sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Cartas de Amor



Há dias, uma velha Amiga falava-me de alguém por quem tive uma paixoneta de “teenager”, não correspondida. O nome dizia-me qualquer coisa, mas não consegui recordar a imagem da miúda. Depois de algum esforço lembrei-me vagamente de uns olhos verdes e de uma canção do Donovan que me deixava em pranto amoroso, cada vez que a ouvia numa festa. 
Por razões que a própria razão desconhece, dei comigo a remexer uma volumosa caixa de cartão que a minha mãe, há meses, me obrigou a trazer para Lisboa, com depojos da minha juventude. Lá encontrei alguns escritos, cartas de amor e alguns poemas ( foleirotes, porque nunca tive jeito para poemar) vertidos em momentos de telúrico desespero amoroso e umas fotografias esquecidas. Entre elas, estava uma fotografia daquela miúda que tanto sofrimento me causou e levou a pensar que a recusa do seu amor significava o desboroar da minha vida. Lá estava aquele rosto alvar, de onde sobressaíam dois grandes olhos verdes, emoldurado nuns belos cabelos loiros. Sorria (não para mim, certamente)…
Retribuí-lhe o sorriso, pensando que naquele momento da madrugada, talvez um anjo lhe levasse em sonho a recordação de mim. Reli um poema que lhe escrevera e um bilhetinho que um dia me enviara, anulando um encontro no salão de chá da “Confiança” ( alguns leitores do Porto saberão, certamente, o significado de um lanche num sábado à tarde na Confiança”) a que se deveria seguir uma sessão de cinema no Cine Clube da Boavista, para vermos um filme de Jacques Tati.
Voltei a fechar a caixa e recordei-me das palavras da minha Amiga: “ Vi-a há dias. Está um caco!”.
Estranhamente, não senti nostalgia, nem saudade. Senti, apenas, uma profunda saudade da Amiga que me relembrou este episódio. Dos tempos em que a nossa cumplicidade era tão grande, que eu lhe contava os meus desgostos de amor.

8 comentários:

  1. Ah, que historinha deliciosa! Daquelas que acontecem com quase todos nós, que por vezes quase esquecemos quem a determinada altura parecia ser o centro do nosso mundo... :)

    E sim, do que resta saudade mesmo era da ingenuidade de outrora e daquela maneira de sentir tão radical, quando todas as esperanças ainda se alinhavam no horizonte... E dos amigos que fizeram esse percurso connosco! :)

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  2. Carlos, quem lê este seu texto acaba por se lembrar de outros sorrisos, parados no papel lustroso das fotografias e, inevitavelmente, guardados em caixas como se não fossem pedaços de nós ali depositados.

    Beijinho

    Laura

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  3. Somos um baú cheiiiinho de memórias...

    Gosto de recordar todas as "traquinices"feitas lá longe...em terras quentes.
    Recordo os bailes de garagem...os discos (italianos) oferecidos por um "miúdo"...a rosa vermelha que diariamente chegava e tinha que esconder da minha mãe...etc...etc...

    Ahhhhhhhh...os meus olhos também são verdes, mas não sou loura...

    O que me fizeste recordar!!!

    Beijos e bom fim de semana com friiiiiiiiiiiiiiiiio!!!

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  4. "Cartas de amor, quem as não tem?
    cartas de amor pedaços de dor
    sentidas de alguém.
    Cartas de amor, andorinhas
    que num vai-vem
    levam bem...saudades minhas
    cartas de amor, quem as não tem?"

    Lembras-te de quem cantava isto, Carlos? Eu era ainda uma criança, mas a minha irmã, mais velha seis anos, adorava o Francisco José, ou Xico Zé, como carinhosamente era tratado. Eu, por arrasto, ia ouvindo estas canções e sonhando. Mais tarde, também tive essas tais cartas de amor...

    O meu comentário ficaria por aqui, não fora o teu último parágrafo que me intrigou. Se essa tal Amiga te fez lembrar essa paixoneta de rapaz - não correspondida - e foi ela a pessoa de quem sentiste saudades, isso significa que as grandes amizades quando se distanciam, deixam marcas mais profundas do que as paixões que se diluem no tempo!
    Concordo inteiramente.

    Beijnhos e bom dim de semana, Carlos.

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  5. Carlos, voltei para te dizer que a "Confiança" da Rua de Santa Catarina fechou há imensos anos, como bem deves saber, e também me deixou saudades...

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  6. As mulheres são mesmo umas cabras umas para as outras...

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  7. Oh Carlos! Essas cartas são um mimo. Mesmo que provenham dum caco.
    Eu sou um sentimentalão do caraças e adoro rever esse tipo de recordações.
    Lá estarei no café de domingo.
    Grande abraço

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  8. Carlos
    Haveria tanto para dizer sobre as paixões da juventude! Deixam sempre uma nostalgia de uma tempo de pureza e emoções fortes. Às vezes, nunca passam completamente...

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