domingo, 12 de agosto de 2012

Assim coubéssemos no Céu!


Aviso prévio: Este post é longo, tem bolinha vermelha e é um desafio à vossa imaginação, chamada a ler nas entrelinhas! Boa viagem para quem chegar ao fim.


Tinha terminado o Festival de Cannes e o meu objetivo era seguir em direção a Itália. Meti-me ao caminho num dia maravilhoso e parei em Monte Carlo para almoçar. Por uma daquelas razões que nunca sabemos explicar, enquanto almoçava deu-me um “vipe”. E se fosse até à Corsega?
Viajar de automóvel, sem destino previamente traçado, tem destas vantagens. A qualquer momento podemos alterar os planos. Foi o que fiz. Acabei de almoçar e lá fui eu, de regresso a Nice, apanhar o barco para Ajaccio. Só arranjei bilhetes para um barco à noite. Apesar de ter pago o camarote,quase não dormi. Não tanto pelo desconforto da minúscula “camarata”, mas sim pelo barulho provocado por um grupo de nórdicos bêbados que decidiram investir o dinheiro dos quartos em álcool.
Cheguei a Ajaccio pouco depois das seis da manhã, sob uma chuva miudinha que não me conseguiu tirar a boa disposição. Tomei o pequeno almoço num boteco que estava a abrir e experimentei logo ali a primeira especificidade corsa: preços diferentes para corsos, franceses e turistas. Ora toma! (Espero que os restaurantes madeirenses não aproveitem a ideia).



Em Nice, enquanto esperava pela hora do embarque, aproveitara o tempo para fazer um estudo da ilha e decidi que na primeira noite iria dormir a Bonifacio. Meti-me ao caminho sem visitar Ajaccio, pois teria tempo de o fazer no dia de regresso ao “contenent”.
À medida que ia avançando para sul, a chuva abrandava e o céu tornava-se mais claro, prometendo uma tarde soalheira. Sabia que ao longo dos 10 dias de permanência na Córsega, esta seria a única estrada minimamente decente que iria encontrar. A partir de Bonifácio, as estradas tornar-se-iam cada vez mais estreitas e coleantes, especialmente no norte e depois entre Calvi ( uma belísssima estância balnear a Noroeste) e Ajaccio.
(As estradas da Córsega são, talvez, o único argumento válido para não regressar lá todos os anos. Nem imaginam a quantidade de vezes que, ao longo de 10 dias, vi a morte à minha frente. As estradas são mais estreitas que a Linha do Tua, não têm barreiras de protecção e qualquer descuido pode ser a morte do artista. Olhamos para o lado e temos “visões” psicadélicas ( como se acabássemos de ingerir uma dose de LSD), tendo como ecrã o mar. O problema é quando nos aparece pela frente um autocarro de turismo em contramão - ou um condutor local desmbestado - e desesperadamente procuramos o buraco da agulha. Uff!!!)


