quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Memórias de África


O texto revelava que já não escrevia cartas há muito tempo e aderira em pleno às novas tecnologias. Nada de surpreendente numa engenheira coca bichinhos…
Resumia-se ao seguinte:
Olá! Procurei-te no FB mas não te encontrei. Há anos que não sei de ti. Reformei-me e regresso em Junho  a Portugal. Se andares por aí, diz qualquer coisa.
Kisses
( depois o endereço electrónico)
Quando regressei a Lisboa enviei-lhe um mail a dizer que só estaria de volta a Portugal no final de Julho e nessa altura contactaria com ela.
Assim fiz, nos primeiros dias de Agosto. Acabámos por nos encontrar num sábado, perto de Tróia, onde ela decidira fazer escala a caminho do Algarve.
Muitas horas de esplananço, conversas em dia, risos e algumas emoções à mistura na evocação de amigos entretanto desaparecidos. Incertezas quanto ao futuro, comparações inevitáveis com o país que deixáramos para trás 35 anos antes.. A minha explicação da Argentina, a explicação dela do Canadá., com amores e desamores de percurso que, por razões diferentes, não se enterraram nas águas do mar.
Até que a conversa se desvia para uma reportagem sobre  a Papua Nova Guiné que eu escrevi e ela acidentalmente lera num percurso entre dois pontos quaisquer do universo americano. Parámos durante muto tempo a conversa entre viagens, tendo o mar como fundo. Até que, a determinada altura, ela me faz uma pergunta:
- E África? A África portuguesa, nunca te interessou?
Confessei-lhe que com a excepção de Moçambique, onde estive duas vezes, nunca me sentira atraído a visitar esses países lusófonos. No entanto, era extremamente curioso no conhecimento  da passagem dos portugueses pelo mundo, como atestava o que ela lera na minha reportagem sobre a Papua. Da Ásia à América Latina, de Goa a Colónia del Sacramento, fui recolhendo, um pouco por todo o mundo, vestígios da presença portuguesa. Disse-lhe mesmo, que ando a planear uma visita a Timor.
-Porque razão não me interessava então por África?- insistiu
E eu, sem encontrar uma resposta que a mim próprio convencesse, lá fui balbuciando explicações esfarrapadas.
Fiz o caminho de regresso a  Lisboa a tentar encontrar uma explicação convincente, mas não encontrei.
Até que há dias, numa reportagem de José Eduardo Agualusa sobre Luanda, na P2, creio ter encontrado a resposta. E não gostei de a saber… porque espelha bem a ideia que tenho sobre a vida na África lusófona.

5 comentários:

  1. Pois eu sinto saudades dos cheiros dela, da Àfrica também, claro...

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  2. Reencontro e Memórias de África? Tudo diferente do que eu imaginava! Mas o que é que contigo é igual aos demais?

    Como nunca pisei solo africano, não lhe conheço os odores nem os sabores.
    Vou tentar ler a reportagem de Eduardo Agualusa a ver se fico a conhecer a resposta que obtiveste a esse teu desapego pela África lusófona, embora já suspeite quais os motivos.
    Beijinho.

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  3. Acho que sei qual é a reportagem, Carlos.
    Deprimente!

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  4. Posso imaginar as razões... sem necessidade de ler a reportagem. Eu sinto uma paixão desmedida pela literatura africana em língua portuguesa, o que me leva a estar atenta àquela mais do que triste realidade, especialmente sobre Angola.

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  5. Ainda bem, que a engenheira coca bichinhos quisesse ver o Carlos pura e simplesmente por curiosidade e, não, porque o Carlos lhe tenham partido o coração há 30 anos.

    Gostava de ler a reportagem de Eduardo Agualusa para conhecer a resposta, porque não faço a mínima ideia do que o Carlos pensa sobre a vida na África (antiga portuguesa).

    Estou outra vez com problemas na net; para chegar aqui foi um caminho muito longo...

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