domingo, 30 de setembro de 2012

Um hooligan nos sixties



Cenário:Tarde de domingo, 24 de Fevereiro de 1963, era eu ainda uma criança.
( lembro perfeitamente a data por uma razão que explico  adiante)
Naquela tarde de domingo jogava-se, no velho estádio das Antas, um Porto-Benfica que era praticamente decisivo para o título. 
Um familiar lisboeta, encarnado por fora e por dentro, não queria perder o jogo e envidou todos os esforços para comprar um bilhete. Não o tendo conseguido, pediu a ajuda do meu pai que resolveu o problema,  determinando  que ele iria em meu lugar e eu ficaria em casa a ouvir o relato.
A decisão provocou-me enorme revolta. Sentia-me injustiçado com a decisão e ainda por cima por ser impedido de ver o jogo por intromissão de um familiar que eu raras vezes via e tinha o enorme desplante de ser benfiquista. 
De nada me valeram as lágrimas e os protestos. A decisão do meu pai era inabalável, indiscutível e sem direito a recurso no tribunal familiar.
Passei vários dias a rogar pragas a esse familiar, desejando-lhe doença súbita que o impedisse  de se deslocar ao Porto. Em vão! Na tarde de sábado, a campainha tocou e o primo Henrique anunciou a sua presença. Talvez ciente da injustiça, o primo do meu pai trouxera-me de presente uma caderneta de cromos da bola quase completa onde estava incluída o "carimbado"  ( o jogador mais difícil de encontrar e que era alvo da cobiça de todos) o que garantia que, com mais alguns tostões e bons negócios nas trocas, eu teria direito a receber uma bola de futebol dali a uns dias.
A minha revolta era enorme e nem essa tentativa de suborno do primo Henrique, contribuiu para que eu o recebesse com um sorriso.
Já a noite ia alta e eu me preparava para ir para a cama, quando a Providência decidiu fazer justiça e veio em meu socorro. O telefone tocou. Do lado de lá da linha, o meu cunhado anunciava que a minha irmã entrara em trabalho de parto. 
Alvoroço lá em casa! A segunda neta estava quase a entrar neste mundo (que na altura ainda não enlouquecera, apesar de a minha mãe afirmar  que sim, cada vez que ouvia os Beatles, ou via os jovens de cabelo até aos ombro e vestindo jeans).
Os meus pais analisavam qual a melhor altura para rumarem a Lisboa. Logo nessa noite, ou de manhã cedo? Depois de animados conciliábulos e alguns conselhos do meu primo Henrique, que os aconselhavam a viajar apenas na manhã de domingo,os meus pais decidiram ir ainda de madrugada. 
Para mim, a hora da partida era indiferente, mas intimamente fiquei satisfeito por os meus pais terem ignorado os conselhos do primo Henrique.
Num repente a casa entrara em reboliço. As criadas, chamadas à liça para fazerem os preparativos para viagem e receberem as instruções que deveriam respeitar durante a ausência da autoridade paterna, a Bina chamada à pressa para vir tomar conta dos três filhos que não tinham respeito às ordens das criadas e eu, no meio daquele vendaval de emoções a sair-me com a tirada mais disparatada que me poderia ocorrer:
- Que bom, assim amanhã já posso ir ao futebol com o primo Henrique!
O meu pai fulminou-me com o olhar, pela cabeça deve ter-lhe passado a ideia de dizer " não vais, não senhor", mas não teve coragem de me contrariar.
No dia seguinte senti-me na obrigação de ir à Missa agradecer a Deus e a todos os santinhos que vislumbrei na Igreja a graça de me terem concedido a possibilidade de ir ver o grande jogo e, de caminho, a minha gratidão pela segunda sobrinha que, não tinha dúvidas, se viria a tornar uma portista de gema ( Devo ter falhado qualquer coisa nas minhas preces, porque a minha sobrinha é benfiquista e ainda por cima teve o desplante de ser jogadora de voleibol das águias e nessa condição se ter sagrado campeã nacional, uns anos mais tarde)
Depois de um almoço comido à pressa, lá fui na companhia do primo Henrique ver o jogo. Eu deitava fervor clubista por todos os poros e ia fardado a rigor com as cores azuis e brancas. Dentro de algumas horas ia começar a celebrar o meu primeiro título de campeão nacional. E, para que tudo fosse perfeito, o sol brilhava com esplendor naquela tarde fria.
Como é óbvio, ficámos sentados na bancada central em espaço reservado aos sócios portistas. Quando as equipas entraram em campo o primo Henrique teve o decoro de não aplaudir os jogadores do Benfica mas, como ficou impávido perante a entrada do FC do Porto, recebido em euforia, ao som do hino cantado por Maria Amélia Canossa, as pessoas em redor perceberam que aquele tipo não podia ser boa rês.
O jogo começou e o primo Henrique conseguiu comportar-se decentemente, até ao momento em que José Torres se atirou para a piscina em plena grande área portista e o árbitro leiriense, Reinaldo Silva, apontou a marca da grande penalidade, muito contestada pelo público da casa. Foi então que o primo  Henrique não se conteve e retorquiu:
- Então não foi penalty? Foi e do tamanho da Torre dos Clérigos!
Na fila de trás, um conformado portista apenas replicou:
- Parece-me qu'istá aqui um fulano cansado de biber!
O primo Henrique lá recuperou a compostura e remeteu-se novamente ao silêncio. Assim ficou até ao momento em que o Benfica marcou o segundo golo. Incapaz de conter as emoções festejou de forma efusiva o golo que praticamente garantia a vitória e o campeonato aos encarnados.
Foi então que, na fila de trás, o adepto portista também deu azo às suas e pespegou-lhe com uma garrafa de cerveja na luzidia careca, de onde lhe começou a escorrer um fio de sangue. Constatei que afinal era vermelho, apesar de o primo Henrique sempre se reclamar de sangue azul. Além de benfiquista, era mentiroso, concluí. Mais uma razão para aplaudir a agressão...
Por decoro não aplaudi. A tristeza tinha-se apoderado de mim, ainda mais forte do que uma dor de dentes que começara a manifestar-se durante a Missa e que se tornara insuportável durante o jogo. (Horas mais tarde, uma tia beata afirmaria, convicta, que fora castigo de Deus por eu só me lembrar dele quando precisava. Eu acreditei.)
Regressei a casa triste e nem as notícias do nascimento da minha sobrinha me aliviaram a dor. O primo Henrique voltou a Lisboa feliz e com um enorme galo na "cabeça", que lhe valeu alguns "pontos". Suficientes  para o meu FC do Porto ganhar o campeonato, ingloriamente perdido graças a um árbitro leiriense que descaradamente roubara o meu clube.  