Cheguei a Bonifácio a meio da tarde, explorando no caminho pontos que me pareceram de mais interesse. O céu estava completamente limpo e deparei-me com uma paisagem deslumbrante, que uma fotografia é incapaz de reproduzir. Sentei-me numa esplanada encrostada numa escarpa sobre o Mediterrâneo de onde quase podia avistar a Sardenha, onde tinha festejado a entrada do ano. Dei uma volta pela cidade, sempre bordejando o mar, embrenhei-me pelas suas íngremes ruas e vielas e ao final da tarde passei por um hotel onde decidi ficar.
Instalei-me e repousei um pouco. Enquanto tomava um duche, lamentei a minha escolha. Não, não vi baratas, mas comecei a ouvir tão nitidamente o barulho do chuveiro do quarto ao lado, que pensei logo na hipótese de uma noite em claro, no caso de algum dos meus vizinhos ressonar durante a noite. Ou então, no caso de se tratar de um casal, aqueles zumbidos que vocês estão a imaginar.
A noite já tinha caído. Quando terminei o duche fui à janela do quarto espreitar o luar. Não havia Lua. Apenas uma fortíssima bátega de água, acompanhada de sucessivos relâmpagos, anunciava uma noite de intempérie. Afinal, o que eu julgara ser o chuveiro do vizinho, era uma forte chuvada. Decidi esperar alguns minutos até que o tempo amainasse. Um relâmpago, seguido de fortíssimo trovão, iluminou o quarto e logo de seguida apagou-se a luz. Dirigi-me à recepção, onde a proprietária do hotel me informou que provavelmente a tempestade iria demorar algumas horas. Como precisava de sair para apaziguar o estômago que começava a ficar impaciente e me avisava que se não lhe satisfizesse o apetite rapidamente, retaliaria, pedi um guarda – chuva de empréstimo.
A “madame”, simpática, juntou ao guarda-chuva uma lanterna e avisou-me que a devia usar, pois não havia luz na cidade e as ruas,com aquela chuva, ficavam muito perigosas. Reconfortado com aquelas palavras saí feito Diógenes, empunhando a lanterna que me haveria de guiar, por caminho seguro, até um restaurante decente.


Tal como Diógenes, também me senti por momentos escravo do tempo, acossado por um estômago prestes a concretizar as suas ameaças de rebelião. Quando, à terceira tentativa, encontrei um restaurante acolhedor com uma mesa livre, senti-me finalmente liberto e aliviado. Jantei opiparamente à luz de velas. Experimentei pela primeira vez as delícias da culinária corsa, onde uma sopa do mar - precedida de uns escargots gratin-mereceu um lugar de especialíssimo destaque. O ambiente era intimista, especialmente aconselhado para casais. Numa mesa distante, mas impertinentemente colocada no meu campo de visão, estava sentado um casal de lésbicas que se namoriscavam com o ardor de uma paixão recente. 
Felizmente a minha mesa ficava à janela, de onde podia desfrutar o espectáculo esplendoroso dos relâmpagos ziguezagueando no horizonte, até se esparramarem nas águas, num acto de amor descontrolado. Passei o jantar namoriscando o mar, só de lá tirando os olhos quando o empregado trazia a refeição ou vinha servir o vinho, evitando correr o risco de ser acusado de "voyeur". Nesses instantes não podia evitar que os meus olhos se cruzassem com o casal.
O vinho era bom, mas a conjunção do álcool com o picante da sopa , acelerava o fluxo sanguíneo, caminhando desgovernado pelas entranhas do meu corpo. Rematei a refeição com um “anti-coagulante” e meti-me ao caminho de regresso ao hotel. Continuava a chover copiosamente, como se S. Pedro tivesse decidido aliviar a bexiga, depois de dois milénios de continência. Adormeci rápido e dormi como um justo, indiferente à chuva que continuava a cair.



O dia seguinte amanheceu esplendoroso. O céu estava de um azul límpido mas, olhando o horizonte em direcção à Sardenha , viam-se nuvens ameaçadoras. Tomei o pequeno almoço no hotel e fui dar mais uma volta pela cidade, para me despedir. Ao final da manhã iniciei a volta à ilha.
À saída de Bonifacio duas jovens pediam boleia na berma da estrada. Azar! O meu carro só tem dois lugares… Uma delas acenou à minha passagem e foi então que reconheci o casal da véspera. De imediato me lembrei de uma tia que quando viajava connosco, obrigando-nos a apertar-nos no banco traseiro do “Boca de Sapo” do meu pai sempre dizia:
“Assim coubéssemos no Céu!”.
Travei e fiz marcha atrás. Havia um problema. Onde colocar a bagagem delas? O problema resolveu-se (os problemas resolvem-se sempre quando há comunhão de interesses, não é verdade?)
Perguntei para onde iam. Sabiam tanto como eu:
“ Somewhere my love?”
Não. Em Roma sê romano. Da discografia sempre disponível no meu carro saiu o Richard Anthony com "Donne -moi ma chance"!
Durante dez dias senti-me a viver no paraíso. Das verdejantes montanhas de Corté às alvuras das praias de Calvi, e dali até à chegada a Porto, num fim de tarde majestático em que a Natureza me brindou com um pôr-do- sol, que apreciei com a reverência de quem é contemplado com uma oferenda dos deuses, a Córsega só me traz boas recordações.
A Bonifácio, porém, há que acrescentar o IVA. Por ter sido a minha primeira paragem na Córsega, mas também porque foi o ponto de partida para umas férias inesquecíveis.
Quem também gostou, foi o editor da publicação argentina que me enviou a Cannes. Além de uma reportagem sobre o Festival , recebeu um roteiro sobre a Córsega. 

