quarta-feira, 25 de julho de 2012

Viagem à Papua


Cheguei a Angoram ( Papua Nova Guiné) depois de uma extenuante viagem de sete horas num jeep do tempo da guerra, debaixo de um calor de sufoco. O objectivo da minha viagem até esta  outrora próspera  cidade  fundada pelos alemães,mas onde os sintomas de decadência são bem visíveis,era chegar aos Black Lakes  e explorar o rio Sepik.
Hospedei-me em casa de uma família local , pois o único hotel que existia na localidade- quase em ruínas-  estava ocupado por funcionários menores  da empresa Adam &Smith que faz a prospecção de petróleo na zona.
Fui recebido com extrema simpatia pela dona da casa que procurou providenciar-me as comodidades possíveis mas, mesmo assim,  muito abaixo de um parque de campismo europeu de terceira categoria.
À noite, como não havia onde jantar, a senhora ofereceu-me frutas e saladas  variadas e convidou-me a partilhar  alguns momentos com os filhos na sala de jantar.
A conversa não foi fácil. Apesar da simpatia, pressenti sempre alguma desconfiança em relação à minha presença por aquelas paragens, onde os turistas eram raros e os estrangeiros da Adam & Smith não eram notoriamente bem vistos.
Desde que entrara na sala que um volumoso objecto, tapado por um pano, me despertara a atenção. Parecia-me um televisor, mas achava  estranho que ninguém o ligasse por isso, ao primeiro pretexto perguntei se tinham televisão em casa. O sorriso dos filhos ( jovens com 18 e 16 anos) foi imediato e a miúda prontamente levantou o pano e mostrou, orgulhosa, um  aparelho de televisão antiquado, fazendo questão de referir que era um aparelho a cores.

Perguntei, então, o que gostavam de ver na televisão.
Neste momento não vemos nada”- responderam-me com um sorriso desconsolado.  “A televisão ainda não chega a Angoram”.
Mas está então para breve...- arrisquei
Na verdade, não sabiam. Há dois anos que o governo andava a prometer criar condições para que Angoram pudesse receber as emissões de televisão, mas até à altura nada.  A televisão estava arrumada naquele canto da sala, porque o pai deles era deputado e , numa prova de que o governo estava disposto a levar a televisão até Angoram, comprara um televisor  em Port Moresby durante a última campanha eleitoral para que as pessoas acreditassem que a  televisão estava mesmo prestes a chegar.
Mais tarde, já na cama, enquanto lutava  contra o calor que não me deixava adormecer,  pus-me a pensar  que já tinham passado dois anos desde as eleições. Ou o governo se apressava a levar  a televisão até Angoram, ou o senhor Buku deixaria de ser o deputado eleito pelo povo de Angoram, para o representar no parlamento  em Port Moresby.

2 comentários:

  1. Tenho em minha casa acesso a mais de 140 canais de televisão, pode não acreditar, mas há dias seguidos em que não ligo a televisão, porque simplesmente não me interessa. Por isso acredito mesmo nessa sua história.

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