salazar ditador Santo, reprimiu os estudantes quando foi ministro da educação e se celebrizou a contar estórias sobre a História, tentando convencer-nos que eram grandes verdades, não me causou qualquer mossa).
Embora fiquemos mais intolerantes em relação aos políticose à política ( pelo menos eu...) tornamo-nos mais tolerantes com os malucos que andam pela estrada; com as diatribes das criancinhas; com a displicência de alguns jovens em relação à vida; com as mulheres que gostam de passar a tarde a fazer compras;com as reprimendas da mãe que pensa que ainda temos 18 anos.
O corpo, porém responde de modo  difrente. 
As viagens transatlânticas começam a ser mais penosas; se o pouparmos durante dois ou três dias a longas caminhadas de pelo menos 10 quilómetros, reage com lamúrias quando o cérebro o obriga a retomar os movimentos cadenciados da passada; ser sujeito a comida espanhola durante duas semanas é algo que não tolera de bom grado e, piegas,  começa a reclamar comida mais saudável e sem gorduras; deixa de apreciar a sesta e faz birras como se fosse um miúdo; deixa de estar tão disponível para longas tardes de sexo porque, coitado, ao fim de uma hora está cansado. 
A obsolescência do corpo é mais acelerada do que a obsolescência da  alma? A minha experiência responde afirmativamente. Começo a sentir que o meu corpo não responde com o mesmo vigor àquilo que a alma lhe pede e, às vezes,exige. E isso, acreditem, é uma grande chatice!

20 comentários:

  1. Parece-me que posso entrar de novo em convivência com os meus amigos virtuais.
    Vamos lá ver se é verdade.
    Carlos, recebeu este comentário?

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  2. Mas enquanto a alma exigir (e muito), acho que isso é muito bom sinal! No final das contas, é isso o mais importante!
    Bom domingo!
    Beijos

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    1. É verdade, Isa, mas se o desfazamento for grande, pode ser assustador...
      Boa semana
      Beijos

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  3. Adoro estas tuas sérias verdades, ditas a brincar, sabias?:)

    Beijinhos.

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  4. Acredito piamente e até concordo!

    Quanto ao dito historiador, nem me diga nada: o único post em que me insultam sistematicamente é sobre ele e com a sua morte... ainda pior! E nem estava a dizer mal nem a focar esses aspetos, mas um único programa, um bocado patético. Já nem respondo... :)))

    Dito isto, entendo que era um grande comunicador e que conseguiu interessar muita gente pela história, as lendas e narrativas... :D

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    1. Ser um bom comunicador, não significa que não tivesse grande criatividade e distorcesse a História, não é verdade, Teté?
      Quanto às reacções o melhor é mesmo não ligar, porque a maioria das pessoas que endeusam o homem ou é ignorante, ou tem saudades daqueles tempos

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  5. O pior de tudo é mesmo a intolerância a duas semanas de comida espanhola, o resto são detalhes...:))

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    1. Não sou grande apreciador de comida espanhola, Ariel. Fritos e gorduras um bocado a mais para o meu gosto. Comida bem confeccionada e sem esses detalhes, custa muito dinheiro...

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  6. Foi ele que me fez voltar à sopa, sem sal à moda dele, para desintoxicar o organismo durante oito dias, com os legumes que levava nem se notava a falta de sal. Faz-me falta, como médico e como amigo.

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    1. Também a mim, Salvo. É umas pessoa cujo vazio não consegui preencher.

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  7. CARLOS, me identifico com suas observações sobre o passar dos anos,quando passamos a ter outras reações.

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  8. Se gostar de sopa é sintoma de velhice eu sou velhinho desde pequenino :))
    Acerca dos outros sintomas.....nem às paredes confesso!! :)))

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    1. O Dr. Emílio Peres disse-o meio a sério, meio a brincar. Era um homem muito bem humorado e estava a dar-me uma indirecta.
      Quanto ao resto, Pedro, eu sei do que fala.Eh, eh eh!

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  9. Pois, eu, como o Pedro Coimbra, sempre gostei de sopa, por tanto, já nasci velha, mas à diferença do Benjamin Button, sigo sempre velha, pois continuo a gostar de sopa.
    Quanto ao resto, como aqui nos damos o tu com mais facilidade (muita mais) do que aí, uma pessoa sabe que é velha o dia em que um adolescente a trata de "usted", e isso normalmente acontece por volta dos trinta anos. De maneira que aos cinquenta, que é o que eu tenho agora, já a alma teve tempo de adaptar-se às carências do corpo. :)

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  10. Eu também me comecei a sentir velho quando me começaram a tratar por senhor, Sun Iou Miou. Principalmente quando andava lá por fora e o "you" ou o "Vous" foram substiuídos por Mr e Monsieur.

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