domingo, 28 de outubro de 2012

E tudo a vida levou!



Foto roubada ao Gabinete do Paulo

A minha mãe fez ontem 98 anos. Não deve ser fácil para ninguém atingir aquela idade mas, para a minha mãe, presumo que seja ainda mais difícil, porque persiste em não sair do Porto, preferindo permanecer na casa onde viveu os melhores momentos da sua vida, mas também os maiores dramas. Não é fácil ver dois filhos com futuro promissor desaparecerem na casa dos 30 anos e de forma absolutamente inesperada. Como não é fácil ver o único filho que ficou no Porto desaparecer pouco depois dos 40 e, tudo isto, em meia dúzia de anos. 
Depois da morte do meu pai- já lá vão 30 anos- pensei que ela se fosse definitivamente abaixo. Mas não. Reagiu como uma fortaleza. Apenas as noites de Natal eram momentos de profunda dor que, apesar de tudo, procurava esconder dos netos.
Quando fez 95 anos ainda foi rainha da festa, mas foi o último aniversário em que a vi rir. A morte da minha irmã, no ano seguinte, fez desabar a sua  última muralha defensiva.
Ontem, quando contemplava a minha mãe e lhe via aquele olhar distante, aparentemente indiferente à nossa presença, sem se alvoroçar com o sotaque brasileiro dos netos e bisnetos, dei por mim a imaginar os filmes que lhe passavam pela cabeça. Mas bastou um gesto para perceber tudo. Agarrou na minha mão e disse-me:
“ Não queiras ser velho, meu filho. Viver demais também é castigo!”
As taças de champagne tilintaram numa alegria fingida. Apagou as velas, esboçou um sorriso forçado, contou-nos histórias da II Guerra Mundial, para mostrar a todos que Portugal já viveu períodos mais difíceis do que o actual, contou uma anedota sobre PPC e Cavaco - que reproduzo no CR.  Riu-se e fez-nos rir mas  por fim, cansada de tanta teatralização, foi desabar na penumbra do escritório onde vai escrevendo o seu diário.
Respeitámos-lhe o gesto e a privacidade mas, ao fim de uma hora, fui ter com ela. Estava sentada na cadeira de baloiço, lágrimas silenciosas correndo-lhe pela face, agarrada à fotografia do marido e dos filhos. As únicas memórias que lhe restam.
Hoje, de regresso a Lisboa num Alfa vespertino, relembro as suas palavras. Não posso deixar de lhe dar razão. Quando se perde filhos e amigos, a pouca família que nos resta está distante, quando tudo o que nos é querido desaparece, viver também pode ser castigo!
( Desculpem o desabafo!)

17 comentários:

  1. Vieram-me as lágrimas aos olhos!

    "Viver também pode ser um castigo"...É verdade!

    Fiquei sem palavras.

    Um beijo e um abraço.


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  2. Não sei como hei-de dizer-te da emoção que este teu desbafo me causou, Carlos.
    Há sempre uma razão para viver, meu querido Amigo.
    A causa que te fez ausentar não poderia ser melhor, e eu já suspeitava que fosse essa.
    As lágrimas não me deixam escrever mais. Desculpa!

    Muitos beijinhos e um grande abraço.

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  3. Carlos
    Deixou-me com vontade de dizer uma porrada de coisas, mas que não saiem.
    Um grande abraço
    Rodrigo

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  4. O Carlos tem de escrever a história da sua família, uma família invulgar a começar pela sua mãe, que com 98 anos e continua a escrever o seu diário.

    Eu amo muitíssimo a vida, mas se perdesse um filho, viver seria para mim também um castigo.

    Carlos, esta crónica não é um desabafo, é sim, o princípio de um grandioso romance tipo "Buddenbrooks"!!!

