domingo, 26 de agosto de 2012

Cenários de café


Ontem fui àquele cafezinho de S.João do Estoril onde passámos tantas horas falando de Borges, das ruas de Palermo que calcorreámos juntos, daquela bodega de La Boca onde "turista não entra", ou das novidades literárias que sempre encontrávamos na Corrientes.
Já lá não entrava há anos. A última vez foi num dia 9 de Março - dia do teu aniversário. Encontrei-o irreconhecível. Perdeu o ar de café de bairro de província. Aburguesou-se. Tornou-se igual a tantos outros, cheio de madeiras cheirando a plástico, balcões assépticos, onde estacionam doces e salgados numa orgia gastronómica série B.
Na esplanada, já não corre o vento que punha em alvoroço os teus longos cabelos negros e atiçava as minhas alergias primaveris, porque uns tabiques envidraçados protegem agora aquela esquina.
Também já não há jovens. Apenas algumas velhotas bebericando chá e lamentando a carestia da vida, quarentões adiando a hora de regresso a casa a pretexto de coisa nenhuma, um casal  fazendo contas à vida, uma mulher solitária de idade indefinida e olhar vazio consultando o relógio a cada dois minutos ( desesperando por um encontro adiado?), o empregado a ler “A Bola”,  um bêbado emborcando cervejas pelo gargalo da garrafa e eu, que ali fui não sei porquê, nem para quê.
Os jornais estão em cima da mesa, porque não tenho vontade de os ler. Veio-me à memória uma tarde em Península Valdez ( bem mais ventosa do que a de hoje aqui) onde não apreciávamos a cor do mar, nem esperávamos avistar uma baleia, porque só tínhamos olhos e palavras para os corpos lançados de helicópteros, que os tarados ditadores do teu país mandavam lançar ao mar, como punição por não se conformarem com o regime brutal que vos oprimia. 
Voltei para casa. À noite, fiz um brinde em tua memória. Lá no sítio onde estiveres, um anjo te terá ido dizer que não me esqueci que dia é hoje.
Passei a noite a olhar o céu, à espera que me viesses saudar. Vi-te – já madrugada alta-  na forma de uma estrela cadente.  Pedias desculpa por teres partido tão jovem, deixando um vazio imenso na minha vida. Um dia destes vou ter contigo.

8 comentários:

  1. Emocionante e de uma ternura ímpar!

    Saudade, palavra triste...

    Beijos.

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  2. Há dias assim que também não esqueço.
    um beijinho

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  3. Está bem, vá lá ter com ela, Carlos, um dia destes -afinal todos iremos embora- mas entretanto não deixe de escrever (de escrever assim).

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  4. Esta sua lembrança sempre me emociona de sobremaneira.

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  5. Fiquei sem palavras, perante essas recordações tão emotivas! Há dias assim, que nos ficam na memória, pelas melhores ou piores razões...

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  6. Todos nós temos essa memórias e todos nós, um dia, teremos esses reencontros, Carlos

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  7. Há tragédias que nos levam a vida, sim.

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