quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Gracias a la vida

No Rio de Janeiro, durante a Cimeira da Terra


Não sei se a minha vida é boa ou má. Talvez já tenha vivido outras mas, como não me lembro, vivo esta como se fosse a primeira- a única- sem fazer comparações.Sei que não gostaria de viver certas vidas. Daquelas muito organizadinhas, com empregos das 9 às 5, regresso a casa com passagem obrigatória pela escola para ir buscar os filhos que alguém deixou lá pela manhã, fazer o jantar, tratar dos filhos, pô-los a dormir e depois de uns minutos diante do televisor ir para a cama à espera do dia seguinte. 
Jantar uma vez por semana em casa dos pais ou dos sogros, almoçar fora no domingo, Natais alternados em casa dos pais ou dos sogros, férias em Agosto, porque as aulas dos filhos, a profissão, ou outra merda qualquer, a isso obrigam. Nem sei se vidas destas são realmente vidas, ou programas de computador delineados com algum cinismo por alguém que decidiu divertir-se. Mas isso é argumento para outra história…
Também não gostaria de ter vida de político. Sempre a tentar satisfazer ou a encontrar pretextos para recusar as cunhas dos amigos. Sempre a fazer concessões para tentar encontrar consensos com os partidos de oposição, com os lobbies que têm mais poder do que os governos, a procurar garantir os direitos das minorias e a arcar com críticas de todas as partes. Em deslocações constantes de carro ou avião, mas sem tempo para saborear os prazeres dos locais por onde se deslocam. Com a sensação, permanente, de que estaria a gastar dinheiro dos impostos dos contribuintes que, com o esforço do seu trabalho, me pagam o salário e as extravagâncias. (Está bem, eu sei que o Berlusconni vai às putas com dinheiro dos contribuintes e não se chateia nada com isso, mas comigo não dava…)
Também não gostava de ser vedeta. Nem do desporto, nem do espectáculo. Passar a vida a ser assediado por fanáticos a pedirem-me autógrafos, perseguido por “paparazzis” ansiosos por me apanharem a “curtir” com uma fulana numa piscina ou numa praia, fazer anúncios idiotas a produtos que nem consumo, frequentar festas do “jet set” e deixar-me fotografar com um sorriso nos lábios, quando a minha vontade é correr tudo à lambada, não faz o meu género.
Sou demasiado preguiçoso para ser vedeta. Gosto da minha privacidade e do convívio, em paz, com gente que valha a pena. Detesto sorrisos de celofane, beijar mamas de silicone, conversar com idiotas, aturar gente burra que gasta a vida nos convívios do croquete, a beber whiskey marado. Vedeta, para mim, também não dá!
Não me importaria, talvez, de ser muito rico. Sei que eles dizem que ser muito rico é chato, dá muito trabalho e obriga a pagar muitos impostos, mas mesmo assim talvez gostasse de experimentar. Não sendo possível, procuro contentar-me com o que tenho porque , na verdade, olho para o meu lado e penso que não tenho muitas  razões de queixa. E depois penso... para que queria eu 190 milhões de euros no Euromilhões? Já imaginaram a trabalheira que isso é?
Não sei se a minha vida é boa ou má. É a que tenho. Sei que sempre fiz escolhas de trabalho, com base no prazer. Trabalhar não pode ser uma angústia permanente, um sacrifício que arrastamos, como se estivéssemos agrilhoados a cumprir uma penitência. Tive sorte. Perdi algumas oportunidades, mas ganhei experiências de vida que não trocaria por ordenados milionários. Creio ter razões para considerar que, apesar de todas as agruras com que a vida me presenteou, tenho sido uma pessoa feliz.
Enquanto as minhas células não destrambelharem, os neurónios funcionarem sem percalços, os órgãos não se queixarem que os ando a tratar mal, as pernas me permitirem dar caminhadas à beira mar e os olhos me permitirem ver as belezas do mundo, continuo a achar que tenho uma boa vida. Mas se pudesse ser um bocadinho melhor do que nos últimos dois anos, seria magnífico.
Aviso: Este post surge na sequência do livro que escolhi para esta noite na Biblioteca de Verão no Crónicas do Rochedo. Se amanhã ( dia 10) lá forem ler, perceberão melhor.