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  5. Muito me emocionou este teu texto e mais ainda por na próxima semana a minha Mãe completar 90 anos.
    Mais que o marido, penso que a perda dos filhos deixa uma dor imensa numa Mãe,por não ser natural e quando essa morte acontece quando a Mãe já tem muita idade, é normal ela questionar-se porque razão a filha e não ela...
    Também a minha Mãe perdeu uma filha há poucos anos e foi muito doloroso. Daí que "viver também pode ser um castigo"...
    Mas o teu texto é maravilhoso de sentimentos e de uma análise correcta do que é a vida de uma pessoa com tantos anos

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  6. A sua mãe veio confirmar uma afirmação minha que digo desde muito jovem: a morte não é o pior de tudo, existem coisas bem piores!

    Paz de espírito, a possível, para a sua mãe.

    Um abraço de solidariedade para si, meu amigo.

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  7. Compreendo perfeitamente a sua mãe, mas a verdade é que ainda tem força para não tentar desiludir a família que lhe resta. Conheço outros que mais novos e com menos perdas estão vivos, mas já desistiram de viver. O que não deixa de ser muito difícil para os familiares mais próximos, que não sabem o que mais fazer...

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  8. Estes blogues, por vezes, são para isso mesmo: desabafos.
    O Carlos, com estas crónicas, fica mais, como direi... humanizado.
    Abraço

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  9. Carlos,
    Agora quem ficou emocionado fui eu.
    Faça-me um favor - dê um grande beijinho à sua mãe, diga-lhe que foi enviado desde Macau por quem admira a clarividência de quem chega a essa bonita idade e tem coragem para enfrentar as mais duras verdades.
    Um grande abraço para si!

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  10. Lindo texto! Maravilha, 98 anos! Mas não sei como conseguiu ter força para "ultrapassar" todos esses desgostos de ver os filhos partirem tão novos. Não deve haver dor maior.

    Parabéns para ela, uma verdadeira mulher do norte, carago!!! E, já agora, oxalá chegue aos cem.

    Beijinhos

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  11. É um desabafo muito comovente, Carlos, que me toca particularmente pela semelhança do percurso da minha própria mãe, que, embora vinte anos mais nova, também perdeu marido e filhos. Sei que não é fácil ver o sofrimento e a saudade em quem amamos tanto. Vou, por isso, devagarinho, deixando um respeitoso silêncio e um abraço solidário.
    Um beijinho

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  12. Muitos parabéns para a sua querida mãe que de certo modo é a culpada de eu seguir o Rochedo! Explico: foi uma historia que o Carlos contou sobre um almoço da sua mãe com varias amigas em que uma empregada foi indelicada...lembra-se da resposta???? Nunca me esqueço dessa história que acho deliciosa e foi assim que me tornei seguidora do seu sentido de humor!!!
    Desta vez, não estou a sorrir estou até entristecida realmente concordo que envelhecer não é fácil...
    xx

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    1. Também nunca esqueci essa história!!!

      Envelhecer não é para cobardes, mas a mãe do Carlos mostra ser uma mulher inteligente e com um grande sentido de humor.

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  13. Carlos, deixo aqui, comovida, meu abraço ao amigo e meu mais profundo respeito á sua mãe, porque sei o quanto é difícil esse caminhar tão longo. Vi-o em minha mãe, também com muitas perdas e tantas saudades...


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  14. Imagino como se sente.
    Minha mãe, aos 68 anos, não tem mais os avós, os pais, os tios e a irmã. Restaram os filhos, o neto e os sobrinhos. Ela costuma dizer que o mais difícil é não ter com quem relembrar o passado.Afinal, eu, a mais velha entre os da minha geração, só cheguei em 1967.Imagine só quanta água rolou antes disso...embora eu pense que não há dor maior que a perda de um filho.Acho que faz um rombo no peito cada vez que perdemos alguém que amamos e isto dói.Doces beijinhos para sua mãe :o)

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  15. Um texto que me "roubou" as palavras que sou pródiga em partilhar.
    Um abraço a ambos...

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