quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Histórias cá do meu bairro




Encontro-a todas as semanas na pequena mercearia onde nos abastecemos de queijos, enchidos e outras iguarias vindas directamente de  produtores nortenhos. É uma pessoa bem disposta, a quem a vida parece correr sempre bem, de quem nunca ouvi um queixume sobre a carestia dos produtos, os desaforos de governantes, ou a má sorte da vida. Todas as semanas entabulamos dois dedos de conversa enquanto esperamos pela nossa vez. Às vezes o marido vem ter com ela. Chega, beija-a na boca, manda uns palpites sobre os queijos e conta-me uma anedota. Apesar de a maioria delas já se ter transformado em relíquia, ele faz questão de frisar“ esta é fresquinha”.
Já não os via desde finais de Maio, antes de eu partir para sul. Na última quinta-feira ela lá estava. Fiz-lhe uma saudação efusiva, a que ela correspondeu com um sorriso carregado de amargura. Depois perguntou-me:
- Não estranhou a minha ausência?
Respondi que sim e até já perguntara ao sr. Alcides por ela, mas o proprietário da velha mercearia não me soubera dar resposta, estranho que também ele andava pelo desaparecimento da assídua freguesa.
- O mundo caiu sobre mim de um dia para o outro!
-Então que lhe aconteceu, D. Angélica? 
- O meu marido deixou-me!...
Já não me surpreende ouvir relatos de casais sexagenários que, depois de mais de 30 anos de vida em comum, decidem separar-se, mas aqueles dois sempre me pareceram tão enlevados, que por vezes me faziam lembrar os meus avós paternos. 
- Mas deixou-a porquê?- perguntei sem pensar a pergunta
Vi os olhos humedecerem-se-lhe.
- Olhe, foi em Julho, na véspera de fazer anos. Acabámos de jantar, ele como sempre foi para a sala ver as notícias da TVI 24 enquanto eu fazia o café. Quando cheguei à sala ele estava a dormir. Estranhei, porque não era costume ele adormecer antes de eu lhe levar o café  e disse “ acorda, dorminhoco, já te esqueceste que ainda não tomaste o café?”. Ele não respondeu. Abanei-o e nada…
Já não conseguiu conter as lágrimas e apenas balbuciou:
- Faz-me tanta falta! Tanta falta!

9 comentários:

  1. Terrível! Morro de medo desse abandono, definitivo e às vezes tão injusto!

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  2. Sei, sei por mim propria a dor extrema de uma partida assim.

    Mas continuo a desejar que eu própria assim vá.

    E continuo a considerar ser mais doloroso assistir, impotente, ao sofrimento de quem amamos do que sofrer o golpe de uma vez só Para quem fica e para quem vai.

    Saudações, Carlos

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  3. Situações terríveis essas, em que tardiamente sentimos que "metemos o pé na argola" e que nos faz imensa falta um buraco no soalho ! :((
    A vida prega-nos destas partidas !

    Abraço !
    .

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  4. O meu marido deixou-me!... é uma frase dita pelas mulheres de meia-idade, quando o marido as troca por uma mulher mais jovem.
    No caso da Dona Angélica, o abandono do marido foi muitíssimo mais trágico, terrível mesmo.

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  5. Fez-me lembrar uma grande amiga da minha mãe, que também viu o marido "partir" assim de repente... Muito triste, mesmo!

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  6. Separei-me ao fim de 41 anos...foi um virar de uma página.
    Nada acontece por acaso...tudo tem o seu tempo!

    Não foi...o meu marido deixou-me, mas uma decisão dos dois.

    Concordo com a São. Apesar de dolorosa, prefiro uma "partida" sem dor.

    Beijos.


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  7. Amigo Carlos
    Quem me dera que de mim dissessem, o meu marido deixou-me, da mesma forma que o da tua "estória" deixou a sua mulher!
    A velhice é uma chatice, mas é também uma fase da vida.
    Até que nos deixem ... vamos por aqui fazer alarde à dita!
    Grande abraço

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  8. Este abandono da D. Angélica a que o marido involuntariamente a votou, deve ser imensamente doloroso por ser definitivo e sobretudo inesperado. Mas existem mortes em vida, que também são igualmente angustiantes...até ao dia em que tudo nos é indiferente.

    Para a D. Angélica o marido mão morreu, abandonou-a! Isto, porque se tratava de um casal que ainda sentia uma imensa ternura um pelo outro.
    Estas são histórias que acontecem no teu bairro e em muitos outros, Carlos. São histórias de vida onde a separação pode acontecer a qualquer momento...

    Beijinhos, amigo.

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  9. Porra, Carlos!
    Agora fiquei com o coração apertado.
    E a lembrei-me da minha tia Belmira.
    - "Como é que estás Mira?"
    - "Olha João (é a única pessoa que me chama João) - tenho muitas saudades do santinho do teu padrinho. Mas não me deixam dizer isso e chorar....."
    Foram casados mais de 50 anos.

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