20 comentários:

  1. O título fez-me lembrar de uma canção que gosto muito, salvo erro da Mercedes Sosa, mas que ouvi pela primeira vez na voz de Joan Baez... :)

    Quanto ao resto, estou como o Carlos: os últimos dois anos têm sido mais difíceis, mesmo assim não me posso queixar muito. E sim, também gostaria de ser rica, desse o trabalho que desse. Não sendo, é aproveitar o melhor que a vida tem para me (nos) dar! :)))

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    1. A canção (Gracias a la Vida) é da Violeta Parra, mas a Mercedes Soza interpretava-a magistralmente. Foi na voz dela que a ouvi pela primeira vez.

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  2. Pois...gostaria de ter tido outra vida!!!

    Ohhhhhhhhhhh...como gostava!!!

    Tenho a possível. Não a que gosto. Da que tive e tenho apenas a profissão foi exercida, sempre com gosto, tendo imensas saudades quando me aposentei.
    Hoje, procuro vivê-la o melhor possível, tentando fazer o que não fiz!(Agora ri, pois quase parecia a canção de Pedro Abrunhosa.)

    Beijos.

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    1. Podemos ( e devemos) aspirar sempre a melhor e eu não sou excepção. Não sou conformista,também gostava de ter tido uma vida melhor mas, na verdade, olho para o lado e vejo que há gente com muito mais razão de queixa do que eu.
      Não é que isso me sirva de consolação,mas ajuda-me a ver que há situações inaceitáveis. É para que elas cabem que eu luto um pouco...

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  3. Oh Carlos, concordo a 100%. Às vezes, quando os filhos são pequenos, temos de nos disciplinar mais. Mas nunca me resignei, e sempre sacudi o capote quando achei que devia, embora não parecesse bem!
    Só temos uma vida, temos de a viver o melhor possível!

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    1. Não sei se só temos uma vida ( embora suspeite bem que sim...) mas por via das dúvidas, o que temos a fazer é mesmo viver esta o melhor possível

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  4. Eu, ainda concordando em quase tudo o que o Carlos diz, não tenho interesse nenhum em ser rica. Gostava de poder ganhar um pouco mais, não muito, o suficiente para fazer férias e viajar alguma vez. Mas pago esse preço por trabalhar no que gosto e, aliás, moro num lugar de que gosto. Pode-se pedir mais, claro.

    (Bem pensado, se fosse rica poderia fazer férias e viajar.)

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    1. Na verdade eu não sei bem o que é ser rico. Penso mesmo que isso é relativo e que alguns ricos aspiram a sê-lo porque se comparam com outros ainda mais ricos e acham que são apenas "remediados".
      creio que a maior riqueza é termos saúde e sermos felizes, mas a felicidade também é relativa...
      Uma complicação, é o que é...

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  5. Eu também não me importava de experimentar ser rica :) mas na verdade não faço assim tanta questão disso. A tal ponto que até deixei de jogar num euromilhões que se faz sempre lá no meu serviço. Alguns colegas não se atrevem a deixar a sociedade com medo de que saia aos outros e não a eles. Eu que tenho medo de tanta coisa ...não me importei com isso.

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  6. Às vezes jogo, mas não de forma sistemática. E faço-o com pouca fé, devo admitir, porque sou daqueles que pensa que só sai aos outros...

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  7. Carlos, porque será que nada do que aqui escreves, me surpreende, escandaliza ou me faz olhar-te de modo diferente?

    Acho que tens sido tão transparente, que já te conheço melhor do aquilo que tu próprio imaginas. Verdade! :-)

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  8. Ó diabo, começo a ficar preocupado, Janita. É que o coiso também se diz transparente e não passa de um traste :-)))
    Beijinhos

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    1. :)))

      Não te preocupes, Carlos!
      O coiso não passa de um traste, porque a transparência que ele se arroga de usar, não passa de um disfarce.
      Contigo é diferente. Quando escreves acerca de assuntos relacionados com a tua vida pessoal e profissional ou quando manifestas a tua opinião sobre os procedimentos vergonhosos e falta de palavra de certos políticos, de uma maneira geral, não usas de rodeios nem de meias palavras. Vais directo aos assuntos de uma forma clara e precisa.
      É isso que eu classifico de transparência.
      Tem sido através desta minha apreciação da tua forma de ser e estar na vida, que fui formando o meu próprio conceito acerca da tua personalidade e carácter. Daí, eu dizer que te conheço e considero um homem de bem!

