sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Crónica de uma canalhice


(Crónica só para adultos, não aconselhável a pessoas sensíveis!)
Nasci com todas as condições para vir a ser um adulto machista, impertinente e a cheirar a cavalo, apreciado por muitas mulheres que certamente detestaria.
Caçula de uma família burguesa do Porto, mantendo tradições que já nos anos 60 cheiravam a mofo, fui “ensinado” a olhar para as mulheres como um objecto decorativo, instrumento de prazer, hábeis na gestão da vida familiar, prendadas para os bordados e criadas para casar com tipos ricos que perpetuassem a tradição familiar.
Aos 14 anos, olhava para as minhas primas como seres inferiores, cuja única função, terminada a fase dos baptizados das bonecas, seria a de parideiras, boas donas de casa e extremosas esposas e mães.
Se hoje sou solidário com as mulheres e as vejo como iguais, isso não se deve às leituras que fiz, ao facto de ter abandonado o Porto e o seio familiar aos 17 anos para me tornar independente, ao Maio de 68, ou a uma vivência em vários continentes, durante muitos anos. Quase diariamente, vejo na televisão pessoas com um percurso idêntico ao meu ( com alguns dos quais partilhei momentos da minha juventude) e nem preciso de falar com eles, para perceber que apesar das aparências exteriores, se mantêm iguais ao que eram na juventude.
O que me fez tornar solidário com as mulheres e passar a olhar para elas como companheiras e não meros complementos sexuais foi, confesso, um momento de pura canalhice juvenil.
Era Setembro e estava a passar o final das férias na quinta de uns amigos nos arredores de Ponte de Lima. A filha dos donos da casa (amigos dos meus pais) fez anos e deu uma festa. Em casa, como era habitual naquela época. Com dois amigos mais velhos e a cumplicidade da minha amiga Petra W decidimos introduzir um gravador no quarto onde as raparigas deixavam os seus casacos e se iam retocar. Queríamos apenas saber se nas conversas que travavam entre si, uma delas retribuiria os sentimentos que um de nós sentia por uma delas. Estávamos longe de imaginar o que iríamos ouvir...
Terminada a festa, reunimo-nos num quarto para ouvir a gravação. O resultado foi uma surpresa. Foi nesse dia que percebi que as raparigas da minha idade não se interessavam apenas por bordados, culinária e vestidos, pelo Johny Halliday ou pela leitura do “Salut Les Copains”. As raparigas da minha idade partilhavam das mesmas preocupações que os rapazes, tinham conversas sobre as mesmas questões dos rapazes e discutiam problemas sexuais como os rapazes ( com o à vontade possível na época, entenda-se...).
Quando do gravador saiu a voz de uma jovem lisboeta que passava parte das férias no norte, a dizer que um determinado fulano ( de que nenhum de nós gostava e muitos portugueses ainda hoje detestam) lhe fazia um “grande tesão” , caímos das nuvens. Como era possível que as mulheres tivessem uma coisa dessas? Andaríamos a ser enganados pelo professor de Ciências Naturais? Ou seria uma coisa só das raparigas de Lisboa? Estávamos incrédulos. Como era possível uma mulher ter “aquilo” e ainda por cima gabar-se diante das amigas?
A partir desse dia a minha forma de olhar para as mulheres mudou radicalmente. O meu percurso de vida fez o resto, mas aquela foi uma data marcante, porque me fez pensar sobre o que ouvira e chegar à conclusão que entre homens e mulheres havia mais semelhanças do que diferenças. As mulheres poderiam ser aquilo que elas quisessem, se lhes fossem dadas as mesmas oportunidades e se libertassem do casulo de uma educação castradora que as queria condenar a tornarem-se dóceis donas de casa, fiéis aos maridos e assistindo, resignadas, às traições dos seus consortes.
Percebi, nesse dia, que a orientação das leituras infantis (com colecções denominadas “ Biblioteca dos Rapazes” e “Biblioteca das Raparigas”), os brinquedos diferenciados “p´ró menino e p´rá menina”, as brincadeiras “próprias de raparigas”, ou o rosa interdito aos rapazes, eram códigos de mentiras que apenas pretendiam manter o domínio do homem sobre as mulheres.
Só por isso, acho que valeu a pena aquele momento de pura canalhice juvenil!
( Post publicado em 5 de Agosto de 2008 no CR, que republico na sequência do post de ontem)

11 comentários:

  1. Gostei muito do que li! Que canalhice! : ))))

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  2. Estamos em perfeita sintonia sobre a visão do passado e as conclusões ! :))
    ... para além disso, ainda, ... muito bem escrito !
    .

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  3. Há uma passagem n''O nome da Rosa' de Umberto Eco que refere que o acesso dos leigos ao conhecimento era uma ameaça ao poder da igreja. Não são as palavras exactas, mas a ideia é esta. Lembrei-me assim que li o seu último parágrado: a mulher, livre do estigma de 'dona de casa' obediente, está para o poder do homem como o povo esclarecido para o poder da Igreja. Aliás, basta olhar para o Islão para perceber como é que a coisa ainda funciona. Lamentavelmente.
    Dito isto, não sou feminista (credo, que horror!). Acredito no livre arbítrio e na capacidade do ser humano, homem ou mulher, escolher a melhor forma para viver a sua vida e o que mais lhe convém. O importante é poder exercer essa escolha. E isso é o que temos de agradecer às 'rebeldes' que ousaram contestar e que abriram caminho a todas nós, mulheres antes votadas a um 'segundo plano'. E eu estou grata, embora não vá por aí queimar sutiãs e fazer greve à depilação :) E não tenho nada contra as mulheres que escolhem ficar em casa a tomar conta da família. Às vezes até as invejo, que não me passam três horas e meia em transportes para aturar gente idiota.
    bjs e bom fim de semana

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  4. Lembro-me de ter lido este post, que fez bem em republicar.

