domingo, 16 de setembro de 2012

As aparências iludem...



A espuma da cerveja  confundia-se com a saliva  acumulada nos lábios, que seguravam uma beata apagada.
Na mesa repousava o copo e um boletim do Euromilhões. O homem fazia contas pelos dedos e, de quando em vez, os lábios moviam-se em palavras imperceptíveis balbuciadas numa cadência  de surdina interior.
O homem estava na esplanada de duas mesas ocupando, pois, metade do espaço.  Não havia mesas vagas porque um outro homem, de executivo trajado, fora  atraído para a  mesa sobrante, enquanto esperava a concretização de um encontro adiado. Cada 30 segundos olhava para o relógio, impaciente. Entrou na cena de forma inesperada:
-O senhor tem uma caneta?- perguntou  num  esforçado arranque de bêbado.
O homem levantou os olhos do telemóvel e fixou o olhar no seu parceiro, analisando os contrastes. A roupa de maltrapilho com o seu fato alinhado irrepreensivelmente limpo; a barba desalinhada  do velho, com o seu escanhoado perfeito; as botifarras esgaçadas, com os seus sapatos reluzentes.
  Hesitou em emprestar-lhe a Montblanc. E se fosse um estratagema para lha roubar?
Na ausência de resposta, o velho insistiu uma vez mais, afivelando as palavras
- O senhor, por favor, tem uma caneta  para eu fazer o Euromilhões?
Tentou ganhar tempo, na esperança que chegasse a pessoa que esperava.
- O que é que o senhor fazia se lhe saísse o Euromilhões?
O velho passou de observado a observador.
Mas que raio é que este caramelo tem a ver com isso? Mas não ficas sem resposta…
Gastava-o todo em mulheres e vinho. Com esse dinheiro todo, as mulheres nem se importavam que eu cheirasse mal da boca, ou desse uns traques de vez em quando. Se andar bem vestido e lavadinho, mas não tiver guito é que elas não vêm cá comer à minha mão. Só por amor e nisso já sou velho para acreditar. E o senhor que fazia? Comprava carros e casas?
O homem da Montblanc sentiu-se desconfortável, foi tentando enrolar a conversa na expectativa de se esquivar com a desculpa de que chegara a pessoa de que estava à espera mas, perante a insistência do velho puxou da caneta e disse:
- Dê cá o boletim que eu preencho...
- Eu sei fazer cruzes, senhor, não se incomode. Mostrar os números a outros dá azar!
O homem da Montblanc olhou para o relógio mais uma vez, rodou a cabeça 180 graus à procura de alguém e finalmente, a contragosto, lá estendeu a caneta ao maltrapilho, que a remirou atentamente e por fim, perguntou:
- Isto é ouro? 
- Não, que disparate! É só a cor...
O maltrapilho concentrou-se no boletim e fez a primeira cruz. Contou pelos dedos e fez a segunda. O homem da Montblanc exasperava com a lentidão do velho mas, por cada cruz que ele fazia, tentava ver o número escolhido.
Finalmente uma voz ecoou entre os dois
- Desculpa o atraso! Problemas de última hora lá no escritório...
O homem da Montblanc olhou para o relógio  não faz mal, o senhor despache-se porque tenho de me ir embora, já estou atrasado.
O velho coçou a cabeça como se estivesse a catar os números da sorte entre os cabelos, deixou de fazer contas pelos dedos, preencheu os números que faltavam, agradeceu, o homem da Montblanc arrancou-lhe a caneta das mãos, de nada,  deu uma espreitadela ao boletim, fixou os números, limpou a caneta com um guardanapo de papel Então boa sorte meteu a caneta no bolso antes de se meter ao caminho, foi abalroado por um  senhor bem vestido de idade avançada que lhe pediu imediatamente desculpas envergonhadas Não tem mal... respondeu ensaiando a retribuição da vénia. Isso acontece, não se preocupe...
Envolveu a mulher  num amplexo úmbreo e, enquanto se afastavam, murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido.
Dois minutos depois o casal entrava na tabacaria. Ela estranhou a pressa dele e o interesse em  fazer o Euromilhões, ele explicou-lhe que estava quase na hora de encerrarem as apostas e fixara os números do velho, por isso tinha mesmo de jogar. Levou a mão ao bolso do casaco para pegar na caneta. Não estava lá.
Perdi-a. 
Roubaram-ta.
O homem que me deu o encontrão à saída da esplanada.
Vamos lá
Foram. A esplanada estava vazia. O senhor bem vestido que lhe dera um encontrão, alguém sabia dele?
O empregado descreveu uma personagem e perguntou se correspondia ao que procuravam. Exactamente, é esse mesmo. 
Cruzou-se com os senhores, mas não chegou a entrar. Deu meia volta e saiu outra vez. Tenham cuidado se o virem, porque ele é conhecido aqui na zona por fazer uns roubos.
E aquele velho maltrapilho que estava ali comigo na esplanada?
Quem? O dr. Castilho? Hoje já não volta cá. Deve ter ido entregar o Euromilhões
Aquele velho é doutor?
É, mas está reformado de psiquiatra há uns anos e agora passa aqui as tardes na esplanada. Está um bocado avariado da cabeça  e veste-se assim mal, porque gosta de se fazer passar por pobre. Diz que é para gozar com as pessoas, mas também é um bocado avarento. Como vive sozinho vem cá almoçar e deixa-se ficar por aí até nós fecharmos. Às terças e sextas é que vai embora mais cedo. Vai fazer o Euromilhões e depois não sei qual é a vida dele, mas parece que anda por aí a meter-se nos copos e a gastar dinheiro com mulheres. O senhor sabe como é, cada um tem a sua vida e nós não temos nada a ver com isso. Só lhe contei isto porque o senhor me perguntou...

5 comentários:

  1. História que me encheu imteiramente as medidas!
    Bem cá no fundo fiquei com uma certa inveja do Dr. Castilho!
    Que bom viver a vida sem a mínima preocupação com o que os outros possam pensar, sem ligar nenhuma importância ao luxo nem às aparências. Pena ele não ligar um pouco mais à sua higiene pessoal. Aí, ele teria a vida que eu gostaria para mim...
    Quanto ao roubo da Montblanc, fiquei toda contente. Bem feito!!

    Beijos.

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  2. Nem sempre o que parece é!

    P.S. A foto foi tirada no parque em Vizela.

    Beijos.

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  3. Moral da história: Mais vale não ter uma Montblanc :)

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  4. Acrescento ao comentário da Gábi - ou, tendo, continuar a escrever com esferográficas da loja dos chineses :))

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