quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Ardina




Ainda sou do tempo em que comprar um jornal era um hábito diário. Mesmo em Portugal, onde havia censura, as pessoas não dispensavam pelo menos um jornal diário e habituaram-se a ler nas entrelinhas, aquilo que a Censura cortava, mas o jornalista tinha arte para ludibriar.
No Porto e em Lisboa, compravam-se pelo menos dois, pois havia jornais vespertinos, que saíam à rua depois das cinco da tarde. O Diário do Norte era o vespertino do Porto e arredores, mas em Lisboa havia sempre três opções: Capital, Diário de Lisboa e Diário Popular.
Os jornais eram também entretenimento e, naquela época, funcionavam como uma espécie de rede social. Quantos namoros não começaram à custa das palavras cruzadas que se faziam em conjunto? Na Grãfina e na Suprema, em Lisboa, se começaram a desenhar alguns casamentos, enquanto ela perguntava " o que é suíno com duas letras" e o , enlevado, respondia " sou eu"
Muitas crianças ( entre as quais me incluo) aprenderam a ler nas páginas dos jornais. Nesse tempo, o ardina era a Internet a que tínhamos acesso. Pela manhã distribuía os jornais pelas casas dos fregueses. Bem cedinho, para que pudessem dar uma primeira leitura ao pequeno almoço, antes de irem trabalhar. Os ardinas eram verdadeiros artistas na arte do arremesso. Da rua, conseguiam fazer aterrar um jornal na varanda de um sétimo andar ( naquela época as marquises ainda não faziam parte da estética urbana) com uma precisão que me deixava fascinado.
Cumprida a tarefa da distribuição, vinham para a rua anunciar os jornais entoando pregões. Um deles ficou bem célebre. “ Lisboa, Capital, República, Popular” gritavam alguns ardinas pelas ruas de Lisboa, ao final da tarde, utilizando o nome dos três vespertinos e do jornal República (que, se a memória não me atraiçoa, saía ao final da manhã) num acinte divertido ao Estado Novo.
O ardina era uma figura indissociável dos jornais e o seu melhor promotor. Em cada dia, sabia destacar os melhores títulos para aguçar o apetite de quem passava. Principalmente ao final da tarde quando, de regresso a casa, muita gente era atraída pelos pregões apelativos.
Depois vieram os quiosques e os ardinas começaram a desaparecer das ruas das grandes cidades. Com eles se perdeu uma parte da história de Lisboa e Porto. Bem merecida a estátua  que  perpetua a sua  memória.
( Esta é a minha  homenagem ao ardina, mas também a "o Público" cuja morte foi ontem sentenciada. Bem, na verdade, os jornais começaram a morrer, quando os ardinas desapareceram das ruas das cidades)

7 comentários:

  1. Bonita homenagem, Carlos!
    Com o avanço das novas tecnologias muitas foram as profissões que se foram extinguindo.
    O pregão do ardina, tal como o das peixeiras, enchiam o ar das duas grandes cidades, de um fascínio bem português.
    Quanto ao Jornal Público, esperemos que o despedimento de 48 pessoas não seja o prenúncio da sua sentença de morte. É o jornal que ainda vou lendo...

    Beijinhos. Fica bem.

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  2. Também me lembro do ardina e do seu pregão a anunciar os vários jornais.
    Nessa altura os vespertinos tinham muita saída porque as pessoas ficavam com as novidades para ler ao serão!
    Espero que o Público se aguente!

    Abraço

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  3. Há outra estátua ao ardina, em São Pedro de Alcântara, Lisboa.

    Pois, também fiquei com a ideia que aqueles despedimentos (48 trabalhadores, salvo erro) vão originar o fim do jornal... :(

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  4. Também me lembro dos Ardinas nas ruas de Lisboa, mas nunca assisti e nem me lembrava que eles atiravam os Jornais para as varandas...
    Tinha a "missão" de comprar a Capital para o meu pai :)

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  5. Carlos,
    Desde garoto que os jornais são uma presença na minha vida.
    Aqui entre nós, gostava de ser jornalista.
    Ainda hoje, não dispenso a leitura diária de jornais.
    Papel a sujar-me as mãos e online.
    E mete-me muita impressão ouvir pessoas a dizer, com orgulho!!, eu não leio jornais!

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  6. Essa estátua da foto deve ter sido durante muito tempo a estátua mais fotografada da cidade ! eheheh
    Creio eu, que todo os jornais terão a longo prazo o futuro comprometido ! :((
    Palpita-me que entre 20 a 30 anos não haverá um só jornal em papel !
    O ambiente, (lixo, florestas), o fabrico do papel, os custos associados, a "reposição" das máquinas impressoras, tornarão os jornais extremamente caros, numa altura em que a acessibilidade às notícias será facilitadíssima, pelas leituras online.
    As tiragens e a facturações, estão a diminuir assustadoramente, o que implica reduções de pessoal e de outros custos.
    Já hoje se vai notando um esforço dos jornais na procura de clientes leitores online para a totalidade do jornal, para já, associados à oferta da sua leitura para as capas e principais títulos, gratuitamente !
    Isso já acontece com jornais de todo o mundo, cujas capas e principais notícias nos chegam diariamente ao computador !
    É fatal que tal aconteça !

    Abraço !
    .

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  7. Mesmo sem ardinas,gosto de ler o jornal em papel...sentir-lhe o toque e o cheiro.

    Dou sempre uma "volta" pela net...mas jornal é jornal!!!

    Junto-me à tua homenagem.
    O Público é o meu jornal preferido.

    Beijos.

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