domingo, 5 de agosto de 2012

Um coração volúvel



Palma de Maiorca, Verão de 1900 e qualquer coisa ( sei qual, mas isso agora  não interessa nada...)
 Estava a passar férias com os meus pais, digerindo ainda mal não ter ido para o Kruger Park com uma namorada de ocasião, cujos pais engraçaram comigo e me ofereceram “boleia”.
O meu pai- sempre mais sensível a compreender os meus devaneios amorosos e as consequentes crises sentimentais- procurava entusiasmar-me com as maravilhas da ilha e com inusitada frequência chamava-me a atenção para umas belezas nórdicas que se passeavam pela piscina do hotel. Mas eu estava inconsolável. O meu coração estava no Kruger Park e o meu pensamento voava para lá à boleia de uma longa cabeleira negra por quem me embeiçara meses antes de acabarem as aulas. Não era época para loiras deslavadas. Para mim, aquele era o Verão das morenas e ponto final.
Uma noite, à beira da piscina, tudo mudou. O meu pai convidou-me a partilhar com ele um Lumumba. Tratava-se  de um cocktail anunciado como típico das Baleares com uma composição explosiva: leite com chocolate, café e rum. “On the rocks”, pois claro! 
Ao segundo Lumumba, estava outro. Subitamente tornara-me comunicativo e cheio de boa disposição
Daí para a frente não parei de convidar miúdas para dançar e, talvez à décima tentativa, encalhei com uma sueca sorridente que falava mal inglês mas tinha uma linguagem gestual extremamente sugestiva. Nessa, e nas noites seguintes, não voltei ao Kruger Park. A sueca não me dava sequer tempo para desviar os pensamentos. Ao fim de uma semana viemo-nos embora. Quando voltei a encontrar a miúda da cabeleira negra, no regresso às aulas, disse-lhe que tinha passado de moda. Só queria uma miúda loira que substituísse a sueca.
Também não voltei a beber Lumumbas. Tempos depois, apareceu o Bailey’s. Que por caso detesto...
Porque será que me lembro agora disto, diante de um computador, tão anódino e desinteressante como uma folha de papel em branco? Será porque estou sentado no meu rochedo, com o portátil sobre os joelhos,  a olhar o imenso azul turquesa do mar do Guincho e me dá vontade de cumprir uma vez mais o destino de  partir à descoberta do que se esconde para lá do horizonte?


17 comentários:

  1. Também eu prefiro os loiros, mesmo sem beber lumumbas.

    Carlos, beba esta noite umas lumumbas para escrever uma crónica muito amorosa sobre a minha amiga Angie (também loira).

    Admiro muito o seu pai e, a sua paciência para aturar um filho com um coração tão volúvel.

    Também me apetecia partir à descoberta do que se esconde para lá do horizonte... mas fico em casa e, vou ver a transmissão directa do Festival de Salzburgo de Ariadne auf Naxos.

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    1. Prometo fazer os possíveis para satisfazer a sua vontade, mas tem de me prometer uma coisa:entrega a carta à Merkel. Valeu?

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  2. Que maravilha de Crónica, Carlos! Adorei.
    Simplesmente, porque tudo me parece ter sido contado sem a pretensão de te fazeres passar por um bom "rapaz".
    A juventude é assim mesmo. Tanto se pode gostar de loiras como de morenas, tem é que haver proximidade e o mínimo de afinidades.
    Claro que fiquei com pena da miúda da cabeleira negra. Caramba!
    Também não se diz assim de chofre a alguém, que se passou de moda!

    Quanto ao súbito desejo de partires à descoberta do que se esconde para lá do horizonte, acho que andas a precisar de te apaixonares de novo.:)
    Pois, segue o teu instinto e quem sabe se desta vez não te aparece uma ruiva, para variar.

    E se queres saber, não acredito que o teu coração seja tão volúvel, como dizes. Acho é que se sente um pouco solitário...

    Lembra-te do que o Millôr Fernandes disse, sobre as tentações.

    Beijinhos, rapaz!

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    1. Quem não é volúvel na juventude, Janita? E ela compreendeu, porque ainda hoje somos amigos.
      Quanto às tentações, faço os possíveis por não as deixar escapar :-)
      Beijinhos

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  3. Será? E o que há para além do horizonte a não ser nós próprios?

    Boa semana!

    Beijo

    Laura

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    1. O que há para lá do horizonte é tanto, tanto, Laura! Além de nós, claro..
      Beijo

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  4. Suponho que faz parte da adolescência essa volubilidade nas relações amorosas. Alguns continuam assim a vida inteira... :)))

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  5. Once a wanderer always a wanderer! : )

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  6. Sabe-se lá como foi no Kruger Park...
    Gostei do texto. Boa semana!

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    1. Também é verdade, mas por lá só animaizinhos... digo eu!
      Boa semana

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  7. Carlos,
    Houve uma época da minha vida (da adolescência até aos vinte e poucos) que era doido por loiras.
    Uma cabeleira loira punha-me doido!
    Depois, passou a paranóia.

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    1. Eu endoidecia mais por uns olhos verdes, Pedro

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    2. Eu "endoidecia" mais por uns olhos verdes, Pedro. A cor do cabelo para mim nunca foi (muito) importante. A dos olhos continua a ser.

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  8. Eu também teria ficado desgostosa se tivesse de trocar o Kruger Park por Maiorca. Fosse qual fosse a cor do cabelo do acompanhante :)
    Digo-o sem qualquer desprimor para a ilha espanhola, até porque dela guardo gratas memórias. Mas em termos de animália, convenhamos que fica muito aquém :)

    Foi uma boa partilha de fim de tarde, esse seu momento de nostalgia no Rochedo. Gostei muito.

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    1. Não sou fã de Maiorca, não, Safira.
      Ainda bem que gostou do fim de tarde. Volte cá amanhã, pois acho que também vai gostar.

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