terça-feira, 2 de outubro de 2012

No Lar com os nossos Velhos


Ontem foi o "Dia do Idoso", mas como era também o dia da Brites, deixei este post para hoje.  Publiquei-o, originalmente, no CR em 2010, mas mantém-se de tal forma actual que não resisti a republicá-lo aqui, para os leitores que não o leram.

Andei pelo país a fazer um trabalho sobre os nossos velhos. Visitei dezenas de lares, falei com dezenas de velhos que vivem sozinhos, em lares ou em casa de familiares. Quase todos tinham em comum a tristeza de terem perdido a independência e viverem a cargo de filhos, familiares ou amigos.
Entre as muitas entrevistas que fiz, encontrei gente com passados desafogados, (“ vidas lindas” como me dizia uma mulher num lar próximo de Coimbra) que hoje vive com dificuldades financeiras. Algumas dessas mulheres nunca trabalharam. Ou melhor… nunca tiveram uma actividade profissional remunerada, porque trabalho ao longo da vida nunca lhes faltou. Tratar da lida da casa, cuidar e educar os filhos, ter “o comer” pronto sempre a horas, é trabalho e duro, principalmente para mulheres minhotas como a D. Henriqueta que, mesmo contando com a ajuda de duas “criadas”, teve de penar para educar seis filhos e "um marido leviano”, mas intolerante quando o almoço ou o jantar não estavam na mesa à hora certa.
“Era mais certinho que um relógio!” – diz-me enquanto puxa de um lenço para secar a água que lhe assoma teimosamente aos olhos. “São as cataratas...”- explica enquanto dobra o lenço na mão fechada.
O rosto de D. Henriqueta não denuncia os seus 83 anos. Pele cuidada- provavelmente sempre acariciada com os melhores cosméticos - exalando o odor de um perfume caro que a nora lhe ofereceu no aniversário. Vestuário cuidado, onde não se vislumbra um vinco de desmazelo, uma certa altivez no olhar. Diálogo fluido revelando interesses culturais.

“ Porque está num Lar?”
Junta o polegar ao indicador e, com gestos rápidos e ritmados, mas sem pronunciar uma palavra, faz-se entender: questões financeiras. A conversa desenvolve-se nesse sentido. O marido morreu em 1976. Deixou-lhe uma boa conta bancária e a bela mansão onde viviam. D. Henriqueta tinha uns baldios herdados do pai, mais três filhos ainda a estudar. Assegurar que os filhos mais novos teriam uma educação igual à dos outros, foi a sua prioridade. Como o marido nunca descontou para a segurança social, porque antes do 25 de Abril os descontos não eram obrigatórios,D. Henriqueta não tinha rendimentos e foi obrigada a ir vendendo as terras.
Saco de onde se tira e não se põe, depressa se lhe vê o fundo”- diz sem lamúrias. Foi isso que lhe aconteceu. Um dia, em 2009, viu-se sem dinheiro e disse ao único dos seis filhos (todos rapazes) que vive em Portugal: "estou falida!"
De um dia para o outro viu-se num lar. A casa onde viveu durante mais de 50 anos foi vendida para pagar as despesas, porque a pensão de sobrevivência não dá nem para os alfinetes.
D. Henriqueta está a ter um fim de vida igual ao que muitos portugueses idosos hoje vivem, porque antes do 25 de Abril o Estado também defendia que cada um devia assegurar a sua velhice.
Para bom entendedor...

3 comentários:

  1. Histórias de dificuldades e de solidão que mexem cada vez mais comigo...

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  2. Arrepia-me a situação do idoso cada vez com menos direitos e mais dificuldades.

    Beijos.

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  3. Crónica tão actual como se tivesse sido escrita hoje.
    Tema terrivelmente pungente, em que penso, e com o qual me preocupo, cada vez mais.
    Como poderemos ser nós a garantir a segurança da própria velhice com os parcos proventos de que dispomos?
    Se a ajuda do Estado falhar, voltaremos ao tempo em que os idosos, que não conseguiam ter amealhado um pé-de-meia, ficavam na total dependência dos filhos. A diferença está em que antigamente não existiam "creches" para velhos...
    Beijinhos.

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