    Quanto ao anterior, fiquei muito triste : pobres das bolas de Berlim, de que gosto tanto... não merecem ser comparadas ao estafermo que Merkel é, rrsss

    Esperemos que a sua amiga tenha razão e que a criatura perca as eleições e que, aqui, aconteça algo que nos livre da tragédia grega para onde os traidores POrtas e Passos nos estão empurrando, com a conivência de Cavaco, a múmia ambulante

    Um abraço, amigo Carlos

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  5. Eu não lhe chamaria canalhice, Carlos!
    Foi mais uma travessura própria da curiosidade juvenil masculina, da época.
    Mais, abençoada a ideia que tiveram de colocar o tal gravador, já que a descoberta que fizeste acerca dos desejos sexuais femininos, contribuiu para te transformar no homem liberal e mentalmente evoluído que és.
    Pois é! A diferença entre homens e mulheres deveria ser - e digo deveria, porque infelizmente ainda não é - apenas de género, e não comportamental, social e profissional.

    Na verdade: "Muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa" :-))
    Excelente crónica, Carlos! Fizeste bem em republicá-la!!

    Beijinhos e bom fim de semana.

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  6. Sou dessa geração e ainda hoje tenho bem presente a irritação e impotência que sentia aquando dos célebres chavões "parece mal", "o que é que os outros hão de pensar", "não são atitudes próprias de uma menina/senhora","aquela já teve uma série de namorados, não é boa companhia","aquela deixou o marido(agressor e infiel)e é uma desavergonhada", etc, etc. Mas o mais grave desta questão é,nos tempos que correm, ainda haver muitas alminhas que continuam a usar esta cartilha e não são seguidoras do Corão.....

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  7. Não lhe chamaria "canalhice" , mas curiosidade...até achei normal!

    Lendo a tua belíssima crónica ouvi o meu pai:

    Não é próprio para uma menina...não...não...não...nunca nada do que gostava era próprio.Até o curso...menina era sinónimo de professora!!!

    Mudaram os tempos, mas não a maioria das mentalidades masculinas!!!


    Hummmmmm...o mistério da mulher!!!

    Beijos.

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  8. Uma republicação muito bem vinda!

    Carlos muitas "canalhisses juvenis" se praticaram, era normal, ainda se praticam, no entanto a actual juventude nada se compara.

    sobre os preconceitos eu fui vitima de alguns, casei com 16 anitos, antes do 25 de Abril, fui sempre muito liberal e sofri com isso, em Paredes de Coura houve um concerto que fomos corridos pela policia, eu já casada e grávida, nesse dia pensei em fazer uma tatuagem e 5 furos nas orelhas, comecei a usar 5 brincos (que ainda hoje mantenho), eu tinha e tenho os cabelos compridos, que tinham que ser presos para trabalhar na fábrica onde trabalhava, mas nesse verão não o fiz, para não ser desafamada pelas(os) colegas de trabalho por causa dos brincos, mas quando os descobriram foi um falatório, como se fosse uma facada no matrimónio, a partir desse dia o meu falecido marido fazia questão de todo mundo ver as minhas orelhas com os 5 brincos.
    Mas ainda hoje as coisas não são assim tão fáceis para mulhers divorciadas e viúvas, recordo que após o falecimento do meu marido eu tinha muito a companhia do meu irmão mais novo, existia quem não o conhecesse como meu irmão, e fizeram chegar à minha cunhada que ele andava com uma tipa, ela pôs-se em campo seguindo o marido, até ao dia em que descobriu que ele ia tomar café e ver o mar com a irmã.

    Beijinho e uma flor

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  9. Apesar de ter iniciado com uma "canalhice", ainda bem pelo resultado final. Alguma coisa mudou nas mentalidades, mas ainda não tudo... Talvez nem todos(as) tenham tido um momento assim de canalhice...!
    Beijos e bom fim de semana

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  10. E pode, uma canalhice ter final feliz? Não da conversa que escutaram e não era para os vossos ouvidos, mas nas consequências que teve... :)

    Durante muitos anos a educação diferenciada, brinquedos e até leitura diferenciada serviam para isso mesmo: pôr a mulher consciente do seu papel subalterno e dar aos homens a ideia que são eles que querem podem e mandam! Benditas feministas, sufragistas e todas as outras que lutaram pelos direitos das mulheres: Bem-hajam, onde quer que estejam! Que isto de ser criada para ser um ser de 2ª não está com nada... :)

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  11. Pois é... ainda hoje há quem pense que as mulheres são só para parir e ter a casa organizada!
    Impera, ainda nos dias de hoje, um falso puritanismo e a forma de "olhar" a Mulher não é igual para toda a gente.
    Ainda bem que aquela conversa, mesmo ouvida clandestinamente lhe abriu os horizontes...

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