quinta-feira, 5 de julho de 2012

If you were a sailboat


“(...)Sometimes I believe in fate,
But the chances we create,
Always seem to ring more true(…)”
(Katie Melua)



Mesmo não tendo de pagar a viagem- graças às milhas acumuladas na TAP – e ficando a dormir num barco em Riddar Holmen, perto do palácio real- uma ida à Suécia nunca é barata porque tudo, a começar pelo preço das refeições, é muito elevado (já não estou naquela idade de andar pelos Mc Donalds) e é preciso pensar duas vezes antes de nos sentarmos numa esplanada para tomar qualquer coisa e desfrutar da paisagem.
No primeiro dia, quando se aproximava a hora do jantar, decidi esquadrinhar as ruas, praças e vielas de Gamla Stan- a cidade velha- em busca de um restaurante barato. Quando lá estive, era a zona mais barata da cidade, mas o turismo fez disparar os preços e hoje os preços aí praticados são tão caros como os da maioria dos restantes locais da cidade. Verifiquei listas- iniciando a leitura sempre pela coluna da direita- e comecei a deitar contas à vida.
Percorria a Västerlangattan- rua principal da cidade velha- quando,junto a um pub irlandês, o meu olhar encontrou um pequeno restaurante, com uma esplanada de apenas três ou quatro mesas. Fui ver a lista e a coluna da direita agradou-me. Passei à coluna da esquerda e as minhas papilas salivares rebentaram em estrépito clamando, libidinosas, pela oferta daquela iguaria: um bife de chorizo ( de carne genuinamente argentina) por 140 coroas ( cerca de 14 €) pareceu-me dádiva irrecusável.
 Claro que imediatamente me imaginei, desiludido, a olhar para um prato enorme, onde repousaria um bife de 50 gramas emoldurado em duas rodelas de tomate mas, resoluto, decidi entrar. A partir daí, foi um acumular de surpresas. 
O restaurante estava cheio, havia apenas uma mesa junto à janela para duas pessoas. A um metro de distância, um velhote tocava tangos no seu bandoléon. O meu olhar deve ter denunciado a minha surpresa e alegria, porque o homem começou a tocar com mais entusiasmo.
O homem que me levara à mesa perguntou se queria a lista em inglês, sueco ou espanhol. Resoluto respondi: espanhol.
Foi então que me começou a falar num castelhano com iniludível sotaque argentino. Arrebitei a orelha e perguntei-lhe se era argentino. Confirmou e perguntou-me a minha nacionalidade. Quando lhe disse que era português, mas tinha vivido na Argentina e pensava para lá voltar, percebi os seus olhos humedecerem-se. Engoliu em seco e perguntou-me se estava com pressa. Disse-lhe que não e então propôs-me continuar a conversa depois do jantar, ao que acedi de imediato. 
Olhou-me de soslaio quando optei pelo acompanhamento de vegetais grelhados (coisa que um porteño nunca faria) e optei por vinho chileno.
O bife de dimensão avultada , acompanhado de uma generosa variedade de legumes grelhados, chegou perante o aplauso frenético das minhas papilas que, no entanto, torceram o nariz quando degustaram o vinho. Ingratas! De sobremesa um “dulce de leche” ( oferta da casa) e a rematar um “expresso” de boa qualidade. Enquanto comia, confirmei que os restantes comensais que haviam optado pelo bife de chorizo eram servidos de forma igualmente substancial, pelo que percebi não estar a ser alvo de tratamento especial.


Foi já ao balcão, tendo como testemunha um “Bushmills,” que fiquei a saber a razão de um argentino se instalar em Estocolmo: 1,80m de belezafeminina pura! Mas caramba, com tanta beleza espalhada pelas ruas de Buenos Aires, como é que este homem “licenciado” em tardes “tangueras” da “Confiteria Ideal”, com casa na Av. Santa Fé, a escassos 10 minutos do emblemático  Café Tortoni, "bon vivant” e boémio, se deixa embeiçar por uma sueca, ao ponto de trocar as cálidas noites “porteñas” pelo frio glaciar de Estocolmo?
A história, narrada pelo próprio, conta que deixou a Argentina para viajar pelo mundo. Percorreu os Estados Unidos de lés –a lés- durante dois anos, passou pelo Japão, Tailândia, Índia,Singapura e arribou à Europa. Pela Europa vagueou durante oito anos, até que um dia chegou a Estocolmo e se deixou perder de amores por Selma, trinta anos mais nova do que ele. Pensou ficar apenas um ou dois anos, mas foi-se acostumando e já está na Suécia há 15. Ou seja, ancorou aos 50, uma boa idade para ganhar juízo. Ou talvez não, quando nessa idade juntamos a nossa vida a uma mulher de 20…
Conheces Espanha? - perguntei
Não. Talvez um dia…
Quando saíste da Argentina?
 Em 1980, ou81 já nem lembro bem
Faço contas. Não quero fazer perguntas incómodas. Se calhar prefiro não saber de que lado estava este homem, que tão bem me acolheu no seu restaurante, durante a ditadura. Fico suspenso da resposta. Olho para o restaurante. Já só há uma mesa ocupada. O relógio marca as 11. Despeço-me, com a promessa de voltar.
“Amanhã estamos fechados”- diz Selma com um sorriso.
Saio para a rua. Ainda está dia claro. Caminho em direcção ao barco. Volto a fazer contas.
 Saiu da Argentina com 37 anos, quando a ditadura estava próxima do extertor. Pode ser um escroque, mas também pode ser uma vítima. Será que vou voltar lá para tentar saber? Dois dias depois, decidi que não voltaria. Prefiro ficar na dúvida. Na terrível e eterna dúvida. Parece-me ter percebido que ele preferia assim.

4 comentários:

  1. Interessante o relato e muito pertinente a dúvida.

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  2. Há algumas ocasiões (esta parece) em que a duvida é a melhor opção.

    (E como gosto dos seus relatos de viagens!)

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  3. Então já somos dois!
    Eu, que sempre preferi uma verdadede dolorosa a uma mentira piedosa, ultimamente tenho dado comigo a preferir mil vezes, quedar-me pela eterna dúvida, ao invés duma verdade que me roubaria toda a beleza ilusória do encanto das mil e um noites...
    Achas isto triste? Pois eu acho que é uma das únicas formas de sobrevivência que tenho ao meu alcance...
    Beijinhos e continua feliz!

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  4. Esta manhã ouvi uma notícia referida à Argentina e de certa maneira relacionada com este relato. Parece que se está a fazer alguma justiça, Carlos.

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