      O resto, já sabemos que existem reacções e determinadas atitudes que nem nós próprios podemos prever em nós mesmos, quanto mais em relação a outras pessoas.

      Penso que,de certa forma,respondo também à Ematejoca. Mas, faço questão de acrescentar que acredito e estou plenamente convicta,que conheço muito da personalidade do Carlos.
      Porquê? Pois, Teresa, isso é que não vou poder dizer-lhe. Tanto mais que há intuições para as quais não se encontram explicação e muito menos palavras exactas.

      Obrigada, Carlos e desculpa a extensão do comentário.

      Beijos.

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  9. O Carlos é um aventureiro.
    Eu sou um conservador.
    Gosto de uma vida pacata, de viver em família (mulher e filhas), de estabilidade, de algumas rotinas.
    E é assim que sou feliz.
    Só demonstra que a felicidade pode ser uma coisa muito diferente para duas pessoas.

    O que é que eu faria com 190 milhões de euros?
    Também não me passa pela cabeça.
    Era isso que me fazia feliz.
    Definitivamente, não.
    A felicidade não se compra.
    Compramos coisas, há que compre pessoas, e há pessoas que se vendem.
    Mas ninguém compra a felicidade.

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    1. Aventureiro já fui, Pedro. Agora vivo mais na ânsia de o continuar a ser.
      E, muito a sério, não queria mesmo ganhar os 190 milhões. O meu conceito de felicidade também não passa por aí...

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  10. Também eu continuo a pensar que tenho uma vida muito boa, porque foi a vida que escolhi livremente: vida muitíssimo organizada, fazer as lidas da casa, tratar dos filhos, e ir para a cama com o meu "Kraut", ciente da minha felicidade de mulher responsável pela sua família.

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  11. Não acredito, que alguém conheça completamente o seu semelhante, porque nós próprios não nos conhecemos e, quando digo que tenho uma vida feliz, será verdade? Nem eu o sei!

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    1. A felicidade, felizmente, não se pode medir. Apesar dos esforços de alguns sociólogos e antropólogos e o abnegado esforço dos media, a Felicidade continua a ser subjectiva. O importante é que nos sintamos felizes, não se estamos bem colocados nos rankings da felicidade estabelecidos por antropólogos e sociólogos.

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  12. Ui, este post dá pano para mangas. Concordo com quase tudo, embora encare com menos 'dureza' (por falta de melhor palavra) quem escolhe as vidas mais certinhas. O meu único problema com essas vidas certinhas é quando começam a ser a norma, e tudo se julga pelo número de filhos e a marca da carrinha. E quem foge à norma, por escolha ou não, é olhado com desconfiança. Ou com infinita piedade, o que é mil vezes pior. Agora não me choca muito uma vida rotineira. A minha é-o, mas procuro pintá-la com cores novas todos os dias. Um livro, um hobby novo, a magnólia que finalmente deu flor, um ouriço na boca do cão...pequenos episódios que temperam a rotina mais ranhosa. E viagens, que felizmente tenho podido fazer com regularidae. Sinto-me afortunada, tenho uma vida boa (lá está, o que é uma vida boa? Depende de cada um :)) e não a trocava, mesmo com o emprego que não me realiza. Quero lá saber. It's just a stupid job. A minha vida é o que está para além disso. Agora que o jackpot era bem-vindo, isso era! Por isso, já sabe, se ficar milionário e não se quiser maçar a pensar na sua fortuna, eu posso aliviá-lo desse fardo com uma combinação de vinte e um números ;)

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  13. O meu segundo comentário era uma resposta para a Janita que pensa que conhece bem o Carlos, o que eu não acredito.

    De resto, a minha resposta a esta crónica é o meu primeiro comentário.

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