sábado, 20 de outubro de 2012

Porque hoje é sábado




Manuel António Pina deixou-nos ontem. Na verdade, o prémio Camões 2011 já nos tinha deixado quando a doença  o impediu de escrever as suas crónicas, que eu não só lia, mas guardava. Era um dos melhores cronistas, um  grande jornalista e um dos nossos melhores poetas.
Muitos  na blogosfera recordarão os seus poemas, mas eu prefiro homenageá-lo com uma das suas crónicas no JN.


"À medida que vão surgindo na Imprensa notícias de relatórios, encontrados em poder do ex-espião Jorge Silva Carvalho, sobre a vida privada de jornalistas, sinto-me cada vez mais discriminado. Então e eu? Será a minha vida privada tão desinteressante que, jornalista há 40 anos, os espiões do SIED e do SIS não têm nada a relatar sobre, como os velhos informadores da PIDE, o meu "porte moral"?
É triste chegar quase aos 70 e ter a esquisita sensação de que a minha vida é, afinal, um livro tão aberto (ou tão fechado) que nenhuma "secreta" quer saber quem são os meus amigos e os meus inimigos; se tenho família, dívidas, pensamentos, conta bancária, colesterol; se continuo a receber pelo correio "folhas de jornais franceses" (arquivadas na Pasta 10/1); se alguma coisa "consta em meu desabono, moral e politicamente"; se serei "desafecto ao regime" ou, até, "adversário do regime", ou então se não se conhecem as minhas "verdadeiras tendências"; se minha mulher teve uma "rígida e exemplar educação" e que foi feito da tal "doença cancerosa" que, segundo o bem informado Relatório n.0º 202/72/SC da PIDE/DGS, lhe "teria surgido"; etc..
A minha esperança é que tudo isso seja Informação Estratégica de Defesa e que, quando a Ongoing desvincular Silva Carvalho do segredo de Estado, eu descubra que, como os outros, também tenho uma vida merecedora de relatório com 16 páginas."

9 comentários:

  1. Fez muito bem em lembrar uma das sua crónicas, que eu sempre li - quando me era possível.

    Segui-o sempre no período em que escreveu numa revista que sempre compro desde há muitos anos.

    Que esteja em paz!

    Para si, meu amigo, um bom fim de semana.

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  2. Lembro-me bem desta crónica!
    Também as lia com imenso prazer!

    Abraço

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  3. Não recordo os seus poemas, que nunca os li, mas as suas crónicas no JN.

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  4. Pois, como leio pouca poesia, também é pelas suas crónicas que o recordo mais! Sempre a acertar na mouche... :)

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  5. Carlos:
    Como jornalista e cronista que és,(desta vez evito adjectivos) homenageias, e muitíssimo bem, Manuel António Pina, lembrando uma das suas crónicas.
    Se me permites, e creio que não deixarei de contar com a tua benevolência, deixo aqui no On the rocks este seu poema.

    "A poesia vai acabar, os poetas
    vão ser colocados em lugares mais úteis.
    Por exemplo, observadores de pássaros
    (enquanto os pássaros não
    acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
    entrar numa repartição pública.
    Um senhor míope atendia devagar
    ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
    poeta por este senhor?» E a pergunta
    afligiu-me tanto por dentro e por
    fora da cabeça que tive que voltar a ler
    toda a poesia desde o princípio do mundo.
    Uma pergunta numa cabeça.
    — Como uma coroa de espinhos:
    Estão todos a ver onde o autor quer chegar? —"

    Hoje, todos sabemos que o autor chegou ao lugar que lhe pertence, por direito: Ao reino dos justos!

    Beijinhos Carlos e desculpa a ousadia.

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  6. A esperança de António Pina está realizada,pois que residem em nossas casas ou em nossas mentes,a melodia das suas crónicas e com esta certeza,ele que descanse em paz.

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  7. " A Poesia vai Acabar" foi um poema dele que me marcou imento, talvez pelo dia em que o li, não falo neste poema por a Janita o deixar aqui, foi o comentário que fiz hohe de manhã no FB ao Pedro Coimbra.

    Beijinho e uma flor

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  8. É pelas crónicas que o conheço...adorava-as! Cheguei as publicar algumas no blog.

    Mea culpa...pouco li da sua poesia.

    Parabéns pela tua homenagem!

    Beijos.

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