domingo, 19 de agosto de 2012

Uma aventura em Nathan Road




São quase cinco da manhã de um  sábado de Maio em Hong-Kong. Enquanto um qualquer politico luso  debita dislates numa televisão perto de si, sou o único português num grupo de sul-americanos que desce D’Aguillar Street (Lam Kwai Fong) rumo ao barco que nos há-de levar a  Kowloon, onde estamos hospedados.
 Àquela hora a rua ainda regorgita de gente subindo e descendo, entrando nas discotecas e bares, de onde saem, espraiando-se no ar, decibéis em doses generosas. A animação envolvente é contagiante, mas o  estridente ribombar de um panchão atravessando a noite,  aguça-nos o fervor revolucionário e descemos a rua entoando cânticos de apoio à revolução bolivariana, depois de um jantar de despedida que sempre nos une nestas ocasiões. 
A travessia corre animada, sem incidentes.
Quando desembarcamos em Kowloon, Carlitos quer tirar uma última fotografia de grupo, tendo HK como pano de fundo. Acedemos todos, sem hesitações.
Uma centena de metros  depois  entramos na Nathan Road ( mais conhecida por Golden Mile,por ali se encontrarem grandes centros comerciais e lojas de marcas de luxo). No passeio, dois vultos esbeltos, em pose oferecida, despertam a libido  de  Enrique e Carlitos.
Lanço o aviso:
Cuidao! Son maricones…
Na verdade não são, mas é a expressão que me sai. São  dois transexuais que ganham a vida na rua, com favores sexuais a turistas ocidentais, rendidos à sua beleza ( e talvez alguma coisa mais...).No Oriente chamam-lhes Ladyboys.
Carlitos reage com um esgar de espanto
“No es possible!”
O velho Enrique, apanhado pelo aviso no meio do jogo de sedução  perde as estribeiras.
Maricones? Seguro que son maricones?
Sem esperar  resposta apalpa-lhe o baixo ventre.
O caldo está entornado. Uma faca de ponta e mola salta, lesta, da mão da ladyboy ultrajada. Enrique recua, assustado. Carlitos está petrificado. Juanito e Luis observam a cena  e tentam acalmar os ânimos. O brasileiro Ruben reza a Nossa Senhora de Fátima,  Marcella e eu abordamos as ladyboys. Tentamos sanar o mal entendido. Levo um safanão. Conseguimos  a absolvição, mediante a oferta  de 100 HK dollars ( aproximadamente 20€)
Ânimos serenados, continuamos o caminho em direcção ao hotel. Há mais ladyboys no caminho, oferecendo o seu corpo. Algumas lançam-nos olhares lascivos. Os meus amigos sul-americanos olham-nas de soslaio. Quase a chegar ao hotel, ordem de paragem numa esplanada. Dez  Coronas fresquinhas para aliviar as tensões. Rimos, relembrando a história.
Simone fala das ladyboys tailandesas, que viu numa escala em Bangkok. A brasileira Carlota  aproveita a oportunidade para fazer um sermão e criticar o machismo.
O velho Enrique está em silêncio, com o  orgulho ferido. São oito da manhã quando chegamos ao hotel. Dentro de poucas horas vamos separar-nos. No próximo encontro, vamos todos rir desta cena, voltar a lembrar Che Guevara e  entoar cânticos revolucionários. Na esperança de que ainda  prometam amanhãs que cantam.

12 comentários:

  1. Essa de constatar um facto assim "às apalpadelas" nunca costuma ser grande ideia... :)

    Tudo está bem, quando termina em bem! :D

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    1. Mas podia ter acabado muito mal, Teté. Imprevidências...

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  2. Seu colega pediu para apanhar ao apalpar a figura.Ainda bem que vocês tinham algo que podia interessar-lhes. Nem vou entrar no mérito de que se fosse mulher, podia.Afinal, em toda profissão existem regras de conduta.

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    1. O meu amigo Enrique, falecido em Janeiro como na altura referi no CR, era um chileno já bastante entrado na idade e foi sempre bastante imprevidente. Apesar de ser um excelente profissional, tinha grandes infantilidades e creio que nunca recuperou verdadeiramente desta cena.
      Tem toda a razão, quando diz que em todas as profissões existem regras de conduta, o problema é que nem todos as respeitam...

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  3. Os/as Ladyboys agora, em Macau, estão em todo o lado, Carlos.
    O que me leva a crer que terão procura.
    E, como dois que vi no sábado, são cá uns brutos (as)!!!

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    1. Também pude constatar isso na última vez que estive em Macau...

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  4. Afinal já andava por aqui desde o inicio.
    Gostei deste post porém tive medo que as coisas azedassem. Nunca se pode prever a reacção desses ladyboys.

    Cada dia eles são figuras mais comuns pelas nossas praças.

    Costumo seguir um conselho da minha avó materna:
    «quem vai...vai... e quem está...está»
    Queria dizer que não devemos meter-nos com desconhecidos ou comentar os seus actos.

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    1. Tem toda a razão, Luís. Além disso, é aconselhável não cometer imprevidências. Esta podia ter saído muito cara...
      Gostei de o rever por aqui

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  5. Já pensou em escrevr um livro de memórias?

    Um semana sem confusões, amigo meu

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    1. E quem as ia ler, amiga São?
      Uma boa semana também para si

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  6. Nunca conheci ninguém com uma vida tão recheada de aventuras e vivências tão extraordinárias e incríveis como as tuas, Carlos.
    Um dia, como bem diz a São, tens de escrever um livro sobre as tuas memórias.

    Felizmente, este caso terminou razoavelmente bem, mas poderia ter tido graves consequências.
    Imagino como o teu amigo Enrique se deve ter sentido pesaroso, com o seu acto irreflectido.

    Parabéns Carlos!
    Não consigo resistir à leitura das tuas crónicas, e depois de as ler fica difícil não comentar! :)

    Beijinhos.



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  7. Quem tem uma vida errante, arrisca-se a ter muita coisa para contar, Janita.
    Mas, para além dos leitores que amavelmente me seguem quem quereria ler as memórias de um desconhecido?
    Obrigado pelas tuas palavras
    Beijinhos

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