Adenda: Este post foi publicado no CR em 2010. 

7 comentários:

  1. O Carlos já publicou esta sua aventura de uma outra vez, mas mesmo assim, foi um prazer ler o seu encontro com duas bi-sexuais, porque se fossem lésbicas só o queriam para transportar as bagagens.

    O Carlos fala-nos de uma bola vermelha, mas afinal, o Carlos não nos descreve essa noite escaldante.

    De qualquer maneira uma história muitíssimo bem escrita (como sempre) e é tão bom recordar o passado...

    ResponderEliminar
  2. Agora é que li que o Carlos nos avisa, que publicou esta crónica em 2010, mas eu torno aqui só para lhe fazer uma pergunta:

    O Luisão sempre agrediu o árbitro no Fortuna Düsseldorf-Benfica?

    Pois bem, se o árbitro alemão caíu com um empurrão de um Luisão não pode ser muito machão.

    Bi-sexuais por todo o lado!!!

    ResponderEliminar
  3. Fiz boa viagem e cheguei ao fim sem qualquer precalço, apesar do receio de ver o carro derrapar numa dessas curvas perigosas das estradas da Córsega.
    Não fora o aviso prévio sobre a bolinha vermelha, o apelo à imaginação do leitor/a numa chamada de atenção para a leitura nas entrelinhas, eu diria que tudo continuava como dantes, ou seja, mais uma bela aventura de uma das muitas viagens do aventureiro CBO.
    Como li nas estrelinhas e tirei as minhas ilações, se a coisa aconteceu como eu estou a pensar, nem que no Céu as boas almas se apertem e aconcheguem o mais que possam, a tua santa tia - esteja lá onde estiver- não poderá jamais dizer "Assim coubéssemos no Céu".
    Simplesmente, porque quem já viveu o Paraíso na Terra, como tu dizes que viveste, não pode vivê-lo duas vezes.

    Jasus, Carlos Barbosa de Oliveira...ménage à troi??? Então a isso não se chamam orgias? Não acredito!! Tens de vir cá explicar isto melhor.
    Caso contrário, vou ter de dar razão à Ematejoca e admitir que não te conheço, tão bem como pensava.
    Bem feita, para eu não ser naif...:-)

    ResponderEliminar
  4. Elas eram o quê?
    Lébicas?
    Mas não muito pelo que me é dado perceber :)))

    ResponderEliminar
  5. as fotos deslumbraram-me...

    o texto, agradável de ler e sair com um sorriso.

    uma boa semana.

    (A propósito a minha foto de hoje é para o Carlos)

    ResponderEliminar
  6. Gosto destes finais abertos, apenas sugeridos ao leitor ;)
    A bolinha vermelha, também implícita, fica à medida da imaginação de cada um. O importante é que passou umas excelentes férias e descobriu um país cheio de encantos locais (e não só ;))

    ResponderEliminar
  7. Gostou o editor argentino e todos os seus leitores também! Há viagens assim, inesquecíveis! E que são sempre boas de recordar... e de relatar a quem nunca passou por essas paragens e paisagens! :)

    ResponderEliminar