Aviso ( se por acaso gostaram deste post agradeçam ao Rui da Bica. Foi um comentário dele ao meu post do último domingo me levou até uma magnífica descrição que fez  de um Porto Benfica e me fez recordar este episódio. Aconselho-vos a leitura. Vão aqui e sigam os links que ele deixou. Garanto-vos que não se vão arrepender.)

5 comentários:

  1. Excelente texto de fato!
    hahahah
    Lembranças como esta valem ser repartidas.
    Um grande bj querido amigo

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  2. Uma boa aposta: dois portista de gema são os responsáveis pelos momentos de grande prazer, que tive durante a leitura desta magnífica crónica de domingo à noite.

    O Carlos diz que os ingleses são arrogantes, porque não conhece a minha família lisboeta. Ao ler esta história até saltei de contente, porque imaginei o meu primo, adepto do Sporting, a ser agredido por um adepto portista, confirmando assim, que o sangue azul dele também é uma treta.

    Não tenho coragem, antes, estou proíbida de escrever sobre a minha vida e a dos meus familiares assim como publicar fotografias, mas às vezes até me apetecia, mas não, continuo a escrever sobre temas culturais.

    Boa noite e muito obrigada, Carlos. ADOREI!!!

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  3. Gostei muito do relato e não foi por acaso.
    Foram dois acontecimentos que marcaram a tua vida e agora, primorosamente contados.
    A história desse célebre encontro Porto/ Benfica, narrado pelo Rui da Bica também está divertidíssimo e já guardei os links.

    Óptima crónica esta, Carlos! Assim do tipo 2 em 1. Adorei!!

    Essa tua paixão pelo FCP já vem quase desde o berço. Fantástico!
    Nessa altura ainda não «havia» Pinto da Costa.:)

    Beijinhos.

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  4. Olá amigo Carlos ! :)))
    Sabe que eu estava convencidíssimo de ter comentado este post que li, na altura, com muita atenção e de lhe ter agradecido a menção aos meus links ? :)))
    Calculo que qualquer "chamada" de emergência na altura me tenha afastado do computador e posteriormente ter ficado com a ideia de ter comentado e agradecido.
    Desculpe não o ter feito, como teria sido minha obrigação !
    Muito grato pela simpatia ! :)))
    Este relato com o "primo Henrique" está o máximo! eheheh ....há "males" que vêm por bem !!! eheheh ... e o Carlos lá "conseguiu" ir ver o jogo e ganhar a caderneta de cromos ! :)))

    Grande abraço !
    .

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